
~
Joseph engoliu seu último pedaço de torrada quando Demi
entrou na cozinha.
— Está levando bastante agasalho? — perguntou. — Apesar de
ter parado de nevar, está muito frio lá fora.
Ele riu, engoliu e respondeu:
-Sim, mamãe. Minhas luvas estão na caminhonete e estou
usando ceroulas por baixo do jeans.
Um leve sorriso pairou nos lábios de Demi.
— Está bem, sou exagerada… — tirou a xícara de café da mão
dele, colocou-a sobre a mesa e pediu: — Abrace-me.
A ternura na voz dela comoveu-o.
— Com o maior prazer — respondeu suavemente. — Venha aqui,
meu anjo.
Demi aninhou-se ao peito dele, adorando a força com que o
marido a abraçava e a textura da camisa de flanela contra seu rosto.
— Acha que vai ficar bem sozinha aqui, Demi? Posso deixá-la
na casa de minha mãe ou ela pode vir ficar com você.
A urgência de se esconder era tão intensa que Demetria teve
que fazer força para recusar; não podia permitir que o medo dominasse a vida
deles para sempre. Além disso, não se sentia bem-disposta e não gostaria de ter
que conversar com alguém.
— É melhor que não — recusou, com um sorriso de desculpa.
Adorava os sogros, mas não a agradava ser o centro da
atenção deles.
— Afinal, tenho meu revólver — acrescentou -, e Harold, o
xereta, deve andar aqui por perto. Vou ficar bem.
Joseph teve que resistir à vontade de dizer a ela que não
aprovava isso. O fato de sua mulher sentir-se ameaçada a ponto de comprar um
revólver incomodava-o muito. Eles eram pessoas comuns. Aqueles acontecimentos
não deveriam estar fazendo parte das suas vidas. E quanto a sarcástica
referencia ao investigador particular, não podia censurá-la depois de tudo que
ela havia passado. Olhou o relógio. Como Demi dissera, Borden chegaria a
qualquer momento.
— Está bem, então… se você tem certeza.
Ela passou o braço pelo pescoço dele e puxou-o para
beijá-lo.
— Beije-me Joseph, um beijo bem gostoso!
Ele sorriu.
— Bem, já que você insiste…
E obedeceu, enquanto Demi derretia-se contra ele. Momentos
depois separaram-se com relutância.
— É melhor eu ir, enquanto enxergo direito. — Ele a fitou
com atenção. — Você está mesmo bem? Parece-me pálida.
Demetria acreditou que era verdade, pois estava começando a
enjoar.
— Vou voltar para a cama assim que você sair, está bem?
Joseph encostou as costas das mãos na fronte e depois no
rosto dela.
— Você não tem febre — concluiu.
— Joseph…
— Olhe, meu bem, vou telefonar para meu pai e…
— Não. Pode ir trabalhar — interrompeu-o Demi.
— Está bem, mas se precisar de mim, telefone. Promete?
Ela fez que sim, acompanhou-o até a porta e ficou olhando-o
entrar na caminhonete.
Segundos depois seu estômago contraiu-se e ela correu para o
banheiro.
Joseph ficou sentado na caminhonete, com o motor
trabalhando, esperando que esquentasse um pouco. Ao mesmo tempo sua mente
começou a trabalhar. A não ser por uma trilha de pegadas, a neve no jardim e
nos galhos das árvores estava lisa e macia. Sorriu, pensando que se ainda fosse
criança arranjaria uma boa desculpa para não ir à escola e fazer homens de neve
o dia inteiro.
Duas vezes olhou ao redor para ver se o carro de Harold
Borden aparecia, depois consultou o relógio. Ainda era cedo e havia a
possibilidade de algumas ruas laterais ainda não terem sido limpas. Mas os
limpa-neve deviam estar em ação, e ele precisava ir para o trabalho. Engatou a
marcha e começou a dar a ré.
Momentos depois estava no meio da rua. Colocou o cambio na
marcha de tração das quatro rodas e foi embora, olhando mais uma vez a sua casa
pelo espelhinho retrovisor. Quando o fez, algo chamou-lhe a atenção, não na
imagem refletida, mas na que surgiu na sua mente. Diminuiu a velocidade e parou
no meio da rua, olhando atento pelo retrovisor e tentando detectar o que o
perturbava tanto.
De repente descobriu o que era. Os cabelos em sua nuca arrepiaram-se,
engatou a marcha-à-ré e saiu, com os pneus cantando. Parou na entrada de carros
de sua casa e só quando desceu percebeu que suas pernas tremiam. Quanto mais
olhava, mais assustado ficava.
Na neve, havia uma clara trilha de pegadas que circundava a
casa. Pensar que alguém vigiara os movimentos deles e ouvira suas palavras
chegava a ser obsceno.
Girou, olhando atenta mente ao redor, tentando ver se alguma
coisa nas vizinhanças estava diferente. Não percebeu nada. Depois da nevasca,
as casas da rua pareciam fazer parte de um cartão-postal perfeito. Olhou de
novo as marcas de pés.
O calor o envolveu quando entrou em casa. Com as mãos
trêmulas, fechou a porta atrás de si e percorreu os cômodos, verificando cada
janela e acompanhando a trilha de pegadas. Foi quando chegou a cozinha que
percebeu que não tinha visto Demetria. Não lembrava de que estivesse na cama e,
mesmo assim, teria falado com ele, pois não poderia ter adormecido
profundamente tão depressa.
— Demetria, onde você está?
Atravessou o hall, entrou no quarto e ouviu água correndo no
banheiro.
— Demi, você está bem?
Ela apareceu de repente e ficou apoiada ao batente da porta,
com uma toalha molhada encostada no rosto. Seus olhos pareciam enormes no rosto
pálido.
— Você me assustou, Joseph.
— Desculpe, querida.
— Esqueceu alguma coisa?
— Não… — Ele hesitou apenas alguns segundos. — Olhe, Demi,
temos que conversar, mas primeiro preciso fazer uns telefonemas e …
Antes que o marido terminasse, ela correu de volta para
dentro do banheiro.
Joseph ficou surpreso com a saída repentina, mas pelos sons
que ouviu compreendeu que ela estava vomitando. Entrou no banheiro também.
— Querida, você está mal!
Demetria foi para a pia e segurou-se nela, esperando que o
banheiro parasse de girar.
— Só me ajude … — pediu. — Acho que preciso me deitar um
pouco.
— Venha, meu anjo.
Ele a amparou até o quarto, ajudou-a a deitar-se e cobriu-a
até o queixo.
— Já estou me sentindo melhor, Joseph.
— Ótimo. E vai ficar melhor ainda se ficar aí quietinha.
Ela deu-lhe um frágil sorriso, depois fechou os olhos,
querendo que o mal-estar do estômago passasse. Ouvia Joseph movimentando-se no
quarto. Quando abriu os olhos ele havia tirado o capote.
— A caminhonete não pegou? — perguntou.
Ele hesitou, mas por fim decidiu-se.
— Não foi a caminhonete.
Erguendo as sobrancelhas, ela fitou o marido com atenção. Joseph
não costumava ser reticente.
— Então, o que foi?
Ele foi saindo do quarto.
— Deixe-me fazer uns telefonemas, depois conversamos.
Havia algo na voz dele que a fez sentir-se pior. E mais, Joseph
não a olhara enquanto falava. Teve certeza de que se tratava de muito mais do
que baterias descarregadas e ruas interrompidas pela neve. Sentou-se na cama.
— Por que não telefona daqui?
Ele parou à porta e voltou-se. Quando viu a expressão dos
olhos dele, o coração de Demetria apertou-se.
— Conte-me, Joseph.
— Há uma trilha de pegadas circundando nossa casa.
Você pertence a mim… só a mim.
A lembrança explodiu na mente dela, deixando-a fraca e sem
voz . Tudo que pode fazer foi gemer e cobrir o rosto com as mãos.
Joseph praguejou baixinho e foi sentar-se ao lado dela, que
imediatamente agarrou-se às lapelas do seu paletó e, depois, passou-lhe o braço
pelo pescoço.
— É ele, não é Joseph? Oh, Deus, ele voltou!
— Não sabemos se é isso — contrapôs Joseph, mas segurou-a
forte contra si. — Fique quietinha, meu anjo. Vou telefonar para Borden e
chamar a polícia.
Outra onda de enjôo a atacou, mas não era a mesma de antes.
Essa passou, deixando atrás de si apenas desespero.
Joseph ajeitou-a melhor contra seu peito e discou, esperando
que o investigador particular atendesse ao telefone. Quando em vez dele uma voz
de mulher atendeu, hesitou, achando que talvez houvesse discado o número
errado.
— Desculpe, acho que foi engano.
— Não, desculpe-me o senhor — respondeu a mulher. — Acho que
eu é que não atendi direito. É que tudo hoje está tão horrível! Aqui é a
Investigações Borden.
— Afinal, Harold cedeu e contratou uma secretária para
ajudá-lo…
— Não é bem isso — discordou a mulher.
— Olhe, minha senhora, preciso falar com Harold. Ele está?
A mulher hesitou.
— O senhor é um cliente ou um amigo?
— Um cliente — respondeu Joseph com a testa franzida -, se
bem que nos conhecemos a mais de dois anos.
Deu para ele ouvir o suspiro da mulher.
— Sinto muito ter que lhe dizer que o sr.Borden morreu. Ele
foi morto num atropelamento-e-fuga nesta noite, quando saia de seu carro, em
frente de casa.
Joseph sentiu como que um saco no peito.
— Alguém viu quando aconteceu?
— Creio que não. A esposa viu0o estendido na rua. Se o
senhor é um cliente, a senhora dele pediu-me que indicasse que os casos em
andamento sejam transferidos para Investigações Rocky Mountain. Trata-se de um
grupo respeitável e Borden o considerava muito.
— Obrigado… — E Joseph acrescentou: — Transmita minhas
condolências à sra.Borden.
Desligou e ficou imóvel, olhando para uma pequena mancha no
papel de parede perto da cama.
Demi ouvira atenta as palavras do marido e quando ele disse
as últimas teve um sobressalto. Só podiam significar uma coisa.
— Joseph…
— Harold Borden morreu, em frente da casa dele num
atropelamento-e-fuga, nesta noite.
— Oh, não! Que horror! Eles tem alguma idéia de quem fez
isso?
— Creio que não.
Demetria chegou-se ainda mais ao marido.
— Pobre sra.Borden! Imagino como ela está se sentindo.
— Sim…
Joseph digitou um outro número, dizendo a si mesmo que se
tratava apenas de uma terrível coincidência, que a encrenca em que estavam nada
tinha a ver com a morte do investigador. Momentos depois o segundo telefonema
foi atendido.
— Aqui é Dawson.
— Joseph Jonas.
— Ora, ora! Levantou cedo hoje, hein? O que posso fazer pelo
senhor?
— Alguém chegou muito perto da nossa casa esta noite.
O policial colocou metade do sanduíche que comia sobre uma
pilha de pastas e ajeitou-se na cadeira.
— Algum xereta?
Pensando nas casas do quarteirão, Joseph chegou à conclusão
que nenhuma tinha sido invadida, só a deles.
— Você é que deve me dizer, Dawson. Os jardins das demais
casas estão intocados, sem rastros nem mesmo de cachorro.
— O senhor sabe como as crianças ficam quando neva. Querem
recolhê-la toda.
— Ninguém recolheu neve nenhuma — garantiu Joseph. — Há
apenas uma trilha de pegadas circundando a casa e saindo para a rua.
— Sim? O senhor não contratou um investigador particular?
Talvez ele tenha ido até aí verificar de tudo estava bem.
— Não, a não ser que tenha sido o fantasma dele, pois foi
morto num atropelamento-e-fuga, nesta noite.
Desta vez o investigador Dawson aprumou-se.
— Não me diga! — Remexeu uns papeis. — Está havendo uma
série de estranhas coincidências.
— É exatamente o que penso.
— Muito bem. Vou chamar Ramsey e estaremos aí em quinze
minutos. Espere-nos.
— Não vou sair daqui — afirmou Joseph e desligou.
Os olhos de Demetria estavam enormes, vazios, a expressão
chocada.
— Demi…
Ela não respondeu.
Joseph sacudiu-a com suavidade.
— Demetria!
A cabeça dela descaiu sobre o ombro, como a de uma boneca
quebrada; depois, Demi olhou para ele e estremeceu.
— Ele entrou pela porta da frente e eu pensei que fosse
você. Estava sorrindo. Quando começou a rir alto, eu corri…
O ódio encheu o peito de Joseph.
— Desgraçado!
Ela piscou, tentando focalizar o rosto do marido.
— Eu o conhecia, Joseph. Era Pharaoh. Pharaoh Carn.
xx
A fumaça de incenso embaçou a visão de Pharaoh quando ele
parou diante da estátua de Osíris. Perdera a noção de quanto tempo passara na
sala subterrânea, mas devia admitir que seu coração estava mais leve, e seu
propósito, mais claro. Lamentou sua anterior falta de discernimento e
atribuiu-a ao fato de ainda não estar curado. Mas aqueles dias haviam
terminado. Ficar entre aquelas relíquias lembrara-o de que quase havia ido para
a eternidade. Os reis eram onipotentes. Eles ditavam as regras, não as seguiam.
Como os antigos personagens que eram designados pelo seu nome, os faraós, ele
ia destruir o inimigo e tomar de volta o que lhe pertencia. Já o fizera antes.
Faria de novo. Voltou as costas para a câmara sem sol e penumbrosa onde estavam
as esfinges dos antigos deuses. Havia muitas coisas que deviam ser feitas e
pouco tempo para fazê-las.
Um pouco mais tarde, saiu da sala de sauna e encontrou Duke
à espera. Despreocupado com a própria nudez, aproximou-se, virou de costas e
enfiou os braços nas mangas do robe que seu assecla segurava, agasalhando com
ele o suado corpo.
— Simon telefonou — informou Duke.
Pharaoh imobilizou-se.
— Aquele trabalhinho com o xereta já foi realizado.
— Qual? — indagou Pharaoh.
— O atropelamento-e-fuga.
Um sorriso de satisfação entreabriu os lábios de Carn.
— Sabe, é muito triste — disse com suavidade — mas as
pessoas precisam aprender a olhar para os dois lados ao atravessar uma rua…
Duke sorriu.
— É, chefe, o senhor tem razão.
O estômago de Pharaoh manifestou-se.
— Estou com fome — declarou— diga ao cozinheiro que faça uma
omelete de cogumelos. Tenho uns telefonemas a fazer, então quando ficar pronta
leve-a para a biblioteca.
— Sim, senhor. Alguma coisa mais?
Pharaoh pensou na tarefa que tinha pela frente.
— Sim, traga-me o barbeiro… — Acrescentou em seguida: — E a
manicure. Minhas unhas estão indecentes.
O capanga apressou-se a sair e Pharaoh foi para o chuveiro.
Pela primeira vez depois do terremoto sentia-se bem. Realmente bem. Estava de
volta a forma antiga, no controle total.
xx
O investigador Ramsey encontrava-se do lado de fora da casa
dos Jonas, com um policial de técnicas tirando fotografias da trilha de pegadas
na neve. Lá dentro, sentado numa poltrona com uma xícara de café nas mãos,
Avery Dawson ouvia atentamente o que Demetria tinha a dizer. Várias vezes ele
colocou a xícara de café sobre a mesinha e tomou notas. Num certo momento,
interrompeu-a para perguntar:
— Então, o que a senhora quer dizer é que está começando a
lembrar?
Demetria assentiu, olhou para Joseph que estava sentado ao
seu lado e tornou a voltar-se para o investigador.
— As lembranças vêm mais vezes a cada dia que passa.
— E a senhora está acusando Pharaoh Carn como o homem que a
seqüestrou a dois anos?
Ela fechou as mãos em punhos e escorregou um pouco mais para
a beira do sofá. Sua voz tremia, e balançava o corpo enquanto falava.
— A porta estava fechada. Joseph sempre a tranca quando vai
embora. Eles devem ter forçado a fechadura. Da cozinha, ouvi a porta abrir-se e
achei que meu marido tinha voltado para pegar alguma coisa que esquecera.
— O que aconteceu então? — indagou Dawson.
— Eu sorria quando eles entraram…
— Eles?— interrompeu o policial.
A princípio, Demi pareceu surpresa com as próprias palavras,
depois franziu a testa como se olhasse um quadro em sua mente.
— Sim, havia dois outros. Eram mais baixos do que ele, mas
muito musculosos. Pareciam iguais…
— Estavam vestidos do mesmo modo? — quis saber Dawson.
— Não, mas pareciam irmãos.
O policial assentiu e escreveu algo.
— E aí, o que aconteceu?
— Ele riu… Pharaoh, quero dizer. Disse que estava procurando
por mim fazia muito tempo. — Ela estremeceu. — Gritei e saí correndo…
Demi calou-se e fechou os olhos, lembrando-se da sensação de
ser erguida e empurrada contra a parede.
— E?
Ela abriu os olhos, vazios de qualquer expressão.
— Ele me pegou.
— Como consegui levá-la para fora da casa sem ser observado?
Começando a tremer, Demetria procurou a mão do marido, que
passou o braço pelos ombros trêmulos e apertou-a contra si. Ela tentou engolir
para desfazer o nó na garganta, depois respirou fundo.
— Não sei. A última coisa que me lembro é de ser mantida
contra o chão e de uma dor aguda no braço. Acho que me drogaram.
— Qual é a coisa seguinte de que se lembra? — quis saber
Dawson.
De novo o olhar dela ficou sem foco.
— Não tenho certeza. Era um avião. Lembro-me de entrar num
avião… — sacudiu a cabeça. — Sinto muito, mas minha mente está cheia de imagens
que se atrapalham. — Endireitou os ombros. — Mas as poucas imagens de que
consigo me lembrar sei que são verdadeiras. Pharaoh Carn levou-me embora da
minha casa. Creio que fui levada para uma enorme propriedade. Os campos ao
redor eram vastos e bem cuidados. Havia grades na janela do meu quarto e acho
que se não fosse o terremoto eu ainda estaria lá.
— Está bem — disse o policial. — Se eu fizer uma acusação a
senhora está disposta a testemunhar contra ele?
Só em pensar de ver de novo aquele homem revoltava o
estômago de Demi. Ela cerrou os dentes e olhou para o marido, atenta à força
que transparecia em seu rosto e ao amor que brilhava em seus olhos.
Ele assentiu.
Era a afirmativa silenciosa de que fosse o que fosse que ela
decidisse, Joseph estaria ao seu lado. Quando tornou a olhar para Avery Dawson,
o medo tornara-se decisão.
— Sim, estou disposta a testemunhar. Farei tudo que for
preciso.
— Então, vou dar inicio aos trâmites legais — declarou o
policial. Voltou-se para Joseph. — E vou passar sua teoria de
atropelamento-e-fuga para homicídio. É um tiro no escuro, mas não faz mal
cobrir todas as possibilidades.
— Obrigado, Dawson.
Soaram passos no hall e todos se voltaram para a porta
quando Ramsey entrou.
— Tiraram as fotografias? — perguntou Dawson.
— Sim — respondeu Ramsey. — Além de congelarmos encontramos
uma caneta-lanterna que alguém perdeu. — Ergueu o saco com uma lanterninha
dentro. — É de algum de vocês?
— Não — respondeu o casal ao mesmo tempo.
— Foi o que pensei — Ramsey tornou a guardá-la no bolso.
Demi ergue-se num impulso.
— Você aceita um café?
O jovem policial abriu um enorme sorriso.
— Sim, senhora, se não for incomodar.
— Venha comigo — convidou Demi -, acho que ainda temos umas
xícaras limpas.
— Traga-me uma também — pediu Dawson. — Temos de parar em
mais alguns lugares.
Assim que os dois saíram, Joseph levantou-se.
— Qual é a nossa chance de ganhar o caso?
Avery Dawson sacudiu a cabeça.
— Não vou mentir para o senhor. É pequena, muito pequena. Um
homem como Carn vai ter dúzias de álibis e de pessoas que jurarão por ele. A menos
que tenhamos uma evidencia física, vai ser duro. Isso se conseguirmos que
aceitem a acusação…
Joseph apertou os lábios e foi para a janela. Ficou lá,
parado, olhando a luz do sol sobre a neve. Um casal ia passando pela calçada,
conversando e rindo. A sra. Rafferty se achava no jardim de sua casa com uma
vassoura, procurando o jornal por baixo da neve. O vizinho dela da direita
estava no telhado, pendurando as lâmpadas de natal. Tudo parecia tão normal, no
entanto tudo estava tão errado! Um homem louco escondia-se em algum lugar,
observando todos os movimentos deles. Para onde esse homem havia ido? E quando
voltaria?
— É uma vizinhança simpática — comentou Dawson. — Difícil
imaginar um delinqüente andando por aqui.
Joseph enfiou as mãos nos bolsos e afastou-se da janela.
— É mesmo. Cresci nesta casa. Quando Demi e eu nos casamos
meus pais compraram outra, foram morar lá e alugaram esta para nós. Esses
vizinhos vêm fazendo parte da minha vida durante trinta e três anos. Nada
mudou, a não ser por casamentos, mortes de um e nascimento de outros.
— Sei o que quer dizer — disse o policial. — É bom conhecer
todo mundo ao redor. Mesmo que se torne um tanto monótono, é mais seguro.
— O que é mais seguro? — quis saber Demetria, entrando com o
café para Dawson.
— Esta rua, a vizinhança… — respondeu Joseph. — Eu dizia que
aqui nada muda.
— É verdade — concordou Demi -, a não ser pelos inquilinos
da sra. Rafferty.
Joseph ficou imóvel por instantes, depois aproximou-se da
janela de novo e observou a van cinzenta estacionada do outro lado da rua.
— O que foi? — interessou-se Dawson.
— Há um novo morador aqui faz dois dias.
— E daí?
— Daí que as únicas coisas que ele trouxe foram duas malas e
uma caixa.
— Não trouxe móveis? — estranhou o investigador.
— O apartamento é mobiliado — informou Demi.
— Iremos verificar — garantiu Dawson — , mas não é proibido
viajar com pouca bagagem.
— Tem razão — concordou Joseph. — Acho que estou tirando
conclusões apressadas.
— Eu diria que o senhor esta sendo cuidadoso e não posso
censurá-lo, diante das circunstâncias.
Pouco depois os policiais se despediram e saíram.
Joseph notou a expressão abatida da esposa e sugeriu:
— Vá deitar-se, meu amor.
Ela endireitou os ombros.
— Não quero discutir com você, mas não estou doente, apenas
esquisita.
— Então, leve a sua esquisitice para a cama — brincou Joseph,
fazendo-a ir para o quarto. — Talvez você consiga dormir um pouco. Vou
telefonar para meu pai; há umas coisas que preciso fazer, mas não vou deixá-la
sozinha.
Demetria não discutiu. Não podia. Atordoada, sentia que
estava prestes a ver-se naquele lugar onde todo pensamento cessava e a pessoa
sentia-se numa espécie de limbo.
xx
Simon Law andava de um lado para o outro. Estava nervoso
desde que acorda com o dia já claro, naquela manhã. Praguejou em voz alta e foi
até a janela, espiando por uma pequena fresta da cortina. Os tiras ainda
estavam lá.
— Mas que droga!
Pharaoh não ia gostar daquilo, pois recomendara-lhe que
ficasse quieto, que não fizesse nada. Mas ele quisera ter uma idéia da distribuição
da casa e parecera-lhe uma boa idéia aproveitar-se da escuridão da noite. Como
podia adivinhar que a maldita neve ia deixar de cair?
Espiou de novo para fora e acalmou-se um pouco. As pegadas
terminavam na calçada em frente da casa dos Jonas. Não havia como suspeitarem
dele. Observou sua van. Estava limpa. Certificara-se disso. O carro que usara
para o atropelamento-e-fuga na noite anterior fora roubado meia hora antes de
fazer o serviço e depois o largara no centro da cidade, perto de um bar. As coisas
haviam sido feitas de acordo com o planejado. Se a maldita neve não tivesse
parado de cair, tudo estaria perfeito.
Não. Pharaoh não poderia censurá-lo por isso. Quem podia
adivinhar o que fariam as forças da natureza
Tentou relaxar.
Calma, pensou, as pegadas não querem dizer nada. Mas quando
viu os policiais vindo na direção da casa onde estava, entrou em pânico. Sem
pensar, vestiu o capote, pegou o celular e saiu do apartamento pela porta que
dava para a escada de incêndio, atrás da construção. Segundos depois, saltava a
cerca baixa e corria pela lateral, enquanto Dawson e Ramsey batiam à sua porta.
Esperaram pela resposta, depois bateram de novo com mais
força.
— Acho que ele não está em casa — sugeriu Ramsey.
Dawson olhou para a van estacionada na rua.
— O carro dele é essa aí, e está frio demais para um passeio
a pé. Por que não conversa com a dona da casa, enquanto dou uma espiada por
aqui?
Ramsey assentiu e desceu a escada. Dawson fez o mesmo, só
que em vez de ir para a garagem, deu a volta nela. Quando viu as pegadas na
neve que se afastavam da casa ficou pensativo por alguns momentos. Estava
desconfiado por ver que as marcas indicavam que o homem saltara a cerca e
correra pelo caminho lateral entre as duas casas, em vez de ir normalmente pela
rua. Era policial havia tempo demais para não perceber quando uma coisa
cheirava mal.
Voltou para a frente da casa, aproximou-se da van, anotou o
número da placa e foi para o seu carro. Falava com a chefatura quando Ramsey
juntou-se a ele.
— O que ela disse? — perguntou Dawson.
Seu parceiro sacudiu os ombros.
— Nada que possa ajudar. Pôs anúncio no jornal, o homem
respondeu e alugou o apartamento pelo prazo de um mês a renovar, se for o caso.
O nome dele é Peter Ross.
— O que ele faz para viver?
— O homem não falou e ela não perguntou. Disse que precisa
do dinheiro do aluguel para seu orçamento dar até o fim do mês e que quando os
inquilinos são sossegados e pagam em dia, não quer saber de mais nada.
— Hum… — resmungou Dawson. — Passei a placa e a descrição da
van para verificação. Estará em minha mesa quando chegarmos à delegacia.
— O que você acha?
Dawson apoiou os cotovelos no volante e olhou da casa dos Jonas
para o apartamento sobre a garagem. Depois olhou ao inverso.
— Acho que seria fácil demais assumir que esse homem novo
nas vizinhanças tenha vindo para espiá-los.
— É o que eu estava pensando também — concordou Ramsey.
— Mas também cheguei à conclusão de que andei assumindo
demais antes, e veja o que aconteceu… Eu seria capaz de apostar a minha
aposentadoria que Joseph Jonas havia matado a esposa. — Deu uma olhada para o
parceiro e ligou o motor do carro.
— Ainda bem que não apostei. Teria perdido meu dinheirinho
da pensão para sempre.
Algumas quadras adiante, Simon Law deteve-se para respirar.
Em seguida pegou o telefone, digitou o número e esperou pela voz do chefe.
xx
A manicure era pequena e jovem, suas feições orientais,
delicadas e bonitas. Mas Pharaoh não estava interessado em que ela fizesse nada
por ele além das unhas. Alejandro sempre dizia que a inteligência de um homem
pode ser avaliada pela sujeira embaixo de suas unhas. E ele não queria dar ao
chefão nenhum motivo de dúvida.
Inclinou-se para trás na poltrona e fechou os olhos,
saboreando o prazer que a suave massagem nos dedos e o leve respirar da
manicure lhe proporcionavam. Então, o telefone tocou e ele demonstrou irritação
com uma praga.
— Duke, pegue o recado.
Os movimentos de Needham eram fluidos ao aproximar-se da
escrivaninha do chefe.
— Aqui é Duke Needham.
Simon sentiu um arrepio na espinha.
— Sou eu, Duke, Simon. Tenho um probleminha aqui. Preciso
falar com Pharaoh.
Duke hesitou:
— Chefe…
As sobrancelhas grossas de Pharaoh franziram-se
perigosamente.
— Droga! Eu disse para pegar recado!
— É Law. Parece que ele tem um problema.
Pharaoh deu um salto, e a manicure, que no momento cortava
uma cutícula, feriu-lhe o dedo.
— Droga, mulher, tome cuidado!
A moça empalideceu.
— Sinto muito sr. Carn. Desculpe-me, por favor… Vou ser mais
cuidadosa.
— Saia daqui! — berrou ele, indicando a porta. — Duke, leve
essa mulher para fora. Tenho negócios a tratar.
No instante seguinte, Pharaoh achava-se sozinho.
— É Carn — disse ao telefone.
Simon começou a suar frio, apesar de seus pés estarem
gelados e o nariz escorrendo. Passou-lhe rapidamente pela cabeça como a fazenda
do pai era boa e como era tranqüila a vida que levava lá.
— Tive um pequeno problema — disse, afinal — e preciso ir
embora do apartemento.
— Que problema?
Law arrepiou-se de novo. Preferia que o chefe xingasse,
gritasse, em vez de falar daquele modo calmo e macio, com uma polidez fora do
comum.
— Jonas chamou a policia. Os tiras ficaram na casa dele por
algum tempo e ao sair atravessaram a rua, vindo para o meu apartamento.
— Por quê? — indagou Pharaoh. — Eles não iriam ao seu
apartamento sem algum motivo.
O bandido hesitou, depois despejou tudo de uma vez.
— Ontem à noite eu chequei a casa, entende? Eles tem um
sistema de alarme. Vai ser duro conseguir entrar. Estava bem escuro e todos
dormiam… Eu não fiz nada, a não ser examinar as janelas. Você disse para eu
ficar de olho nelas, lembra?
Pharaoh aspirou ruidosamente o ar e fechou os olhos,
obrigando-se a manter a calma.
— E também disse para você ficar quieto.
— É, mas eu pensei…
— Não pago você para pensar, pago para cumprir ordens.
— E eu cumpri, chefe. A paguei aquele investigador
particular, do jeito que você me disse.
— E agora vão pegar você — ironizou Pharaoh.
— De jeito nenhum! — reagiu Simon. — Quero dizer, pelo
menos, acho que não.
— Então, por que eles estão aí?
O arrepio desceu mais uma vez pela espinha de Simon.
— As pegadas. Dá para ver que andei ao redor da casa. —
Praguejou várias vezes. — Como diabo eu ia adivinhar que a neve ia parar de
cair? Estava nevando desde que cheguei aqui. — Fez uma pausa e acrescentou: —
Mas eles não podem descobrir que as pegadas são minhas, porque param na
calçada.
A raiva cresceu de tal maneira que Pharaoh tremia.
— E você, seu grande idiota, tinha que ser a primeira pessoa
investigada, já que é novo nos arredores.
A voz de Law soou fraca.
— O que devo fazer?
Pharaoh consultou o relógio.
— Sabe onde é a estação rodoviária?
— Não, mas descubro.
— Esteja lá dentro de duas horas. Alguém estará à sua
espera.
Foi impossível Simon conter o suspiro de alivio.
— Obrigado, chefe… e sinto muito. Não vai acontecer de novo.
Desligou e o som da linha soou no ouvido de Pharaoh.
— Pode ter certeza disso — afirmou ele com voz macia e
colocou o fone no lugar.
Cumprindo a palavra, Simon Law entrou na estação rodoviária
cinco minutos antes da hora marcada e olhou atento a multidão que se
movimentava. Não reconheceu ninguém, porém não tinha importância. Chegara um
pouco cedo e precisava ir ao sanitário.
Seus passos ecoaram no enorme e vazio recinto ladrilhado
quando se aproximou da parede onde ficavam os mictórios. Começava a descer o
zíper de sua calça e a porta atrás dele se abriu. Virou a cabeça e sorriu ao
reconhecer o homem que entrava.
— Olá, Paulie! Um segundo e já vou estar junto com você.
— Não tenha pressa.
Enquanto respondia, Paulie aproximou-se por trás dele e
cortou-lhe a garganta.
Simon desabou no chão, morto antes de poder gritar.
~
Meninas! Como vão? Eu vou bem! Passaram bem o Natal? Ganharam muitos presentes? A propósito, feliz Natal! Sobre a maratona, eu estou disposta a fazer, mas tenho q dizer q n tenho ideia de qual será a próxima história asjfdshgsdaf
Mesmo assim, vcs topam? A maratona seria com os 3 capítulos restantes + o epílogo!
Comentem com a resposta!
Vou indo...
Beijos, amo vcs ♥




