21.12.14

Remember Me - Capítulo 12

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O som da televisão do hotel soava baixinho, como pano de fundo. Demetria ria da mussarela de pedaço de pizza de Joseph que se esticava, quando ele a levava à boca. O telefone tocou. Sobressaltada e ansiosa, ficou olhando para ele, que colocou a fatia de volta na caixa da entrega e foi atender ao telefone. Ela acionou o comando mute da tevê, quando o marido começou a falar.
— Jonas…
Avery Dawson passou o receptor para a outra orelha.
— Recebi seu recado. O que há?
— É Dawson — disse Joseph para Demi apenas movimentando os lábios, sem emitir voz, em seguida pegou suas anotações. Não queria esquecer-se de nada.
— Muita coisa — respondeu.
— Onde o senhor está? — quis saber Dawson.
— Ainda em Albuquerque. Descobrimos uma porção de coisas que você vai achar interessante.
— Estou ouvindo…
— Conversamos com Adeline Bell, a administradora de Kitteridge House, o orfanato onde Demetria cresceu. Parece que havia lá um menino que era obcecado por ela, desde sua chegada, aos quatro anos, até quando foi preso.
— Obcecado, é? — observou o investigador.
— O termo não é meu — esclareceu Joseph, com as sobrancelhas erguidas -, é de Adeline Bell. Vou lhe dar o telefone e poderá conversar com ela pessoalmente. Mas adianto que a administradora não pintou um quadro muito saudável das amizades deles, se é que me entende.
— Entendo, sim — garantiu o policial. — Então, ele foi preso. Por quê?
— Não sei… Mas a srta.Bell disse que quando foi solto Demi fizera dezoito anos e havia saído do orfanato. Ele fez o maior estrago na sala dela quando soube que ninguém sabia para onde Demi tinha ido.
— E quando foi isso?
— Demi deixou Kitteridge há pouco mais de oito anos, mas não sei quando ele saiu da prisão. Tudo que sei com certeza foi que apareceu lá à procura dela.
— Sim, porém…
— Há mais — interrompeu Joseph. — Demetria disse que não se lembrava desse rapaz, o que surpreendeu a srta.Bell. No entanto quando viu uma fotografia dele quando garoto minha mulher desmaiou.
A essa altura Avery Dawson passou a prestar mais atenção.
— Hum… Ela identificou nele o homem que a seqüestrou?
Joseph hesitou.
— Não, porque não lembra nada desse fato. Tudo que se recorda do seqüestrador é que tem uma tatuagem no peito.
— Sim, aquela cruz egípcia… — Dawson fez uma pausa. — Olhe, sr.Jonas, sei que esses fatoo parecem promissores e vou investigá-lo. Mas o senhor sabe que não podemos levar o caso adiante sem uma evidencia física.
Joseph evitou olhar para a esposa. Sabia que se ela percebesse que o policial não estava entusiasmado com as informações iria ficar decepcionada, e não queria isso, depois do dia difícil que ela tivera.
— Sim. Sabemos — respondeu. — No entanto, agradeceríamos se você verificasse esse homem. Ele tem ficha na policia e não deve ser difícil localizá-lo.
— Claro. Como é o nome dele?
— Pharaoh. Pharaoh Carn.
Dawson aprumou-se na cadeira.
— Não o Pharaoh Carn! — exclamou.
— Você o conhece? — animou-se Joseph.
Demi inclinou-se para a frente, atenta, o pedaço de pizza esquecido na mão.
— O que foi?
Joseph aproximou-se da esposa e segurou o receptor do telefone de modo que ambos pudessem ouvir o que Dawson dizia.
— Não posso dizer que o conheço pessoalmente, mas sei a respeito dele. No entanto é preciso saber se o Carn de que o senhor fala é o mesmo que estou pensando.
— O que há de tão especial com esse Pharaoh Carn?
— Eu não diria que ele é especial — contrapôs o investigador — , mas sim notório.
A pulsação de Demetria acelerou-se e seus olhos se tornaram maiores.
— O que ele fez? — indagou Joseph
— Nada que a lei possa aprovar. Em determinados círculos, é conhecido como o homem numero um de Pepe Alejandro.
O estômago de Joseph contraiu-se.
— Alejandro… o chefão da família do crime na Califórnia?
— Esse mesmo. Meu Deus, sr.Jonas! Caso se trate mesmo dessa gente vocês dois estão em sério perigo.
— Há mais uma coisa, Dawson. Duas semanas antes de Demetria despaarecer a Associated Press divulgou uma fotografia dela. Nada demais, apenas a foto de uma moça bonita sob a chuva, que foi publicada em todos os jornais do pais. Ela acha que foi assim que ele a encontrou.
— Por que não me disseram isso antes? — aborreceu-se o investigador.
— Porque nem nos lembramos do fato e mesmo que nos lembrássemos não iríamos achar que tinha ligação… Quando acha que pode ter alguma noticia?
De repente, Demi soltou da cama e foi para o banheiro. Joseph ficou indeciso entre acompanhá-la e terminar a conversa com o policial .
— Tenho que fazer umas verificações — respondeu Dawson. — Precisamos descobrir onde Pharaoh Carn cresceu, onde esteve durante os dois últimos anos e, o que é primordial, onde está agora.
— Está bem… Voltaremos para Denver amanhã.
— Telefone-me assim que chegar — pediu Dawson. — Se eu descobrir alguma coisa, precisaremos discutir as opções. O revólver que sua esposa comprou não irá resolver nada, caso o cartel de Alejandro esteja envolvido. Seria como tentar deter elefantes com amendoins.
— Entendo…
A esperança de Joseph continuava a diminuir. Saindo da cama acrescentou:
— Ei, Dawson.
— Sim?
— Ande logo, está bem?
— Pode deixar…
O policial desligou. Joseph recolocou o telefone na mesinha de cabeceira e foi para o banheiro.
Demetria estava sentada na beira da banheira, com os cotovelos apoiados nas coxas e o rosto nas mãos. Havia uma toalha molhada no chão, juntos aos pés dela.
— Meu anjo… você está bem?
Ela ergueu a cabeça.
— Tive impressão que ia morrer.
— Está melhor, agora?
Demi fez que sim.
— Venha deitar-se.
Ele ajudou-a a ir para a cama, depois deitou-se ao seu lado. Ela tremia incontrolavelmente, e toda vez que o marido tentava tocá-la, se retraía.
— Demetria, não lute contra mim — pediu Joseph. — Estou do seu lado, lembra-se?
O rosto dela contraiu-se.
— Oh, Joseph… Meu Deus!
— Não chore, meu bem. Tudo vai dar certo.
— De que jeito? — soluçou ela. — Eu ouvi Dawson… ¨Ele¨ é um homem perigoso.
— Mas não sabemos se o rapazinho que gostava de você é o mesmo homem envolvido com Alejandro. E mesmo que seja, não quer dizer que ele a tenha seqüestrado.
Demi riu amargamente.
— Por favor, Joseph! Quantos Pharaoh Carn você acha que há nos Estados Unidos?
Ele teve que ficar quieto. Não podia negar que a raridade daquele nome restringia muito a possibilidade de haver mais de um. E o fato de ela não ter sido fisicamente maltratada durante aqueles dois anos de ausência levava à teoria de que, por mais discutível que fosse a atitude, quem a sequestrara preocupava-se com seu bem-estar. Isto encaixava com o perfil que Adeline Bell fizera do jovem.
— Eu quero saber a verdade, você não? — perguntou Joseph.
Demetria imobilizou-se, o rosto molhado de lágrimas, os olhos brilhantes de raiva.
— Você acha que é capaz de encarar a verdade, Joseph?
— O que você quer dizer?
Ela rolou para longe dele e saiu da cama, incapaz de olhá-lo de frente.
— E se eu fui… E se ele…
A voz de Joseph soou repassada e ódio.
— Você quer dizer se vocês tiveram sexo? Pelo amor de Deus, Demetria! Acha que não pensei nisso um milhão de vezes desde a sua volta?
— É que não falamos sobre isto e…
— Acha que eu iria julgá-la por circunstancias fora do seu controle, querida?
Ela não respondeu.
— Olhe para mim, droga!
Demi olhou e a voz dele suavizou-se.
— Se você tivesse sido atacada na rua e estuprada, acha que eu deixaria de amá-la?
— Não, mas…
— Não há ¨mas¨— sussurrou ele. — É a mesma coisa. O que quer que tenha acontecido com você não foi sua culpa. Só temos que fazer tudo para que não aconteça de novo.
— Estou com medo, Joseph.
— Eu também, meu anjo. Mas enquanto tivermos um ao outro seguiremos adiante.
A voz dela ainda tremia.
— Se esse criminoso é o mesmo homem que conheci quando criança e se foi ele que me seqüestrou, estaremos numa encrenca, não?
— Não vou mentir para você, Demi… Se for esse o caso, não será fácil nos protegermos. Mas vamos conseguir. Se for ele, mesmo, temos uma vantagem que não tínhamos.
— E qual é essa vantagem?
— Sabemos quem e como ele é.
— Mas, Joseph, pessoas assim encarregam malfeitores de fazer os trabalhos sujos. Ele não vai agir pessoalmente e não temos como nos prevenir contra estranhos. Poderá ser qualquer um.
— Então, vamos nos esconder, Demetria. Pelo menos, até a sua memória voltar ou até que a policia consiga uma evidência e o prenda.
Demi hesitou, a idéia de esconder-se não a agradava.
— Não sei… — murmurou. — E se nada acontecer?
— Vai acontecer e, enquanto isso, confie em mim para protegê-la.
Por fim, ela voltou para a cama e atirou-se nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito.
— Faça amor comigo, Joseph. Faça todo esse horror ir embora.
— Abracadabra — disse ele, com suavidade e beijou-a.
E foi mesmo uma mágica.
O beijo aprofundou-se e durou até que a cabeça de Demi começou a girar e seu coração ficou em fogo. Respirava com dificuldade e implorava que Joseph a possuísse, porém ele não o fez. Suas caricias eram ternas e enlouqueciam.
— Joseph…
— Ainda não, Demetria.
Ela suspirou.
Então, ele distanciou-se e por uma fração de segundo o movimento inesperado a surpreendeu. Mas antes que reclamasse ele a virou gentilmente, deitando-a de bruços.
— O que você…
Claou-se porque Joseph começou beijando-lhe a sola dos pés, depois a parte de trás das pernas. Quando chegou atrás dos joelhos ela gemeu.
— Joseph…
— Psiuuu.
Demi fechou os olhos e entregou-se ao prazer de senti-lo. Às vezes era um toque com os lábios, com a língua; outras vezes a mordia de leve. Quando as caricias chegaram ao alto das coxas, ele a fez abrir as pernas e deitou-se em cima dela. Demi poderia sentir-lhe o peso, mas a única coisa que sentia era o amor. As mãos dele deslizaram sobre suas costelas, para a frente, e envolveram os seios. Tocou-lhe os mamilos até que eles ficaram duros e doloridos. A respiração dela tornou-se pesada, aos arrancos, e sentia-se desmanchar.
Então, ele acariciou-lhe os cabelos e, em seguida, ela sentiu o toque quente e úmido de usa língua na nuca, depois na face e, em seguida, na tatuagem.
Demetria gemeu e ouviu o marido rir.
Com uma das mãos sobre os seios dela e outra no ventre, ele rolou, ficando de lado e trazendo-a consigo. Antes que o mundo de Demi parasse de girar, a mão que estava sobre o ventre desceu até chegar entre as coxas.
A respiração dela estancou, então a voz cálida de Joseph vibrou junto ao seu ouvido.
— Calma, meu anjo… apenas procure sentir. Vou levá-la aonde você quer ir.
E começou a mover de leve a mão, no começo, depois mais depressa e apertando-a mais contra o sexo dela, até que Demi sentiu-se arrebatar por um prazer jamais sentido, Tudo desapareceu, inclusive a mente dela.

xx

Duke Needham soltou um suspiro de alivio ao desligar o telefone. Não tinha sido fácil encontrar homens que não apenas quisessem seguir suas ordens, mas que fossem também capazes de realizá-las. Mas ele não desistira. Não tinha intenções de ser o portador de más noticias e acabar, como Stykowski, com um tiro no meio da testa. Foi para a sala de ginástica esperando que a notícia melhorasse o humor do chefe.

(...)

Os cabelos de Pharaoh estavam molhados de suor, assim como a camiseta e a calça de abrigo que vestia. Os músculos de suas pernas ardiam, enfraquecidos pela forçada inatividade. Seu coração saltava como se houvesse corrido quilômetros, quando na verdade andara apenas dois. Observou com mais atenção o mostrador digital da esteira, certo de que não estava funcionando bem, e andou por mais alguns minutos. Não tolerava fraqueza, muito menos em si mesmo.
Saíra do hospital fazia uma semana. De acordo com os médicos sua recuperação ia bem, até mesmo além das expectativas, mas não suficientemente depressa para ele. No seu mundo era perigoso estar fraco.
Procurou pensar em algo diferente, recusando-se a prestar atenção aos músculos trêmulos e doloridos.
Saber o que acontecera com Demetria era todo o incentivo que precisava para sentir-se melhor.
Era irônico que os policiai de Los Angeles que tinha em sua folha de pagamento não pudessem ajudá-lo naquela situação. Iniciar uma busca ou fazê-lo ficar sabendo qualquer coisa sobre a presença daquela mulher na vida de Pharaoh seria envolvê-los diretamente no seqüestro. Em circunstancias normais, um ou dois deles poderiam investigar sobre Demetria sem levantar suspeitas. Mas aqueles não eram tempos normais. A Terra tinha virado de cabeça para baixo e rachado, havia destruído e
matado. E Pharaoh não podia dar parte de como desaparecida uma mulher que ele sequestrara.
Apertou os dentes e diminuiu a velocidade dos passos ao pensar nos dois últimos anos. Visualizara o reencontro deles como uma cena de cinema, ao vê-lo ela cairia em seus braços, jurando eterna devoção. Em vez disso, Demetria gritara de medo e tentara fugir. Pharaoh a agarrara, então, e a fizera lembrar-se de que jurara tomar conta dela e que pertencia a ele. Mas ela discutira, respondendo que não pertencia a ninguém a não ser a Joseph.
Fora aí que ele cometera o erro. Batera nela. Não importava quantas vezes pedira desculpas depois, ela estremecia até ao vê-lo e evitava contato com ele. E quando a tristeza dela o emocionava, Pharaoh resistia tornando uma questão de orgulho não enfraquecer. O fato de Demetria não o querer era quase secundário diante do fato de ele não poder deixá-la ir embora. Tudo que era bom retornara no momento em que ela reaparecera em sua vida. Demetria se tornara não apenas importante para o seu coração. Como também para sua sorte. E como o pássaro na proverbial gaiola de ouro, ela poderia ter tudo que o poder e o dinheiro podiam comprar, menos o que mais queria: a liberdade.
— Sua maldita! — praguejou Pharaoh quando suas pernas falharam de repente.
Procurou segurar-se no apoio mas caiu. O solo aproximou-se de seu rosto quando parou abruptamente. Aturdido e desorientado, amparou-se na parede quando Duke, que o segurara, colocou-o em pé.
— Leve-me para o sofá — resmungou.
— Sim, senhor.
Duke passou um braço pela cintura dele e quase o carregou ao sofá mais próximo.
— Quer que chame a enfermeira? — perguntou.
— Não, a não ser que você esteja cansado de respirar — zangou-se Pharaoh.
O capanga empalideceu. Mesmo fraco como estava, o chefe ainda lhe inspirava medo.
— Vou trazer-lhe um copo com água…
Pharaoh respirou fundo enquanto Needham aproximava-se do bar. Inclinou-se para trás e fechou os olhos, ouvindo o tilintar de cubos de gelo, depois o som de água caindo num copo.
— Aqui está, chefe.
Pegando o copo, ele observou friamente o rosto sem expressão de Duke. Se visse piedade… Grunhiu um ¨obrigado¨ e levou o copo aos lábios. Duke esperou para dar a noticia.
Ocorreu a Pharaoh, enquanto bebia a água, que a chegada do assecla havia sido mais do que fortuita. Seus homens sabiam que não deviam perturbá-lo quando se exercitava. Colocou o copo na mesinha ao lado e olhou para Duke.
— Para que veio aqui?
— Boas notícias, chefe. Nós a encontramos.
O rosto de Pharaoh brilhou.
— Onde?
O capanga hesitou por instantes, porém não podia fugir da verdade.
— Onde o senhor desconfiou que estivesse… em Denver.
Pharaoh não disse nada, mas gritava por dentro. Ela estava viva… e ia voltar para ele.
Foi então que pensou melhor. Ela tinha ido para casa, mas não dissera nada. Se tivesse falado, a policia já o teria procurado.
— O que mais? — perguntou.
— Não sei detalhes, mas disseram que ela está sofrendo de amnésia.
Recostando-se no sofá, Pharaoh compreendeu que era por isso que ele ainda estava ali e não num tribunal respondendo a um processo.
— Quer que a peguemos de novo, chefe?
— Não! — irritou-se Pharaoh. Não queria que ela a visse daquele jeito, fraco e indefeso. — Ainda não… — acrescentou.
Duke sacudiu os ombros. Para um homem que ficara fora de si imaginando o que teria acontecido com aquela mulher ou se ainda estava viva, Pharaoh demonstrava pouco interesse. Mas não cabia a ele julgar. No que lhe dizia respeito, as coisas ficavam bem melhores sem a presença dela.
— Sim, senhor — disse.
Ia retirando-se quando o chefe o chamou.
— Senhor?
— Quero que Law vigie a casa dela durante vinte e quatro horas por dia. Entendeu?
— Sim, senhor. Vigilância contínua.
Pharaoh esperou Duke sair para erguer-se do sofá e ir para seus aposentos, na ala oeste da casa. Quando chegou ao quarto suava profusamente, mais por causa da dor. Com uma praga silenciosa, tirou a roupa e foi para o chuveiro.
O banheiro também era um exemplo de desenho arquitetônico. Vidros de garrafa como tijolos, em vez de janelas e ladrilhos espelhados, do piso ao teto. Plantas verdes pendiam do teto, outras espalhavam-se em vasos pelo chão. As toalhas eram brancas, com barrados de arabescos dourados, e nas saboneteiras havia sabonetes amarelo-ouro em forma de pirâmides.
Assim que entrou o reflexo de sua nudez atingiu-o de todos os ângulos. Se bem que sua constituição de um metro e oitenta e três fosse esguia e firme, as cicatrizes recentes dos ferimentos apresentavam um tom de vermelho-escuro feio e ainda havia hematomas violáceos na região das costelas. Apesar do trauma evidente que sofrera, a primeira coisa que ele reparou foi a pequena tatuagem no centro do peito. Aproximou-se do espelho, mais perto ainda, até que pôde ver o palpitar da pulsação na base da sua garganta.
Aquela tatuagem era uma piada.
Eternidade.
Demetria não conhecia o sentido dessa palavra. Espalmou a mão por cima da tatuagem, sentindo as batidas do coração na palma.
Queria que ela o amasse como a amava. Queria que tivesse devoção por ele. Mas não ia consegui-lo, a não ser que agisse do seu jeito. Teria Demetria de volta, nem que para isso precisasse matar o marido dela. Mas, primeiro, tentaria pelo bem.

xx

— Como assim, não sabe onde ele está?
O investigador Dawson assentiu.
— Pois é… O senhor precisa compreender, há coisas mais importantes a serem feitas em Los Angeles do que descobrir onde está um homem. É um verdadeiro caos. Os serviços de emergência não estão dando conta do recado, por mais que se esforcem. Há áreas da cidade para onde o povo não pode voltar, por enquanto. Ainda estão encontrando uma ou outra vítima. O terremoto foi o pior dos últimos anos. Foi de 7.6 na escala Richter, não é?
— Alguma coisa assim — respondeu Joseph.
Preocupado, olhou para Demi. Estranhamente, ela parecia mais calma do que ele.
— Então, o que você sabe? — perguntou.
Dawson verificou a pasta aberta em sua mesa e inclinou-se para a frente, tomando nota mental de que precisava ir a um oculista. Nos últimos meses a escrita vinha se tornando embaçada.
— Bem… Pharaoh Carn, do cartel de Alejandro, foi criado em Albuquerque, Novo México, no orfanato Gladys Kitteridge House. Estava trabalhando lá quando foi detido por roubo e condenado a cinco anos de prisão.
— Depois disso… — perguntou Demi — para onde ele foi depois disso?
O investigador remexeu nas folhas de papel.
— Hum… A noticia seguinte que temos dele é que foi detido por assalto em Orange County. — Dawson ergueu os olhos. — Na Califórnia. — Voltou a ler. — Porém, desta vez não puderam comprovar sua culpabilidade. Em
seguida começou carreira no cartel, fazendo entregas e cobranças aqui e ali. Em poucos anos tornou-se um dos homens que dão ordens, em vez dos que a recebem.
Demetria estremeceu.
— Esquisito pensar que conheço uma pessoa assim.
Dawson assentiu.
— É… entendo o que quer dizer. Um dia, dez anos atrás, eu e meu parceiro estávamos trabalhando em narcóticos e estouramos um ponto de drogas. Quando entramos na casa foi muito esquisito para mim prender o homem que havia sido meu professor.
Joseph não estava interessado no passado do policial. Era o de Demetria que o estava fazendo perder o sono.
— Então, o rapazinho obcecado por Demi é hoje um dos chefes do sindicato do crime.
— Isso mesmo. — O investigador avaliou Demi com o olhar. — Não lembrou de mais nada pertinente ao caso?
O desanimo espelhou-se nos olhos de Demi.
— Não.
Joseph passou-lhe um braço pelos ombros e achegou-a a si.
— Não faz mal, meu anjo. Vai lembrar. — Voltou-se para Dawson.— Não é o caso de verificarmos os passos de Carn durante o tempo que Demetria ficou desaparecida?
O policial fez uma careta.
— Sr.Jonas, se fosse fácil investigar a vida de um lixo como Carn, ele estaria atrás das grades há muito tempo. Estamos de mãos amarradas por enquanto, a menos que sua esposa se lembre de alguma coisa especifica que o ligue ao seqüestrador.
— E o terremoto? — perguntou Demi. — E a tatuagem?
O tom de Dawson foi o de um pedido de desculpas.
— Olhe sra.Jonas, a senhora apenas pensa que houve um terremoto. Não se lembra com exatidão. E apenas pensa que o homem que a seqüestrou tem no peito uma tatuagem igual à que a senhora tem no pescoço. Talvez esteja apenas se lembrando do homem que conheceu quando criança. Talvez ele esteja mesmo envolvido com o verdadeiro homem que a seqüestrou. Entende o que quero dizer?
Demetria sentiu ímpetos de gritar, porém murmurou apenas:
— Não é justo…
— Não, não é — concordou o investigador. — Mas é só a senhora me dar algo sólido e caio sobre aquele criminoso como a mosca sobre o mel.
Ela ergueu-se num repente.
— Joseph, não acha que está na hora deixarmos o investigador Dawson sossegado para que possa fazer seu trabalho?
Joseph suspirou. Demi estava zangada, e não podia censurá-la por isso. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Avery Dawson levantou-se também.
— Sra.Jonas, sei que o que eu disse não foi o que a senhora queria ouvir. Honestamente, creio que há qualquer coisa nisso tudo, mas até que Carn seja localizado e interrogado…
Ele calou-se e sacudiu os ombros.
A irritação tornava a voz dela um tanto aguda.
— Eu sei. Tudo o que tenho a fazer é ficar quieta, esperando que outro raio caia na minha cabeça.
— Se a senhora fosse minha esposa, eu a convidaria para fazer uma viagem… uma viagem muito longa.
O rosto de Demetria ficou vermelho.
— Eu não vou fugir — disse devagar. — Quero ir parar no inferno se deixar que um maníaco altere a minha vida. Quando ele voltar… e acredito que voltará… eu estarei esperando.
— A escolha é sua — anuiu Dawson.
— E ela é minha esposa! — Joseph olhou para Demi, o medo alterando seu bom julgamento.— Talvez devêssemos…
— Não. Não vou me mexer daqui. Se ele quiser me alcançar de verdade, com certeza me descobrirá onde eu estiver.
Joseph ficou pálido.
— Meu Deus, Demetria! Não está usando a si própria como isca, está?
— A vida é minha, Joseph, e eu a quero de volta.
Havia um nó no estômago de Joseph, mas sabia que não adiantava discutir quando ela estava daquele jeito. Murmurou apenas:
— Depois vamos conversar a respeito.
O olhar de Demi lhe dizia que ele poderia conversar o quanto quisesse, mas ela não ia mudar de idéia.
— Vou solicitar que um carro-patrulha fique de vigia diante de sua casa durante o dia inteiro.
O olhar que ela deu a Dawson não foi muito melhor.
— Obrigada por sua paciência, mas duvido que viremos incomodá-lo outra vez
Algum tempo depois que o casal havia saído da delegacia, as palavras de Demetria ainda ecoavam nos ouvidos do policial. Ele tentou voltar ao relatório que fazia, mas apanhava-se a todo momento pensando no revólver que ela comprara.
Sacudiu a cabeça, frustrado. Às vezes aquele trabalho era mais do que ele podia suportar.


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Heeeeey! Sei q n apareço aq tem tempos, mas eh pq eu estava com mt preguiça asghdsf Agradeçam a minha volta a Mari q me ensinou um jeito de adaptar nada trabalhoso e super fácil *risos*
Comentem... Eu nem deveria cobrar...
Aliás, foi meu aniversário dia 20, algm quer bolo?
Beijos, amo vcs ♥

17.12.14

Remember Me - Capítulo 11

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Quando chegaram a Kitteridge House, Demi recostou-se no assento, deixando-se levar pela onda de lembranças. A primeira vez que passara pelo aquele portão alto não era grande o bastante para enxergar pela janela do carro. Lembrava-se dos galhos nus das árvores, erguendo-se para o céu como braços de um esqueleto. Sentira medo. Tudo que confirmara sua identidade desaparecera: seus pais, sua casa, até mesmo seus brinquedos. As únicas coisas que tinham deixado levar eram suas roupas, um ursinho de pelúcia e seu cobertorzinho.
Suspirou. Pelo que lembrava, o cobertorzinho não durara muito tempo. Um dia ele fora para a lavanderia e nunca mais voltara. Quando crescera, muitas vezes se perguntara se não o tinham tirado dela para libertá-la do passado ou se ele havia mesmo sido perdido na lavanderia, como lhe tinham dito.
— Você está bem? — perguntou Joseph.
Demetria anuiu, mas a preocupação em seu rosto era tocante.
— Estou bem — disse baixinho -, só um pouco triste.
Ele assentiu, lembrando-se de si mesmo aos quatro anos de idade e tentando colocar-se no lugar dela. Era-lhe impossível imaginar a devastação que significava a perda da mãe e do pai; chorou intimamente pela pequena que ela havia sido.
A alameda iniciou um circulo e Joseph diminuiu a velocidade para percorrê-lo. Impressionou-o pensar que Demi estava voltando a Kitteridge House mais ou menos do mesmo modo como chegara ali da primeira vez. Naquele tempo ela perdera os pais, agora perdera os dois últimos anos de sua vida. Este trauma era quase tão forte quanto o outro.
— Como é grande! — admirou-se, vendo com olhos de construtor os edifícios que compunham o orfanato.
— E antigo — acrescentou Demi.
Os jardins cuidadosamente mantidos tinham mais ou menos o estilo do sudoeste do país, se bem que se espalhavam pelos gramados enormes árvores que davam sombra a bancos ornamentais de madeira. Nos canteiros de flores divisava-se um cacto de vez em quando. Joseph sabia que tudo se mantinha verde em Albuquerque era à custa de bons sistemas de irrigação.
Os edifícios, grandes, não tinham formas bonitas. Uma construção de dois pisos, sem o beneficio de marquises ou varandas, formava um cubo central com prolongamentos angulando para a entrada principal, como os raios de uma roda.
Kitteridge House havia sido fundada por Gladys Eugênia Kitteridge, em 1922, para abrigo e amparo de crianças órfãs. Com o passar dos anos, as regras haviam mudado um pouco, e passara a receber também crianças abandonadas. Embora estas não fossem órfãs, o que as impedia de ser adotadas, apresentavam uma coisa em comum com as demais: não tinham para onde ir.
Quando passaram pelo jardineiro, que cuidava de uma parte do jardim, Demetria voltou-se para continuar a olhá-lo. Não o reconheceu, mas provavelmente nem poderia. Fazia oito anos que saíra do orfanato e muita coisa devia ter mudado.
— Tudo parece menor do que me lembro — comentou.
Joseph sorriu.
— Não, meu anjo. É que seu mundo tornou-se mais amplo.
Ela colocou a mão na coxa do marido, procurando conforto em sua força.
— Você é o meu mundo.
O peito dele apertou-se. Por favor, meu Deus, permita-me conservá-la no meu mundo.
Parou o carro diante da entrada principal e desligou o motor. Demi ficou estática, esperando que ele fizesse o movimento seguinte.
Piscando para ela, Joseph falou com suavidade:
— Eu também a amo e quero deixar registrado que continuaremos esta conversa mais tarde… quando estivermos no hotel.
— Parece-me que vai ser bom! Agora, vamos acabar com isto.
— Ainda está com medo?
Ela imobilizou-se, olhando através do pára-brisa. Um pequeno grupo de crianças ia de um edifício para outro. Consultou o relógio e soube para onde elas iam. Como era sábado, havia uma boa chance de que estivessem indo para o salão de ginástica.
— Não. Não estou com medo… Pelo menos não deste lugar, desta gente. É o que não sei sobre mim mesma que está me deixando louca.
Joseph saiu do carro, foi abrir a porta dela e pegou-a pela mão.
-Venha, meu anjo. Enfrentaremos juntos o dragão.
Enquanto Demi saía do automóvel uma rajada de vento soprou e foi como se dedos gelados passassem por usa nuca, fazendo-a estremecer.
— Frio? — perguntou o marido.
— Um pouco.
— Então, vamos correr — convidou ele.
Riam quando chegaram à entrada, e o mal estar quase passara. Joseph abriu a porta, ainda sorrindo, e quase atropelou uma senhora alta, de cabelos grisalhos, que estava por abri-la.
— Oh, desculpe!
A senhora sorriu, bem educada, mas seu sorriso ampliou-se quando viu Demi.
— Demetria Lovato, eu sabia que era você!
— Srta. Bell! — exclamou Demi, abraçando-a num impulso.
Joseph começou a se descontrair. Se aquela era um indicação, a visita não ia ser traumática.
Addie Bell olhou-o por cima do ombro de Demi.
— Esse deve ser seu marido, suponho.
— Sim, senhora — sorriu Demi. — Joseph, a srta. Bell é administradora de Kitteridge House. Srta. Bell, este é meu marido, Joseph Jonas.
Addie estendeu a mão, notando o aperto forte e olhar direto de Joseph. Um bom homem, pensou.
— Meu nome é Adeline — informou -, mas pode chamar-me de Addie. — Voltou-se para Demi. — Quando minha secretária me disse que uma Demetria Jonas havia telefonado, avisando que viria, algo me garantiu que era você. Onde está morando?
— Em Denver.
Addie assentiu.
— Nunca estive lá, mas ouvi dizer que é uma linda cidade. O que a traz a Albuquerque, querida? Negócios ou passeio?
Como sabia que Addie Bell jamais a deixaria desamparada, Demi sentiu-se segura e o restante do mal-estar desapareceu completamente. Tudo que queria nesse momento era contar sua história, partilhar o peso com alguém. Mordeu os lábios, porém isso não bastou para impedir que um brilho de lágrimas se espelhasse em seus olhos.
— Eu não sei classificar o que me aconteceu, mas estamos numa encrenca, srta. Bell.
O sorriso de Addie apagou-se.
— Vamos para o meu escritório, onde ficaremos mais confortáveis. Creio que poderemos dar um jeito, seja lá o que está acontecendo. Mas primeiro quero que me conte tudo, desde o momento em que você saiu daqui até este instante. — Então, quase piscou um olho para Joseph. — Bem, não precisa contar tudo, creio que me entende.
Depois de um rápido olhar para o marido, Demi deixou que a srta. Bell a pegasse pela mão e a levasse pelo hall, como fizera tantas vezes em sua vida. Ele as seguia, observando o modo como ela, bem alta, inclinava-se para
sua mulher, ouvindo-a com atenção. Por um instante ele não soube definir o que sentia. Afinal conseguiu.
Confiança.
Demetria confiava naquela mulher de um modo que confiara em pouquíssimas pessoas. Nesse momento desapareceram as últimas reservas que sentira antes de levá-la ao orfanato.
Dizer que Addie Bell estava espantada com a historia deles seria pouco. No entanto, tratava-se de Demetria, e a administradora do orfanato era capaz de julgar com segurança o caráter de uma pessoa. Além de tudo, conhecia aquela moça desde pequenina.
— Santo Deus! Está falando sério, Demetria?
O alívio de ter contado tudo era tal que Demetria sentia-se fraca.
— Sim, senhora.
— Dois anos… e você não tem a menor idéia de onde esteve?
Os ombros de Demi descaíram e a essa altura Joseph achou que devia participar da conversa.
— Não, ela não tem. A única coisa que tem certeza é que estava havendo um terremoto quando saiu do lugar onde se encontrava.
— Houve um terremoto no sul da Califórnia, há pouco tempo — comentou a srta. Bell.
— Nós sabemos — assentiu Joseph.
Addie inclinou-se para a frente, observando o rosto de Demi.
— Demetria, você acredita, realmente, que foi levada contra a sua vontade?
Demi olhou para o marido, procurando conforto, pois seu coração sempre acalmava quando olhava para ele, depois voltou-se para Addie.
— Sim, senhora. Por nada deste mundo eu teria deixado Joseph voluntariamente. Ele é a minha vida. A senhora pode ver como estamos perdidos. Primeiro a policia, segundo eu soube, passou a maior parte desses dois anos tentando provar que Joseph me matara; depois, um investigador particular, contratado por Joseph para me procurar, pensou o mesmo. Contratado de novo, agora ele foi para a Califórnia, levado pelo pouco que me lembro.
— E descobriu alguma coisa?
Demi sacudiu a cabeça.
— Ainda não… Seja quem for que tenha me seqüestrado, não o fez por dinheiro. Não pediram resgate.
Ela hesitou, sabendo que o que ia dizer a seguir magoaria Joseph, mas tratava-se de algo que até agora ninguém, havia levado em consideração.
— Quando reapareci, todos pensaram que eu andara me drogando. Havia uma porção de marcas de agulhas nos meus braços, mas foi verificado que a única droga encontrada em meu sangue era sedativo.
Demetria respirou fundo, desejando ter um outro meio de dizer a feia verdade, mas não tinha.
— Não penso que eu tenha sido torturada de algum modo… Estava ilesa, a não ser pelos ferimentos causados no desastre com o ônibus, que causou a perda de memória. Mas não posso dizer o mesmo sobre abuso sexual porque, Deus me ajude… não me lembro.
Addie estava horrorizada.
— Então, você voltou para casa…
— Sim, mas acho que não me soltaram. Penso que fugi e por causa disso tenho quase certeza de que ainda estou em perigo.
A srta. Bell deu a volta em sua escrivaninha e abraçou Demi.
— Minha querida! Minha querida! Não sei o que dizer… — Olhou para Joseph. — Deve estar sendo muito difícil para o senhor, também.
Ele sacudiu os ombros.
— Tenho minha mulher de volta e nada mais me importa.
A administradora aprovou com a cabeça, afagou a mão de Demi e voltou para sua mesa.
— É evidente que vocês vieram aqui apenas para me contar isso… Como posso ajudá-los? O que querem saber?
Demi voltou-se para o marido, como se pedisse ajuda; ele se pôs de pé e começou a andar de um lado para o outro.
— Quando contratei o investigador particular pela primeira vez estávamos procurando fatos na vida de Demi que nos dessem algum indicio. A senhora sabe, tentamos nos lembrar de pessoas com as quais ela entrou em contato por trabalho, pensamos no fato de que alguém poderia ter raiva de mim. Levamos em consideração até mesmo gente que houvesse cruzado em seu caminho por puro acaso. Essas coisas. Mas o fato de ela ter sido levada de casa nos levou a crer que a casualidade estava fora de questão no seu desaparecimento. Tratava-se de alguém que conhecia nossos hábitos, para saber que eu saía cedo para o trabalho todos os dias e que só voltava à noite… alguém sabia que eu não ficaria assustado se ligasse para casa durante o dia e ninguém atendesse.
— E o investigador descobriu alguma coisa?
— Absolutamente nada.
Joseph passou um braço ao redor dos ombros de Demi, que se achegou a ele. Abraçou-a antes de continuar.
— Desta vez, quando contratei o investigador, ele sugeriu que começássemos do inicio, e o que significa verificar tudo que Demi possa
lembrar. É por isso que estamos aqui. Há alguma coisa, alguma circunstância, alguma pessoa, que a senhora possa imaginar que tenha a ver com o que aconteceu?
— Não… — murmurou Addie. — Nada que tenha acontecido em Kitteridge House me leva a pensar nessa possibilidade. Ao contrario de algumas das outras crianças, Demetria não tinha parentes. Era muito pequena quando chegou aqui e duvido que tenha alguma lembrança dos primeiros anos de vida.
— É verdade — concordou Demi, triste — Lembro-me vagamente de como meus pais eram, mas não sei sequer onde morávamos quando eles morreram.
— Por que Demi não foi adotada? — perguntou Joseph.
Addie sacudiu os ombros.
— Não sei… Muitas vezes pensamos que iam adotá-la, mas na última hora os casais se decidiam por outra criança.
— Lembro-me de ter ido para a casa de um casal que tinha uma filha — comentou Demetria. — A menininha não gostou de mim e eles me trouxeram de volta.
— E nós ficamos muito contentes por recuperá-la — garantiu a srta. Bell. — Demetria era uma criança muito meiga e todos gostavam dela.
Pensativa de repente, Addie calou-se. Em seguida continuou, com ar de reprovação.
— Até mesmo aquele menino esquisito. Hum… Esqueci o nome dele. De qualquer modo, até que Demi entrasse para o orfanato ele era insuportável. Que criança mais perturbada e amarga! Ele e Demi se tornaram muito unidos, e era de admirar, porque ela estava com quatro anos, e ele era quase adolescente. A afeição dela o transformou, se bem que nunca tenha se tornado o homem que desejávamos.
Algo agitou-se no fundo da mente de Demi. Quase uma lembrança. Ela teve a esperança de conseguir agarrar aquela sombra, porém não foi assim.
Joseph reparou que a esposa estava quieta demais e tocou-lhe o ombro.
— Você está bem, querida?
Ela quase saltou.
— Desculpe! O que você disse?
— A srta. Bell estava falando de um amigo seu. Lembra-se de alguma coisa?
— Não. É engraçado, mas não me lembro de nenhum menino.
Adeline Bell fitou Demetria, surpreendida.
— Verdade, mesmo?
Demi fez que sim.
— Não me lembro de ter tido uma amizade especial com nenhum menino.
A srta. Bell ficou preocupada.
— Isso não faz sentido. Aliás, quando você ficou maiorzinha, começamos a nos preocupar com essa amizade. Ele ia se tornando persistente demais, quase obsessivo. Eu tinha medo pela sua segurança.
Demetria ficou tensa.
— A senhora quer dizer que ele poderia me machucar?
— Não da maneira que você está pensando — respondeu Addie. De súbito empalideceu.
— Oh, meu Deus!
— O que foi? — preocupou-se Joseph.
— Acabo de lembrar-me de uma coisa.
— O quê?— afligiu-se Demi.
As mãos de Addie tremiam quando ela ajeitou a gola da blusa.
— Pode não ser nada, devo estar dando importância demais a uma coisa banal. Foi há muito tempo…
— Por favor, srta. Bell — pediu Joseph -, deixe que julgaremos se é importante ou não.
Os lábios de Addie apertaram-se numa linha fina e amarga, depois ela forçou-se a falar.
— Você era uma menina muito bonitinha, mas quando ficou mocinha sua beleza ficou tão notável quanto é agora.
Demetria corou.
— Aquele menino… — continuou Addie. — Por que não consigo lembrar-me do nome dele? Bem, aquele menino tornou-se um homem. — Olhou para Joseph. — Todas as nossas crianças vão embora quando completam dezoito anos e ele saiu quando seu dia chegou, porém vivia arranjando pretextos para voltar. Inclusive trabalhou aqui como jardineiro por um curto período. Levamos algum tempo para perceber, mas afinal compreendemos que ele voltara para continuar perto de Demetria.
A pele da nuca de Joseph arrepiou-se. Uma obsessão desse tipo não era natural, principalmente de um homem por uma criança.
— E como eu reagi?
— No começo não houve reação. Afinal ele fizera parte de toda a sua infância — explicou a srta.Bell. — Mas com o passar do tempo acho que você começou a sentir-se desconfortável. Na verdade, creio que tinha até um pouco de medo dele. E então, um dia ele não veio mais trabalhar. Algum tempo depois soubemos que havia sido detido e condenado a um período de prisão.
Inclinando-se para a frente, Demetria indagou, ansiosa:
— Quer dizer que eu nunca mais o vi?
Addie fez um gesto de incerteza.
— Eu não tenho como saber isso, meu bem, mas quando saiu da cadeia ele veio aqui procurar você.
A senhora calou-se, nervosa, e Joseph compreendeu que havia mais.
— O que aconteceu?— perguntou.
— Ele ficou louco de raiva quando soube que você tinha ido embora. Quebrou uma porção de coisas aqui no meu escritório, nos xingou de tudo quanto é nome. Gritava que Demetria pertencia a ele.
Mais uma vez algo flutuou na mente na mente de Demi. Algo sombrio, feio.
Joseph estava tomando notas. Queria lembrar-se de todos os detalhes a fim de passá-los para Harold Borden. Parou e fitou a senhora com intensidade.
— O nome dele, srta. Bell. Precisa lembrar-se do nome!
— Sei que preciso — concordou Addie. — Deixe-me ver na ficha dele… Só me lembro que era um nome muito esquisito. — Abriu uma gaveta de um arquivo atrás de sua mesa. — Vejamos… Creio que o ano em que ele fez dezoito anos foi o mesmo em que o salão de ginástica pegou fogo. Nós achamos que ele provocou o incêndio.
Os olhos de Demetria tornaram-se maiores.
— A senhora quer dizer, então, que ele era muito mau?
— Oh, sim… Temo que sim, querida.
— Então, por que eu gostava dele? — murmurou Demi.
Addie sacudiu a cabeça e continuou examinando as fichas.
— Ele não era mau com você. Na verdade, era até o oposto. Quem pode saber o que se passa pela cabeça de uma criança? Você acabava de perder seus pais e encontrava-se num lugar desconhecido, assustador. De algum modo ele preencheu o vazio em sua vida.
Demetria aproximou-se mais de Joseph.
Minutos se passaram, enquanto Addie continuava procurando. Afinal, voltou para a mesa com uma ficha na mão.
— Aqui está!
— O nome dele… Como é o nome dele?
A senhora abanou a cabeça.
— Que nome mais esquisito para uma criança! Há uma fotografia dele na ficha. Moreno, cabelos negros e encaracolados… Não temos certeza de sua procedência, mas desconfiamos que pelo menos um de seus pais tenha sido do Oriente Médio. O nome dele, Pharaoh, é egípcio, claro. Mas quem sabe?
Quando Demetria viu a foto um pânico tão violento tomou conta dela que perdeu a respiração. Tentou inutilmente inalar o ar. A sala passou a girar. Procurou segurar-se em Joseph, porém não encontrou nada diante das mãos.
Ouviu o marido gritando seu nome, mas de um modo abafado, como se estivesse muito distante. Não conseguiu responder. Deslizou da cadeira para o soalho sem um gemido sequer.

(...)

Demetria estava sentada na cama do quarto de hotel, vestida com seu robe, olhando para o quadro com uma paisagem marinha, na parede em frente. Vapor saía do banheiro e enchia o quarto com uma leve nuvem, obscurecendo a cortina de banho com gaivotas e a luz do abajur de cabeceira.
Joseph ainda estava tomando banho. Já conversara com Borden pelo telefone e agora esperava que o policial Dawson desse retorno ao seu telefonema.
O absurdo da aparência do quarto impressionava Demetria. Incomodava-a notar que aquele tipo de decoração ficaria melhor numa cidade à beira-mar do que num hotel construído no deserto. De vez em quando seu coração palpitava e falhava uma batida. Era claro que essa arritmia devia-se ao estresse em que se encontrava, porém não tinha como aliviar o nervosismo. Impossível consegui-lo quando cada novo dia trazia mais problemas.
Deitou-se de costas na cama e fechou os olhos voltando a ver a foto da ficha que Adeline Bell lhe mostrara. Ele devia ser bem mais velho, agora. Não conseguia visualizar ninguém com aquele tom de pele, aqueles bastos e negros cabelos crespos. E os olhos! Estremeceu. A falta de expressão que havia neles a assustava.
Rolou de lado e colocou as mãos sob a face, repassando os acontecimentos do dia. Desmaiara. Era aflitivo saber que uma parte de si lembrava-se do menino, porém não se lembrava absolutamente do homem. Mas o pior era compreender que devia ser muito assustador a simples visão de seu rosto lhe causara aquela violenta reação. De acordo com a srta.Bell, ela não havia retribuído o afeto de Pharaoh Carn.
Se aceitasse a teoria de que o seqüestrador havia sido essa pessoa do seu passado, como ele a encontrara depois de todos aqueles anos? Os dirigentes da Kitteridge House não sabiam seu endereço, portanto não fora lá que ele descobrira. Em geral, sua vida havia sido discreta, até o dia em que desaparecera. Não era o caso de ela e Joseph viverem aparecendo em colunas sociais. Além disso, Demi jamais infringira a lei, nem mesmo estacionando em lugar proibido, portanto jamais tivera que se apresentar num tribunal, o que poderia redundar em noticia.
De repente, lembrou-se.
— Joseph!
A água do chuveiro continuou correndo.
Ela rolou por cima da cama, ergueu-se e foi até o banheiro.
— Joseph!
Alarmado com o tom de voz dela, ele abriu a cortina da banheira. Abundante espuma de xampu escorria do seu cabelo, do pescoço, e a esponja caiu no chão.
— O que foi?
— Minha fotografia.
— Que fotografia, meu anjo?
— Você está molhando o chão — avisou ela, recolocando a cortina para dentro da banheira. — Vá se enxaguando, que eu falo alto.
— Que fotografia? — repetiu ele.
E foi para debaixo do chuveiro para enxaguar o cabelo.
— Aquela de mim na chuva, que saiu nos jornais. Lembra?
A espuma foi embora e a paciência de Joseph também. Fechou a torneira, saiu da banheira e enrolou uma toalha na cintura. O nervosismo dela era evidente, porém ele ainda não entendia por quê.
— Sim, lembro-me. Mas não sei o que você está querendo dizer.
— Suponha — começou ela, andando de um lado para o outro do quarto -, apenas suponha que esse Pharaoh ficou obcecado por mim desde criança e me seqüestrou.
Joseph encostou-se na cômoda.
— Estou ouvindo.
— Desde que saímos do orfanato estou tentando encontrar um sentido em tudo isso. Se ele se importava tanto comigo, não é de admirar que tenha esperado tanto para vir me buscar?
— Sim, talvez… — resmungou Joseph. — Mas a srta.Bell disse que ele voltou lá à sua procura, porém você já se formara e deixara Kitteridge House.
— Certo. E ela disse também que ele fez um verdadeiro escândalo por não me encontrar lá.
O marido assentiu e Demi continuou.
— Então, considere isso. Como ele agiria se um dia conseguisse encontrar-me?
— De que modo está sugerindo que ele a encontrou?
— Sei que é um tiro no escuro, mas até que faz bastante sentido. Lembra-se da foto de mim sob a chuva, publicada num jornal de Denver? Aquela que foi distribuída pela Associated Press?
— Lembro-me e daí?
— Ela foi publicada duas semanas antes de eu desaparecer.
A expressão de Joseph endureceu.
— Esse maldito!
— É apenas uma teoria, Joseph!
— Sim, mas uma teoria muito boa, Demetria.
Ela sorriu. Era bom fazer alguma coisa positiva para resolver o mistério que a envolvia.
— Então, o que acha?
— Acho que vou telefonar de novo para Borden e quando Dawson ligar vou acrescentar isso na lista de coisas que ele precisa saber. — Joseph fez uma pausa, depois acrescentou: -É preciso ter em mente que podemos estar completamente errados, que Pharaoh Carn esteja casado e levando uma vida feliz num subúrbio qualquer.
— Não, de acordo com a srta.Bell — contrapôs Demi. — Rapazinhos que provocam incêndios e andam com criminosos raramente levam uma vida pacata em subúrbios.

xx

— Tome cuidado, droga! — gemeu Pharaoh.
Fuzilou com o olhar o fisioterapeuta que cuidava de sua reabilitação.
— Desculpe, sr.Carn, mas o senhor não voltará ao normal se não usar estes músculos.
Pharaoh praguejou em voz baixa, o que não pareceu afetar o fisioterapeuta.
— Agora, sr.Carn, preciso que se deite de bruços.
Ele rolou o corpo e aceitou a massagem porque tinha que aceitar. Os dedos longos do homem enterravam-se nos músculos sem uso, fazendo-o gemer entre dentes cerrados. Ia virar-se para reclamar, mas antes que falasse Duke entrou na sala com o telefone sem fio na mão.
— É para o senhor, chefe.
— Estou ocupado — retrucou Pharaoh.
— Creio que vai querer atender. É um chamado interurbano, de Denver.
— Já era tempo! — Pharaoh pegou o telefone.— Alô?
— Chefe, sou eu.
A testa de Pharaoh franziu-se profundamente. Afinal Stykowskin entrava em contato.
— Onde você andou? — zangou-se. — E por que não telefonou antes?
— Ande logo, Stykowski — apressou o guarda. — Você não tem o dia inteiro.
Marvin olhou para o carcereiro por cima do ombro e anuiu.
— Quem foi que falou aí? — perguntou Pharaoh. — Quem está com você? Eu mandei que passasse despercebido.
— Hum… É que estou numa pequena encrenca, chefe.
Pharaoh retesou-se e deu um olhar a Duke que se apressou a fazer o fisioterapeuta sair da sala.
— Que tipo de encrenca?
— Fui apanhado, chefe. Estou na cadeia.
Ignorando a dor causada pelo movimento, Pharaoh girou o corpo até estar sentado na beira da mesa de massagem. Ninguém imaginaria a fúria dele pelo tom de voz e as palavras escolhidas, porém Duke, que acabava de voltar para a sala, percebeu e ficou tenso, imaginando o que Stykowski teria feito de errado.
— Por que o prenderam? — perguntou Pharaoh. — E onde você está?
A primeira pergunta do chefe era a que Marvin mais temia.
— Por posse de cocaína, chefe. Passei um sinal vermelho eles a encontraram no meu carro. Estou na detenção da Quarta Delegacia de Denver, tentando conseguir fiança.
O sangue rugiu nos ouvidos de Pharaoh.
— Quando vai ser a acusação?
— Daqui a algumas horas.
— Um advogado estará presente à acusação. A fiança será paga e assim que estiver livre venha para Las Vegas. Entendeu?
— Sim, chefe — respondeu Marvin.
— Não repita a façanha — avisou Pharaoh -, não gosto de erros.
Marvin empalideceu. Só nesse momento percebera a intensa raiva na voz de Carn.
— Irei imediatamente, chefe. Pode contar comigo.
-Vamos ver.
— Chefe, quanto à ¨outra coisa¨…
— Cale a boca — interferiu Pharaoh.— Você não está sozinho!
Stykowski olhou de relance para o guarda.
— Sim, senhor. Explico quando chegar aí.
Assim que o sinal de linha soou em seu ouvido, Pharaoh atirou o telefone contra a parede.
— Quer que o fisioterapeuta volte? — perguntou Duke.
— Claro que quero! Vamos acabar logo com isto, já que depende de mim e de mais ninguém. Quero ficar bom!

(...)

Pharaoh achava-se a uma das janelas da biblioteca fazia horas, às vezes sentado, outras em pé, contemplando a cidade, as luzes e, agora, observava os faróis de um carro que se aproximava pela estradinha que levava à sua propriedade. A fúria agitou-se dentro dele, investindo de um lado para outro, sem ter por onde sair.
Por fim, o automóvel parou diante do enorme portão principal. Sob a luz intensa dos fortes holofotes de segurança, foi possível perceber o
cavanhaque e os cabelos ruivos do motorista, que revelaram sua identidade. Stykowski.
Pharaoh acionou o intercomunicador.
— Faça-o entrar — trovejou.
O portão abriu-se para dentro, dando passagem ao automóvel. Pharaoh ficou olhando Marvin Stykowski estacionar, percebeu a fanfarronice no seu modo de andar e só saiu da janela quando ele entrou na casa.
Rolou várias vezes a patinha de coelho entre os dedos ao dirigir-se para sua escrivaninha. Eles logo estariam ali. Duke já recebera suas ordens. No minuto que Stykowski entrara deveria levá-lo para o escritório. Jogou a patinha de coelho sobre a mesa e abriu uma gaveta no instante em que soou uma batida à porta.
— Entre.
Marvin Stykowski entrou.
Pharaoh continuou em pé atrás da escrivaninha e atirou sem mirar. Felizmente para Duke, que estava atrás e meio ao lado de Marvin, o chefe tinha uma ótima pontaria. A bala penetrou no cérebro de Stykowski antes mesmo que ele sentisse medo. O sangue bateu no rosto de Duke, como chuva na vidraça de uma janela.
Duke soltou uma exclamação de pasmo, depois ficou petrificado, com medo de se mexer e até mesmo de respirar. A expressão de Pharaoh era terrificante. Jamais, durante todos os anos que vinha trabalhando para aquele homem, vira nele tanto ódio. Por fim, pegou um lenço e limpou o sangue do rosto.
— Mande limpar esse lixo — resmungou Pharaoh.
Jogou o revólver na gaveta e fechou-a.
Depois de recolocar o lenço no bolso, Duke falou ao telefone.
Em minutos o cadáver havia desaparecido.
Pharaoh estava junto da janela, com as mãos unidas atrás das costas, contemplando o horizonte de Las Vegas como se nunca o houvesse visto.
— Esta é uma cidade poderosa — declarou.
— É, sim, senhor — concordou Duke.
— Eu devia ter esperado que ele me dissesse o que descobriu em Denver.
— Se o senhor assim o diz, chefe…
Voltando-se, Pharaoh franziu a testa, como se só então tomasse conhecimento da presença do assecla.
— Seu terno está estragado. Amanhã vá ao meu alfaiate e mande fazer outro. Gosto de meus homens bem vestidos.
Quanto a si, Duke já se sentia bastante feliz por estar respirando, mas faria o que o chefe mandara.
— Está bem. Quer mais alguma coisa esta noite?
Após pensar um instante, Pharaoh respondeu:
— No momento, não, porém preciso de alguém que vá a Denver. Quem você sugere?
— Não sei, sr.Carn. Tudo ficou tão confuso desde o terremoto que não sei onde o pessoal está, se estão vivos.
— E isso é um problema, não, Duke? — suspirou Pharaoh. — Por culpa do maldito terremoto. Verifique se Simon Law está disponível. Ele fez um trabalho para mim, uma vez.
— Sim, senhor. Vou ver agora mesmo.
Com um gesto displicente e um sorriso, Pharaoh deteve Duke.
— Posso esperar até amanhã. Tenha uma boa noite de sono. Deus sabe o quanto estamos precisando de repouso.
— Sim, senhor.
Duke voltou-se para sair e, mesmo sabendo que o revólver estava guardado na gaveta, teve uma sensação horrível nas costas. Mais tarde, quando tirou as roupas ensangüentadas e entrou debaixo do chuveiro, perguntou-se o que seria pior, a pessoa saber que ia morrer ou ser atingido nas costas, sem esperar.

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Especialmente p Gi ♥ Comentem! Beijos, amo vcs <3


14.12.14

Remember Me - Capítulo 10 - MARATONA 5/5

Gostaram? Comentem para o próximo! Boa leitura... Amo vocês ♥

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Joseph verificou a agenda de telefones e endereços que tinha em sua mesa, à procura do numero do investigador particular que contratara uma vez. Como não se lembrava do nome teve que ir de letra em letra, até que ao vê-lo reconheceu-o. Alguns minutos mais tarde discava o numero de Harold Borden. A campainha tocou uma vez, duas…seis vezes e ninguém atendeu, nem mesmo uma secretária eletrônica.
Fazia mais de um ano que falara com Borden e havia uma possibilidade de ele ter abandonado a profissão, se bem que essa fosse uma idéia pouco provável. Harold Borden impressionara Joseph como o tipo do homem que morreria de velho trabalhando, não consertando objetos caseiros na garagem e menos ainda jogando golfe entre refeições para matar o tempo.
Quando ia desligar, afinal alguém atendeu e Joseph ouviu a respiração curta e ofegante de quem correra.
— Investigações Borden.
— Aqui é Joseph Jonas. Quero falar com o sr.Borden, por favor.
O investigador colocou o copo com café e o saco de papel com sonhos sobre a mesa. Largou-se na cadeira.
— Está falando com ele. Bom dia, sr. Jonas. Faz bastante tempo… Que noticias me dá?
Os sons dos passos de Joseph soaram sobre o assoalho de seu escritório transportável., enquanto ele ia para a janela olhar o prédio em construção.
— Uma boa… outras menos boas.
Borden pegou um sonho do saco, deu-lhe uma mordida e falou enquanto mastigava.
— Dê-me a boa noticia primeiro.
— Demetria voltou.
O investigador ficou surpreso.
— Não me diga! — Tomou um gole de café, depois inclinou-se para a frente, atento. — Como? Quando? E, mais importante, onde sua senhora esteve?
Joseph suspirou.
— Essas são as más noticias.
— Logo vi que não se tratava de um telefonema social…
— Pois é.
— Espere — pediu Harold Borden. — Preciso achar uma caneta… Aqui está! Pronto, fale.
Voltou a comer seu enorme sonho com recheio de creme e cobertura de chocolate enquanto ouvia Joseph.
— Cheguei do trabalho e a encontrei dormindo em nossa cama. Tudo que se pôde saber com certeza é que ela estava num táxi que se acidentou, logo
depois de sua chegada aqui. Demetria não se lembra de onde esteve, nem como foi parar lá.
— E seu problema é…
Depois de respirar fundo, Joseph respondeu:
— Demi acredita que está em perigo. Afirma que jamais teria ido embora de nossa casa por sua própria vontade. E nós dois sabemos que ninguém que seqüestrou uma pessoa por dois anos a deixa ir embora sem opor resistência.
— É verdade — concordou Borden. — Não me leve a mal, mas o que o senhor acha?
— Acredito nela.
— Está bem. Então, o que quer de mim?
Joseph passou a mão nos cabelos.
— Esse é o problema. Eu sei o que quero, mas não tenho muitas informações a dar-lhe.
O investigador abriu seu caderno de notas numa pagina em branco. Desde que desistira daquele caso ficara com a sensação desagradável de ter abandonado o cliente. Ali estava a oportunidade de recompensá-lo.
— O que o senhor sabe? — perguntou.
— A policia interrogou o taxista que pegou uma mulher no terminal de ônibus. A descrição dela combina com a de Demetria. Ele disse que a passageira agia de modo estranho, que parecia estar com medo. Além de poucas lembranças que não fazem sentido. Demi não sabe de nada, E tem no pescoço uma tatuagem ankh, dourada, que não tinha antes de sumir.
— O que é esse negócio de ankh? — perguntou Borden;
— Imagine uma cruz, só que com a extremidade do braço central arredondada e não reta.
— Ah, sei. Um desses desenhos egípcios.
— Isso mesmo.
— Mais alguma coisa?— insistiu o investigador.
— Bem, Demi diz que o homem que a manteve presa tem uma tatuagem igual no peito. Ela diz, também, que houve um terremoto no lugar onde estava. E, como sabe, aconteceu um grande terremoto na Califórnia recentemente.
O interesse de Harold Borden intensificou-se.
— É um lugar para começarmos.
— Sim, foi o que pensei — concordou Joseph.
Borden inclinou-se para trás coma cadeira, revendo mentalmente a ficha que fizera de Demetria.
— Escute, eu mencionei isso antes para o senhor, porém nunca mais voltamos ao assunto. O que acha de esclarecer o passado dela, já que estamos neste ponto?
As sobrancelhas de Joseph ergueram-se.
— Eu ainda acho que Demetria não tem um passado secreto.
— Não me entenda mal, sr. Jonas. Não estou me referindo a essa espécie de passado, mas sim à infância dela.
— Minha mulher foi criada num orfanato — lembrou-o Joseph.
— Eu sei, e sei também que é um tiro no escuro, mas talvez haja algo que possa nos ajudar.
— A esta altura, confesso que estou disposto a qualquer coisa, Borden.
O investigador fez mais algumas anotações.
— O orfanato ficava em Albuquerque, não?
— Isso mesmo.
Borden ficou tamborilando com a caneta sobre a mesa, enquanto imagens desfilavam por sua mente.
— Creio que sabe, sr. Jonas, que os dirigentes de orfanatos são pouquíssimos inclinados a dar informações sobre pupilos a estranhos. Eu poderia verificar algumas coisas, mas na minha opinião seria melhor o senhor ir lá para uma visita, com sua esposa. Fale com os funcionários, pergunte sobre os amigos e os hábitos dela, por que não foi adotada… Coisas desse tipo. O pior que pode acontecer é o senhor fazer uma viagem inútil até Albuquerque. O melhor é que ela talvez venha a lembrar-se de algo que nos ajude.
— É uma boa idéia — aprovou Joseph. — Vou falar hoje a noite com Demi.
— Ótimo. Enquanto isso, vou agir por meu lado. Creio que juntos poderemos conseguir alguma informação útil.
— Obrigado, Borden, por me atender tão rápido.
O investigador franziu a testa.
— Eu lhe devo uma, meu caro. Lembre-se, trabalhei durante um ano procurando sua esposa e nada consegui. É bom saber que ela voltou, e quero ajudar a descobrir o que aconteceu. Diga-me, seu telefone continua o mesmo?
Caly confirmou o telefone normal e deu o numero do celular, para ser anexado à ficha.
— Muito bem, vamos lá — disse o investigador. — Mantenha-se em contato comigo e farei o mesmo.
Joseph desligou , sentindo-se melhor desde o dia em que Demi voltara para casa. Já estava perto da porta quando o telefone tocou. Voltou e atendeu distraído, a mente ainda ocupada com a conversa que tivera com Borden. Mas quando ouviu a voz de Avery Dawson, tornou-se alerta.
— Eu ia telefonar para você hoje, Dawson.
— Foi o que sua esposa me disse — respondeu o policial.
— Falou com Demetria? — surpreendeu-se Joseph.
— Sim. Apenas uma entrevista de rotina, antes que o chefe de policia assine o porte de arma dela.
— Porte de arma? Que porte de arma?
Dawson hesitou. Não lhe ocorrera que a sra. Jonas pudesse ter mantido em segredo a compra do revólver, mas agora era tarde.
— O porte de arma do revólver dela — explicou.
— Ah, isso — volveu Joseph. — Eu tinha esquecido. Então, está tudo certo?
— Creio que sim. Penso que o chefe vai assinar o porte.
— Foi por isso que me telefonou?
— Não…— Avery Dawson hesitou um pouco. — Aconteceu uma coisa na chefatura, outro dia, e acho que o senhor deve saber. Alguém telefonou, identificando-se como investigador do Departamento de Policia de Los Angeles. Disse que estava tentando identificar uma mulher morta..
O peito de Joseph contraiu-se ao lembrar de suas idas aos institutos médicos legais, durante o longo tempo que procurara por Demi. Pelo menos, não precisava mais fazê-lo.
— O que isso tem a ver com minha mulher, Dawson?
— É aí que a situação se torna estranha. O homem falou num impresso que dava Demetria Jonas como desaparecida e disse que a morta combinava com a descrição dela. Respondi que não podia ser, porque a sra. Jonas havia reaparecido. Entre comentários, eu disse que tínhamos tido sorte, porque ela estava viva e de volta á sua casa.
Joseph ouvia, mas não apreendia o significado daquelas palavras.
— Depois — continuou Dawson -, trocamos algumas brincadeiras e eu ia desligar quando o homem fez mais uma pergunta. Queria saber quando a sra. Jonas havia reaparecido e eu respondi. Só depois de desligar comecei a imaginar por que ele se interessara pelo dia da volta dela. Se a sra. Jonas estava aqui não podia se a desconhecida do morgue, e caso encerrado.
— Certo — concordou Joseph. — Mas qual é o problema?
Percebeu que o policial respirava fundo e afligiu-se. Era como se soubesse o que ele ia dizer.
— Não sei… Como sou de natureza muito desconfiada, liguei para o Departamento de Policia de Los Angeles, pedi para falar com aquele investigador e a telefonista respondeu que não havia ninguém ali com o nome que ele me dera.
As pernas de Joseph fraquejaram.
— O que está querendo dizer?
— Que alguém queria informações sobre Demetria Jonas e mentiu para consegui-las. Considerando a situação como a conhecemos, achei o fato bastante perturbador.
— Santa misericórdia! — murmurou Joseph.— Demi tem razão, ela ainda está em perigo.
— Não sei se está, mesmo porém senti-me na obrigação de lhe contar sobre o telefonema — disse Avery Dawson. — Tome as precauções que achar necessárias. Estaremos investigando, por nosso lado, porém há muito pouco sobre o que investigar. Já verificamos a origem da ligação; foi feita de um telefone público de Las Vegas.
— Contou isso a Demetria? — quis saber Joseph.
— Não. Considerando o que ela passou, preferi falar com o senhor, que lhe contará o que achar melhor.
O impulso de pegar Demi e fugir com ela para muito longe dali era quase insuportável, mas Joseph sabia que isso não resolveria o problema.
— Escute, Dawson, vou com Demi ao orfanato onde ela foi criada e talvez consiga saber alguma coisa que seja a chave para revelar o que e por que aconteceu.
O policial fez uma rápida anotação.
— Não é má idéia, principalmente considerando a falta de qualquer outra evidência. Quando irão?
— O mais cedo possível. Se eu descobrir algo interessante, comunico imediatamente.
— Agradeço se o fizer — disse Avery.
— Pode ter certeza, e obrigado por ter me contado.
Alguns momentos mais tarde, Joseph estava de novo ao telefone, mas dessa vez falava com seu pai. Em uma hora, Winston Jonas chegou ao canteiro de obras e seu filho foi para casa.

xx

Pharaoh Carn estava inquieto, e não era apenas a forçada inatividade por causa dos ferimentos que o irritava. Seu corpo doía, porém sentia-se um pouco melhor. A cada hora que passava as forças aumentavam. Naquele dia ficara em sua escrivaninha por quase quatro horas e poucos dias atrás sentira-se exausto depois de apenas duas horas fora da cama. No entanto, nos acontecimentos havia um lado positivo que deveria diminuir sua frustração: seu império voltava a estar em lenta ascensão mais uma vez.
Desde que voltara para Las Vegas o telefone não parava de receber chamadas de seus associados. Ele deveria estar satisfeito com isso, porém não conseguia alegrar-se nem mesmo com a própria sobrevivência porque a mulher que deveria estar ao seu lado tinha ido embora. Não sabia até
quando poderia suportar aquela situação. Não importava o quanto tentasse, quanto dinheiro gastasse para fazer com que isso acontecesse, sua permanência no topo dos negócios não se prolongaria por muito tempo sem Demetria.
Antes que ela reaparecesse em sua vida ele fazia parte, com bastante êxito, dos arredores do mundo das drogas como um entre centenas de intermediários do cartel de Alejandro.
Descobrira Demetria durante um vôo de volta a Los Angeles. Vinha de Seattle, onde fora resolver um pequeno problema interno. O fato de que a essa altura Pepe Alejandro havia ficado com um cunhado a menos pouco importava, uma vez que os milhões dele que haviam desaparecido tinham sido recuperados intatos.
Rolando a patinha de coelho entre os dedos, Pharaoh inclinou a cadeira da escrivaninha para trás e fechou os olhos, relembrando aquele dia no avião. Ficara muitos anos sem vê-la, porém reconheceria o rosto dela em qualquer lugar.

Até o momento em que pegou o jornal para ler, o vôo transcorreu monótono. Quando viu a fotografia quase passou por ela sem reparar. Era uma foto sem importância, apenas muito bonita, que um fotógrafo de Denver tirara da moça rindo sob a chuva. No entanto fora comprada pela Associated Press e distribuída para todos os jornais do país. No momento em que reconheceu a moça, ele ficou fortemente abalado.
Era Demetria. A sua Demetria.
Sentiu a cabeça vazia e, de repente, o peso de todos aqueles anos que tinham passado com quilômetros e quilômetros entre eles fez vergar seus ombros. O primeiro ímpeto que teve foi de sair correndo, então lembrou-se de onde estava. A frustração pareceu esmagá-lo quando se conscientizou de que nada poderia fazer até que o avião aterrissasse.
Pensou em Demetria durante o vôo inteiro, lembrando-se dos anos de infância passados na Kitteridge House e de como ela se obstinara em fazer amizade com ele. Lembrou-se de que se encontrava perto da menininha que ela era naquele tempo, ao passo que os pais dela não podiam estar. Lembrou-se de vê-la crescendo e dos seus sentimentos modificando-se, passando daqueles de um menino em relação a uma criança para os de um homem por uma mulher.
Quando soube que Demetria não correspondia ao seu amor, como esperava, achou que isso acontecia porque ela ainda era muito criança. Quando crescesse as coisas seriam diferentes e ele saberia esperar até então.
Então, foi preso. Chamava de cinco anos de estupidez aquele tempo que culminara com sua prisão. Quando foi solto, Demetria já tinha dezoito anos e havia ido embora do orfanato, ninguém sabia para onde. Um pânico gelado, assustador, o assaltou ao saber que, como todos os demais, ela havia desaparecido de sua vida.
Quando o avião pousou em Los Angeles, a mente de Pharaoh continuava focalizada nela. No entanto, seu lema era que as primeiras coisas devem vir primeiro.
Pepe Alejandro devia estar esperando para saber o resultado da viagem e não convinha fazê-lo esperar.
Quatro horas depois Pharaoh estava a caminho de sua casa, tentando acostumar-se com a sorte inesperada. Pepe ficara muito satisfeito com o desempenho dele, tão satisfeito que o promovera a chefe de um distrito. Tratava-se de um bairro pobre de Los Angeles, constantemente sacudido por guerras de gangues, mas isso não importava a mínima para Pharaoh. Era a sua chance de provar o quanto valia e não ia perdê-la.
E havia um outro fato que não podia ignorar. Isso acontecera depois que reencontrara Demetria. O pensamento o fez sorrir. Continuava a ser como antes. Os professores e funcionários do orfanato o consideravam um encrenqueiro destinado a fracasso e então ela chegara. Depois disso fora difícil para todos continuar a considerá-lo um individuo mal, com aquela doce criança adorando-o. Foi nessa ocasião que ele descobrira que Demetria era mais do que sua amiga: era a sua sorte.
Esfregou as palmas das mãos nas coxas cobertas pelo tecido da calça, sorrindo feliz ao olhar mais uma vez a foto no jornal. Se Demetria achava divertido estar sob a chuva iria delirar de alegria ao vê-lo. Ele a encontraria, pois tinha certeza de que seu sucesso dependia da proximidade dela.
Mas isso tinha sido antes, e agora Pharaoh era filósofo o bastante para saber que nunca é fácil obter coisas valiosas. Seu corpo inteiro protestou, doendo, quando ele se mexeu na cadeira. Não queria pensar na decepção que sofrera, porém a verdade é que reencontrar Demetria não havia sido como ele imaginara que seria. Não esperara aquela violenta rejeição dela. Não planejara mantê-la presa num quarto, mas um dia sucedera ao outro, depois outro, e antes que ele percebesse ela era sua prisioneira havia meses. Os meses haviam se transformado em anos e Demetria continuara a virar-lhe a cara, pedindo que a libertasse, implorando que a deixasse voltar para o marido. Ironicamente havia sido a natureza, e não um homem, que o derrotara. Ele não contara com um terremoto destruindo seus cuidadosos planos.
Voltou-se para a janela e observou o céu cinzento, coberto por nuvens. Alguma coisa estava errada e ele sabia. Stykowski já devia ter entrado em contato e isso o enervava. No entanto, lembrou a si mesmo, desde o terremoto tudo ficara muito confuso. Numa emboscada de estrada, dois dos melhores homens de Alejandro tinham sido mortos no carro em que viajavam, vários tinham ficado feridos e um ainda estava desaparecido. A infra-estrutura da organização se achava abalada. Homens de qualidade, com os quais Pharaoh contava para realizações importantes, tinham sido postos fora de combate, e ele via-se forçado a utilizar para seus negócios pessoais homens de segunda categoria, como Martin Stykowski.
Jogou a patinha de coelho em cima da mesa e praguejou. Seu erro não havia sido manter Demetria presa, mas sim deixar o marido dela vivo. E agora, mesmo que por acaso pensasse em deixá-la em paz, sua ambição não o permitiria. Com ela, a fortuna que conseguira estaria segura em suas mãos. Seu poder no cartel, no momento, era um pouco menos menor do que o de Alejandro.
Todavia, estava cansado. Cansado de pensar. Cansado de esperar que seu cuidadosamente organizado mundo se tornasse independente. Precisava de Demetria. E também precisava descansar. Olhou para a estante repleta de livros que forrava uma parede. Ia descansar, sim, só que mais tarde. Havia algo muito importante que precisava fazer.
Ergueu-se. Coxeando, aproximou-se da estante e foi passando os dedos pelos livros, desatento aos títulos, contando-os; quando chegou ao décimo primeiro puxou-o e, assim que o fez, a estante girou sem um ruído sequer. Ele entrou pela abertura diante de si e a estante tornou a girar, ocultando-a.
A passagem secreta era estreita e sinuosa, cheia de curvas e becos sem saída, para confundir intrusos. Porém Pharaoh sabia para aonde ia e, quanto mais perto chegava, mais seus passos se apressavam. Gostava da sensação que aquelas paredes lhe davam de estar dentro de um útero. Os grandes blocos de granito eram remanescentes da construção de pirâmides e o estreito corredor por onde passava parecia-se com as passagens no interior dos túmulos dos reis do antigo Egito. Quanto mais perto chegava da luz, mais rápido o seu coração batia.
Um leve odor de incenso recebeu-o quando chegou ao fim do labirinto. Instintivamente seu olhar foi para o par de estátuas de mármore negro encostadas na parede, ao fundo. Suas feições majestosas haviam sido esculpidas na pedra, capturando a qualidade de semelhança com deuses que permanecera através dos séculos.
Pharaoh aspirou o ar profundamente, procurando obter forças das imagens. Suas pernas tremiam de exaustão e pediam por descanso, mas esse conforto pouco importava em comparação com a sensação que o envolvia por estar ali.
Deu mais alguns passos, parando a apenas poucos centímetros das estátuas. No profundo subterrâneo daquela casa o silencio era quase ensurdecedor. O som das batidas do seu coração, da exalação do ar respirado, serviam para lembrá-lo de que ainda se encontrava admirando a fronte alta, nobre, e os olhos sem expressão; imaginou o toque da face de mármore contra a sua e o toque dos lábios bem feitos em sua fonte.
Isis.
Se um dia ele houvesse tido mãe, ela teria sido assim, nobre e magnífica.
Soltou a respiração que contivera, devagar. O som foi como um lamento entre as baixas e estreitas paredes. Ali, nas sombras, Pharaoh esperava por um sinal. Em algum lugar em seu intimo o tempo parou. Indiferente ao frio e duro mármore sobre o qual se encontrava, à fraqueza e dor em seus ossos, ouviu o próprio coração, sabendo que teria uma resposta.
Estremeceu quando a imagem do lindo rosto de Demetria brilhou diante de seus olhos. A necessidade de ouvir a voz dela, de sentir a textura de sua pele provocou uma dor visceral. Mas obtivera a resposta. Sabia, com tanta certeza quanto sabia qual era seu nome, que Demetria Jonas estaria com ele de novo.

xx

Só quando o avião deixou o aeroporto de Denver é que Joseph voltou a respirar com naturalidade. O telefonema do investigador Dawson fizera com que se apressasse a realizar seus planos. Observou Demetria, que estava na poltrona ao lado da sua. Com as mãos fechadas, os nós de seus dedos estavam brancos e seu rosto, tenso. Ele colocou a mão sobre a dela e inclinou-se, para murmurar ao seu ouvido.
-Tudo bem, já saímos do chão…
Os olhos de Demi se haviam tornado maiores e refletiam medo quando se fitaram.
— Eu fiz isto antes — disse Demi num fio de voz.
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— Pensei que fosse o seu primeiro …
De repente, entendeu. Ela estava se lembrando.
— Conte-me, Demi! — pediu.
— Estou enjoada.
Ele ergueu os olhos. O aviso de apertar cintos continuava aceso e o avião ainda estava subindo. Não poderia levá-la ao banheiro.
— Fique firme, Demi, vou chamar a comissária.
— Não — pediu ela, segurando a mão que ele começou a erguer. — Não enjoada desse jeito.
A expressão de Joseph tornou-se intrigada além de preocupada. Segurando o queixo da esposa fez com que ela o fitasse.
— Então, está enjoada como, meu anjo?
Ela estremeceu.
— De medo. Estou enjoada de medo. Quando me levaram embora de Denver, foi num avião. — Ela fechou os olhos — O solo está tão distante, lá embaixo. Há nuvens… voamos através de nuvens. O som do motor soa diferente, mais baixo, parece. Posso ver as mãos do piloto e as luzes do painel à nossa frente.
— É capaz de dizer onde estão? — indagou Joseph, em voz baixa. — O que vê lá embaixo? É verde? É…
— Montanhas! Vejo montanhas… e há uma enorme cidade depois delas.
Demi abriu os olhos e Joseph acariciou-lhe a mão.
— Isso é muito bom, Demi. Muito bom, mesmo. Quero dizer que a sua memória está voltando.
No entanto, ela não se sentia nada alegre.
— O que lembrei não revela o lugar onde aterrissamos.
— Tudo virá a seu tempo, querida. Por enquanto. Vamos nos concentrar na visita a Kitteridge House. Você deve ter deixado amigos lá.
— Sim, você tem razão.
Ele riu.
— Como sempre!
Procurando normalizar a respiração alterada, Demi conseguiu forçar um sorriso.
— E é um grande convencido.
Joseph inclinou-se de novo e segredou-lhe:
— Sim, e nunca se esqueça disso.
Ela ergueu as sobrancelhas e desta vez o sorriso foi verdadeiro.
— Como se você fosse me deixar esquecer!
— Ora — riu ele -, estou apenas tentando justificar minha existência.
Ela riu e o som de seu riso aqueceu o coração do marido. Alguns momentos mais tarde toda a tensão desapareceu. Quando Demi adormeceu, ele continuou a observá-la ansiosamente. Não podia deixar de pensar que
quanto mais ela se lembrasse, mais desesperada se tornaria a situação deles.

(...)

Fazia sol em Albuquerque quando o avião pousou, mas o ar era frio. Demetria fechou a frente de sua jaqueta de lã e sentou-se no banco do passageiro, no carro que haviam alugado, enquanto Joseph guardava a bagagem no porta-malas. Um segurança cumprimentou-a com um aceno de cabeça ao passar. Ela correspondeu, sorrindo. Nada de extraordinário naquilo. Tomara sua vida fosse sempre tão simples assim.
Joseph fechou o porta-malas e um instante depois acomodava-se ao volante, piscando um olho para a esposa e ligando o motor.
— Muito bem, meu anjo, cá estamos. Acho que devemos ir para um hotel, primeiro. De lá telefonaremos para Kitteridge House para marcar hora com o administrador, depois iremos almoçar num bom restaurante. O que acha da idéia?
— Maravilhosa — assentiu ela — , porque estou morta de fome.
Algum tempo depois Joseph entrava com as malas que fora pegar no carro e Demi procurava na lista telefônica o número do orfanato. Seu coração deu um pequeno salto quando o encontrou.
— Joseph…
Ele parou à porta do banheiro e voltou-se para ela.
— Sim, meu anjo?
— É esquisito.
— O que é esquisito, Demi?
— Não sei… Sinto-me como se estivesse voltando para o orfanato com pretensões acima do normal. Quando vou contar ao diretor do que me aconteceu? Seja o que for que eu lhe diga, vai parecer que estou louca.
— Não, não concordo — respondeu Joseph e aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado na cama. — Veja as coisas desta maneira: o trabalho deles é ajudar crianças, durante anos e anos, não é?
Ela fez que sim.
— Bem, só porque você cresceu não quer dizer que não podem ajudá-la de novo. Eles a alimentaram, agasalharam e, suponho, alguns deles até a amaram.
O sorriso de um menino surgiu como flash na mente de Demetria, que estremeceu. Joseph percebeu a sombra que lhe passava pelo rosto e notou o estremecimento. Tomou-a nos braços.
— O que é, meu anjo?
Ela cobriu o rosto com as mãos trêmulas.
— Não sei. Algo surgiu na minha mente e desapareceu no mesmo instante.
— Quer que eu telefone? — ofereceu-se Joseph.
Demi hesitou, então endireitou-se.
— Não, eu telefono. Mas fique perto de mim, querido.
— Ficarei perto de você para sempre, Demetria.

Remember Me - Capítulo 9 - MARATONA 4/5

Boa leitura... Comentem! Estou de olho ;) :D ♥

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~

Ao sentir o toque em seu ombro, Demetria abaixou o revólver e voltou-se retirando os fones de ouvido para escutar a opinião do instrutor.
— Ainda está muito tensa ao apertar o gatilho, sra. Jonas. Relaxe e aperte, lembra-se?
Ela assentiu, recolocou os protetores e olhou mais uma vez para o alvo. Repetindo mentalmente as instruções que lhe haviam sido dadas, segurou a arma com as duas mãos e apontou para o alvo.
Mirar.
Aspirar.
Exalar.
Apertar.
O cheiro de pólvora ardeu dentro de suas narinas quando o revólver disparou, dando um tranco em sua mão, mas desta vez ela percebeu que tinha sido diferente. Quando leu nos lábios do instrutor as palavras ¨muito bem¨ e ele ergueu o polegar, soube que havia atingido o alvo.
Sorrindo, satisfeita, apontou de novo e repetiu o ritual.
E mais uma vez. Outra. Ainda outra…

xx

— Ei Dawson, o chefe quer falar com você.
Agradecido pela chance de abandonar o relatório sem fim, Avery Dawson largou a caneta sobre a mesa e levantou-se. Mesmo que momentaneamente, a folga era muito bem recebida. Alguns minutos depois entrava na sala do seu superior.
— Quer falar comigo? — perguntou.
O chefe de policia estendeu-lhe uma folha de papel.
— Acabam de me entregar isto e quero que você dê uma olhada.
Dawson franziu as sobrancelhas ao ver o que era.
— Uma solicitação de porte de arma?
— Não é apenas uma solicitação de porte de arma. Veja o nome do solicitante.
A boca de Dawson permaneceu aberta por uns momentos.
— Mas é incrível! Demetria Jonas!
— Pensei a mesma coisa — concordou o chefe.— Quero que descubra o que está passando pela cabeça dessa senhora. Não me inclino muito a atender a esse pedido feito por uma mulher com a história dela.
— Mas como quer que eu faça isso? Não há lei que a proíba de ter um revólver e nem mesmo de receber um porte de arma.
— Não é você o encarregado do caso de desaparecimento dela?
— Sou — respondeu o investigador — , e o caso continua um beco sem saída, apesar de ela ter voltado.
— Ela declarou que foi levada de casa contra a vontade — lembrou o chefe de policia.
— Pois é… Mas de qualquer maneira estamos no mesmo ponto em que estávamos dois anos atrás: sem nenhum indicio.
— E aquele telefonema que você recebeu outro dia, sobre o cadáver de uma mulher desconhecida:
A consciência de Dawson doeu.
— Eu já disse ao capitão que foi impossível descobrir a procedência do telefonema.
— O que o instinto lhe diz? — insistiu o chefe.
O policial hesitou, depois disse o que pensava.
— Que é mais do que uma simples coincidência.
— Falou com os Jonas sobre esse telefonema?
— Não… O capitão disse que não havia necessidade de afligi-los, a não ser que se tivesse algo concreto.
A testa do chefe de policia franziu-se.
— Um telefonema é algo concreto. Eles tem direito de saber. Conte-lhes.
— Sim, senhor.
O chefe ergueu-se, foi até a janela e olhou as ruas e os pequenos flocos de neve que caíam.
— Ela ainda não disse nada sobre seu desaparecimento? — indagou.
— Não, senhor…
Indicando o pedido de porte de arma, o chefe observou:
— Algo me diz que ela tem segredos, e não gosto disso. É evidente que essa mulher sente-se ameaçada, caso contrário não se armaria. Verifique como estão as coisas. Não quero que alguém morra só porque ela está paranóica. Entende?
— Sim, senhor.
— E conte-me o que ela disser, Dawson.
— Sim, senhor. É a primeira coisa que farei amanhã.

xx

Marvin Stykowski caminhou pela calçada e escondeu-se atrás de uma árvore quando Demetria Jonas saiu do Centro de Tiro. Fazia um dia que ele a estava seguindo e sabia que já devia ter falado a respeito com seu chefe.
Levara dois dias para localizar a casa, mais meio dia para ver se ela estava lá. Estava abusando de sua sorte em não telefonar logo para Pharaoh, mas havia umas coisas que precisara fazer antes de começar a procurar aquela mulher, tais como descobrir um fornecedor e se abastecer para dar uma cheirada de vez em quando. Depois que começasse a agir para seqüestra-la,, não teria tempo para ir atrás de cocaína. E entrar frio naquela missão não era a coisa mais inteligente a fazer.
Ninguém na organização de Pharaoh sabia que Marvin era um viciado e ficaria numa situação critica se descobrissem. Para ele, a regra de não se drogar que Pharaoh impunha era piada. Eles compravam e vendiam a droga. O fato de ele ser um dos melhores clientes de seu chefe devia ser demonstrado e não escondido.
Esperou que o carro de Demetria estivesse um pouco distante e só então foi para o seu. Não havia motivo para pressa. Sabia para onde ela ia. Tudo que tinha que fazer era encontrar um telefone e ligar para casa.
E era o que teria acontecido se não houvesse avançado um sinal vermelho. O guarda que estava na esquina saiu atrás, e quando Marvin ouviu a sirene e viu as luzes vermelha e azul teve um sobressalto. Com medo que a cocaína que tinha no porta-luvas fosse encontrada, fez uma coisa idiota. Apertou o acelerador até o fundo.
Vinte quarteirões e cinco minutos depois estava de bruços no chão, com as mãos para trás e pulsos presos com algemas.
— Ei, estão apertadas demais! — reclamou.
— Então, fique quieto — respondeu o policial.
Marvin gemeu. Pharaoh ia matá-lo.
xx

Demi tirava o assado do forno quando ouviu o carro de Joseph entrar na alameda ao lado da casa. Depressa, colocou a assadeira no balcão da pia e verificou o fogão, para ver se todos os bicos de gás estavam apagados. Com poucos minutos para agir atravessou correndo o hall e desapareceu dentro do quarto no momento em que Joseph se dirigia para a porta da frente.
— Meu anjo, cheguei!
— Estou aqui — gritou ela.
Jogou as roupas em cima da cama e correu para o chuveiro. A água quente jorrou, espalhando vapor no ar. Ela entrou na enorme banheira, fechou a cortina e colocou-se sob o jorro de água. Pegou o frasco de sabonete liquido da prateleira e esfregou-o no corpo inteiro, cobrindo queixo, seios, braços e ombros com espuma.
— Hum, que cheiro gostoso! — exclamou Joseph.
Enquanto se dirigia para o quarto, começou a tirar a camisa. Estava com frio, cansado e feliz por estar em casa.
— Demi você já terminou o banho?
Ela entreabriu a cortina.
— O que você disse?
Joseph tirou as botas e deixou-as junto do armário, depois foi para o banheiro.
— Eu disse, você já está terminando o banho?
Demetria abafou uma risada.
— Desculpe, mas não estou ouvindo direito!
Ele estava próximo da banheira quando a cortina se abriu de repente. A mão de Demi apareceu e agarrou-o pela camisa. Antes que ele pudesse pensar, estava embaixo do chuveiro, as roupas colando-se no corpo.
Ela riu e desabotoou a camisa dele, depois passou a ponta dos dedos pelo peito nu. Joseph gemeu e imediatamente desejou-a.
— Você vai se arrepender! — ameaçou.
Prendeu-a pelos braços, mas não conseguia segurá-la por causa do sabonete. Ela soltou-se, rindo, e tentou tirar a camisa dele, quando o marido a abraçou.
— Sua feiticeira!
— Você está com roupa demais — provocou ela, abraçando-o pela cintura.
Quando os seios firmes achataram-se contra o peito de Joseph, ele baixou a cabeça, gemendo.
— Meu Deus, Demetria, você me faz perder a respiração!
— Então, tire a minha, também — implorou ela, erguendo o rosto para um beijo.
Seus lábios se encontraram, os dele rijos e exigentes, os dela macios e submissos. A brincadeira tornou-se desejo e os dois tiraram a roupa de Joseph, ele arrancando a camisa e ela descendo a calça jeans, que ficou jogada aos pés deles.
Ereto a ponto de doer, ele fechou a torneira e foram envoltos em silencio e vapor. Gotas de água brilhavam na pele de Demi, como pequenos diamantes. Os olhos de Joseph, brilhantes, estreitaram-se quando cobriu os seios dela com as mãos. Em seguida, antes que ela percebesse o que estava acontecendo, uma das mãos dele aninhou-se entre suas pernas; Demetria inclinou a cabeça para trás, encostando-a na parede, e agarrou-se ao marido para não cair.
Em segundos achava-se deitada de costas na banheira, com Joseph por cima. A camisa dele estava embolada sob um de seus ombros, e o jeans, encostado em seus pés, mas ela não percebia. Todos os seus sentidos achavam-se presos aos movimentos perfeitamente sincronizados de seus corpos.
O tempo se deteve. Nada mais importava a não ser o latejar de carne contra carne e o gozo que se aproximava. Cada vez com mais ímpeto, Joseph movia-se dentro dela, em busca da explosão final.
E o orgasmo chegou, envolvendo-os, atingindo Demi com tal violência que destruiu qualquer inibição que poderia ter. As pernas esguias envolveram a cintura dele e ela deixou-se levar pelo êxtase com um grito que ecoou de maneira quase sobrenatural entre as paredes do banheiro. Momentos depois, sentiu que Joseph estremecia e ouviu-o gemer. Ele largou-se sobre ela, com todos os músculos tremendo e a respiração rouca e ofegante. Fez um movimento para se erguer, porém Demi segurou-o.
— Espere, Joseph — ofegou. — Não me deixe ainda.
Ele passou os braços ao redor dela e rolou o corpo de maneira a fazê-la ficar por cima dele, o rosto aninhado entre seu ombro e pescoço. Mais um estremecimento de prazer percorreu o corpo de Joseph e ele respirou fundo, procurando acalmar as batidas de seu coração.
— Meu Deus, Demetria…
Ela pegou a mão dele e beijou a palma.
— Eu sei… — murmurou. — Eu sei…
Um minuto passou, depois outro. O ar começou a esfriar à medida que o vapor se dispersava, Demi teve um arrepio e o marido envolveu-a com os braços.
— Está com frio, meu anjo?
— Um pouco.
Ele ajudou-a a levantar-se.
— Vou tomar um banho e você vai se enxugar e se vestir, antes que pegue um resfriado.
Demi aproximou-se mais dele, beijou-lhe um canto da boca, depois o outro. Num gesto rápido, pegou a camisa e o jeans, torceu-os o mais que pode e jogou-os no chão do banheiro. Em seguida, abriu a torneira do chuveiro.
— O que está fazendo? — perguntou Joseph.
— Vou ajudar no seu banho — ronronou ela. — E se você for bonzinho, até esfrego suas costas.
Ele riu.
— Por que esse tratamento especial?
O sorriso dela tornou-se tentador ao perceber que o marido excitava de novo. Pegou a esponja, colocou sabonete liquido nela e começou a esfregar o peito e o ventre dele.
— Não acha que merece? — indagou, maliciosa.
Quando os dedos de Demi envolveram sua masculinidade, ele fechou os olhos e gemeu.
— Não sei se mereço ou não — sussurrou — , mas sei que torcerei seu delicado pescoço se você parar agora.

(...)

Já era de manhã e Joseph relutava em levantar-se. Olhou para o relógio, desejando que não chegasse a hora de ele despertar. Porém, quanto mais os ponteiros aproximavam-se das seis horas, mais ele se via obrigado a encarar o inevitável.
Desligou o alarme e saiu da cama, resolvido a levar as roupas para a sala a fim de vestir-se sem acordar Demi. Quando chegou à porta, voltou-se. Ela sempre dormira com o abandono de uma criança, um braço erguido, um pé para fora da cama, e ele sempre brincava a respeito. Porém, desde que voltara, Demi dormia encolhida e com cobertas envolvendo-a como uma concha. A testa de Joseph enrugou-se. Se, pelo menos, ela se lembrasse do que acontecera! Não era apenas sua esposa. Era a sua vida, a sua razão de viver. E estava dormindo na cama deles, do mesmo jeito que dormia naquele dia…
Sentiu o coração apertar-se, mas tratou de afastar o medo, zangado consigo mesmo por aquele pensamento. Havia uma semana que não sentia mais esse pânico. Provavelmente ele renascera agora por causa da noite
anterior. Fazer amor com Demi era maravilhoso, contudo também o levava a lembrar-se mais agudamente do desaparecimento dela.
Desgostoso por causa dessa sensação tão negativa, foi para a sala. Vestiu-se e um momento depois achava-se na cozinha, colocando água na cafeteira e planejando seu dia. Quando foi pegar o coador de papel, a caixa estava vazia. Escreveu o lembrete para comprá-lo na lista de compras e procurou a toalha de papel. Não era a primeira vez que a usaria para substituir o coador. Ajeitou-a dentro do suporte e abriu a gaveta do gabinete, à sua direita, a fim de pegar a tesoura para cortar o excesso da toalha, o que fez com duas tesouradas.
Cantarolando, colocou o pó no coador improvisado, ajeitou o suporte sobre a cafeteira, tampou e ligou o aparelho. Distraído, pos de volta a tesoura na gaveta, fechou-a e dirigiu-se para a geladeira. Foi então que parou, com os cabelos da nuca arrepiados. Voltou com o coração agitado, e abriu de novo a gaveta.
O envelope com dinheiro não estava mais lá.
Seu coração apertou-se e, em seguida, passou a bater mais apressado ainda. Ficou muito pálido e sentiu enjôo por alguns momentos. Não gostava do que estava pensando, porém era um fato indiscutível e não podia ser ignorado. Os mil quinhentos e cinqüenta dólares haviam desaparecido e ele imaginou há quanto tempo isso teria acontecido.
— Joseph, o que faz aí parado?
Ele voltou-se, observou o rosto sorridente de Demi e pensou em quanto ela havia mudado. Houvera um tempo em que sua mulher não conseguia ter segredos para com ele, quando saberia apenas com um olhar se estava mentindo ou não. E agora? Um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha.
— Onde está? — perguntou.
— Onde está o quê? — rebateu ela.
— O dinheiro.
No mesmo instante o rosto de Demi tornou-se impenetrável. O coração dele parou por instantes e não pôde impedir-se de olhar para os braços delicados, onde antes havia marcas de injeções.
— Não acredito, Joseph! — protestou ela magoada. — Pensei que tivéssemos ultrapassado isto.
Os olhos dele tornaram-se frios e em sua voz transpareceu decepção e ira.
— Eu também pensei, Demetria.
A raiva fez o rosto dela avermelhar-se.
— Eu não cheiro e nem injeto drogas nos braços, se é o que você está pensando.
Joseph atravessou a cozinha e segurou-a pelos ombros, controlando-se para não sacudi-la.
— Eu já não sei o que pensar — resmungou — A mulher com quem me casei não tinha segredos e não mentia para mim.
Demi encolheu-se. A dor dessa acusação era maior do que se o marido houvesse batido nela. Ergueu o queixo e em seus olhos brilharam lagrimas contidas.
— É isso mesmo, Joseph Jonas. Não sou a mesma mulher com quem você se casou. Minha inocência desapareceu para sempre. Alguma coisa que não entendo aconteceu comigo. Mas seja o que for, só posso ter certeza de uma coisa: nunca mais serei a mesma.
Em seguida, segurou Joseph por um braço e puxou-o para o hall.
— O que está fazendo?
— Você quer dinheiro.
De novo o coração dele falhou.
Oh, meu Deus! E se ela apenas guardou em outro lugar? E eu, como um idiota, tirei todas as conclusões, menos a mais lógica.
Sentindo-se mal, ele ficou por segundos parado à porta do quarto e, quando Demi dirigiu-se ao guarda-roupa, seguiu-a completamente despreparado para o que ela colocou em sua mão.
— Aqui está, Joseph! Foi isto que comprei, e pegue o que restou do dinheiro.
Com repulsa ao sentir o frio do revólver em sua mão, ele olhou para a arma, depois para ela. Fitava-a como se nunca a tivesse visto até então.
— Por quê?
Primeiro apenas o queixo dela tremeu, depois o tremor pareceu alastrar-se por todo seu corpo.
— Porque estou com medo, Joseph. Tenho medo a cada minuto que estou acordada e até mesmo dormindo. Quando penso que tudo está bem, pedaços de rostos e lugares desfilam pela minha mente como pequenos, horríveis fantasmas. E quando isso acontece sinto-me como se fosse entrar em estado de choque.
As mãos de Joseph também tremiam quando colocou o dinheiro sobre a penteadeira. Segurou carinhosamente o rosto dela e não escondeu que estava arrependido.
— Por que não me disse que começou a lembrar?
Uma expressão de sofrimento crispou o rosto bonito.
— Porque não sei o que vi. Às vezes são apenas vultos indefinidos, em outras paisagens através de uma janela. De vez em quando eu acordo imaginando que o chão está se movendo sob meus pés, salto ao ouvir um barulho, e até mesmo um cheiro pode me perturbar. — Afinal, as lágrimas
começaram a descer pelo rosto dela. — Muitas vezes penso que estou enlouquecendo.
Ele a abraçou-a e embalou-a, como a uma criança.
— Não está ficando louca, querida. — disse baixinho -, e eu prometo que nunca mais vou duvidar de você. Apenas confie em mim o bastante para me contar-me o que for acontecendo. Não precisa enfrentar essa pressão toda sozinha. De algum modo iremos descobrir o que aconteceu.
— Mas como?
O rosto de Joseph endureceu.
— O investigador particular. Eu já deveria ter falado com ele. Tenho seu telefone no escritório. Vou telefonar-lhe assim que chegar lá e falar com o policial Dawson, também. Quem sabe ele tem alguma novidade.
Demetria assentiu, mas quando Joseph começou a afastar-se, agarrou-se a ele com medo de deixá-lo ir.
— Venha — disse Joseph, carinhoso. — Vista alguma coisa quente e vamos tomar café.
— Eu me sinto como uma criança — soluçou ela, envergonhada.
Joseph pegou o blusão de um de seus abrigos e deu-o a Demi. Em seguida olhou para o revólver.
— Só que não está agindo como uma criança… — comentou. — Você sabe usar essa coisa?
Ela enxugou as lágrimas com as mãos.
— Estou aprendendo.
— Está brincando!
— Não. Estou tendo aulas no Centro de Tiro Foothills, em Lakewood.
O marido olhou-a com novo respeito.
— Não está falando a serio, está?
— Muito a serio — respondeu Demi, vestindo o blusão.

(...)

Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou. Demi pôs de lado a faca de cozinha, lavou as mãos que estavam sujas de tomate e foi enxugando-as a caminho da porta. Pela janela, viu o carro azul-escuro parado junto à guia da calçada. Puxou a cortina e reconheceu o investigador encarregado do seu caso. Teve um sobressalto. Joseph dissera que ia falar com ele, e uma resposta tão imediata a fez supor que havia novidades. Abriu a porta.
— Investigador Dawson, que surpresa! — disse. — Entre, por favor.
Avery Dawson entrou e fechou a porta atrás de si. Aquela mulher não se parecia nada com a aquela que havia interrogado no hospital. A pele dela era clara e perfeita, seu sorriso, resplandecente. Vestia-se de modo casual e havia cheiro de comida sendo feita. Ela não parecia estar apavorada, no entanto comprara um revólver, e o chefe de policia queria algumas respostas antes de assinar o porte de arma.
— Obrigado, sra. Jonas. Peço desculpas pela hora inconveniente, mas gostaria de poder fazer-lhe algumas perguntas.
— Claro — concordou Demetria. — Quer me dar o seu capote?
O policial negou com a cabeça.
— Não vou demorar muito, prometo.
— Pelo menos, venha para a sala. Aqui no hall está muito frio.
Avery Dawson acompanhou-a e sentou-se no sofá oposto à poltrona em que ela se acomodou.
— Quando Joseph me disse, hoje de manhã, que ia telefonar para o senhor, não pensei que fosse nos atender tão depressa. Há alguma novidade?
Dawson franziu as sobrancelhas.
— Não falei com seu marido, sra. Jonas.
O sorriso dela apagou-se.
— Oh…
— Vim aqui a mando do meu chefe. A senhora pediu um porte de arma?
— Sim, pedi — respondeu ela intrigada.
— Isso significa que comprou um revólver recentemente?
Havia algo no tom de voz do policial que a ofendeu. Imediatamente sentiu-se como se estivesse sendo interrogada, quando havia sido a vítima e não a agressora. Inclinou-se para a frente, amarrotando nas mãos o pano de prato e apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Sim, comprei um revólver recentemente. Eu não sabia que as compras de uma arma são rotineiramente investigadas.
O investigador procurou esconder seu mal-estar.
— Normalmente, não são — respondeu.
— Sei… — murmurou Demi. — Continue.
— Olhe, sra. Jonas, estou apenas cumprindo ordens.
Ela permaneceu em silêncio, mas seus olhos eram acusadores, e Dawson procurou uma pergunta que fizesse algum sentido.
— O que a senhora estava pensando quando… Entende? Qual era seu estado de espírito ao decidir comprar a arma?
Demetria sacudiu a cabeça, desanimada. Era tudo que conseguia fazer para impedir-se de gritar. E quando falou, sua voz havia subido uma oitava.
— Diga-me uma coisa, este é o tipo de investigação que o senhor faz normalmente? Porque se for, não é de estranhar que não tenha conseguido encontrar-me.
Dawson corou.
— Olhe sra. Jonas, eu…
Num ímpeto, ela levantou-se.
— Não, olhe o senhor. Alguém roubou dois anos da minha vida. Não sei onde estive, como voltei para casa, mas compreendo que o perigo pode voltar. Sim. Comprei um revólver porque não me sinto segura, e depois desta nossa conversa minha confiança no Departamento de Policia de Denver tornou-se nula. Estou tendo aulas no Centro de Tiro de Foothills. Eu não estou louca, apenas com medo.
— Sim, senhora. Posso entender isso. Mas com certeza a senhora pode compreender a posição do chefe de policia. Nas mãos erradas, um revólver só poderá causar danos.
Ela riu, sarcástica.
— Bem, o que acaba de dizer não é novo, é um slogan de publicidade contra armas. Por que não somos honestos um com o outro? Seu chefe o convenceu que sou uma maluca que abandonou o marido e depois, por motivos de seu próprio interesse, voltou para casa. Não é verdade?
O policial corou de novo. O que ela acabava de dizer estava tão próximo da sua primeira opinião que tinha dificuldade em fitá-la nos olhos.
— Não, senhora. Não foi isso que eu disse.
— Oh, não mesmo. Eu ouvi o que o senhor disse — afirmou Demi — Foi o modo como o senhor falou que me ofendeu. Eu não fiz nada errado, senhor Dawson, no entanto sou a única investigada. Sabe como me sinto diante disso?
Tornara-se ainda mais difícil para Avery encará-la.
— Como já expliquei, estou apenas cumprindo ordens.
— Muito compreensível… — observou ela. — E já que está aqui, importa-se que eu lhe faça algumas perguntas?
Dawson se pôs de pé, extremamente desconfortável com o olhar frio e zangado de Demetria.
— Pode perguntar, senhora.
-O senhor tem alguma novidade a respeito do meu caso?
Ele lembrou-se do telefonema, depois do revólver e negou com a cabeça.
— Não, senhora. Não, desde a informação dada pelo taxista que a apanhou no aeroporto.
— Então, pegue seu caderninho de anotações. Lembrei-me de algumas coisas, nos últimos dias. Não que façam muito sentido, mas, afinal, são lembranças.
O policial passou a escrever no momento em que Demi ergueu-se, começando a andar de um lado para o outro e a falar.
— Onde eu estava aconteceu um terremoto. Não sei por que, mas acho que foi isso que proporcionou minha fuga. Tudo era muito verde. Gramados e árvores… palmeiras, como na Califórnia.
Avery Dawson não pode deixar de lembra-se do telefonema de Los Angeles.
Demetria parou de andar e os grandes olhos castanhos expressaram dolorosa aflição.
— Às vezes quase posso ver o rosto dele… — Então, seus ombros descaíram, ela suspirou e deu um rápido olhar para Dawson. — Mas não posso. No entanto, vi uma tatuagem no peito dele.
O investigador alertou-se.
— Que tipo de tatuagem?
Demi ergueu o cabelo e voltou-lhe as costas.
— Igual a esta.
O policial aproximou-se e olhou atentamente a tatuagem ankh no pescoço esguio.
— Há quanto tempo a senhora tem esta tatuagem?
— Não sei dizer.— Demi soltou o cabelo e virou-se.— Tudo que sei é que não a tinha antes de desaparecer.
Ele tomava notas furiosamente.
— Uma vez tive a impressão de que havia barras de ferro nas janelas do meu quarto. O senhor acha que posso ter estado numa cadeia?
— Com o cenário que descreveu, não. Se a senhora houvesse estado num presídio, a paisagem que veria lá fora seria composta por cimento e arame farpado.
Ela relaxou um pouco.
— Melhor assim… Não posso imaginar onde estive, porém o que acaba de me dizer faz com que me sinta melhor.
— Algo mais? Isso é tudo? Até mesmo as coisas que parecem insignificantes podem ser a chave para nos levar a deduções que nos ajudem.
A testa dela franziu-se, enquanto Demetria pensava com intensidade. Por fim, sacudiu os ombros.
— Não lembro de mais nada.
O policial guardou o caderninho no bolso e nesse momento decidiu nada dizer a Demetria sobre o telefonema de Los Angeles. Preferia contar a Joseph.
— Vou indo. Se por acaso lembrar-se de mais alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me telefonar.
Demi assentiu e acompanhou-o até a porta. Começou a abri-la quando ele a deteve.
— Sra. Jonas, há uma coisa que quero lhe dizer.
Ela esperou.
— Mas deve ficar apenas entre nós.
— Não sei se vai achar importante, porém eu acredito na senhora.
— Não sei se vai achar importante — sorriu ela — , mas eu lhe agradeço por isso.
Momentos depois ele havia ido embora, deixando Demetria com a impressão de que seu mundo ficara mais complicado do que antes. Ocorreu-lhe, então, que não perguntara ao investigador sobre o porte de arma. Paciência. Não importava se o teria ou não: já tinha o revólver e sabia como usá-lo.