Machine'
14.2.16
30.12.14
Remember Me - Epílogo MARATONA 4/4

~
A primavera já chegara a Denver havia bastante tempo. O
inverno havia sido um verdadeiro teste para a resistência de Demetria. A semana
que Joseph passara no hospital entre a vida e a morte, depois o mês e meio de
recuperação, havia sido o mais longo período de sua vida. Apenas o fato de
estar carregando uma nova vida dentro de si a mantivera lúcida e determinada a
cuidar de si mesma, confiando nos cuidados que os médicos dedicavam ao seu
marido.
O Natal chegou e foi embora antes que Joseph tivesse alta do
hospital. O dia em que ele voltou para casa foi o dia em que ela conseguiu
forçar-se a voltar também. No entanto, as más lembranças pairavam no ar como
resquícios de um perfume doentiamente doce, e Joseph percebeu imediatamente o
quanto isso a afetava.
Os dias iam passando, porém o ânimo de Demi não melhorava.
Ela movimentava-se como um robô, saltando aos menores ruídos inesperados,e
acordava no meio da noite gritando o nome dele.
O marido a amava mais do que nunca e procurava
tranqüilizá-la o quanto podia. No entanto, permanecia o fato de que um homem
fora ferido no hall da casa deles, outro fora morto junto aos degraus do
pórtico e o sangue de Joseph ainda manchava o tapete.
Então, certa manhã, ele acordou com um plano. Felizmente o
enjôo matinal de Demi havia passado e ela estava na cozinha fazendo café quando
entrou.
— Bom dia, meu anjo.
Beijou a orelha da esposa, perto da tatuagem dourada. Ela
demorou um pouco para responder, por fim voltou-se.
— Bom dia — respondeu e beijou-o na boca.
Com um gemido misturado a um suspiro, Joseph distanciou-se
dela, rindo ao ver que Demi ficava vermelha.
— É melhor você tomar cuidado — avisou, tocando o ventre
ainda apenas intumescido. — Esse tipo de cumprimento pode metê-la em encrenca.
Ela apertou a mão dele contra o seu ventre.
— Já estou numa encrenca, se bem que ainda não se veja.
Ele riu.
— Mas logo todos irão ver.
Ela suspirou e prendeu o cabelo atrás das orelhas, depois
tocou distraidamente o local onde ele beijara.
— Isso o perturba?
Joseph estava se servindo de café. Voltou-se, com o bule
numa das mãos e a caneca na outra.
— Deveria me perturbar, Demi?
— A tatuagem.
Ele hesitou. Como podia ajudá-la a livrar-se das lembranças
ruins se ela lembrava-se constantemente daqueles tristes acontecimentos?
— Claro que não — respondeu. — Por que me perturbaria?
Ela deu de ombros e desviou o olhar.
— Não sei. Só pensei que talvez… Quero dizer, às vezes você
deve sentir…
— Quer saber de uma coisa, Demetria? Com o passar do tempo
passei a achar essa tatuagem sexy.
Era a última coisa que Demi esperava que ele dissesse.
— Mas…
— Nada de ¨mas ¨. Ouça-me. — Ele colocou o bule e a caneca
no balcão, em seguida ergueu os cabelos dela, descobrindo a pequena ankh. —
Aqui está
ela, escondida sob esses cabelos maravilhosos, quase atrás
dessa pequena e linda orelha, esperando que eu a toque. Às vezes, quando eu
estou trabalhando, penso nesta pequena tatuagem e sorrio, sabendo que ela marca
um lugar que eu adoro beijar.
— Oh, Joseph! — surpreendeu-se Demi, com um leve sorriso. —
Nunca pensei que você fosse poeta.
Ele fez uma cara triste, fingindo-se magoado.
— Demetria, meu amor, há muitas coisas a meus respeito que
você não sabe. Desconhece meus talentos ocultos.
Entrando na brincadeira ela fez força para não rir.
— Que talentos ocultos?
Com falsa fúria, ele sacudiu o indicador diante do nariz
dela.
— Vou ensiná-la a rir de mim! Apenas espere até esta noite,
minha linda esposa, que eu lhe mostrarei o que tenho escondido.
A assustadora apatia que dominava Demetria ultimamente
desapareceu, como Joseph esperava. E quando ele estava a caminho do trabalho,
pensou no que havia dito à esposa. Era verdade. Aquela pequena tatuagem deixara
de representar uma marca que outro homem pusera nela. Como o bebê que crescia
em seu ventre, era apenas mais uma coisa pertencente à mulher que amava. Mas
não o fora até que aqueles dois homens haviam sido detidos pela determinação
dela.
Chegou ao canteiro de obras e olhou para o relógio, calculando
quanto tempo levaria para pôr em pratica o plano que arquitetara. E, antes que
pudesse mudar de idéia, chamou o capataz, encarregou-o de cuidar de tudo e foi
para um lugar que conhecia, do outro lado da cidade.
Passava um pouco das seis da tarde quando ele estacionou o
carro na entrada da garagem. Havia um pequeno pacote no assento ao seu lado,
com um buquê de uma dúzia de rosas vermelhas e uma embalagem com seis latas de
refrigerantes. Desde que se havia sabido da gravidez dela, toda bebida alcoólica
fora abolida, mas precisavam de algo com que brindar essa noite.
Desceu da caminhonete, inclinou-se para pegar as flores, o
pacote e o refrigerante. Correu para a porta da frente sorrindo e o sorriso
aumentou quando Demi foi encontrá-lo no pórtico.
— Bem-vindo ao lar — disse ela. — Senti saudade.
Joseph entregou-lhe as rosas.
— Para mim? Por quê?
— Você verá — resmungou ele e inclinou a cabeça para receber
o beijo que ela oferecia.
— Hum… Este beijo tem gosto de quê?
— De mim — respondeu Demi.
Ele riu.
— Sim, de você e de algo com sabor de laranja. O que é?
Foi a vez de ela rir.
— Isso é para você descobrir. — Então, olhou para o pacote.
— O que é isso?
— É para você descobrir — devolveu ele.
Rindo, ela cheirou as rosas.
— Vou colocá-las num vaso com água. Quando cansar de brincar
com enigmas, venha jantar. Está pronto.
Ele entregou-lhe a embalagem com refrigerantes.
— Já, já! Dê-me apenas alguns minutos para eu tomar um banho
rápido e mudar de roupa.
Demetria estava teminando de servir o jantar quando ele
voltou, colocou o pacote em cima do prato dela, tirou-lhe a travessa das mãos e
a pôs na mesa.
— Posso ajudar? — perguntou.
— Claro, na hora de lavar a louça — provocou Demi.
Joseph fez uma cara de desconsolo, mas ajudava todas as
noites, depois que terminavam de jantar. Puxou a cadeira da mesa para ela e
esperou que se sentasse.
— Oh, como estamos formais esta noite!
Ela riu quando ele aproximou-se da mesa, com cadeira e tudo.
Indo para seu lugar em frente de Demi, Joseph ficou esperando pela reação ao
pacote que colocara no prato.
— Tenho que abri-lo antes de jantarmos? — perguntou ela.
E começou a apalpar o embrulho antes de ele responder. Com a
respiração contida, Caly ficou vendo a expressão dela mudar de curiosa para
perplexa e, em seguida, para reconhecimento. Quando o fitou, seus olhos
brilhavam traiçoeiramente.
— Oh, Joseph! Isto é o que estou pensando que é?
— É um catálogo. Olhe na página 154. É a minha preferida, se
bem que haja algumas outras interessantes. Claro, a decisão final é sua, uma
vez que depois de construída, minha intenção é morarmos nessa casa pelo resto
das nossas vidas.
Ela deixou o catalogo de fotos e plantas de casas sobre a
mesa, ergueu-se e foi aninhar-se no colo do marido.
— Não vai olhar? — perguntou ele. — Qualquer uma dessas
plantas pode ser modificada, se você quiser.
— Mais tarde nós a olharemos juntos — murmurou Demi, com os
dedos deslizando no pescoço dele. — Agora, eu tenho que fazer isto…
Aproximou o rosto do dele e capturou seu sorriso com a boca,
num beijo que era pura delicia e o fez gemer.
— Você é o melhor marido que uma mulher pode ter — murmurou
ao ouvido dele.
Joseph segurou-lhe o rosto com as duas mãos e traçou o
desenho dos lábios dela com os polegares.
— E você, Demetria, é um sonho de esposa. Você não apenas
salvou nossas vidas, como também a do nosso filho. Está na hora de começarmos
tudo de novo e quero que isso aconteça em outro lugar. Haja o que houver,
estaremos mudando para nossa nova casa no começo do verão. Uma casa nova para
um bebê novo e uma nova vida. O que você acha?
— Que amo você.
Ele abraçou-a, escondendo o rosto na curva de seu pescoço e
sentindo com alegria a pulsação acelerada do coração dela.
— É… Está ótimo para começar.
Demetria achava-se na cama, lendo as últimas páginas de um
livro, quando ouviu Joseph fechar a torneira do chuveiro. Asniosa por terminar
antes que ele viesse e apagassem a luz para dormir, voltou a ler depressa,
querendo conhecer a revelação do mistério que estava prestes a ser feita.
Justamente quando ela chegou à última folha, Joseph saiu nu
do banheiro. Dizer que a atenção dela dispersou-se do livro não seria mentir.
Porém, continuou a ler bravamente e virou a página, lendo linha após linha, à
medida que os últimos nós da trama iam de se desfazendo.
Joseph pegou as roupas que ia usar no dia seguinte e
colocou-as sobre uma cadeira, depois tornou a ir para o banheiro, passando
diante dela.
De repente, Demi perdeu a respiração.
Desta vez era impossível concentrar-se no livro. Na metade
da última página, jogou-o de lado e saltou da cama.
— Joseph Jonas! O que você fez?
Ele recuou até a porta do banheiro, olhando-a por cima do
ombro e gostando do espanto no rosto dela.
— Não sei do que está falando, querida — respondeu, com a
maior inocência.
Ela aproximou-se e levou-o para dentro do banheiro, onde a
luz era mais intensa.
— Pois sim, que não sabe! — zangou-se ela e virou-o de
costas para a luz.
Na nádega direita dele havia uma ankh dourada tatuada,
idêntica a que Demi tinha atrás da orelha.
— O que você fez?
Ao perguntar, tocou a tatuagem com as pontas dos dedos.
— Aí, cuidado! — Joseph estremeceu. — Essa maldita coisa
ainda dói.
Fez um movimento. Voltando-se de costas para o espelho de
corpo inteiro, atrás da porta do banheiro, e ajeitou-se para ver melhor o
próprio traseiro.
Demetria sentou-se na beira da banheira e ficou olhando para
ele, sem acreditar.
— Por quê?
Joseph passou uma toalha pela cintura e sentou-se num
banquinho, de modo a ficar bem em frente dela.
— Porque toda vez que eu ia tocar sua tatuagem, percebia dor
e tristeza em seu rosto. Então… achei que oferecer-lhe uma outra conexão com
essa maldita coisa seria uma boa idéia. Agora, toda vez que você olhar ou tocar
sua tatuagem vai pensar em mim… apenas em mim.
Terminando de falar ele ergueu-se, virou-se de costas para
ela e tirou a toalha, para que tivesse uma perfeita visão de sua nádega
decorada.
— Então, o que acha?
Por um instante Demi não soube o que dizer. Afinal, ergueu
os olhos, e a ansiedade no rosto do marido quase lhe partiu o coração. Sacudiu
a cabeça.
— Acho que você é louco — murmurou.
— Você já sabia disso quando se casou comigo — disse Joseph,
sorrindo. — Eu quero saber é o que acha da minha tatuagem.
Ele contraiu e descontraiu os músculos da nádega, fazendo a
tatuagem se mexer.
As sobrancelhas dela arquearam-se.
— Você se acha irresistível, não?
O sorriso de Joseph transformou-se em risada e ele desfilou
de um lado para o outro do banheiro, exibindo-se.
— Diga você…
Ainda nem terminara de falar, parou e ergueu-a nos braços.
— Vou dizer só amanhã de manhã — determinou ela, enquanto
ele a deitava na cama.
No ardor da paixão que os unia, o livro de Demetria caiu no
chão. Levaria mais um dia para ela saber como ele terminava, porém não tinha
que esperar para saber como acabava a história deles dois.
Com Joseph, seria feliz até o fim.
~
E acabou! Gostaram da história? E a tatuagem? *risos* Eu consertei a adaptação dos capítulos 12,13 e 14 pois substituiu algumas palavras erradas, se quiserem reler, fiquem a vontade! Ainda n sei qual será a proxima história, portanto, peço paciência! Comentem, ok? Beijos, amo vcs ♥
Remember Me - Capítulo 17 (Último) MARATONA 3/4

~
Joseph abriu os olhos e viu-se fitando diretamente o céu.
Havia um ardor em suas costas que o frio da neve não suavizava. Esforçou-se por
lembrar-se por que estava ferido.
A lembrança veio, com o impacto de um soco no plexo solar.
Não tinha como saber por quanto tempo permanecera ali caído e a última coisa
que se lembrava era de ter visto o rosto de Pharaoh Carn e gritado por Demetria.
Será que ela ouvira? Será que tinha conseguido fugir? Ou, santo Deus, será que
ele a pegara? Será que a tinha levado embora outra vez?
Um gemido de dor passou por entre seus lábios apertados
quando virou de lado e colocou-se de quatro, sobre os joelhos e as mãos. Foi só
então que olhou para o lugar onde ficara estendido e viu todo aquele sangue.
Foi quando compreendeu que havia levado um tiro. O
pensamento de Demetria e o filho deles nas mãos de um homem como Pharaoh Carn
foi o bastante para provocar uma violenta náusea que lhe apertou a garganta.
Deus… me ajude! Cerrando os dentes, apoiou-se no poste da
cerca e ergueu-se.
Demi deslizou silenciosamente pelo hall, encostada à parede.
Suas mãos estavam firmes, e a visão clara. Todas as horas que passara treinando
tiro-ao-alvo agora lhe serviam muito. Respire fundo. Expire. Não entre em
pânico. Não aperte o gatilho.
Nem por um momento pensou que não seria capaz de atirar.
Sentira o soco da arma vezes demais para hesitar. Jamais hesitaria com Joseph
caído na neve, a poucos metros daquelas paredes.
O som abafado e urgente das vozes dos homens vinha de algum
lugar à esquerda dela. Estavam na lavanderia. Era evidente que tinham também
ouvido a máquina de lavar roupa começar a funcionar e haviam deduzido que ela
estava lá.
Parou, com o coração disparado. De súbito, sentiu um gosto
metálico na boca. Medo.
Sua decisão fortaleceu-se mais. Não iria deixar-se apanhar
de novo, de jeito nenhum. O menino que um dia fora seu amigo se havia
transformado num demônio.
Então, ouviu uma suave risada e seu coração encolheu-se.
Aquele som trouxe uma onde de lembranças da infância misturadas com as de dois
anos de inferno.
Lembrança de uns olhos negros e um rosto sorridente.
De mãos gentis trançando seus cabelos.
Das mesmas mãos amarrando os cordãos dos seus sapatos e
erguendo-a no alto, muito alto, no pátio do orfanato.
De abraços, brinquedos e pedaços extras de chocolate que as
outras crianças não ganhavam.
De portas trancadas e janelas com grades.
De luxo e indiferença.
De saber que não teria escapatória de um homem com tal
poder.
E, depois, de correr sem olhar para trás.
— Demetria… sei que você está aqui.
Estremeceu e as imagens desapareceram. A porta da frente
estava muito longe. Tudo que podia fazer era rezar para que a atendente do 911
mandasse ajuda antes que fosse tarde demais. Reunindo toda a sua coragem,
apontou o revólver para a porta da cozinha.
Avery Dawson achava-se diante de um sinal fechado quando seu
telefone celular tocou. Atendeu e foi com surpresa que ouviu a voz da atendente
da Delegacia Central.
— Investigador Dawson, temos uma mensagem para o senhor que
preferimos não passar pelo rádio. Uma mulher ligou para o 911 há poucos minutos
e identificou-se como Demetria Jonas. Pediu que lhe dissesse que o marido dela
levou um tiro e que ¨eles¨ estão dentro da casa, que foram buscá-la.
Oh, droga!, praguejou o policial em pensamento. Só então
falou:
— Já enviou viaturas e uma ambulância para atender essa
ocorrência?
— Já, há uns dois minutos.
— Comunique-se com eles e diga que estou a caminho.
Desligou e pôs o celular no consolo.
— Demetria Jonas acaba de ligar para o 911 — disse ao parceiro..
— Joseph foi ferido com um tiro e no momento da chamada, de acordo com a
atendente, havia intrusos na casa deles.
Ramsey retirou a luz do porta-luvas e afixou-a na capota do
carro, ao mesmo tempo que Dawson ligava a sirene.
O carro descreveu um U no meio da rua e saiu a toda
velocidade.
Depois de tudo que a promotoria de Denver fez com Joseph Jonas,
ele não pode estar morto, foi a espécie de prece do investigador.
No momento em que viraram a esquina, o carro derrapou, e
Ramsey, que empunhava seu revólver e verificava se estava carregado, pediu:
— Vá com calma, parceiro. Há laminas de gelo nas ruas e elas
estão muito escorregadias.
Mas Dawson continuou a dirigir na mesma velocidade. O gelo
que se danasse. O sistema havia deixado aquele casal no desamparo uma vez e
isso não iria acontecer mais.
A silhueta de dois homens recortaram-se no umbral da porta
da cozinha da casa de Demi. Ela deslizou alguns centímetros para a direita,
tomando o cuidado de se colocar entre eles e a porta de saída. Respirou fundo,
mirando primeiro o homem que estava armado com uma pistola. Ele era-lhe
vagamente familiar, com os imensos ombros quadrados e o rabo-de-cavalo de
cabelos grisalhos descendo pelas costas.
Duke Needham, o braço direito de Pharaoh, o segundo homem no
comando depois dele.
Hesitou por um instante, depois manteve o revólver apontado
para ele.
Quando Pharaoh a viu, ficou perturbado. Como era linda! Mas,
então, o olhar dele deslizou do rosto dela para o revólver que empunhava. franziu
a testa. Ali estava uma coisa que não esperava. Deu um passo à frente e no
mesmo momento Demi mkveu-se, passando a mirá-lo. Ele parou, chocado. O olhar
dela parecia tão…
Ele sentiu o peito apertar. Por falta de palavra melhor,
tudo que pode pensar era que a expressão de Demetria era a de uma morta. Tentou
sorrir e falou com suavidade, como um pai falando com a filha.
— Demetria… o que está fazendo? Largue esse revólver.
Um brilho passou pelos olhos dela, que não se mexeu. No
entanto uma reação nervosa interrompera por um segundo a sua concentração.
— Vamos, Demetria. Você não pode atirar em mim. Lembra-se de
quem sou? Sou o mesmo que a consolava quando você chorava. Eu lhe ensinei a
amarrar os cordãos dos sapatos. Trancei seus cabelos e li histórias para você
quando estava doente. Eu a amo, Demetria. Você me pertence.
Lágrimas brilharam nos olhos de Demi.
— Eu confiei em você… antes. Mas olhe o que fez. Levou-me
embora da minha casa… separou-me do meu marido. Roubou dois anos da minha vida
e da minha inocência. Isso não é amor, é obsessão.
Ela respirou ofegante quando Duke distanciou-se um pouco de
Pharaoh.
— Não se mexa! — gritou e apontou para a cabeça de Duke de
novo.
Needham ficou tenso. Com menos de três metros entre eles, se
ela atirasse bem dificilmente erraria.
Pharaoh respirou fundo. A coisa estava mais complicada do
que esperava. Ergueu a mão e deu um passo à frente. Àquele movimento, Demi
voltou a apontar o revólver para ele, e nesse momento Duke avançou sobre ela.
Antes que Pharaoh pudesse piscar, Demi disparou dois tiros
em rápida sucessão. As pernas de Duke dobraram, primeiro a direita e em seguida
a esquerda, no momento em que as balas entraram nos joelhos e saíram por trás,
estraçalhando ossos e músculos. A pistola que ele segurava caiu e deslizou pelo
chão. Demi chutou-a para longe dele, voltando ao mesmo tempo a mirar Pharaoh.
Os gritos agoniados de Duke de repente encheram o hall,
tornando impossível qualquer conversa coerente. Aturdido, Pharaoh só conseguia
sentir descrença do que Demetria fizera com seu assecla. Não havia medo no
rosto dela, apenas fúria. Ele pensou em Joseph Jonas, caído na neve, e só então
ocorreu-lhe que sua vida estava sendo ameaçada.
— Demetria, não faça isso… — pediu, abriu os braços para
demonstrar que estava desarmado. — Não quero machucar você.
Os gritos de Duke foram baixando até se transformarem em
gemidos.
Demit eve a impressão de ouvir sirenes à distância, mas não
podia ter certeza.
O sangue… Havia sangue por todo lado.
Ninguém a avisara sobre o sangue quando comprara aquele
maldito revólver e quando treinara.
— Escute, Demetria…
Pharaoh deu mais um passo na direção dela, que segurou o
revólver com mais firmeza e aproximou-se um pouco mais da porta.
— Você me estuprou, seu maldito!
Ele ficou paralisado diante daquelas palavras.
— Nunca!
— Estuprou, sim! Estuprou! Lembro-me do peso do seu corpo em
cima do meu. Vi a expressão dos seus olhos. Eu sei, Pharaoh, eu sei!
As palavras dela soaram como gemidos.
— Não Demetria. Não. Eu nunca a toquei desse modo. A única
vez que o fiz você gritou… — A voz dele tremia. — Parei quando você gritou.
— Não acredito em você — murmutou ela, percebendo que sua
determinação diminuia. — Manteve-me presa por dois anos naquele quarto.
— Eu lhe dei tudo — argumentou ele. — As melhores roupas, as
melhores comidas, tudo que há de melhor!
— Sem a liberdade, tudo é nada, Pharaoh.
O rosto dele deu a impressão de desfazer-se. Também ouvira
as sirenes que se aproximavam. Ficou dividido entre realizar seu plano e fugir
enquanto havia tempo.
Algumas cenas de sua vida sucederam-se, rápidas, em sua
mente. Quando criança, ele permanecera isolado, como se não fizesse parte das
brincadeiras, como se não fizesse parte da vida. Era sempre a mesma coisa. Não
sabia o que era ser amado, tinha que lutar para se manter vivo.
Então, surgira Demetria.
Estremeceu, amaldiçoando-se pela fraqueza que aquele amor
trazia. Pensou em Alejandro e na Colômbia, na riqueza e no poder que o
esperavam lá. Com um suspiro que vinha do coração, tirou um revólver do bolso e
mirou o peito de Demi.
Ela arquejou e deu um rápido passo para trás, porém o cano
se sua arma manteve-se na mira.
— Você pode atirar — disse — mas eu também posso. No pior
dos casos nós dois poderemos morrer, no melhor, ficaremos apenas feridos. De
qualquer maneira, você não pode escapar. Foi apanhado, Pharaoh. Acabou-se. Pare
com isso… deixe-me sair daqui.
Ele balançou a cabeça, como um animal ferido procurando uma
saída.
— Mas você não entende! — Você é meu amor… a minha sorte.
Sem você tudo estará acabado, de qualquer jeito.
— Então, que seja — sussurrou Demi e firmou a mira.
Nesse momento a porta da frente foi escancarada a ponto de
bater contra a parede. A voz de Joseph soou enfraquecida quando ele se colocou
entre a esposa e a arma de Pharaoh.
— Não atire! — implorou. — Pelo amor de Deus, não mate Demetria.
Ela está esperando um filho.
O revólver tremeu na mão de Pharaoh.
— Um filho?
Joseph caiu de joelhos, depois seu corpo desabou no chão.
— Por favor — voltou a implorar. — Não a machuque.
Demi largou a arma e ajoelhou-se ao lado dele. Suas mãos
envolveram-lhe o rosto, em seguida seguraram-lhe as costas, tentando deter a
hemorragia, depois o rosto de novo.
— Não morra, Joseph Jonas! Pelo amor de Deus, não morra!
Ele gemeu ao virar-se de lado. Então, pôde ver o choque
estampado no rosto de Pharaoh Carn. Ela ergueu-se de um salto e correu para ir
buscar algo que servisse de tampão para o ferimento de Joseph.
— Pare! — gritou Carn.
Instintivamente, acompanhou-a com o revólver. Ela obedeceu,
porém havia fria determinação em seus olhos.
— Vamos, Pharaoh, atire em mim e desapareça da minha vida! —
Apontou Joseph. — É esse o homem que amo. Perdi a memória, porém não me esqueci
dele. Esqueci de você.
As sirenes soavam mais próximas e Pharaoh compreendeu que se
tratava de momentos, agora. Seu dedo tremeu no gatilho. Conseguira tudo que
queria na vida.
Poder.
Dinheiro.
Respeito.
Seu peito apertou-se.
Tudo, menos ela.
Olhou para o ventre de Demetria. Dali alguns meses estaria
crescido por causa do bebê. O filho de outro homem. Tentou sentir ódio, mas não
conseguiu.
Sua voz soou áspera, com amarga recriminação.
— Você vai dar um filho a ele.
Foi nesse instante que Demi compreendeu o significado
daquela situação. A indignação de Pharaoh era real. Se ele estava se sentindo
frustrado, queria dizer que a criança que trazia em si não era dele. Ele
dissera a verdade. Não a estuprara. Um profundo alivio a envolveu.
— Eu queria ter continuado sua amiga para sempre — murmurou.
Ele abriu os braços, num gesto de desespero.
— Quer dizer… se eu…
— Lembra-se daquele dia, há dois anos, quando você entrou
aqui na minha casa, Pharaoh?
Aturdido, ele não respondeu, apenas piscou.
— Tudo que você precisava era ter dito ¨olᨅ — acrescentou
ela.
Ele emitiu um gemido abafado. Que se lembrasse, aquela era a
primeira vez que tinha vontade de chorar. Falou com voz embargada.
— Eu não estuprei você…
Nesse instante, foi como se o coração de Demi se partisse
pelo menino que ele havia sido e pelo homem que se tornara, pela amizade que
perdera e pelo horror que passara nas mãos dele.
Olhou para Joseph, estendido no chão, e de novo para
Pharaoh. Lágrimas desceram dos seus olhos quando implorou pela vida dele.
— Por favor… deixe-me ajudar o meu marido. Não poderei viver
sem ele.
Um sorriso amargo ergueu os cantos da boca de Pharaoh.
— Sim… — murmurou num tom cansado — eu sei o que você quer
dizer…
Avery Dawson conhecia um caminho mais curto. Estava a meio quarteirão
da casa dos Jonas quando uma ambulância parou diante dela. Um carro
desconhecido, cinzento, ainda estava parado na lateral da
casa que dava para a garagem. Ele empunhou o revólver ao descer.
— Vá pelos fundos — disse a Ramsey. — Eu vou pela frente.
— Não é melhor esperarmos aqui?
— Droga, não! Poderá ser tarde demais.
Correu por um lado da entrada da casa, abrigando-se atrás de
um arbusto, depois de uma árvore e, assim, foi se aproximando cada vez mais da
porta que estava escancarada e com marcas de sangue. Sentia-se aflito, ansioso,
mesmo, e em sua mente desfilavam cenas que não queria aceitar.
Meu Deus, não permita que eles estejam mortos! Era tudo que
conseguia pensar.
Deslocando-se agachado, deixou o abrigo de outra árvore no
momento em que um homem saiu da casa pela porta da frente. Viu o rosto dele, a
arma em sua mão, mirou-o e gritou:
— Polícia! Largue sua arma. Você está cercado!
Pharaoh Carn girou sobre os calcanhares. Antes de apertar o
gatilho soube que era tarde demais. A primeira bala acertou-o no alto do ombro.
Seu tiro perdeu-se no ar e ele ficou atordoado pela dor. O revólver que
segurava caiu de sua mão e desapareceu na neve. Ele olhou para o chão, desesperançado.
Sem perceber no que aquele gesto poderia implicar, ele enfiou a mão por dentro
do capote para apalpar o ferimento.
Dawson imaginou que fosse pegar outra arma e agiu de acordo.
A segunda bala atingiu um ponto vital, dando-lhe apenas
alguns segundos para pensar. Atrás de si ele ouviu o grito horrorizado de Demetria.
Voltou-se, a mão estendida na direção da voz dela. Então, tudo passou-se como
em câmera lenta.
O policial vinha na direção dele gritando alguma coisa que
não conseguia ouvir.
A luz do sol começou a desaparecer.
As batidas do seu coração passaram a ecoar nos ouvidos e ele
viu que o chão se aproximava de seu rosto.
Sentiu-se caindo… caindo.
E passou a ouvir seu coração bater cada vez mais fraco e
devagar.
Imagens explodiram em sua mente.
Demetria com quatro anos, segurando o cobertorzinho e
chupando o polegar.
Demetria aos oito anos, rindo quando ele a fazia subir bem
alto na gangorra.
Demetria aos dez, dando-lhe a fita para amarrar-lhe a
trança.
Demetria…
Demetria.
A neve envolveu-o como uma coberta enquanto os braços frios
da morte amorteciam sua queda.
Quando os tiros soaram, Demi gritara e aninhara-se junto ao
corpo inerte de Joseph. Em seguida, o silêncio foi pior do que os disparos. O
som de passos correndo em direção do pórtico a fizeram sobressaltar-se e quase
entrar em pânico. Pegou o revólver que soltara no chão e apontou-o,
colocando-se entre Joseph inconsciente e o barulho.
E foi assim que Dawson e Ramsey a encontraram , suja de
sangue e tensa, com a arma junto da cintura mirando a primeira pessoa que
aparecesse.
— Polícia! Polícia! — gritaram os dois ao mesmo tempo.
Avery correu para ela e, com a arma em posição de tiro
Ramsey gritou:
— Demetria, há mais alguém na casa?
Ela apontou para Duke Needham, sem sentidos quase junto à
parede oposta.
— Só ele…
Então, começou a tremer.
Ramsey aproximou-se com cuidado, deu uma espiada nos
ferimentos de Needham e passou a olhar para Demetria com novo respeito.
— Puxa! A senhora o fez parar mesmo, não?
Ela colocou o revólver de lado e apoiou a cabeça de Joseph
no colo. Suas mãos e roupas estavam manchadas com o sangue dele.
— Ajude-o. Ele foi baleado.
Dawson fez um sinal para o parceiro.
— Avise o pessoal da ambulância que podem entrar, que o
local está seguro. Comunique à Central que o problema aqui já está resolvido e
que mandem outra ambulância, além do legista e do pessoal da técnica.
Ramsey ainda não chegara à porta e Dawson já verificava a
pulsação no pescoço de Joseph.
— Ele ainda está conosco… — disse, dando um leve aperto no
braço de Demi. — Foi um grande susto, mas ainda vamos tê-lo por aqui durante
muitos e muitos anos. Sabe? Com uma mulher como a senhora, qualquer um pode
apostar até seu último dólar que este homem vai viver.
O policial ergueu-se e aproximou-se de Duke Needham,
verificando suas condições e pegando a arma que ele soltara ao cair.
Segundos depois, paramédicos entraram e Demetria foi
afastada de Joseph. Dawson amparou-a pelo cotovelo e levou-a até a cadeira mais
próxima.
— Há alguém que devemos avisar? — perguntou.
Os dentes dela batiam tanto que mal conseguiu responder.
— Os pais de Joseph. Eles precisam saber. — De repente as
forças dela desabaram e Demi cobriu o rosto com as mãos. — Oh, meu Deus! Se
alguma coisa acontecer com Joseph por minha causa…
Dawson a fez encará-lo.
— Qualquer coisa que aconteça com seu marido será por culpa
de Pharaoh Carn e não sua. Não somos responsáveis pelas ações dos outros,
apenas pelas nossas.
Ela estremeceu, em seguida dominou-se e foi até o telefone. Franziu
as sobrancelhas quando ouviu sinal de ocupado. Estranhou, até que lembrou-se.
— Deixei o telefone fora do gancho, no meu quarto.
— Sente-se… — ordenou ele. — Vou lá desligar.
Antes que o policial voltasse ajeitaram Joseph numa maca e
aprontaram-no para o transporte até o hospital. Demi ergueu-se e foi para junto
do marido. Tocou-lhe a face, depois o cabelo.
— Não morra, Joseph Jonas. Levei dois anos para voltar à
nossa casa, portanto não se atreva a morrer!
Dawson, que voltara, afastou-a com delicadeza e os
paramédicos levaram Joseph.
— Seu telefone já está funcionando — disse ele. — Por que
não liga para os pais do sr. Jonas? Depois, quem sabe a senhora quer se limpar
um pouco, antes que eu a leve ao hospital?
Demetria olhou para as próprias roupas e as mãos sujas de
sangue. Desanimada, voltou-se e olhou-o fixamente.
— Acabou, não é, Dawson?
Ele fazia que sim quando o levou a abraçá-la. Assim que o
fez, Demi começou a deslizar para o chão, completamente sem forças. Se o
policial não a estivesse abraçando, ela cairia. Apoiou o rosto na lã macia do
capote dele.
— Ajude-me…
O coração calejado do investigador de policia confrangeu-se.
— Não vou deixá-la sozinha, eu prometo. Não vou deixá-la sozinha…
Ramsey começou a levá-la na direção do quarto.
— A outra ambulância já deve estar chegando. — Ele ergueu a
cabeça e cheirou o ar. — Está sentindo o cheiro de algo queimando?
Demi soltou-se das mãos dele.
— A sopa! Acho que deixei queimar nosso jantar…
Remember Me - Capítulo 16 MARATONA 2/4

~
O dia amanheceu frio e cinzento. O vento da noite
movimentara a neve, cobrindo a maior parte das pegadas. Contudo, Joseph não
precisava vê-las para saber que o perigo continuava ameaçando Demetria.
A cada dia que passava, percebia que o medo dela crescia.
Demi estava acordada mas, por sugestão de sua mãe, comia
algumas bolachas de água e sal antes de levantar. Ele podia ouvir os leves
estalidos das pequenas mordidas. Escondendo a ansiedade, forçou um sorriso ao
voltar do banheiro.
— Tenho a impressão de que existe um camundongo na minha
casa.
— E me sinto, mesmo, como um camundongo — disse Demi,
procurando segurar as migalhas. — A cama vai ficar cheia de bolacha!
— Há coisas piores — brincou Joseph.
Ela fechou os olhos, lembrando-se da terrível náusea que
sofrera na manhã anterior.
Joseph riu.
— Está pronta para tomar um chá?
Depois de pensar por alguns momentos e ter certeza que o
estômago não a ameaçava, ela fez que sim.
— Ótimo! Então, vou lhe trazer uma xícara.
Demi começou a levantar-se, porém o marido a impediu.
— Não force a mão, querida. Fique aí quietinha. Deixe-me
cuidar de você, para variar.
Ela deixou-se cair de novo sobre o travesseiro, com ar
frustrado.
— Espero que esta manhã o enjôo não venha ou que, pelo
menos, não dure tanto.
— Vamos marcar uma consulta. Talvez o médico receite algo
que ajude. Agora, espere que volto já.
Assim que o marido saiu ela fechou os olhos, dizendo a si
mesma que estava imaginando a tristeza no rosto dele. Joseph dissera que a
amava, jurara que ia amar o bebe, não importava o que acontecesse. Tinha que
acreditar que isso era verdade ou ficaria louca. Com um profundo suspiro, virou
de lado e abraçou o travesseiro.
O bater da louça e panelas consistia num som reconfortante e
ela caiu numa espécie de sonolência. Aquele barulho era um sinal de segurança,
era a certeza de que não estava sozinha.
Um instante depois o telefone começou a tocar. Rolou o corpo
para atender, mas a campainha parou antes que erguesse o receptador. Alguns
minutos depois, Joseph entrou no quarto com o telefone sem fio na mão.
— Demi, atenda aí. É Addie Bell, da Kitteridge House, e quer
falar com você.
Foi impossível não ficar aflita e, relutante, ela pegou o
telefone da mesinha de cabeceira.
— Addie?
— Demetria! Em primeiro lugar, meus parabéns!
Demi olhou para Joseph, que sorria com ar culpado. Talvez
estivesse se angustiando à toa, pensou. Se ele estava contando para todo mundo
que ia ter um filho, tudo devia estar bem.
— Pois é, fomos apanhados de surpresa — disse ao telefone.
— Imagino! — riu Addie. — Agora, vamos ao motivo do meu
telefonema. Não consegui muita coisa, mas estive tentando lembrar-me de tudo
que podia sobre aquele rapaz, Pharaoh Carn, e ontem à noite, quando assistia a
um filme na televisão, alguma coisa veio-me à lembrança.
— O quê? — quis saber Demi.
— Pharaoh tem uma tatuagem. Na verdade, ele saiu e voltou um
dia muito tarde na noite em que a fez. Devia ter uns quinze anos, acho, no
máximo dezesseis. Eu fiquei furiosa, tanto por ele ter saído sem ordem e
demorado, quanto pelo mau exemplo que a tatuagem ia dar aos outros meninos.
Instintivamente, Demetria passou a mão na tatuagem que tinha
no pescoço. Olhava para Joseph e ele assentiu, encorajando-a.
— Era uma espécie de sinal egípcio — prosseguiu Addie. —
Parecido com uma cruz, mas não era uma cruz… Tinha uma forma arredondada,
diferente, no topo. E era colorida… amarela, eu acho. — Fez uma pausa. — Sei
que não é muito, porém como sei que você está ansiosa, achei que não devia
deixar de contar qualquer coisa que me lembrasse.
O coração de Demi batia disparado quando ela se levantou e
ficou parada junto à cama.
— Oh, Addie, não imagina o quanto isso significa para nós!
Olhe, destesto ter que desligar, mas precisamos contar esse fato aos policiais
encarregados do caso. Importa-se de darmos seu telefone de novo para eles, caso
queiram confirmar o que vamos dizer?
— Claro que não. Estou contente em poder ajudar de algum
modo.
— Está bem… e muito obrigado por ter telefonado.
— Ligue-me de vez em quando — pediu Addie. — Estarei esperando
para saber se é menino ou menina.
— Eu lhe contarei assim que souber — prometeu Demi.
Desligou e, quando voltou-se para o marido, seus olhos
refletiam ansiedade.
— Joseph, era isso que o investigador Dawson queria dizer,
não? A prova da existência da tatuagem em Pharaoh pode ser a evidência física a
que ele se referiu?
— Não sei, querida, mas vamos ficar sabendo logo. Como você
se sente?
Ela olhou para si mesma e, em seguida, para as migalhas de
bolacha que haviam caído no chão.
— Como alguém que comeu bolacha na cama.
Joseph riu.
— O chá está pronto. Se me der um ou dois minutos vou
trazê-lo.
— Vou tomá-lo na cozinha, já chega as bolachas que comi
aqui, fazendo essa sujeira toda.
— Tem certeza? — preocupou-se ele.
Fra fez um gesto de impaciência.
— Vou me vestir e você vai telefonar. Quero que Dawson seja
informado o mais depressa possível sobre a tatuagem.
Avery Dawson abria caminho no trafego intenso do centro da
cidade e seu parceiro tentava terminar de comer um sanduíche.
— Droga, Dawson, vá mais devagar! — resmungou Ramsey.
Tinha um sanduíche em uma das mãos e um copo de café na
outra e seu parceiro observou o sanduíche com ar pensativo.
— Eu acho que você devia ter deixado para comer um lanche
depois — comentou. — Sabe que tem estômago fraco e o capitão informou que a
vítima teve a garganta cortada.
Com um sacudir de ombros, Ramsey comeu o último bocado.
— Já vi coisas piores.
— Depois não diga que não o avisei.
— Considero-me avisado.
E Ramsey terminou de tomar o café.
Alguns minutos mais tarde, o carro dos investigadores parava
junto a estação rodoviária. O vento gelado passou através de seus sobretudos
quando saíram do carro. Entraram e logo tiveram o caminho fechado por uma
multidão de curiosos amontoados.
— Polícia, dá licença… — disse Ramsey.
A multidão deu-lhes passagem.
Pouco depois chegavam ao sanitário masculino da rodoviária.
— Quem encontrou o corpo? — perguntou Dawson ao policial
fardado que foi ao encontro deles.
O patrulheiro apontou para dois adolescentes que estavam
sentados num banco junto à porta do sanitário. A rebeldia que lhes dera coragem
para pintar os cabelos de púrpura e usar aros de prata nas narinas havia
desaparecido. Seus rostos estavam pálidos e os olhos vagos indicavam choque.
Dawson soltou a respiração devagar. Que droga de coisa para
duas crianças encontrarem! Aproximou-se.
— Sou o investigador Dawson. Este é o meu parceiro,
investigador Ramsey. Precisamos fazer-lhes algumas perguntas.
Os jovens assentiram ao mesmo tempo.
— Vocês foram os primeiros a ver a vítima?
Assentiram de novo.
— Quero dizer, viram alguém perto da vítima?
— Não, senhor — respondeu um deles. — Quando chegamos o
banheiro estava vazio… — a voz do rapazinho falhou — a não ser pelo morto.
— Vocês tocaram em alguma coisa? — inquiriu Dawson.
— Não, não tocamos em nada, podemos jurar. Saímos correndo e
pedimos a um homem para chamar a polícia.
Dawson pensou por instantes. Não havia motivo para continuar
a inquirição. Além do fato de aqueles jovens estarem no lugar errado no momento
errado, nada indicava que pudessem ajudar de algum modo.
— Rmasey, tome nota do nome e endereço dos dois e vá
encontrar-me lá dentro em seguida.
O policial anuiu e fez o que o parceiro mandara.
Fred True, o médico legista, estava acabando o exame
superficial quando ele entrou. Ao olhar o cadáver, Dawson esqueceu todas as
perguntas que planejara fazer.
— Essa não! — resmungou.
True ergueu os olhos.
— Amigo seu?
— Acabamos de expedir um mandado de detenção para ele.
— Alguém chegou primeiro…
O médico tirou as luvas e jogou-as num saco plástico.
— Há quanto tempo aconteceu? — perguntou o policial.
— Há menos de uma hora, parece. — True voltou-se para o seu
assistente. — Terminei. Coloque-o no saco e registre-o. Dawson vai facilitar
nosso trabalho, pois o conhece.
Depois de olhar para o morto mais uma vez, Dawson falou.
— Law. O nome dele é Simon Law.
Ramsey chegou a tempo de ouvir o parceiro.
— Está brincando! — surpreendeu-se olhando o corpo no chão.
— Não — respondeu Dawson, voltando-se — É o nosso inquilino
desaparecido… Parece que a intenção dele de fazer amigos fracassou. — Bateu no
ombro de Ramsey. — Vamos. Estou curioso para ver a ficha dele.
Pouco tempo depois, chegavam à delegacia e Dawson começou
imediatamente, mesmo em pé, a passar os olhos pelos papéis que havia sobre a
sua mesa.
— Alguma coisa interessante na ficha dele? — perguntou
Rmsey, indo para o seu lugar.
— Não, nada… — Dawson continuou lendo. — Ei, espere! Aqui
está!
Tirou o capote apressadamente, jogou-o numa cadeira e
sentou-se, falando sem olhar para Ramsey, que se aproximava.
— Você vai pegar café? Traga um para mim — pediu, entregando
sua caneca,
— Pelo jeito — ironizou Ramsey — você está a fim de viver só
de café hoje também!
Seu parceiro nem se deu ao trabalho de erguer a cabeça.
— Cale a boca e faça o que eu mandei — resmungou.
Ramsey distanciou-se, rindo, e já voltava com o café quando
ouviu Dawson praguejar.
— O que foi?
Indicando um dos documentos da pasta, Dawson respondeu:
— A última detenção de Law foi por tráfico de drogas em Los
Angeles.
— Não diga! — Ramsey pôs a caneca do parceiro na mesa. —
Quantos anos ele pegou de cadeia?
— Nenhum.
— Como assim? Por quê?
Dawson parecia irritado.
— Porque Frederick Mancuso era o advogado dele.
— Ainda não entendi.
— Mancuso é advogado do cartel. Advogado de Alejandro, para
ser mais exato. Pharaoh Carn trabalha para Alejandro, Simon Law alugou
temporariamente um apartamento em frente à residência dos Jonas, Demetria jura
que Pharaoh é o homem que a seqüestrou e…
— Está bem, está bem! Já entendi. O que vamos fazer com essa
informação?
Antes que Dawson pudesse responder, seu telefone tocou. Ele
atendeu com ar ausente, a cabeça ainda no que acabara de ler.
— Aqui é Dawson.
— Sou eu, Joseph. Tenho uma novidade para você.
Soltando o documento em cima da mesa, Dawson escreveu o nome
de Joseph num papel e mostrou a Ramsey, que assentiu e pegou a pasta com a
ficha de Simon Law.
— O que houve? — indagou o investigador.
— Acabamos de receber um telefonema de Addie Bell. Lembra-se
dela? A administradora do orfanato onde Demi cresceu.
— Ah, sim. Uma mulher simpática — comentou o policial — e
pareceu-me preocupada com o que aconteceu à sua esposa.
— Ela telefonou para dar uma informação que Demi e eu
achamos importante.
O investigador inclinou-se para a frente; percebia pelo tom
de voz que Joseph Jonas estava nervoso.
— Estou ouvindo — disse.
— Addie Bell contou-nos que uma das vezes que Pharaoh Carn
se meteu em encrenca no orfanato foi quando saiu sem ordem e voltou de
madrugada, com uma tatuagem,
Antes que Joseph terminasse, o policial sou be o que ele ia
dizer.
— Suponho que ela se lembre de como era essa tatuagem —
observou.
— Lembra-se, sim. Addie disse que parece uma cruz, a não ser
pela curvatura em cima, e que era colorida. Amarela, ela acha.
Avery Dawson começou a sorrir.
— Igual à que apareceu no pescoço da sua esposa.
— Agora você tem indicio suficiente para ir atrás de Carn?
O sorriso do investigador ampliou-se.
— Tenho, sim. E se essa tatuagem ainda existe no corpo de
Pharaoh Carn, a vaidade será a desgraça dele.
— Graças à Deus! — descontraiu-se Joseph. — Agora talvez
possamos colocar tudo isso para trás em nossa vida.
O sorriso do policial apagou-se.
— Não tenha tanta certeza. Primeiro temos que encontrá-lo.
Pharaoh Carn tem recursos muito além do que o senhor possa imaginar, tem o
apoio dos maiorais do crime e e…
— Não me importa o que ele tem — interrompeu Joseph — desde
que não tenha minha mulher.
Foram necessários dois dias para que as engrenagens da
justiça começassem a se movimentar, mas quando o fizeram passaram a funcionar
depressa.
Duke Needham entrou no escritório de Pharaoh quase correndo.
— Chefe, recebi o telefonema de um conhecido de Los Angeles.
Ele disse que o Departamento de Polícia de lá tem um mandado de prisão para
você e os pliciais estão virando a cidade de cabeça para baixo à sua procura.
Pharaoh deixou cair na mesa a caneta com a qual escrevia e
ergueu-se abruptamente. Demetria! Esperara demais.
— Maldição!
— O que quer que eu faça?
Sem responder, Pharaoh caminhou até a janela que dava para a
frente da propriedade e ficou olhando para fora. O dia estava claro, porém
frio. No vale lá embaixo podia ver a fila de tráfego pela avenida e os anúncios
luminosos dos cassinos, eternamente acesos. Tudo parecia normal, no entanto era
o primeiro a reconhecer que as aparências podiam enganar. Enfiou a mão no
bolso, procurando pela pata de coelho, e seu cérebro disparou a funcionar.
— Mande uma das criadas fazer minha mala. Não mais do que
duas mudas de roupas apropriadas para os trópicos. Posso comprar roupas no
lugar para onde iremos.
— E para onde iremos? — perguntou Duke.
Os músculos junto às temporas de Pharaoh começaram a
latejar.
— Há meses Alejandro vem querendo me convencer a ir para a
América do Sul. Acabo de decidir a aceitar a proposta dele.
— Sim, senhor. Vou mandar que aprontem o helicóptero
imediatamente.
— Diga ao piloto que faremos uma parada em Denver.
A garganta do assecla apertou-se. A obsessão do chefe por
aquela mulher ainda seria a ruína deles.
— Considerando o que acabamos de saber, acha isso seguro,
senhor?
Prmeiro Pharaoh imobilizou-se, depois sua voz soou
perigosamente baixa.
— Não questione minhas decisões. Não questione minha
autoridade. Desapareça da minha frente e faça o que eu mandei.
Assim que Needham saiu, Pharaoh pegou o telefone. Aquela
decisão abriria a porta de uma nova vida para ele, porém havia outra porta que
deveria ser fechada, antes disso. A porta para o passado de Demetria. Digitou o
numero e sentopu-se no canto da escrivaninha, esperando que atendessem.
Momentos depois a voz de barítono de Pepe Alejandro vibrou em seu ouvido. Ele
respirou intensamente e pensou em qual seria a melhor aproximação.
— Patrón! Aqui é Pharaoh.
— Pharaoh, meu amigo, estava esperando seu telefonema. Você
está numa encrenca seria, eu acho.
Pharaoh estremeceu e o tom de voz de Alejandro deixou-o
nervoso.
— Não, Pepe. Tenho a situação sob controle.
— O que pretende fazer a respeito? — indagou Alejandro.
— Estou fazendo planos de acordo com os fatos. Resolvi
aceitar sua proposta para agir na Colômbia. Mas, antes, tenho um favor a pedir.
— Estou ouvindo.
— Há algo que quero levar comigo. Eu quero…
— Sei o que você quer. — interrompeu Alejandro. — É aquela
mulher de novo. É por causa dela que você está nessa encrenca. Preciso
avisá-lo, Pharaoh, de que não gosto de meus homens misturem vida pessoal com
negócios. Ouça o que eu digo! Você vai embora para Nevada hoje e de lá irá
direto para a fronteira. Miguel estará a sua espera em Tijuana, com um avião.
Dali, vocês irão para a América do Sul. E não quero que entre em contato comigo
enquanto ainda estiver ai em sua casa.
— Mas, Pepe, você não entende! Essa mulher é minha sorte.
Sem ela, eu…
O tom de barítono de Pepe Alejandro tornou-se mais profundo,
numa clara advertência.
— Não, Pharaoh. É você que precisa entender. Essas são as
minhas ordens. — Houve um instante de silencio, então Alejandro acrescentou: —
Você entendeu?
Pharaoh ficou tenso. Sabia muito bem quais eram as
conseqüências de desobedecer as ordens de Alejandro e deu uma resposta vaga.
— Quando eu chegar em Tijuana entrarei em contato com
Miguel.
— Era isso que eu queria ouvir!
Pepe Alejandro bateu o telefone, dando a Pharaoh a certeza
de que seu chefe estava muito zangado.
Sentiu-se vagamente mal quando pensou no que ia fazer, porém
não sairia do país sem levar Demetria. Quando a tivesse de novo, encontraria
uma maneira de mudar-lhe o modo de pensar. Não aceitava ser odiado por ela,
como a ouvira afirmar durante os dois anos em que a mantivera presa.
Quando Demetria era pequena, ele havia sido seu melhor amigo
e a família que ela não tinha. Tudo que precisava fazer era não deixar o marido
dela para trás, e aquilo não aconteceria de novo.
Ignorou os avisos de sua consciência enquanto ia para o
quarto ver como ia o preparo da sua bagagem. Alejandro não ia gostar do que
estava por fazer, mas se o expulsasse do grupo não se importaria. Pharaoh
garantia a si mesmo que Demetria não estava esperando que ele voltasse. Não com
um mandado de prisão ameaçando-o. A surpresa era seu maior trunfo.
A sopa fervia numa panela sobre o fogão. O cheiro gostoso do
pão de milho caseiro espalhava-se pela casa. Demi atravessou a cozinha, indo
para a lavanderia com as roupas para lavar. Ao passar pela janela olhou para
fora. Joseph ainda estava removendo a neve do caminho no quintal, que ia para o
ponto lateral da casa onde o lixo era recolhido. Seu CD
preferido tocava e ela cantarolava junto com ele, sua voz elevando-se de vez em
quando ao cantar um verso mais conhecido das músicas. Quando estava colocando
sabão em pó na máquina o telefone tocou. Abaixou a tampa, ajustou o controle e
apertou-o, registrando distraidamente que a ága começava a entrar. Foi atender.
— Alô?
Silêncio.
— Alô! Alô!
Alguém do outro lado da linha desligou.
Ela também desligou e sacudiu os ombros. Tinha gente que
precisava aprender boas maneiras ao telefone. O mínimo que se devia dizer era
¨desculpe¨quando se discava um numero errado.
Foi até o fogão, deu uma mexida na sopa, para ter certeza de
que não estava pegando no fundo da panela, depois verificou o pão de milho.
Mais alguns minutos no forno e estaria pronto.
Olhou de novo pela janela. Joseph não estava mais à vista.
Não se abalou. Provavelmente limpava agora o caminho da frente. Em parte por
curiosidade, em parte por impulso de saber onde ele estava, foi para a sala e
olhou pela janela. Lá estava o marido num canto da casa, retirando pingentes de
neve do telhado. Ela sorriu e ia acenar para ele quando a luz piscou e
apagou-se.
Demetria esperou um momento, esperando que a força voltasse
logo, mas quando ouviu a máquina de lavar roupa parar, emitiu uma exclamação de
desânimo. Poderia terminar de fazer a comida sem problema. O fogão era a gás.
Mas as roupas ficariam impregnadas de sabão em pó. Decidiu voltar à cozinha,
para olhar no quadro de luz, justamente quando um carro cinzento virou a
esquina e começou a descer a rua. Não viu, também, que ele diminuía de
velocidade e que, por fim, parou.
Tirar neve dos caminhos não era o trabalho preferido de Joseph,
mas como havia nascido em Denver era uma coisa que fizera quase que durante
toda a sua vida. Quando terminara o caminho dos fundos e fora para a frente da
casa, estava suando sob o agasalho. Cada vez que exalava o ar, o calor de sua
respiração criava uma pequena nuvem de condensação junto de seus lábios.
A calçada diante da casa estava coberta de neve e parecia
muito mais longa do que seus quinze metros de uma ponta do seu terreno à
entrada para a garagem. Cutucou com a pá uns pingentes de gelo que desciam do telhado
e olhou-os cair macia e silenciosamente na neve.
Deu um passo para a direita e cutucou outra série de
pingentes. Eles fizeram um suave ruído de cristal que se quebra, pareceram
imobilizar-se
por alguns momentos no ar, depois caíram enterrando-se na neve,
como os outros.
Joseph não parava de pensar que no próximo ano teriam uma
criança em casa, e seu coração se aquecia diante dessa perspectiva.
Meu Deus, um filho! , pensou emocionado. Vai ser menino ou
menina? E isso importa? De jeito nenhum. Menos ainda quando o nome do pai é a
maior incógnita.
Afastou esse pensamento. Fora sincero para Demi quando lhe
dissera que não se importava. Passara dois anos rezando para um milagre
acontecer. E ele acontecera, trazendo-a de volta. Mesmo que ela já tivesse
trazido o bebê consigo, ou o tivesse concebido depois da volta, não iria
alterar o fato de que Demetria estava de novo na sua vida. Um filho que viesse
dela só poderia ser puro, não importava em que circunstância se houvesse dado a
concepção.
A atenção aos pingentes de gelo passou para o reflexo de si
mesmo na janela à sua frente. De repente ele se tornou consciente de algo mais,
do reflexo do sol no pára-brisa de um carro percorrendo a entrada da garagem.
Voltou-se quando dois homens saiam. Um era alto, com ombros
largos, e os cabelos compridos, presos num rabo-de-cavalo, desaparecendo atrás
das costas. Jamais o vira, porém o outro pareceu-lhe familiar. Joseph Demiziu a
testa. Onde ele vira…
Oh, meu Deus!
Gemeu, como se houvesse sido atingido por um soco, e correu
para casa, gritando por Demetria. O tiro foi pouco mais do que um ¨pop¨, mas
atingiu-o nas costas, junto ao ombro, e o impacto derrubou-o no chão. Ele
mergulhou na neve macia e quase desapareceu, como os pingentes de gelo que
derrubara.
Duke paraou junto ao corpo caído.
— Quer que eu…
— Deixe-o — interrompeu Pharaoh, andando para a porta pelo
caminho que ainda não fora limpo. — Não vamos ficar muito aqui tempo bastante
para que ele nos incomode.
O capanga olhou nervosamente por cima do ombro. A vizinhança
parecia deserta, como estivera antes do tiro, mas num lugar como aquele nunca
se sabia se se estava sendo observado. Continuava amaldiçoando Pharaoh por
insistir em atuar à luz do dia, porém tudo que fez foi erguer a gola para
proteger as orelhas e também dirigiu-se para a porta. Ia bater quando Pharaoh
segurou-lhe a mão.
— Não Duke.
— Mas, chefe, eles tem um sistema de segurança!
Needham apontou para uma caixa colocada acima de uma das
janelas.
— Ele não deve estar ligado e a porta não deve estar
trancada… Não com o ¨garotão¨ aqui fora, limpando a neve.
Duke relanceou os olhos pelo homem que Pharaoh acabara de
baleare segurou a maçaneta. Como o chefe dissera, a porta abriu-se.
O odor do pão assando foi o que eles sentiram primeiro.
Pharaoh respirou fundo e seu coração passou a bater mais forte, antecipando o
momento em que estaria junto com ela de novo. E desta vez seria para sempre.
— Trouxe a droga? — perguntou.
Seu capanga enfiou a mão no bolso e tirou uma seringa cheia
de liquido.
— Sim, senhor.
— Então, vamos logo com isso — murmurou Pharaoh. — Tenho um
encontro em Tijuana e não gosto de deixar ninguém esperando.
Demetria se achava no meio da cozinha quando ouviu Joseph
gritar seu nome. Parou, voltou-se e nesse momento algo adejou em sua mente como
um fantasma de passagem. Enquanto permanecia parada, a lembrança veio.
Estava naquele mesmo lugar quando ouvira o ruído da porta da
frente se abrindo, depois os passos no hall e pensara que fosse Joseph.
Mas não era.
Seu coração começou a bater como um tambor e suas mãos
ficaram suadas.
— Joseph?
Ninguém respondeu.
— Joseph?
O silêncio era mortal.
O pânico chegou em ondas violentas e era tudo que ela
precisava para se mexer. Sem se dar tempo para pensar, terminou de atravessar a
cozinha, correu pelo hall e entrou no quarto.
Segundos depois abriu a gaveta onde guardava camisolas e
pegou o revólver. Um rápido olhar demonstrou-lhe que estava carregado. Foi até
a janela. A parte da frente do carro cinzento estava apenas visível. De súbito
uma mancha colorida na neve atraiu seu olhar. Prestou atenção, tentando
enxergar melhor através do vidro meio embaçado. Um débil gemido escapou-lhe dos
lábios quando viu que olhava para o abrigo de Joseph, e para o braço de Joseph,
na neve.
Contendo os soluços, correu para o telefone. Com dedos
trêmulos, digitou 911. Quando atenderam ouviu a porta da frente abrir-se.
— Socorro… Preciso de socorro — murmurou. — Diga ao
investigador Dawson que é Demetria Jonas. Diga-lhe que eles voltaram.
— Senhora… senhora! Qual é sua emergência?
Demi abafou outro gemido.
— Acho que atiraram no meu marido e estão entrando na minha
casa. Tenho que ir, eles vão me encontrar…
Ia desligar, mas a voz do outro lado chamou:
— Senhora, não desligue. Vamos mandar socorro.
— Você não entende… — sussurou Demi. — Não posso deixar que
me peguem de novo. Procure o investigador Avery Dawson, ele vai entender.
Desligou o telefone e deslizou até a porta. Parou de
respirar quando ouviu os passos deles dentro da casa. De repente, as luzes
começaram a piscar e a força voltou. O repentino jorrar da água na maquina de
lavar roupa soou pesadamente no silêncio que reinava. Ouviu um objeto qualquer
cair no chão, quebrando-se, em seguida uma voz abafada de homem praguejar.
Depois de um rápido olhar, saiu para o hall. A última coisa
que queria era ficar presa dentro de casa com os intrusos.
Segurando o revólver com ambas as mãos, começou a andar.
~
EITA, QUE É AGR Q O BICHO PEGA! Espero que estejam gostando... Ate daqui a pouco, bbês ♥ Bjs, amo vcs <3
Remember Me - Capítulo 15 MARATONA 1/4

~
Com uma sensação de déjà vu, Betty Jonas atravessou na ponta
dos pés o hall da casa que havia sido sua, entreabriu com cuidado a porta do
quarto e olhou a nora, como tinha feito tantas vezes com Joseph. Seu coração
confrangeu-se diante da inocência que transparecia no sono de Demetria, com os
cabelos negros espalhados sobre o travesseiro e as cobertas puxadas até o
pescoço. Sorriu consigo mesma enquanto se voltava e tornava a atravessar o
hall. Até que enfim Demetria estava descansando um pouco.
Seu marido,Winston,veio da cozinha segurando duas canecas de
café e deu-lhe uma.
— Como está ela? — perguntou.
— Ainda dormindo, o que nas suas condições provavelmente é o
melhor.
Winston franziu as sobrancelhas, foi atrás da esposa para a
sala de estar e sentou-se ao lado dela no sofá. Houve um momento de silêncio,
durante o qual ele assoprava a superfície do café muito quente e ela pegava uma
revista.
— Mas que confusão, essa, não?
Betty ergueu os olhos.
— Confusão é pouco! Estou tão preocupada com a segurança das
crianças! Quase não durmo à noite.
O sr.Jonas sorriu, depois afastou uma mecha de cabelos que
caíra sobre o rosto da esposa.
— Eles não são mais crianças, meu bem.
— Eu sei — suspirou ela –, mas você sabe o que quero dizer.
Nossos filhos serão sempre crianças, não importa a idade que tenham.
— Quando Joseph disse que voltaria? — perguntou Winston.
— No meio da tarde. Queria esperar que os homens começassem
a trabalhar e conversar com o mestre de obras. Eles acham que podem aplicar
material isolante e começar a construir o anexo.
Ele aprovou com a cabeça e tomou um gole de café.
— Pegar o contrato para construir a nova ala do hospital é
ótimo para a empresa.
Betty sorriu.
— Nosso menino está indo bem, não? — Pôs a mão no joelho do
marido e apertou-o de leve. — Mas é que teve o melhor treinamento desde o
começo.
Winston deu um amplo sorriso, tão parecido com o do filho
que por um momento pareceu a Betty que Joseph estava a sua frente.
— Vamos conseguir superar isto, não é, Winston?
Era evidente a ansiedade na voz dela. Ele colocou a caneca
na mesinha, passou um braço pelos ombros de Betty e apertou-a contra si,
reconfortante.
— Claro que sim, meu bem. A memória de Demetria está
melhorando a cada dia que passa e quanto mais ela lembrar, mais chances teremos.
Ainda bem que já conhecemos a cara do inimigo.
Com um estremecimento, a senhora apoiou a cabeça no ombro do
marido.
— Não vou sossegar enquanto aquele homem horrível não
estiver atrás das grades.
Ele apertou-a de novo.
— A polícia esta cuidando do caso. É apenas uma questão de
tempo.
Fez-se silêncio. Betty abriu a revista e Winston voltou ao
café. Lá fora, uma viatura da polícia passou lentamente diante da casa. Não era
a primeira vez que isso acontecia e não seria a última, até que a situação
estivesse resolvida.
Cerca de meia hora mais tarde, Betty ouviu a nora mexer-se
no quarto.
— Parece que Demi acordou, Winston. Vou ver como está.
Talvez ela queira um prato de sopa quente ou um chocolate.
Ergueu-se, apressada, e foi para o quarto.
— Olá, querida. Como está se sentindo?
Demetria saia do banheiro.
— Melhor, eu acho.
— Quer comer alguma coisa? Talvez uma sopa ou…
À simples menção de comida, Demetria empalideceu, gemeu e
virou-se rapidamente, tornando a entrar no banheiro. Outro acesso de náusea .
Betty seguiu-a, momentos depois, e tratou de banhar-lhe o
rosto e as mãos com uma toalha molhada, como se fosse uma criança.
— Pobrezinha! — condoeu-se. — Desculpe. Eu não devia
mencionar c-o-m-i-d-a.
Demi conseguiu sorrir de leve.
— Parece que ouvir a palavra soletrada não me causa enjôo…
A sogra riu carinhosa.
— O enjôo é uma coisa horrorosa. Quando eu estava grávida de
Joseph enjoei todas as manhãs, durante uns três meses.
Foi para a pia torcer e molhar de novo a toalha em água
fria, por isso não viu a expressão de choque que se estampou no rosto da nora.
Mas quando a ouviu gemer, virou-se rápida, temendo que ela houvesse piorado.
— O que foi, querida? Está enjoada de novo?
Incapaz de falar, Demetria segurou a mão da sogra, que foi
contagiada pelo medo que ela sentia.
— Fale comigo, Demetria! O que foi? Como posso ajudar?
Demetria começou a tremer incontrolavelmente.
— Minha menstruação… Não me lembro quando foi a última.
Um sorriso compreensivo suavizou as feições de Betty e seu
olhar desceu automaticamente para o ventre liso e chato.
— Oh, querida, seria maravilhoso — disse, com voz suave.
Mas na mente de Demi, nesse momento, uma outra imagem
superpunha-se à sua lembrança de estar fazendo amor com Joseph. Nessa imagem
estava sob o peso do corpo de Pharaoh e ele pesava tanto que lhe era difícil
respirar.
— Oh, Betty, você não entende. Todo esse tempo que fiquei
fora de casa… E se… Como vou saber se…
De repente a sra.Jonas entendeu. Sentou-se ao lado da nora
na beira da banheira e tomou-a nos braços.
— Demetria… meu bem…
Demetria não conseguia parar de tremer.
— Oh, meu Deus! Oh, meu Deus… Se estou com um filho no
ventre ele poderá não ser de Joseph!
— Pare com isso! Pare com isso agora mesmo! — ordenou a
sogra em voz baixa, porém cortante. — Seja como for, será seu filho. —
Ergueu-se, levando Demi com ela, e envolveu-lhe o rosto com as duas mãos. — E
se meu filho for metade do homem que eu penso que é, tudo estará bem. Ele a
ama, Demetria, mais do que a própria vida. Quando você desapareceu, pensei que Joseph
fosse enlouquecer. As incontáveis idas dele a morgues do país inteiro, temendo
descobrir que o cadáver que o chamavam para identificar pudesse ser o seu… e ao
mesmo tempo temendo que não fosse porque tinha horror só de pensar que você
poderia estar viva e sofrendo! A perseguição da imprensa, o temor de ser preso
por um crime que não havia cometido…
Lágrimas subiram aos olhos de Demetria e desceram-lhe pelas
faces, enquanto Betty continuava a falar.
— Você entende isso? Era não saber o que havia acontecido
com você que o consumia vivo. Se estiver grávida… e se o filho não for de Joseph…
ainda assim será parte de você. — Pegou os lenços de papel e deu-os a Demi. —
Pegue, enxugue as lágrimas e limpe o nariz. Talvez nem sequer haja motivo para
chorar. Vamos ter certeza antes de definir a necessidade de se autodestruir.
Demi tentou sorrir entre as lágrimas.
— Não quero me destruir — garantiu. — Lutei duro e por muito
tempo para voltar para casa e não iria desistir de mim mesma agora.
— Ótimo — aprovou a sogra. — É assim que gosto de ouvi-la
falar. O que acha de se vestir?
Ela fez que sim.
— Está bem, então, Demi. Enquanto você se veste vou fazer
chá e torradas. Confie em mim, seja qual for o motivo desse mal-estar, isso vai
acalmar seu estômago. Vou pedir a Winston que vá até a farmácia e compre um kit
de gravidez. Dentro de uma hora saberemos se você está grávida ou não.
— Oh, mas… — começou Demetria.
Betty sacudiu a cabeça, enérgica.
— Nada de ¨mas¨, meu bem. Para começar, se estiver mesmo
grávida, daqui a pouco tempo todo mundo vai saber. É melhor sabermos agora e
tomarmos providências para cuidarmos desse enjôo.
Os lábios de Demi tremiam.
— Meu Deus, Betty, e se for verdade? Como vou contar a Joseph?
A sra.Jonas hesitou, dividida entre o desamparo da nora e o
que sabia que seria melhor para seu filho.
— Querida, por que não faz o teste primeiro? Se for
negativo, você não terá com o que se preocupar. Se for positivo, nós veremos o
que fazer. O que acha?
O impulso de Demi era argumentar, porém quanto mais pensava
mais achava que Betty tinha razão.
— É, você está certa… Não há por que aborrecer Joseph com
algo que pode não ser verdade.
— Você não o aborrece, você é o amor dele, meu bem…
Apesar do que dizia, Betty sentia que no intimo estava
prestes a entrar em pânico. E se estivesse errada sobre a reação do filho? E se
estivesse erguendo o animo de Demi para depois Joseph o deixar cair?
— Vista-se e vou mandar Winston à farmácia. Vai ser difícil
para ele, que nunca deu à caixa nada mais do que um tubo de pasta dental para
cobrar… — Betty riu. — Eu queria ser uma mosca para estar lá e ver a cara dele
ao pegar o teste de gravidez na gôndola e, depois, entregá-lo no caixa..
A idéia afligiu Demi.
— Eu não tinha pensado nisso! Será que não é melhor…
— Você apenas se vista. — ordenou Betty, em tom brincalhão.
— Winston vai sobreviver e quem sabe a idéia de ter um neto o ajude.
Depois de dar-lhe um rápido beijo no rosto, Betty saiu do
banheiro. Demi foi para o quarto e sentou-se na beira da cama. O futuro estava
lançado. Nada mais lhe restava do que esperar pelo que estava por vir.
— Ei, Dawson. Há um recado na sua mesa.
Avery acenou um agradecimento para o policial de pé junto ao
arquivo e foi para o seu lugar, com o parceiro bem atrás dele. Feliz por estar
de volta à delegacia e longe de frio, ele sentou-se na cadeira estofada com um
som abafado. Mas sua expressão de contentamento começou a mudar ao ler o
recado.
— Você não está com uma cara muito feliz — observou Ramsey,
pendurando o capote no cabide.
— A van que está em frente à casa da sra.Rafferty é de Carla
Brewer, de Escondido, Califórnia. Ela deu parte do roubo há uma semana.
— Lá vem encrenca — resmungou Ramsey. — O que vai fazer a
respeito?
Dawson ergue a cabeça.
— Isso quer dizer que o homem que mora no apartamento em
frente à casa de Demetria Jonas é um ladrão de carros, porém ainda não há
evidências de que seja um espião, nem que o ligue de qualquer maneira com o
prévio desaparecimento dela.
— Conseguiu alguma coisa com o nome que a sra.Rafferty nos
deu?
— Não. Há centenas de Peter Ross no sistema e, considerando
o fato que ele estava dirigindo um veículo roubado, sinceramente duvido que
tenha dado seu verdadeiro nome.
— O que acha de trazermos a sra.Rafferty aqui para dar uma
espiada em nossas coleções de fotos? — sugeriu Ramsey.
— Talvez seja bom, pois não temos outra coisa a fazer.
Quando o parceiro já estava se acomodando na mesa dele.
Dawson acrescentou:
— É bom também notificar o Departamento de Polícia de
Escondido que encontramos a van roubada. Faça isso, enquanto vou falar com o
capitão.
Demi andava do sofá para a janela e da janela para o sofá,
sem parar, esperando que Winston voltasse da farmácia.
— Meu bem, sente-se um pouco — disse Betty. — Relaxe. Talvez
você esteja se preocupando à toa. Talvez o enjôo seja devido a um começo de
gripe.
— Não parece um começo de gripe — discordou Demi.
Betty suspirou e voltou ao seu crochê. Antes de fazer nove
anos já aprendera a fazer renda com a avó e adquirira muita pratica em todos
aqueles anos. Esticou o trecho de renda para inspecioná-lo e achou que ficaria
perfeita numa veste de batizado.
— Está chegando uma viatura policial — observou Demi.
— Eles estão passando de um lado para o outro, aqui em
frente, desde que os investigadores foram embora.
Demetria olhou a paisagem pacifica e agradável, com as
decorações de Natal adornando pórticos e árvores, crianças brincando com a neve
na calçada. Antes era um quadro tão perfeito, tão seguro. Agora tudo parecia
feio e ameaçador, por causa dela. Retirou-se da janela, sentindo uma raiva
súbita.
— Por que você não me odeia?
Perplexa com a pergunta, Betty largou o crochê no colo e
ergueu o rosto.
— Por que eu deveria odiá-la, minha querida?
— Veja o que estou fazendo com seu filho… e também com você
e Winston. Sinto-me suja e assustada, como alguma criança que sabe que lhe
fizeram alguma coisa má, porém não entende o quê.
— Isso é absurdo — murmurou Betty.
Bateu com a mão no assento do sofá a seu lado e Demi sacudiu
a cabeça.
— Não posso me sentar.
Foi de novo até a janela e quando olhou para fora teve um
sobressalto.
— Meu Deus, Joseph chegou!
Betty jogou o crochê no sofá e saltou em pé, no entanto não
foi rápida o suficiente para impedir que Demi saísse correndo. Com o coração
apertado, da porta da sala, viu a nora desaparecer no quarto e, segundos
depois, a porta da rua abriu-se e seu filho entrou.
— Olá, mamãe! Onde está seu carro? — perguntou ele.
— Seu pai foi fazer uma compra e já deve estar voltando.
Joseph assentiu, pendurando o capote no cabide e foi beijar
a mãe na face.
— Como está, Demi?
A senhora mordeu os lábios e conseguiu forçar um sorriso.
— Por que não vai perguntar a ela?
Ele olhou para a mãe com atenção. Havia algo no tom dela que
não o agradava.
— O que há de errado?
— Do meu ponto de vista, absolutamente nada — garantiu a
senhora. — Mas vá falar com sua mulher. Eu já fiz tudo que podia.
Saindo da sala e atravessando o hall com passos largos, Joseph
perguntava-se o que mais poderia ter acontecido enquanto estava ausente.
Segundos depois, entrou no quarto e encontrou Demetria de pé à janela., de
costas para a porta. Sabia que ela o ouvira chegar, porém não se moveu e nem
demonstrou saber de sua presença. Ficou tenso.
— Demetria…
Ela voltou-se e a expressão de seus olhos o angustiou.
— Meu anjo, o que está acontecendo? Está se sentindo pior?
Quer que a leve ao médico?
O queixo dela tremeu quandod eu um passo para ele.
— Oh, Joseph, eu…
Ele atravessou o quarto e pegou-a pelas mãos.
— Venha cá. — Sentou-se na cama e a fez sentar-se ao seu
lado. — Gosto de tocar você enquanto conversamos.
O rosto dela contraiu-se.
— Preciso perguntar-lhe uma coisa.
O impulso dele foi tomá-la nos braços, expulsar com beijos
todas as coisas ruins de sua vida, porém sabia que ela precisava de espaço.
Ficou apenas segurando-lhe as mãos.
— Você sabe que pode me perguntar qualquer coisa e que tudo
continuará bem, Demi.
Ela sentiu a boca seca, as palmas das mãos suadas. Havia um
nó doloroso na boca do seu estômago, como costumava acontecer no orfanato na
véspera do dia da visita; aquele nó que a impedia de dormir a noite inteira,
sabendo que ninguém iria querê-la como sua filhinha.
— Pode ser que eu esteja complicando tudo sem motivo… —
começou.
— Verificaremos isso juntos — respondeu ele, e acariciou-lhe
de leve os cabelos.
Demi tentou sorrir, mas não conseguiu. Em vez de sorriso, a
contração dos lábios provocou uma expressão que prometia lágrimas. Mas já começara
e não ia parar.
— Agora há pouco a sua mãe fez um comentário que me deixou
pensando…
— O que ela disse?
A rispidez do tom de voz dele advertiu Demetria que lhe dera
uma impressão errada.
— Não, não, Joseph, não é nada de ruim. Na verdade, ela
estava tentando me acalmar porque eu havia vomitado. Disse que sabia como eu me
sentia porque passava por isso todas as manhãs quando ficou grávida de você.
— E? — indagou ele.
Respirando fundo, a esposa fitou-o direto nos olhos.
— E eu não consigo me lembrar de quando foi a ultima vez que
fiquei menstruada.
Um leve sorriso começou a clarear o rosto de Joseph e Demi
emitiu um lamento. Tinha que dizer tudo antes que ele começasse a querer
distribuir charutos para os amigos.
— Mas lembro-me de estar olhando o rosto de Pharaoh e
sentindo-o deitado em cima de mim…
Um urro abafado escapou dos lábios de Joseph, como se
tivesse levado um violento soco no estômago. Por uma fração de segundo ela viu
medo e
incerteza nos olhos dele, o que a fez sentir-se de novo
rejeitada. Contudo, ele se inclinou para a frente até que seus lábios se
tocaram. Demetria não se mexeu. O marido segurou-lhe a cabeça com as duas mãos
e beijou-a, provando o gosto do medo nos lábios dela, depois recuou.
— Demetria…
— O quê?
— Olhe para mim.
Nos enormes olhos dela havia uma pergunta muda, porém
clamorosa.
— Lembra-se do nosso acordo?
Ela piscou. Aquela não era a reposta que imaginara.
— Que acordo?
— Que eu vou escolher o nome do nosso primeiro filho?
Demi tentou falar, porém não conseguiu.
Nosso! Ele disse ´´ nosso `` filho!
— Lembra-se? — insistiu Joseph.
Lágrimas brilharam nos olhos dela.
— Lembro…
— Então, se você estiver grávida, vou começar a fazer uma
lista, porque nosso filho tem que ter um nome bom e bonito.
Demetria passou os braços no pescoço do marido e chorou.
— Estou tão assustada! Desde o dia em que o conheci eu
imaginei dar-lhe filhos, mas agora… Oh, meu Deus! Oh, Joseph! Se ele não for…
Ele a beijou com ardor, engolindo o horror das palavras não
ditas. Sua respiração estava rápida e entrecortada; suas emoções
desencontravam-se. Queria rir e, santo Deus, precisava chorar. Controlando-se a
custo, fez à esposa a promessa que tinha certeza que cumpriria.
— Juro a você, diante de Deus, que vou amar essa criança o
quanto a amo.
Antes que pudesse dar voz a qualquer outro medo, Demi ouviu
um carro parar na lateral da casa deles.
Ergueu-se e correu para a janela.
— É Winston — disse ao marido. — Voltou da farmácia…
Antes que Joseph pudesse detê-la, saiu correndo para o hall.
Curioso para saber o que seu pai trazia de tão importante, ele segui-a.
— Trouxe? — perguntou ela assim que o sogro entrou.
Ele revirou os olhos e entregou-lhe uma sacola de plástico
com o kit.
— Trouxe, sim — resmungou. — Aquela tonta da menina do caixa
olhou a embalagem dessa… dessa `` coisa ``, depois para meus cabelos grisalhos
e rugas, então riu. Como se não bastasse, me deu uma piscadela.
A tensão do momento foi quebrada pela gargalhada de Betty;
nesse momento Joseph entrava no hall e ficou ainda mais confuso.
— O que é tão engraçado? — perguntou.
Betty não conseguia falar, mas apontou para o marido e riu
mais ainda, a ponto de lágrimas descerem-lhe pelo rosto.
Apesar do nervosismo, a imagem de Winston atrapalhado na
farmácia a fez Demi sorrir.
— Muito obrigada — disse e beijou-o na face.
— Vamos pessoal! — interferiu Joseph. — Contem –me a piada
para eu rir também.
Demi ergueu a sacola.
— Sua mãe mandou Winston comprar um kit de teste de
gravidez.
A visão da sacola branca, opaca, foi como um pontapé no
estômago de Joseph. Dentro dela estava a resposta que iria transformar a vida
deles. Assim mesmo, conhecendo o pai como conhecia, pôde apreciar o que
significava ele ter ido à farmácia fazer aquela compra.
Um sorriso ergueu os cantos de sua boca.
— Então, papai, quer dizer que anda se exibindo por aí?
Winston deu ao filho um olhar ¨vá-para-o-inferno¨, ao mesmo
tempo que sua mulher tinha um novo ataque de riso. Ele fuzilou Betty com o
olhar, depois deu um rápido beijo na nora.
— Vou tirar essa mulher escandalosa daqui o quanto antes. —
Sorriu. — Está tão frio e eu já estou tão velho que acho que tenho que me
conformar em continuar com a Betty!
Winston apertou-lhe o ombro.
— Dê um telefonema para nós mais tarde… de um jeito ou de
outro.
Ela fez que sim.
No outro lado da cidade, Avery Dawson colocou mais um álbum
de fotografias diante da sra.Rafferty e abriu-o.
— Minha senhora, agradecemos muito a ajuda que nos está
tentando dar.
A idosa senhora suspirou.
— Este é o sétimo álbum, eu acho.
Dawson preocupou-se. Ela já vira alguns álbuns e havia
muitos outros a ver.
— É, sim, senhora.
A sra.Rafferty suspirou de novo.
-Bom, acho que poderei ver mais uns dois.
Começou a olhar as fotos e a virar as páginas. De repente,
apontou para um afoto.
— Oh, veja!
O policial saltou em pé.
— É ele? É o homem que alugou seu apartamento?
— Oh, não — negou ela — Parece com meu pai quando era jovem.
Não é incrível? Eu ouvi dizer que todos no mundo têm seu sósia. Que horro! Meu
pai teria um enfate se soubesse que existe um criminoso com o rosto dele.
Deixando-se cair de novo em sua cadeira, o policial engoliu
uma praga.
— Sim, senhora, aposto que teria. Agora, se não se importa,
continue olhando. É muito importante, precisamos falar com seu inquilino.
Ela anuiu e voltou ao trabalho, sem ver que Ramsey ria e
Dawson revirava os olhos.
Algum tempo depois ela terminou aquele álbum e começou o
numero oito quando apontou outra foto.
— Oh! Este! — gritou.
— O que tem esse?
O investigador fez a indagação distraído, esperando que ela
dissesse que aquele homem se parecia com seu amado, falecido esposo, Edward, a
respeito de quem já falara muito.
— É o homem! Foi esse homem que alugou meu apartamento!
De pé mais do que depressa, Dawson foi olhar por cima do
ombro dela.
— Tem certeza? — perguntou.
— Tenho, sim — garantiu a sra. Rafferty. — Jamais esqueço de
um rosto. Aliás, está vendo que uma sobrancelha é mais alta que a aoutra?
Claro, eu não disse nada a ele, mas isso lhe dá uma expressãod e apalermado.
Animado, Dawson leu o nome sob a foto.
— Simon Law. — Olhou para o pareceiro. — Mande levantar a
ficha deste homem e veremos o que se descobre. — Voltou-se para ela. — Não
imagina a enorme ajuda que nos deu! O polcial Adler, aqui, irá levá-la até lá
embaixo.
— Será que alguém pode chamar um táxi para mim?
— Não é preciso. Um polcial levará a senhora numa viatura.
A simpática senhora ficou toda animada.
— Oh! Um carro da policia de verdade! Eu queria que meu
Edward fosse vivo para ver isso! — Riu com gosto. — Papai sempre dizia que eu
ainda seria carregada nos braços da lei.
Dawson acompanhou-a na risada. Depois do dia pesado que
havia tido, a sra. Rafferty era um refrigério para a sua alma. Ajudou-a a
levantar-se e apertou-lhe a mão.
— Seja bondosa com os nossos rapazes. Anna Rafferty, ou eu
mesmo a prenderei. E não se preocupe com Law. Dois homens vão ser encarregados
de vigiar sua casa. Assim que ele aparecer será preso.
A senhora ainda sorria quando saiu da sala.
O policial foi pegar um copo de café. Não almoçara e seu
estômago estava reclamando, porém teria que se contentar com mais uma dose de
cafeína.
Joseph estava sentado na cama, encostado na cabeceira.
Acomodada entre suas pernas, o dorso de Demi apoiava-se no peito dele, e a
cabeça, no ombro. Os braços fortes rodeavam-na e a respiração do marido
aquecia-lhe o pescoço. As batidas do seu coração faziam-se sentir nas costas
dela e o único movimento no quarto era o mudar de minutos do relógio digital
sobre o criado-mudo.
A tira de papel do teste de gravidez caseiro achava-se na
mão dela e Demi sentia-se como se estivesse segurando uma bomba preste a
explodir.
— Ainda não passou o tempo? — perguntou, nervosa.
— Não, falta um minuto. Mas não fique assim, Demi. Seja qual
for o resultado, vaid ar tudo certo.
— Eu sei — murmurou ela.
E os dois esperaram.
Mesmo olhando para o relógio e vendo o passar daquele último
minuto, ela quase saltou quando a voz de Joseph soou ao seu ouvido.
— Está na hora.
Demetria imobilizou-se, com medo de olhar a tira de papel,
então sentiu a mão do marido acariciar-lhe o ventre.
— Eu a amo, Demetria.
A visão dela nublou-se. Ergueu a tira de papel e fitou-a,
mas as lágrimas não lhe permitiam ver se mudara de cor. Então, ouviu Joseph
soltar a respiração que estava contendo e soube que o resultado era positivo.
Era o mais maravilhoso e ao mesmo tempo o mais terrível momento da sua vida. Ia
ter um filho. Mas… de quem?
E, graças a Deus, foi Joseph que lhe deu forças mais uma
vez.
— Vamos telefonar para meus pais, Demetria. Há anos eles vêm
sonhando ser avós. Vão ficar no céu.
Demi separou os braços dele e voltou-se para olhá-lo de
frente.
— E você, Joseph? — perguntou, tensa. — Onde isto o coloca?
Ele sorriu e sacudiu a cabeça, como se não acreditasse no
que ela estava perguntando.
— Coloca-me mais e de tal maneira em sua vida que você ainda
vai se perguntar onde está o espaço que lhe pertence — riu ele — Eu vou ser
pai! Depois de contarmos aos meus pais vamos comemorar.
A dor de cabeça de Demi diminuiu, não muito, mas o bastante
para que soubesse que eles iam conseguir ultrapassar aquilo também.
— Não tenho medo de sair com essa neve toda — observou.
— Então, vamos pedir alguma coisa. Você escolhe, eu
telefono.
Ela ficou indecisa. A idéia de comer naquele momento
parecia-lhe a mais importante do dia.
— Acho que comida chinesa… ou você prefere pizza?
— O que você preferir.
Joseph a fez deitar-se de costas e escondeu o rosto na curva
do seu pescoço. O aperto no peito dela suavizou-se mais um pouco. Abraçou o
marido.
— Você está com sorte. — murmurou-lhe ao ouvido. — Esta
noite eu sou o prato especial da casa.
— Oh, não, Demetria — sorriu ele — Você é sempre o prato
especial da casa e jamais me cansarei dele. Nunca.
Ele movimentou a mão, enfiando-a por baixo das roupas de Demi,
até que tocou diretamente o ventre macio.
— Ei, você aí! Cresça forte e saudável, bebezinho. Quando
você estiver pronto estaremos à sua espera.
Quando ergueu a cabeça, viu lágrimas nos olhos dela.
— Eu o amo, Joseph Jonas — disse Demetria com a voz
embargada.
Ele riu.
— Eu sei.
Ela deu-lhe um beliscão leve no braço.
— Você deveria responder ¨Eu também a amo!¨
Joseph riu mais ainda.
— Isso seria muito comum, meu anjo.
Por fim ela riu também.
— E Deus sabe que nossa vida pode ter de tudo, menos coisas
comuns, não é?
— Meu pais sempre diz que quando uma mulher sabe que o
marido vai dizer ou fazer, o pobre pato está perdido.
— Então… meu querido pato — ameaçou ela, rindo — ,
prepare-se para ser assado e comido porque eu sei que nos próximos oito meses,
mais ou menos, você vai fazer tudo o que eu quiser!
— Por que apenas por oito meses? — indagou Joseph, tirando o
suéter dela. — Que tal fazer essa mesma previsão para o resto de nossas vidas?
Uma intensa felicidade a envolveu quando o marido tomou-a
nos braços.
— Para o resto das nossas vidas? Com o maior prazer…
~
Sim, ela está grávida, haha' Maratona começando... Capítulos postados de 1 em uma hora a partir de agr! 19:20 tem mais, hehe' Comentem! Até mais, beijos ♥
Amo vcs!
Bruna
Assinar:
Postagens (Atom)


