14.12.14

Remember Me - Capítulo 8 - MARATONA 3/5

Espero que estejam gostando! Comentem... Boa leitura!

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— E aquele ali? — perguntou Demetria.
O balconista da loja arqueou as sobrancelhas. Aquela mulher podia não entender nada de revolveres, como dissera, porém tinha bom olho. Pegou o pequeno revolver do estojo e colocou-o no balcão, diante dela.
— Boa escolha — disse. — Como os demais que lhe mostrei, este também é um Glock 9mm. É um modelo G26, que é menor, mais leve, mais fácil de transportar e se adaptara direitinho em sua mão. Ele dispara onze tiros, o que é mais que suficiente para proteção normal. Tome, pegue-o — ofereceu. — Veja como o sente.
Demi pegou a arma, fazendo a coronha encaixar-se na palma da mão, e deslizou o dedo no gatilho.
— Este tem as mesmas características que os outros Glock que me mostrou, não?
— O que quer dizer? — indagou o balconista.
— Estou me referindo a tiros acidentais, caso ele caia no chão.
— Oh, sim, claro! — afirmou o vendedor. — De fato, essa é a maior qualidade do Glock. Ele apresenta três mecanismos internos de segurança , todos baseados no gatilho, como eu expliquei. Falando mais simplesmente: esta arma não dispara a menos que o gatilho seja acionado.
Ela assentiu, observou o cano, depois mirou num alvo de papel na parede oposta.
— A senhora já atirou alguma vez? — quis saber o homem.
— Não.
— Então, recomendo que tome umas aulas.
Ao falar o balconista sorriu, tirando a impressão de critica de sua frase.
— Estou pensando em me inscrever no Centro de Tiro de Foothills, em Lakewood. O senhor conhece?
— Excelente escola de tiro. Tenho certeza de que lá receberá toda a instrução que necessita.
Demetria assentiu de novo. Pouco mais havia a ser dito e, na verdade, sentia-se um tanto desconfortável com o fato de estar considerando seriamente comprar um revolver.
Olhou de novo a arma, o modo como seus dedos se curvavam ao redor da coronha, o jeito como ela se aquecia ao contato da mão. Quanto mais a segurava, mais lhe parecia uma extensão de si mesma. Deveria sentir-se estranha, até mesmo aflita, segurando um revólver, mas isso não acontecia. Ao contrário: o contato com ele acalmava seu medo e a fazia sentir-se no mesmo nível que seu captor sem rosto.
Então, ela estremeceu. Ter uma arma não significaria a garantia de que estava a salvo. Havia muitas perguntas não respondidas, e não poderia descansar enquanto não soubesse tudo a respeito dos dois anos que perdera. Simplesmente possuir um revólver não a salvaria de futuros perigos, mas dava-lhe amparo emocional de que tanto necessitava.
Sentiu em si o olhar do vendedor e, sem saber o motivo, teve relutância em encará-lo. De súbito, uma reação bastante estranha a dominou: tinha uma sensação de culpa associada à compra da arma. Era como se estivesse admitindo ao mundo que sua vida havia sido transformada e que estava disposta até mesmo a recorrer à violência para endireitá-la de novo.
Além disso, tratava-se de uma decisão que não submetera a Joseph. Então, argumentou consigo mesma, dizendo-se que não era seu marido que corria um perigo iminente. Pelo vidro da vitrina, viu o carro onde Betty a esperava com paciência.
Respirou fundo.
— Quanto custa?
— Duzentos e vinte e sete dólares, mais as taxas — respondeu o balconista. E acrescentou: — A senhora deverá vir retirá-lo dentro de três dias.
— Está bem — concordou ela.
— Então, tudo certo — alegrou-se o homem. — Preciso que a senhora preencha alguns formulários .
Ela fez o que ele pedia e pouco depois saiu da loja de armas. Deu um sorriso nervoso para a sogra e acomodou-se no assento do passageiro.
— Comprou? — indagou Betty.
— Sim.
— Espero que saiba o que está fazendo…
O sorriso de Demi desapareceu.
— Vou fazer todo possível para não ser uma vítima de novo.
Os olhos claros da sra. Jonas expressaram simpatia e compreensão quando estendeu a mão para apertar a da nora.
— Sinto muito o que aconteceu com você — murmurou, afetuosa -, mas peço-lhe que tome cuidado. Muita gente morre, todos os dias, por ferimentos de tiros acidentais.
Os lábios de Demi apertaram-se, formando uma linha fina.
— Se um dia eu apertar o gatilho de meu revólver não será por acidente.
Betty empalideceu. Aquele era um lado de Demi que não conhecia.
— Você poderia, mesmo? Matar alguém, quero dizer.
— Se a minha vida ou a de Joseph forem ameaçadas, sim.
— Tem certeza Demi?
— Tenho, sim — respondeu ela e desviou o olhar.
Foram para casa em silêncio. Apenas quando o carro virou a esquina de sua rua, Demetria falou.
— Joseph já chegou… — Então lembrou-se e acrescentou: — Muito obrigada pelo almoço e por ter me levado a tantos lugares.
Depois de parar o carro, a sra. Jonas a abraçou.
— Oh, meu bem, foi um prazer. Quando você desapareceu eu sofri como se houvesse perdido uma filha. Pensei que nunca mais estaria com você como se estive hoje. Quando quiser minha companhia, é só dizer.
— Vou querer e logo — prometeu Demi.
Saiu do carro e foi envolvida pelo vento gelado. Parecia que ia nevar. Correu até a porta e seus dedos se contraíram ao pegar na maçaneta fria, mas antes que ela abrisse, Joseph o fez. Deu-lhe um amplo sorriso, ficou de lado para que entrasse na casa aquecida e fechou a porta atrás dela.
— Venha já para cá — ordenou ele e abriu os braços.
Demetria obedeceu imediatamente, encostou o rosto no blusão de moletom vermelho e saboreou o prazer da força do abraço do marido. Joseph esfregou o queixo no alto da cabeça dela, amando senti-la junto de si e agradecendo a Deus por poder abraçá-la mais uma vez.
— Você e mamãe ficaram o dia inteiro fora. Não está cansada?
— Um pouco, mas foi bom estar com ela. Eu a adoro, você sabe.
Ele sorriu.
— Sim, eu sei. E acho que ela a adora também.
Joseph recuou apenas o bastante para fitar o rosto dela.
— Que tal um banho quente antes do jantar?
Ela concordou, depois franziu a testa, lembrando-se de alguma coisa.
— Oh, Joseph, eu não preparei nada para o jantar e nem me lembrei de trazer alguma coisa. Temos em casa o que fazer?
— Não se preocupe, já está feito. — garantiu ele.
Os ombros dela descaíram.
— Não estou cumprindo o nosso acordo, não é?
— Que acordo? — ele estranhou.
— Aquele em que você trabalharia e eu cuidaria da casa.
— Quem é que está se importando com acordos, Demetria? O que acontece a você, acontece a mim e vice-versa. Quanto ao que me diz respeito, você já deveria estar na cama, e pode ter certeza de que não irá começar a cuidar da casa enquanto não estiver mais forte.
Um leve sorriso entreabriu os lábios dela.
— Está bem.
— Agora que tal o banho? — lembrou Joseph.
— Está bem, e me espere, que não vou demorar — prometeu ela.
— Demore o quanto quiser, meu anjo. De qualquer modo as batatas ainda estão no forno, assando.
Demi dirigiu-se apressada para seu quarto, sentindo-se culpada por Joseph tratá-la com tanto carinho e dedicação. Enquanto ela agia as escondidas dele. Mas tratou de lembrar-se que não o fazia apenas por si: estava agindo assim pelo bem de ambos.

xx

Gotas de suor surgiram sobre o lábio superior de Pharaoh quando ele se virou na cama. Pegou a patinha de coelho e esfregou-a com os dedos, tentando bloquear a dor que sentia. Frustrado com a recuperação lenta dos ferimentos e a sonolência que a medicação para a dor causava, parara de tomá-la fazia dois dias. Agora, com a mente clara outra vez, seu corpo se recusava a funcionar. Cerrou os dentes e obrigou os olhos a focalizar as pequenas estátuas de duas personagens egípcias sentadas lado a lado na alcova na parede oposta à que ficava sua cama.
Ísis, esposa de Osíris e reverensiada mãe de todas as coisas, senhora dos elementos, começo do tempo. Osíris, ao lado dela, era o senhor do mundo subterrâneo, o príncipe dos mortos.
Pharaoh apertou ainda mais os dentes quando um outro espasmo de dor cruciante percorreu-lhe o corpo. Fechou os olhos, ordenando à mente que ignorasse a dor e que o fizesse lembrar-se de qual era a sua origem. Viera do rico, indolente mundo dos antigos reis, os faraós, das rajadas de areias do deserto, do calor que nunca terminava, das águas frias do Nilo e da sombra das tamareiras. Era muito mais fácil assimilar essa fantasia do que
encarar o dato de que havia sido abandonado ao nascer e criado num orfanato, sem que tivesse a menor idéia de quem haviam sido seus pais.
Na loucura que dominava sua mente, Pharaoh Carn estabelecera que era a reencarnação de um faraó que falecera no Egito, num mundo de mistério e beleza que nunca havia visto. E havia sido seu nome, Pharaoh, que lhe dera a chave para descobrir o que acreditava ser a sua vida passada.
Tocou o ankh tatuado no peito , olhando atentamente para as estatuas, procurando por si mesmo nas feições dos frios rostos de mármore.
Sua mente saltou do passado para o presente quando a imagem de Demetria se impôs à frente do que via. Um músculo pulsou em suas têmporas e ele procurou afastar a visão do seu cadáver jazendo, desconhecido, em alguma morgue da califórnia. E enquanto seu coração lhe dizia que ela estava viva, a lógica dizia o contrario, pois se houvesse sobrevivido ao terremoto eles já a teriam encontrado. Mandara Stykowski a Denver, dias atrás, mas ele ainda não dera noticias. Seus dentes rilharam de frustração. O mínimo que o maldito poderia fazer era dar um telefonema.
Batidas suaves soaram à porta, interrompendo-lhe os pensamentos atribulados.
— Entre.
Duke Needham abriu a porta, mas ficou parado no umbral.
— Chefe, não quero incomodar, mas tivemos problemas nas docas, em Houston.
O cérebro de Pharaoh rapidamente abandonou o lado pessoal pra focar o lado dos negócios que regiam sua vida.
— O que foi? — indagou bruscamente.
— O DEA. Eles acabam de confiscar o Pequeno Egito e tudo que havia nele.
O rosto de Pharaoh contraiu-se de raiva. Seu iate pessoal sempre fora respeitado pelos agentes do departamento de combate ao narcotráfico. Alguém no DEA não merecia o dinheiro que ele pagava.
— Ajude-me a levantar — ordenou. — Preciso fazer uns telefonemas.
Duke correu para a cama e ajudou o chefe a se pôr em pé.
— O que você quer, agora? — perguntou solícito.
— Ir para o meu escritório . Ache a maldita enfermeira e descubra onde ela enfiou a droga da cadeira de rodas.
— Sim, senhor.
Duke saiu correndo.
Minutos mais tarde, depois de ordenar a remoção permanente do policial Dabney Carruthers da face da Terra, Pharaoh desligou o telefone.
— O desgraçado! — rosnou. — Vai aprender a querer me tapear. Eu gostava daquele iate…

xx


Joseph acordou bruscamente de um sono sem sonhos e rolou na cama, olhando o relógio com dificuldade. Quinze para as seis da manhã. Desligou o alarme antes que ele soasse e acordasse Demi, depois rolou de costas de novo, para aproveitar por mais alguns minutos o calor sob as cobertas.
Adormecida, Demetria estava virada de frente para ele, que pode ver as feições delicadas emolduradas pelos cabelos negros, lembrando as de uma boneca de porcelana. Aproximou-se muito devagar, querendo apenas sentir sua pele de leve na dela, mas assim que a tocou ela deslizou para junto dele e apoiou o rosto no seu peito, com o nariz enfiado sob as cobertas.
O coração de Joseph apertou-se. Para um homem grande, forte e auto-suficiente como ele, era assustador amar com tanta intensidade e saber que uma mulher tão pequena tinha imenso poder sobre sua vida e felicidade.
Passou o braço ao redor do corpo de Demi, adorando a sensação de seu corpo junto ao dele, sabendo que aquela mulher, aquela linda e frágil mulher, era sua esposa. Porém seu maior medo não vinha da fraqueza dela, mas sim de saber que não lhe dera segurança. Prometera honrá-la e protegê-la em todos os dias de sua vida de casados, que mal durara doze meses. Isso não era muito abonador para um homem que fazia questão de cumprir o que prometia.
Ficou olhando-a enquanto Demetria ajeitava-se junto ao corpo dele, sentindo o bater de seu coração e a leveza da respiração em sua pele. Em seu peito surgiu um fogo devorador. Ele iria honrar suas promessas. Iria proteger sua mulher.

(...)

Parada junto à janela, Demi acenou pra Joseph, que dava marcha-à-ré em direção à rua, saindo da garagem deles. O segundo carro de Winston e Betty Jonas achava-se estacionado na rua, em frente da casa, e no console do hall havia um telefone celular.
Ela deixou a cortina voltar à posição original e voltou-se para dentro da sala, absorvendo a quietude que a rodeava. Era a primeira vez que ficava sozinha desde que voltara e não sabia se devia sentir-se orgulhosa ou amedrontada. Num cantinho de sua mente, parecia latejar a constante ameaça do desconhecido. No entanto, Joseph fizera todo o possível para ter certeza de que ela nunca mais iria sumir.
Enquanto o carro parado diante da casa dava a Demi uma sensação de liberdade o celular dava segurança a ele. Poderia entrar em contato com Demi a qualquer momento, em qualquer lugar, e ter certeza de que sua mulher estava em segurança.
Demetria ficou olhando a sala silenciosa, discutindo consigo mesma sobre se deveria levar seu plano adiante. Já podia ir buscar o revólver que encomendara. Mas estaria pronta para dar esse passo? Não apenas mentia para Joseph, como também para si mesma. Sim, queria proteção, porém havia uma parte de si que queria vingança. Alguém roubara dois anos de sua vida!
Meu Deus, por que não consigo me lembrar?
Meneando a cabeça, foi para a cozinha, dizendo-se que devia ir cuidar da louça do café da manhã e, depois, colocar roupas na máquina de lavar. Havia tempo para pensar no revólver e poderia até mudar de idéia.
Colocou a louça na máquina, ligou-a e foi tirar a toalha da mesa. Nesse momento seu olhar deu com a gaveta onde Joseph guardara o dinheiro que havia encontrado na sua roupa. Apesar de sentir-se nervosa, abriu-a, pegou o maço de notas e ficou olhando para ele como se a qualquer momento pudesse explicar sua presença.
Mas nada aconteceu.
Nenhum lampejo de lembranças.
Nenhuma revelação.
Com a testa franzida, tornou a guardar o dinheiro na gaveta. Tinha que ir cuidar da roupa para lavar. Era o que devia fazer, em vez de ficar complicando sua vida com idéias que poderiam ser decepcionantes.
Estava separando as roupas quando reparou na camiseta Harley-Davidson de Joseph. Era velha, estava desbotada, mas assim mesmo era a que preferia usar para dormir. Sorriu e encostou-a no peito, pensando em como seu marido era grande.
Quando trabalhava na biblioteca quase sentira ciúme do jeito que suas colegas de trabalho agiam quando ele ia buscá-la. Em geral, ele aparecia vestido com as roupas de trabalho: a macia e desbotada calça jeans; a camisa xadrez, azul de algodão. Ambas
modelavam o corpo musculoso, cobrindo o que importava, mas deixando bem pouco à imaginação. As sobrancelhas dele eram grossas, negras e tendiam a arquear-se quando algo o intrigava. Seu queixo era quadrado, forte, indicando teimosia e auto-confiança, os olhos eram de um azul escuro. Mas era só aparência de um rapaz durão e rebelde. Joseph era tão atraente quanto era crédulo e honesto.
Demetria suspirou, deixou a camiseta cair na pilha de roupas de cor e terminou a separação. Alguns minutos depois a máquina de lavar movimentava-se, ronronando, e a de lavar louça iniciava o ciclo de enxágüe. Ela parou no meio da cozinha, procurando mais o que fazer. De novo seu olhar foi para a gaveta do armário. Mordeu os lábios, foi para a sala de estar e ligou a tevê.
Um programa de entrevistas e sete comerciais depois, continuava tão inquieta quanto no momento em que se sentara ali. Olhou para o relógio acima da lareira. Eram quase dez horas. Faltavam duas horas para o almoço e pelo menos seis horas antes que Joseph voltasse para o jantar.
Quando o programa terminou, começou um breve noticiário, mencionando a possibilidade de neve ainda naquela manhã. Em seguida entrou uma reportagem sobre a continuidade dos trabalhos de reestruturação do sul da Califórnia devido aos estragos causados pelo terremoto.
À medida que o repórter falava e cenas sucediam-se no vídeo, a pele de Demetria começou a arrepiar-se. O sangue fugiu de seu rosto ao ver os prédios desmoronados e o desespero das pessoas.
Corra, Demetria, corra!
Ela ofegou e voltou-se, certa de que alguém falara atrás de si, mas não havia ninguém. Ergueu-se do sofá e correu para a porta, a fim de ver se estava bem trancada, repetindo o procedimento com as outras portas e janelas. Ao mesmo tempo certificou-se de que estava só.
Ficou parada no hall, ouvindo o silêncio e esperando para ver se a voz soava de novo. Então, algo começou a emergir em sua memória.


Ela estava correndo… correndo. Havia uma longa escadaria. Janelas explodiam como tiros. De repente viu-se diante de uma imensa porta e tentou ver além dela. Havia verde, muito verde. Muitas, muitas árvores. E boa parte delas estava caindo. Tudo estava caindo. Estremeceu e fechou os olhos enquanto a imagem solidificava-se em sua mente.
Nesse instante alguém a agarrou. Uma dor terrível explodiu na sua nuca quando o chão movimentou-se e foi atirada violentamente contra a parede.
Ouviu a si mesma gritando:
— Quero ir para casa!
Via os olhos negros dele brilhando de ódio quando a segurou com força.
— Mas você esta em casa, Demetria. Agora você me pertence.
Ela se debatia, lutava, sentindo as mãos do homem apertando-lhe a garganta.
— Largue-me, deixe-me ir! — implorou desesperada, com dificuldade para respirar. — Eu não quero morrer!
Com dificuldade para respirar.— Eu não quero morrer!
Então, empurrou-o e ele caiu. Rolou pela escada que oscilava e acabou estendido lá embaixo, deitado de lado. O sangue que saía da parte de trás da sua cabeça manchava o mármore branco veiado de negro, misturando-se ao reboque e vidro quebrado espalhados pelo chão. O piso movimentou-se sob os pés dela, que foi lançada para a frente e, apoiada nos joelhos e mãos,
escorregou dois ou três degraus abaixo, até que conseguiu parar. O ar estava denso de poeira. Algo explodiu lá fora e as luzes se apagaram. Ignorando a dor, ela desceu correndo a escadaria, também de mármore, segundos antes que ela desabasse, destruída. Foi cair ao lado do corpo imóvel. Quando ergueu o rosto, quase esbarrou no nariz do homem inconsciente.

As imagens começaram a apagar-se.
— Não — murmurou Demetria.
Tentou desesperadamente lembrar-se do que acontecera a seguir. Fechou os olhos e procurou concentrar-se nas feições do homem. Precisava de uma identidade antes de ir à polícia. Mas a imagem não quis voltar. Tudo que conseguiu ver com os olhos da mente foi a lapela do paletó dele quando o rolou, fazendo-o ficar de costas, para pegar a carteira no bolso de dentro.
Levou a mão aos lábios, contendo um grito, e abriu os olhos. O dinheiro! Fora assim que conseguira aquele dinheiro todo.
Correu para a cozinha, achando que se tocasse naquelas notas talvez tivesse as respostas. Mas quando pegou-as da gaveta, tudo que sentiu foi um aperto ruim na boca do estômago. Talvez não fosse mais precisar do revólver. Na visão que tivera o homem parecia morto, no entanto algo a impedia de ficar tranqüila. No último momento, no alto da escada, o homem tentara salvá-la ou matá-la?
Cerrou outra vez os olhos.
— Por favor, meu Deus, ajude-me a me lembrar — pediu.
Mas nada aconteceu.
Segurando o dinheiro com ambas as mãos, apertou-o contra o peito como se fosse uma espécie de escudo. Seu pensamento voava de uma cena a outra, sem que conseguisse apreendê-las. O que acabava de se lembrar a fez sentir mais medo ainda. Ficou imóvel, até que o medo começou a se transformar num frio e raivoso propósito.
Foi para o quarto trocar de roupa.
Alguns momentos depois, saiu. Deu um olhar curioso de alto a baixo da rua e foi para o carro.
A sra. Rafferty, que morava do outro lado, em frente, abaixou-se, pegou seu jornal e ao erguer-se viu-a. Acenou, toda alegre. Demetria acenou em resposta e sorriu. Nada havia mudado. A sra. Rafferty continuava gostando de acordar tarde, pois era evidente que estava começando seu dia.
Quando abriu a porta do carro para entrar, o sr.Davidson, que morava um quarteirão abaixo, ia passando com seu cachorro. Ele não acenou, mas não por não ser amigável. A bengala branca que movimentava adiante dos pés
dizia tudo: ele era cego. Demi deslizou para trás do volante e foi só então que percebeu que o cão guia que acompanhava o cego não era o mesmo de antes. Ficou olhando pelo espelhinho até que o sr. Davidson e seu cão viraram a esquina.
Aquele era mais um sinal de que a vida ali continuara sem ela.
Antes de dar partida no motor, verificou o endereço da loja de armas. Movimentou o carro, pensando que uma parte de sua memória havia desaparecido, porém a parte que mais importava, a da vontade e determinação de viver, continuava forte. Onde quer que tivesse estado, dera um jeito de voltar para Joseph.

(...)

— Pronto, sra. Jonas. Assine aqui e poderá ir embora sossegada.
Demetria assinou o recibo e contou cuidadosamente sete notas de cem dólares, enquanto o balconista acomodava o revólver numa caixa e a enfiava numa sacola.
— Quantas balas a senhora quer comprar, fora as que já estão na arma?
— Não sei — respondeu ela, erguendo os olhos. — O bastante para aprender a atirar, creio.
O vendedor pegou várias caixas de balas e colocou-as na sacola, junto com o revólver.
— Isto dá para o começo, só que vai custar um pouco mais.
Ela pegou outra nota do maço e acrescentou às que pegara. O dinheiro nada significava e pouco lhe importava de onde viera: ia usá-lo bem.
Se pretende andar com o revólver — avisou o homem -, deverá tirar um porte de arma.
Demetria ficou perplexa. Aquilo ia complicar seus planos.
— E como faço isso? — perguntou.
— Precisa solicitar ao chefe de polícia, por meio de um formulário.
— E onde arranjo esse formulário?
O balconista pegou o dinheiro que ela lhe estendia.
— Devo ter algum, vou lá dentro ver.
Desapareceu na sala no fundo da loja, deixando-a sozinha. O sininho da porta bateu. Ela voltou-se, rápida, olhando desconfiada para o homem com roupa de camuflagem que entrava, mas ele não lhe prestou a mínima atenção e foi examinar uns pentes de munição que estavam numa prateleira.
Demetria deu-lhe as costas e observou, nervosa, a porta por onde o vendedor desaparecera. De repente, quis apenas fugir daquela loja e de tudo que ela representava.
Olhou para a sacola que segurava e seus ombros descaíram. Assumindo a responsabilidade pela própria proteção, nunca mais iria sentir-se livre. Viu o balconista voltando. Ainda estava em tempo.
— Aqui está seu troco — disse ele -, e o formulário. É só preenchê-lo e enviá-lo ao endereço que está aí. A polícia manda o porte de arma para a senhora. Está bem?
As mãos dela tremiam quando guardou o troco e o formulário na bolsa. Quando chegou ao carro sentia-se enjoada. Sentou-se ao volante e fechou a porta. O ruído pareceu-lhe ensurdecedor no silencio da rua.
O ar que respirava espessou-se quando olhou para a sacola no banco a seu lado. Tudo o que conseguia pensar era: O que eu fiz?
Uma necessidade insuportável de ouvir a voz de Joseph apoderou-se dela. Pegou o celular na bolsa e discou.
— Construções Jonas, Mike às suas ordens.
— Mike, é Demetria, a esposa de Joseph. Pode chamá-lo, se ele não estiver muito ocupado?
— Claro, sra. Jonas. Espere um momento.
Demi fechou os olhos, concentrando-se nos rumores que ouvia através do telefone. Os estampidos dos revólveres de cravar pregos eram fortes e contínuos. O ronco das maquinarias pesadas, em movimento constante, lembravam-na de como era o mundo de Joseph. Antigamente era um mundo familiar também para ela, mas agora sentia-se uma estranha. Antes que pudesse aceitar esse fato soou a voz do marido trazendo-lhe um grande alivio.
— Demi… meu anjo… alguma coisa errada?
Ela não merecia tanta ansiedade e carinho. Mordeu o lábio inferior e seus olhos brilharam, com lágrimas.
— Não, nada. Está tudo certo.
— Mike disse que você parecia nervosa.
Demetria olhou a sacola de novo. A urgência de contar tudo a ele era forte, porém Joseph já sofrera muito e longamente com o desaparecimento. Não podia sobrecarregá-lo com seus medos. Por isso, em vez de dizer-lhe a verdade, mentiu.
— Não estou nervosa. Apenas queria ouvir sua voz. Só isso.
— Tem certeza de que está bem? Parece que você está chorando…
Tentando transformar um soluço em riso, ela respondeu:
— Você tem muita imaginação! Vai chegar em casa tarde?
— Acho que não — respondeu ele.
— Ótimo. Mas me dê tempo para fazer um jantar especial.
— Não se canse, querida — pediu Joseph. — Qualquer coisa estará bem. — Abaixou a voz: — Na verdade, a única coisa que quero é você.
Desta vez Demi riu de verdade.
— Como eu disse, vou fazer algo especial… — Antes de desligar, acrescentou: — Eu te amo.
— Eu também te amo, Demetria, mais do que nunca. Até logo, meu anjo.
— Até logo — respondeu ela e desligou.
Colocou o celular ao lado da sacola, fitando-a de novo, só que desta vez o brilho em seus olhos não era de lágrimas. Tirou o carro do estacionamento para dirigir-se a Lakewood, onde ficava o Centro de Tiros de Foothills.
Talvez estivesse errada não dizendo nada a Joseph, mas agora já começara, e a única coisa que tinha a fazer era continuar.
Se tivesse olhado para trás nesse momento, teria visto o homem com roupa de camuflagem sair rapidamente da loja de armas. Porém estava prestando tanta atenção no tráfego à sua frente que não se preocupava com o que se passava atrás.

Remember Me - Capítulo 7 - MARATONA 2/5

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Uma estranha angustia apertou o coração de Joseph. Alguns meses atrás levara varias noites imaginando aquele momento; noites em que não conseguia dormir, quando começava a aceitar o fato de que nada mais teria de sua esposa desaparecida a não ser lembranças. Agora, não. O retorno dela era uma realidade, e não havia médicos, enfermeiras e nem policiais do outro lado do quarto. Apenas ele e ela, mais o amor que antes os unia. Será que Demi o perdoava? Será que podia confiar nela? Chegou à conclusão que nada disso importava.
Rodeou o rosto delicado com ambas as mãos, tomando cuidado para não tocar o local do ferimento na cabeça e achando que talvez ainda fosse cedo para fazerem amor.
— Você tem certeza?
O queixo dela tremeu.
— Certeza de que o amo? De que quero fazer amor com você? Oh, Joseph, o que está pensando?
Ele soltou a respiração que retivera e abaixou a cabeça. E, por fim, nada mais se ouviu a não ser o roçar de um corpo contra o outro quando ela se ergueu na ponta dos pés para que ele a beijasse. Em segundos o abraço que os unia transformou-se de doce em enlouquecedor.
Ela gemeu com a investida violenta que a fez encostar-se na parede. Beijos famintos sucederam-se até que ambos ficaram ofegantes, respirando com dificuldade. Joseph enfiou os dedos nos cabelos dela, e só quando Demi encolheu-se é que lembrou-se do ferimento. Imobilizou-se, com remorso.
— Desculpe, desculpe… — murmurou.
Começou a recuar, porém ela segurou-o e puxou-o de novo para si.
— Cuidado, Demetria…
— Não quero ter cuidado. Quero ser amada — implorou ela.
Joseph conteve um gemido. Recusar a ela, ou a si mesmo, era impossível. Tomou-a nos braços de novo, beijou-lhe suavemente o rosto, as pálpebras e, por fim, os lábios macios, cálidos, que correspondiam às suas solicitações. Porém ele queria mais, muito mais.
A cabeça de Demi girava, enquanto a paixão a envolvia. Tremendo, ela interrompeu o beijo e inclinou a cabeça para trás a fim de olhá-lo.
— Joseph…
A voz dele não foi mais do que um murmúrio.
— Sim, meu anjo?
— Leve-me para a cama.
Um músculo começou a pulsar junto às têmporas dele, enquanto a erguia nos braços e a carregava através do quarto. Quando a deitou na cama Demi puxou-o para cima dela. Rolaram, emaranhando-se com os lençóis. Imediatamente, Joseph livrou-se dos lençóis e começou a tirar as roupas dela. Sua intenção era urgente e impossível de ser ignorada. Ele a queria nua e queria naquele instante.
Demetria correspondeu, tirando a camisa e o jeans que ele vestia, até que a única coisa que restou entre eles foi a paixão.
Joseph apoiou-se nos cotovelos, erguendo-se para fitar a esposa. O sorriso dele era de felicidade, sua respiração, curta e ofegante. Dois anos de abstinência sexual ameaçavam destruir seu controle.
— Demetria, minha querida, não sei se devo…
Ela tapou-lhe a boca com a mão.
— Deve, sim amor. Deve…
O gemido de Joseph soou no silêncio do quarto quando ela abriu-se como uma flor para que a penetrasse, e ele o fez com profundo ardor. Enquanto começava a possuí-la, pensamentos passavam-lhe pela mente como relâmpagos , dizendo-lhe daquele longínquo período de solidão, em que sua única companhia era ele mesmo.
Há tanto tempo… É tão bom…
Demetria passou as pernas pela cintura dele, fazendo-o penetrá-la mais. Joseph gemeu de novo. Tudo estava acontecendo muito depressa.
De repente, as batidas do coração ressoavam como tambores em seus ouvidos, e seu corpo movimentava-se por si mesmo, sem que qualquer pensamento mais lhe passasse pelo cérebro. Então a sensação deliciosamente arrasadora o envolveu, levando-o mais para dentro e para o fundo de um mar denso de prazer. Ouviu o grito que se prolongou num rouco gemido. Era a si mesmo que ouvia e, em seguida, foi como se estivesse se desmanchando.

(...)

Passavam três minutos das três horas da tarde quando a campainha soou. Joseph saiu rápido da cozinha, ansioso para evitar que o barulho acordasse Demi. A manhã havia sido exaustiva para ela, porém compensadora para ambos. Tivera a exata sensação de estar fazendo amor com Demetria pela primeira vez.
No caminho para a porta, olhou pela janela e viu o carro de seu pai lá fora. Franziu a testa, imaginado se teria acontecido alguma coisa no trabalho. Num gesto rápido, ajeitou os cabelos com as mãos e abriu a porta. O vento soprava forte e gelado.
— Entre, pai, aí fora está muito frio.
Fechou a porta assim que ele entrou.
— Que tempo mais miserável! — resmungou Winston, tirando o capote.
Joseph observou o pai pendurar o capote no porta-chapéus , à entrada do hall. Como sempre era impossível avaliar o que ele pensava ou sentia.
— Que tal um café bem quente, pai? Acabei de fazer.
— Não quero dar trabalho, mas aceito.
Esfregando as mãos, Winston Jonas acompanhou o filho até a cozinha. Curioso, olhou em volta, enquanto Joseph servia e lhe entregava o café.
— E Demi?
— Está dormindo.
Winston assentiu, pegou a caneca e envolveu-a com as duas mãos para esquentá-las.
— Ela está bem? — perguntou.
Joseph encostou-se no balcão da pia.
— Vai indo…
— Lembrou-se de alguma coisa? — quis saber seu pai.
— Nada que possa ajudar… ainda.
O senhor tornou a assentir e tomou um gole de café.
— Tudo bem no trabalho? — indagou Joseph.
— Sim, claro.
— Agradeço por ter ido me substituir, pai.
Mais uma vez Winston fez que sim com a cabeça e tomou outro gole de café.
Vários longos e desconfortáveis momentos se passaram entre os dois homens, com Winston ocupado em assoprar o café antes de beber e Joseph observando-o.
— O que você acha? — perguntou o sr. Jonas, finalmente.
Joseph suspirou. Sabia ao que o pai estava se referindo. Ele ficara tão zangado e abalado com os acontecimentos que era natural seus pais estarem curiosos a respeito de sua disposição.
— Acho que agi como um perfeito idiota, pai. Felizmente, Demetria parece gostar de homens com orelhas grandes, pontudas e rabo.
Winston forçou um sorriso.
— É um julgamento severo, filho.
— Talvez seja — concordou Joseph -, porém eu devia ter tentado ver o lado dela, primeiro.
— Bem, deve-se admitir que as marcas de agulhas nos braços eram muito perturbadoras. Acrescente-se a isso o fato de ela ter esquecido o que aconteceu nesses dois anos, e a verdade é que você se viu diante de sua esposa com muita coisa estranha e inexplicável.
— É verdade — anuiu Joseph. -Mas o que me fez sentir-me pior ainda foi saber que durante o tempo todo em que a pressionei para me dizer onde ficou nesses dois anos ela sofria efeitos de uma grave concussão. — Estremeceu. — É de admirar que eu não a tenha deixado largada aí, para morrer.
— O fato é que não o fez e pronto — argumentou Winston. — Por falar nisso, sua mãe mandou avisar que estará aqui amanhã cedo, ali pelas oito horas.
Joseph ficou perturbado. Pensar em sair e deixar Demetria em casa o fazia ficar doente.
— Não sei. Eu estava pensando em passar mais um dia…
Winston segurou o filho pelo braço.
— Joseph…
— O quê?
— A culpa não é sua.
— O que não é culpa minha, pai?
— O desaparecimento de Demi. E o fato de sua mulher ter voltado não significa que você tenha que ficar aqui dentro com ela pelo resto de sua vida. O casamento de vocês tem a chance de sobreviver ao que aconteceu, só se voltarem a sua existência normal o mais depressa possível.
Logicamente, Joseph sabia que o pai tinah razão, mas emocionalmente não estava pronto para aceitar.
— Vou pensar — resmungou.
Winston pôs a caneca de café no balcão e olhou o relógio de pulso.
— Bem, pense depressa, então, que tem apenas dezessete horas até sua mãe chegar. Depois disso, você estará indo para o trabalho.
Ele sabia que o pai tinha razão; quando Betty Jonas enfiava uma idéia na cabeça nada a segurava.
— Vou conversar com Demi quando ela acordar.
— Conversar comigo sobre o quê? — perguntou Demetria.
Ao som da sua voz os dois homens voltara e, mais uma vez, Joseph ficou preocupado com o aspecto frágil da esposa.
— Nós não queríamos acordá-la — disse.
-— Não acordaram — garantiu ela.
Sorriu timidamente para o sogro. Ele era muito parecido com Joseph, não apenas na aparência, como também no gênio e na personalidade. Imaginou se ele seria muito severo ao julgá-la.
— Então? — Winston correspondeu ao sorriso. — Não vou ganhar um beijo de boa tarde?
Um luminoso sorriso espantou as sombras do rosto bonito e Demi correu para os braços do sogro. A camisa de Winston cheirava a charuto, óleo diesel e frio, mas o abraço caloroso superou isso tudo.
— Eu não sabia se você ia querer um beijo meu — disse ela, baixinho.
Winston ergueu as sobrancelhas para o filho, depois afastou-a e fitou-a. Os olhos dele brilhavam.
— E por que não iria querer um beijo da minha filha?
Demetria sentia vontade de chorar. Era rara uma atitude de carinho tão desprendido por parte do sogro, por isso dava-lhe mito valor.
— Por causa disso vai ganhar dois beijos!
E deu um beijo estalado em cada face de Winston, que corou,mas continuou a sorrir.
— Muito bem, então. Dei meu recado e a gorjeta foi muito maior do que eu merecia, porém a recebi com prazer.
Joseph riu. Gostava de ver o pai mais risonho do que de hábito.
— Ei, vocês dois aí — começou Demi. — Agradeço as honras feitas, mas ainda estou esperando a resposta. Estou aqui, perceberam? Sobre o que queriam falar comigo?
Antes que o filho respondesse, Winston deu o recado de novo.
— Betty mandou dizer que virá amanhã cedo e que passará o dia com você, assim Joseph pode voltar ao trabalho.
Demi ficou perplexa.
— Claro que vou adorar passar o dia com ela, mas não preciso de babá.
A tensão envolveu Joseph. Como um homem podia dizer a esposa que não queria deixá-la sozinha por ter medo de que ela desaparecesse?
— Olhem, rapazes, a não ser por uma pequena dor de cabeça de vez em quando, estou bem. O médico disse que eu estou bem. — Ela fitou Joseph preocupada. — Se você precisava tanto estar no trabalho, devia ter me dito antes. Eu teria ficado muito bem sozinha.
Winston interferiu seco.
— Eu não queria começar essa confusão ao dar o recado da sua mãe. Basta vocês dizerem a ela que não precisa vir. Vou para casa. Telefonem, se precisarem de mim.
— Sim, pai… E obrigado por ter me substituído hoje.
— Não há por quê.
Ele fez um gesto de despedida e saiu da cozinha. Segundos depois eles ouviram a porta bater e em seguida o barulho do motor de um carro se distanciando.
Demetria ainda esperava pela resposta do marido, mas ele parecia concentrado em lavar a caneca em que o pai tomara café.
Afinal, a paciência dela se esgotou.
— Joseph não me ignore.
Em silêncio, ele se voltou e sua expressão era impenetrável, a postura tensa.
Ela suspirou.
— O que significa isso tudo?
A água pingava das mãos dele enquanto Joseph olhava do outro lado da cozinha. Longos momentos se passaram até que ele resolvesse responder, dizendo a verdade.
— Tenho medo de deixar você sozinha.
O rosto dela empalideceu e Demi arfou como se houvesse sido esbofeteada.
— Por quê?
Ele engoliu em seco, detestando o medo que, sabia ia transparecer em sua voz.
— E se acontecer de novo? Eu acho que enlouqueceria… Você me disse que tem esse mesmo medo.
Os grandes olhos castanhos não se desviavam dos dele. Embora a acusação que se espelhava neles fosse silenciosa, o estômago de Joseph apertou-se dolorosamente. Ele sabia o que ia vir, mas que Deus o ajudasse, não sabia como impedi-la de fazer a pergunta.
Por fim, um arrepio percorreu o corpo de Demetria e ela piscou. Uma única lágrima desceu-lhe pelo rosto.
— Você não está falando de seqüestradores, Joseph. Você está falando de eu abandoná-lo outra vez.
— Eu não… Quero dizer, não penso que você…
Ela cobriu o rosto com as mãos, mas antes que ele se chegasse perto dela retirou-as e o fogo em seus olhos paralisou-o.
— Não vou repetir o que já disse. — A voz de Demi soava baixa, tensa. — Não vejo necessidade de me defender diante de um homem que não acredita em mim. Telefone para sua mãe e diga-lhe que venha. Chame também os vizinhos. Pelo amor de Deus, pode chamar também a policia. Não me importa. Eu não sei mais o que dizer.
Demetria saiu da cozinha e Joseph soube, tanto quanto sabia seu próprio nome, que iria ser preciso mais do que fazer amor para apagar aquela impressão.

(...)

Saía vapor da água quente enquanto o jato de chuveiro batia na cabeça de Demi. Ela aplicou xampu duas vezes, tomando cuidado ao esfregar os cabelos, para não esbarrar no ferimento; enxaguou bem, deixou que a água escorresse pelo corpo, levando a espuma do xampu e do sabonete que passara; fechou as torneiras e saiu do box. Sem pensar, colocou uma toalha com turbante e começou a enxugar-se com outra.
O espelho estava embaçado, o banheiro quente e cheio de vapor. Sem Joseph sentia-se vazia e sem peso. Sim, ele estava em casa, mas não no coração dela. Tinham feito amor, mas algo ainda os separava. Ele podia amá-la, mas não confiava nela. Um lado de seu ser entendia isso, porém havia um outro lado que sabia que a situação fora revertida, que ela é que deveria ajoelhar-se e agradece a Deus pela volta dele.. quando ela acontecesse.
Enxugou-se depressa e pegou o robe de lã. O grosso e macio robe rosa-escuro pareceu acariciar-lhe o corpo enquanto amarrava o cinto com um nó.
Voltou-se para o espelho e limpou-o com a toalha para se pentear. Quando o fez, a gola do robe esbarrou em algo no seu pescoço, incomodando. Passou a mão na gola, procurando o motivo da irritação na pele, mas não havia nada. Colocou-se de lado e olhou-a no espelho, afastando a gola e tentando descobrir a causa do desconforto.
De repente, seu olhar foi da gola do robe para o pescoço. Ali, logo abaixo da linha do cabelo, à altura do lobo da orelha, cintilou algo dourado. Franzindo as sobrancelhas, Demetria esfregou o local com os dedos, supondo que havia deixado um pouco de xampu, mas aquilo continuou lá. Podia perceber apenas que era algo dourado.
Curiosa, pegou um espelho de mão na gaveta do gabinete da pia e virou-se de costas para o espelho grande. Seu olhar focou a mancha dourada e seu coração deu um salto.
Meu Deus! É a tatuagem. Joseph disse alguma coisa a respeito, mas eu me esqueci completamente!
Sua vista escureceu e na mente de Demi apareceu a mesma marca dourada no peito nu de um homem. O medo a fez dobrar-se e o espelho de mão caiu. Enquanto ele se despedaçava, ela gritou.

(...)

Joseph estava na sala de estar quando ouviu o grito. Saltou da poltrona, correu para o quarto deles, atravessou-o e abriu a porta do banheiro, cerrando os punhos em seguida, pronto para lutar. Porém a única coisa que saiu do banheiro foi vapor. Ele a viu primeiro, depois o espelho quebrado, em seguida ergueu-a nos braços antes que ela fizesse um movimento. Carregou-a para o quarto e sentou-se na cama com Demi no colo. As mãos dele tremiam ao tentar verificar se ela se cortara. Não, nada tinha acontecido.
— Querida, o que aconteceu?
Ela o fitou, sem qualquer expressão.
— Joseph?
A angustia quase o sufocou. Oh, Deus, onde a mente dela está?
Aos poucos os doces olhos castanhos foram entrando em foco e ele viu que os sentidos dela voltavam. O delicado queixo estremeceu e uma de suas mãos começou a esfregar o pescoço como se algo estivesse grudado nele.
— Essa coisa no meu pescoço! — gritou.— Tire-a! Tire-a daí!
Aflito com o pânico de Demi, ele segurou-lhe as mãos antes que ela se machucasse.
— Cuidado, meu anjo… É apenas uma tatuagem.
Trêmula, ela falou com esforço.
— Quem fez isso em mim?
O pavor que a alterava fez com que Joseph sentisse vergonha de sua atitude anterior. Abraçou-a, chegando-a bem para si.
— Não sei, Demetria. Deus sabe o quanto eu gostaria de poder responder, mas não posso.
Ela começou a chorar, soluçando muito. O marido apertou-a mais nos braços, segurou-lhe a cabeça junto ao peito e embalou-a.
— Tudo vai dar certo…— disse, gentilmente.— Um dia desses conseguiremos todas as respostas, mas até então conseguiremos um ao outro, está bem?
— Eu não tenho você — soluçou Demi. — Não tenho mais… Ele destruiu tudo.
Joseph congelou. Será que sua mulher sabia o que tinha dito? Não queria perturbá-la ainda mais, porém não podia deixar aquele comentário passar.
— Quem, meu anjo? — perguntou, com suavidade.— Quem destruiu tudo?
Demetria aquietou-se de repente e deu um último soluço. Pôs –se em pé devagar, sem tirar os olhos dele.
— O homem — murmurou.
— Que homem? — insistiu Joseph.
Ela fechou os olhos, tentando ver o rosto do homem, contudo, por mais que tentasse, conseguia reproduzir na mente apenas a tatuagem que havia no peito do homem misterioso.
— Demi…
Sacudindo a cabeça, ela abriu os olhos.
— Não consigo ver o rosto dele.
— Como sabe que foi ele quem destruiu tudo, querida?
— Vi o peito dele, nu… — Demetria estremeceu.— Há nele uma tatuagem, igual à do meu pescoço. Não quero que ela fique aí, tire-a!
— Vamos tirar, meu anjo, quando você estiver mais forte, está bem?
— Promete? — a voz dela também tremia.
Ele abraçou-a de novo.
— Prometo.
Por fim ela começou a se descontrair. Minutos depois seus olhos se fechavam e Joseph percebeu que adormecera. Retirou a toalha molhada de sua cabeça, deitou-a na cama e cobriu-a.
Por instantes pensou que os cabelos iam molhar o travesseiro, mas desistiu de secá-los, para não acordá-la. Demi precisava de muito repouso e temia que ela houvesse passado por coisas muito piores do que dormir com a cabeça molhada.

(...)

Era quase manhã quando o sonho começou, porém o tempo nada significava para Demetria. Nada mais havia do que um pesado medo e a certeza de que ia morrer…

Sob seus pés, o chão movia-se assustadoramente. Pela janela, via, lá fora, as árvores oscilando de maneira brutal e algumas tombarem no chão. Enquanto olhava, o solo diante da janela rompeu-se, formando fendas precisas como as de um bolo de chocolate. A Terra estava se desmanchando. Ela agarrou-se às barras da janela, gritando por socorro, mas não havia ninguém que a ouvisse. Ninguém que se importasse com ela.
Todos ali trabalhavam para ele.
Atrás dela, de repente, uma estátua de ônix caiu de seu pedestal; ao bater no chão, fez o barulho de um tiro e quebrou-se em duas partes.
Demi voltou-se, sobressaltada, e ficou olhando para a cabeça de falcão que se separara do corpo de forma humana. Estremeceu. Horus, o antigo deus egípcio da luz e do paraíso, estava em pedaços.Outra violenta sacudidela da terra jogou-a no chão. Aquele local havia sido seu cárcere , mas não iria ser seu tumulo.
Freneticamente, começou a bater com as mãos fechadas no chão, gritando desesperadamente;
— Socorro! Alguém me ajude! Deixem-me sair! Deixem-me sair!
Nesse momento a porta se abriu. Por segundos ela pensou que era Horus em pessoa, com seus olhos penetrantes de falcão. Então, Pharaoh passou um braço em sua cintura, levando-a para fora da cela, enquanto a magnífica mansão estremecia e oscilava.
— Corra Demetria! — gritou ele. — Corra para salvar a sua vida!
Enquanto gritava, ele saiu correndo, puxando-a consigo.
Ela correu, mas já não com ele. Em sua mente corria para Joseph.

Demetria sentou-se num repente, com o nome de Joseph nos lábios. O suor descia-lhe pelo rosto e seu coração batia forte, como se houvesse corrido. O marido estava adormecido ao seu lado, um braço passado por cima dela. Ainda perturbada pelo sonho, afastou o cabelo do rosto e deslizou para fora da cama. Quase que instantaneamente, Joseph percebeu o movimento e acordou.
— Demi!
— Vou ao banheiro… — respondeu ela, em voz baixa.
E saiu do quarto na ponta dos pés.
No banheiro, fechou a porta e acendeu a luz. Olhou-se no espelho acima da pia. A mulher que a olhava era uma estranha. Não sabia como, nem por quê, mas agora tinha a certeza de que durante aqueles dois últimos anos havia vivido com alguém. Não por vontade própria, mas de qualquer jeito tinha vivido com ele.
— Como você pôde fazer isso? — murmurou para si mesma.
Assim que deu voz à pergunta, a resposta surgiu em sua mente. Não tinha vivido, havia suportado. E o fizera por Joseph, à espera de uma chance, certa de que algum dia e de algum jeito iria encontrar a maneira de voltar para ele.
Pois bem, assim o fizera. Encontrava-se na sua casa. Mas permanecia a pergunta: estava a salvo ou o tempo iria provar que seu medo tinha razão de ser? O impulso de fugir era forte. Eles podiam atacar. Eles podiam estar escondidos ali perto. Eles podiam…
Ela deteve os pensamentos apavorados, desgostosa consigo mesma por se deixar envolver pelo pânico. Não era assim que pretendia levar sua vida. Até encontrar Joseph, convivera apenas com a incerteza. Agora, queria de volta seu mundo era antes de desaparecer. Recusava-se a viver escondendo-se.
Enquanto olhava-se ao espelho, no caos em sua mente começou a emergir um idéia . Se aquele homem voltasse, ela não seria a vítima. O caçador se transformaria em caça.
Estaria esperando.

(...)

Betty Jonas sorriu para a nora por cima do prato de salada. Estavam almoçando num de seus restaurantes preferidos da cidade.
— O frango está bom?
A sra. Jonas indicou com o garfo o frango grelhado e a salada de macarrão no prato de Demetria.
— Hum! — fez Demi, sorrindo fazendo que sim, enquanto mastigava.
Pegando outra garfada de salada, a senhora passou a mastigar, sempre olhando para Demetria. Ela estava mais magra, porém isso era de se esperar. Betty rezava para a memória dela voltar. Os males que a gente não conhece são os que mais fazem sofrer.
Demi comia lentamente, pensando na manhã que tivera. Mantendo a palavra, sua sogra chegara às oito horas. Joseph saíra meia hora depois e desde então não ficara mais sozinha, a não ser a eventuais idas ao banheiro. Mas isso não importava, depois da revelação da noite anterior. Tinha um problema muito maior em que pensar.
— Betty, quero agradecer pelos recortes de jornais e as revistas que me trouxe.
Betty largou o garfo no prato.
— Pensei muito antes de trazê-los, mas depois coloquei-me em seu lugar, e soube que se fosse eu gostaria de saber.
— Tem razão — assentiu Demi. — Ler as reportagens sobre meu desaparecimento e conhecer o inferno pelo qual Joseph passou fez-me olhar por outro prisma o comportamento dele.
O olhar da sra. Jonas tornou-se solene.
— Eu não tentei ficar do lado do meu filho, querida, apenas quis que você soubesse de tudo pelo que nós passamos.
— Se eu soubesse o que eu passei — suspirou Demi -, tudo seria bem melhor.
Antes que Betty pudesse falar o celular em sua bolsa tocou.
— Deve ser Winston ou Joseph — comentou ela.
Os olhos de Demetria se iluminaram.
— Aposto um sorvete com molho de chocolate quente que é Joseph.
A sra. Jonas sorriu, achando que ia perder a aposta, mas não fazia mal. Ela é que estava oferecendo o almoço, mesmo.
— Apostado — respondeu e atendeu ao telefone. — Alô… Espere um minutinho, sim? — E, voltando-se para o garçom: — Dois sorvetes de creme com molho chocolate quente, por favor, depois traga-me a conta.
— Sim, senhora.
O garçom afastou-se, entre as mesas, para ir pegar o pedido.
Betty piscou para Demi e voltou ao telefone.
— Desculpe, filho, mas eu estava pagando uma aposta. O que você ia dizer? Sim, ela está ótima… Pergunte a ela mesma, que eu vou até ao toalete.
Passou o celular para Demetria e retirou-se da mesa.
— Joseph?
Uma sensação boa o envolveu. Só o fato de ouvir a voz dela diluía a tensão.
— Oi, meu anjo. Está se divertindo?
— Muito — afirmou ela. — Estamos acabando de almoçar e vamos fazer mais algumas compras antes de irmos para casa.
— Não exagerem nos gastos, hein!
— Pode deixar.
Houve um instante de silêncio durante o qual ela ouviu o marido suspirar.
— Eu a amo, Demetria.
— Eu também o amo — respondeu baixinho.
— Nos vemos mais tarde…
O coração dela doeu por causa da dúvida que percebia na voz dele. Só que agora sabia que não era dela que Joseph duvidava , mas sim do destino.
— Estarei à sua espera, meu amor.
Ela desligou e colocou o celular na mesa. Havia lágrimas em seus olhos quando ergueu a cabeça, porém piscou livrando-se delas. Não havia tempo para autopiedade.
Momentos depois Betty voltou. Assim que sentou-se, o garçom trouxe os sorvetes.
— Quando terminarmos, Betty, eu queria que você me levasse a um lugar.
— Claro que levo! — Betty tomou a primeira colherada de sorvete. — Hum, que delicia!
— Está bom, mesmo — concordou Demi. — Obrigada…
Betty partiu com a colher a calda de chocolate congelada.
— Pelo sorvete? O prazer é todo meu, acredite.
Demetria riu.
— Onde é que você quer ir? — perguntou a sogra.
— A qualquer loja que vendam revólveres.
A colher de Betty imobilizou-se no ar e ela fitou Demi, deixando o sorvete cair na mesa.
— Como é? Não entendi direito. Tive a impressão que você disse ¨revólveres¨…
O rosto de Demi endureceu.
— Ouviu certo. Vou comprar um e, depois, aprender a atirar.
A sra. Jonas teve um arrepio. A mulher que via agora era muito diferente da moça meiga com quem seu filho se casara.
— Mas, Demetria… um revolver?
O olhar de sua nora continuava firme e frio.
— Eu fui vítima uma vez. Não vai acontecer de novo.
— Vai contar ao Joseph, minha filha?
— O que você acha?
— Acho que não. — suspirou Betty.
— Você vai contar a ele? — indagou Demi.
A senhora hesitou, pensando, e tomou mais uma colherada de sorvete. Quando ergueu o rosto sua nora não havia se mexido, ainda a fitava.
— O quê? — perguntou Betty?
— Vai contar a Joseph? — repetiu Demi.
Betty nem sequer piscou.
— Contar a ele, o quê?
Demetria descontraiu-se, só então percebendo o quanto ficara tensa.
— Obrigada — disse suavemente.
Os lábios de Betty se apertaram, depois ela pediu:
— Não faça eu me arrepender, por favor.

(...)

— Ei Dawson!
O investigador Avery Dawson ergueu a cabeça. Paul, o seu parceiro, vinha se aproximando, todo agitado.
— Telefonema interurbano para você, na linha três.
O policial pegou o telefone.
— Departamento de Policia de Denver, Dawson falando.
— Investigador Dawson, aqui é o capitão Paul Fornier, do Departamento de Policia de Los Angeles.
Dawson endireitou-se na cadeira.
— Em que posso ajudar, capitão?
Houve uma curta pausa durante a qual ele ouviu o rumor de papeis remexidos.
— Alô! Ainda está aí? — insistiu.
Fornier pigarreou.
— Desculpe … Eu estava procurando minhas anotações. Aqui estão… Como sabe, instalou-se um verdadeiro caos por aqui, com aquele terremoto.
— Sim, acompanhamos as noticias pelos jornais e televisão — respondeu Dawson. — As coisas foram ruins para vocês?
— O departamento não sofreu tantos danos quanto a minha casa, mas vamos indo. Porém, não foi por isso que telefonei. Um boletim sobre uma pessoa desaparecida chegou à minha mesa ontem e os dados combinam com a descrição de uma desconhecida que temos no morgue.
— E o que isso tem a ver conosco?
— Seu nome e departamento estão no boletim como ponto de contato — explicou Fornier. — Estou querendo verificar o caso para proceder à eliminação de possibilidade.
— Ah, sim… — Dawson pegou uma caneta e um papel. — Qual é o nome que está no boletim de desaparecimento?
— Demetria Jonas.
Avery Dawson soltou a caneta e inclinou-se para trás na cadeira.
— Bem, posso esclarecer um fato desde já : Demetria Jonas reapareceu, pode jogar o boletim fora.
— Sim? O que houve? Encontraram o cadáver dela? — indagou Fornier.
— Não. Como proverbial filho pródigo, ela voltou pelos próprios meios.
— Viva?
— E respirando — acrescentou Dawson.
— Bem, no nosso meio isso não acontece todos os dias, não é? Muito bem, então. É uma preocupação a menos para mim e para mais de cem policiais.
— Isso mesmo. Posso fazer mais alguma coisa por você?
— Não, não — respondeu Fornier. — A desconhecida morta que tenho aqui vai ter que esperar mais um pouco…
— Está bem. Boa sorte para vocês.
Fornier riu.
— Bem que estamos precisando.
Dawson ia desligar quando percebeu que Fornier continuava falando.
— Desculpe — pediu. — O que disse?
— Apenas por curiosidade, quando Demetria Jonas reapareceu?
— Há alguns dias.
— Ah… Obrigado de novo e até logo — despediu-se Fornier.
Depois de desligar, Avery Dawson ficou olhando as fichas espalhadas em sua mesa. A conversa não havia sido diferente de outras que havia tido, no entanto alguma coisa o incomodava. Repassou tudo que haviam dito e não estranhou nada até que chegou à última parte do diálogo. O que importava a Fornier quando Demetria Jonas havia reaparecido? Se ela estava em Denver, não poderia estar em Los Angeles, e muito menos na morgue.
Preocupado, tornou a pegar o telefone.
— Telefonista, preciso do numero do Departamento de Policia de Los Angeles… Sim o numero principal está ótimo.
Poucos minutos depois ele contava os toques.
— Departamento de Policia de Los Angeles, para onde devo encaminhar sua chamada?
— Quero falar com o capitão Paul Fornier, por favor — pediu Dawson.
— Sinto muito, senhor, mas não há ninguém com esse nome no departamento.
Dawson teve uma leve sensação de vertigem, como se houvesse se levantado muito rapidamente.
— Tem certeza? — insistiu.
— Sim, senhor — garantiu a telefonista. — verifiquei a lista enquanto falávamos e, de fato, não temos ninguém com esse nome.
O policial estava meio tremulo ao desligar o telefone. Mesmo achando que o caso Jonas estava tecnicamente encerrado, Ramsey e ele tinham chegado à conclusão particular de que a historia de Demetria sobre ter sido seqüestrada era mentira, principalmente porque ela voltara por vontade própria. Porém, aquele telefonema dava um outro aspecto ao caso. Se ela havia dito a verdade, ele acabava de dar uma informação importante a um homem que mentira sobre sua identidade. Ficou nervoso ao pensar nisso. Ergueu-se e dirigiu-se à sala do capitão. Se as coisas piorassem, não queria ser a única pessoa a saber do telefonema.

Remember Me - Capítulo 6 - MARATONA 1/5

Os capítulos serão postados de duas em duas horas :)

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Eram quase duas horas da manhã quando Joseph acordou de repente. A casa achava-se às escuras, o quarto silencioso, mas o instinto lhe dizia que alguma coisa estava errada.
Demetria!
Saltou em pé e foi vestindo a calça jeans enquanto percorria o corredor. A porta do quarto dela estava aberta e a cama vazia. O pânico inundou dolorosamente seu coração pela primeira vez desde que vivera aquele horror, dois anos atrás. Voltou-se, rápido, e correu para o hall. Quase imediatamente percebeu uma luminosidade na sala de estar e perguntou-se se por acaso deixara a televisão ligada.
Chegou à porta e viu-a no sofá, enrolada em sua manta preferida, chorando silenciosamente na penumbra. O controle remoto estava numa de suas mãos, enquanto imagens se sucediam no vídeo da televisão.
Ele obrigou-se a respirar mais devagar e procurou dominar o pânico. Graças a Deus! Graças a Deus! , era tudo que conseguira pensar. Silenciosamente aproximou-se, parou atrás de Demi e inclinou-se até o rosto encostar em seus cabelos.
— Demetria, o que está fazendo, acordada?
Sobressaltando-se, ela ergueu os olhos e só relaxou quando viu que era Joseph.
— Você me assustou — disse. Então, acrescentou: — Eu não conseguia dormir.
Ele aproximou-se do sofá, apoiou um joelho no chão, curvou-se, envolveu o rosto de Demi com as duas mãos e enxugou as lágrimas com os polegares. Beijou-a no rosto.
— Você está bem?
Como durante aqueles dias todos ele havia se mantido frio e distante, os inesperados gestos carinhosos a perturbaram. Suas palavras vieram molhadas de lágrimas e interrompidas por soluços.
— Filme… tão triste… a amava muito.
Ela indicou a televisão ao falar.
Joseph olhou para a caixa vazia de um videocassete, que estava sobre a mesinha, e ocultou um sorriso. Era um dos filmes de sua mãe e, até onde podia se lembrar, muito romântico e triste.
— Mas termina bem — consolou-a.
Meio tranqüilizada pelo comentário, ela fungou.
— Termina?
Fitando os olhos castanhos, profundos e luminosos de lágrimas, Joseph teve vontade de beijá-la. Contudo, por mais forte que fosse o impulso, ele se obrigou a erguer-se. Estava agindo como um louco desde que ela voltara para casa e precisava controlar seus impulsos e ajudá-la a sentir-se segura.
— Sim, termina bem — confirmou.
Demetria enxugou os olhos e o rosto com a barra da manta.
— Jura?
— Juro — respondeu ele, baixinho. Olhou para a parte vazia do sofá e perguntou: — Quer companhia?
O coração de Demi deu um salto.
— Quero sim…
Em vez de sentar-se ao lado dela, Joseph ergueu-a, com manta e tudo, sentou-se e depois acomodou-a em seu colo. Ela prendeu a respiração, esperando pelo que viria a seguir.
— Está confortável?
Ele falava com voz suave, fazendo-a descansar a cabeça na curva de seu pescoço e ajeitando a manta ao redor de suas pernas.
O coração de Demetria saltava no peito.
— Estou — murmurou.
— Está bem agasalhada?
Faltou-lhe a voz e ela fez que sim com a cabeça .
— Onde está o controle remoto?
Demi entregou-o a ele e viu-o apertar o botão do volume até tornar os diálogos audíveis.
-Está ouvindo melhor assim?
Acima do ruído forte das batidas do meu coração?, pensou ela.
— Estou.
— Ótimo, então.
Ela voltou a se integrar na vida da heroína e só quando os letreiros começaram a aparecer na tela soltou um suspiro de alivio. Ergueu o rosto para Joseph, com os olhos brilhantes e o coração mais leve.
— Eu adoro finais felizes, você não?
Ele sorriu e fez que sim, mas seu peito estava apertado. Mesmo depois do modo ofensivo com que a vinha tratando, ela continuava a ser a mulher meiga e compreensiva por quem ele se apaixonara e com quem se casara. Por que não havia percebido isso antes? Por que, depois que ela praticamente ressurgira dos mortos, não vira nada a não ser fatos negativos? Deveria ter se posto de joelhos e agradecido a Deus, em vez de ficar procurando verificar o que julgava mentiras.
— Demi, eu sinto tanto!
Demetria permaneceu em silêncio. O momento pelo qual tanto ansiara afinal ali estava, e tinha medo até de se mexer, temendo acordar e descobrir que estava sonhando. Mordeu os lábios e, hesitante, tocou o rosto dele com a mão tremula. Os olhos de Joseph se fecharam enquanto se virava o rosto para beijava a palma da mão dela.
— Eu nunca tomei drogas, Joseph, eu juro.
Ele inclinou-se até que suas testas se tocaram.
— Eu sei, meu anjo, eu sei.
— Não consigo explicar as marcas de agulhas nas veias dos meus braços, mas eu não…
— Psiuu… — fez Joseph e abraçou-a com força.
Demi compreendeu que de todas as emoções que tinha naquele momento, a mais poderosa era a de sentir-se segura.
— Não estou mentindo para você. Eu quero me lembrar.
— Eu sei — repetiu ele. — E vai lembrar-se… quando chegar o momento.
Ela suspirou.
— Eu não sei onde estava, mas voltei para você, não?
A consciência de Joseph doeu. Por que isso não lhe bastara?
— Sim, Demetria, e vou ser-lhe eternamente agradecido por isso.
Fez-se um longo silêncio antes que Demi falasse de novo, desta vez mostrando-se preocupada com ele.
— Foi horrível para você, não?
Os braços dele apertaram-na mais quando lembrou-se dos dias intermináveis e das noites de tortura, imaginando as mais terríveis situações, às vezes até mesmo supondo-a morta. Assentiu.
— Sinto muito por tudo que aconteceu conosco… — A voz dela soava muito triste. — Éramos tão felizes!
Joseph fitou-a.
— E seremos de novo. Precisamos apenas de tempo para que o choque passe. — Ele forçou um sorriso. — Algumas vezes, depois de passado o primeiro ano, perdi a esperança. Meu coração me dizia que a única coisa que poderia manter você longe mim era estar morta.
Demetria teve ímpetos de chorar outra vez, só que por ela e por Joseph, não por um filme.
— Posso entender isso e tenho certeza de que não fui embora por minha própria vontade. Voltei para você, Joseph, e tudo que lhe peço é que tenha paciência comigo. Ajude-me a descobrir o que aconteceu… e faça tudo para que não aconteça de novo.
O sorriso de Joseph desapareceu.
— É um aviso ou uma profecia?
— Nem uma coisa, nem outra — assegurou ela.— Trata-se apenas de um fato. Eu sei que jamais o deixaria voluntariamente… portanto, tenho certeza de que só pode ter acontecido de um jeito.
— Qual?
— Alguém me levou à força. — Ela estremeceu. — O que me assusta é que se aconteceu uma vez poderá acontecer de novo.
De acordo com o pouco que sabiam, ela devia ter razão. O perigo poderia estar em qualquer canto, mas só teriam idéia de onde procurá-lo quando Demi se lembrasse o que tinha acontecido, pelo menos onde havia estado.
— Venha deitar-se — disse ele. — Mais tarde teremos muito tempo para nos preocuparmos com isso.
Demi hesitou em fazer a pergunta que lhe ocorreu enquanto Joseph levantava-se com ela do sofá.
— Com você?
Ele acariciou-lhe os cabelos e apertou-a mais contra o peito.
— Sim, meu anjo, comigo… se ainda quer dormir com um idiota.
Passando o braço pela cintura dele, ela pensou que pela primeira vez, desde que saíra do hospital, estava começando a acreditar que tudo poderia ficar certo outra vez.
— Creio que posso esquecer meus preconceitos por uma noite — brincou.
Rindo, Joseph começou a andar.
— Vamos. É tarde e você precisa descansar. Só porque não está no hospital não quer dizer que pode desobedecer às ordens do médico.
— Eu estava quietinha, sentada!
Enquanto ela protestava, entraram no quarto.
— E agora vai ficar deitada…
Ele ergueu as cobertas e Demetria acomodou-se na cama. Em seguida Joseph deitou-se ao seu lado, num silêncio desajeitado.
Reparou no respirar de Demi, que pareceu chegar-lhe ao coração. Jamais avaliara o quanto era precioso esse leve som, até que o perdera. Apesar da cama deles ser King size, dava a impressão de ter diminuído. Por algum motivo que ignorava, ele hesitava em passar para o espaço dela sem seu consentimento. Levou alguns minutos para que se desse conta de que o tempo que haviam passados separados era o dobro do que haviam estados juntos, casados. Parecia loucura, mas ele sentia-se quase como se estivesse na cama com uma estranha.
Quando a voz dela rompeu o silêncio, no momento em que a ouviu, tudo encaixou-se em seus lugares.
— Joseph…
— Sim, meu anjo?
— Quer me abraçar?
Mais uma vez ele foi atormentado pelo remorso de obrigar sua própria esposa a pedir-lhe que fizesse o que já deveria ter feito.
— Com o maior prazer — respondeu, com carinho, e abraçou-a.
Momentos depois, a cabeça de Demi repousava sobre o ombro dele e sua mão estava sobre o largo peito. Logo o ritmo suave da respiração dela disse-lhe que adormecera. Mas o sono não vinha para Joseph, que não parava de pensar que ela havia dito que tinha medo que tudo acontecesse de novo. E se assim fosse? E se sua mulher estivesse em perigo? Não podiam continuar ali, levando suas vidas como se nada tivesse acontecido. O que o investigador Avery Dawson havia dito sobre a mulher que pegara um táxi na estação rodoviária? Ah, sim. Que ela saíra correndo do terminal e o taxista quase a atropelara.
Quando ouvira isso, tudo lhe soara tão falso que se inclinara a ignora-lo, porém, agora esse detalhe lhe parecia muito importante. Que explicação poderia haver para ele? O desaparecimento de Demetria havia sido desconcertante e sua volta também. Tudo indicava que ela estava voltando
para casa quando o desastre, uma jogada infeliz do destino, a fizera perder a memória, impedindo-a de contar o que lhe acontecera.
Sentindo-se impotente diante dos fatos, Joseph ajeitou as cobertas sobre Demetria, fechou os olhos e abraçou-a com mais força. Lá fora o ar estava frio, o vento, cortante,
Um novo dia estava por nascer.

(...)

Pharaoh Carn sentou-se diante da vidraça que dava para os fundos de sua propriedade. Tomava café contemplando o nascer do dia. Brincava com um chaveiro de patinha de coelho enquanto seu olhar vagueava pela paisagem.
Sua noite havia sido cansativa, o sono interrompido várias vezes. Sempre que fechava os olhos, a mesma coisa voltava-lhe a mente. A expressão de medo de Demetria, o chão faltando-lhe sob os pés e a queda pela escadaria.
Depois disso, as lembranças esmaeciam-se e se tornavam retalhos: o rosto de um homem que se inclinava sobre ele; o transporte para um helicóptero e depois aqueles dias no hospital. As horas intermináveis povoadas por semblantes estranhos, a manipulação dolorosa, a tortura de agulhas… tudo em nome da medicina. E pairando sobre esse painel angustiante, a consciência de que perdera a sua sorte pela segunda vez na vida.
Apertou na mão a pata de coelho, sabendo que ela não possuía magia bastante para anular a perda de Demetria, mas no momento era tudo que tinha . Colocou a xiacara na mesa e ergueu-se, caminhando lenta e penosamente até a lareira, em seguida até a confortável poltrona de couro diante dela. Com um gemido, deixou-se cair no macio estofado e fechou os olhos.
Precisava descansar. Não conseguia concentrar-se por mais de alguns minutos por vez. A organização que criara exigia uma figura autoritária constantemente no comando. Sua fraqueza era perigosa. No seu mundo apenas os fortes sobreviviam, o dinheiro e o poder eram as únicas finalidades válidas. Força igualava-se ao poder. O poder igualava-se ao controle. E para continuar dominado o mundo que criara precisava manter-se no controle. No entanto, o silêncio da sala era sedutor e, antes que pudesse perceber, Pharaoh adormeceu, mais uma vez voltando ao passado através do sonho.


Albuquerque, Novo México
Demetria Lovato, com dez anos, riu para o rapazinho que estava do outro lado da janela da sala de aula. Durante os seis anos anteriores. Pharaoh Carn havia sido a única pessoa importante em sua vida. Para uma criança golpeada pela morte dos pais e ávida de afeição como ela era, as atenções dele haviam sido a salvação. Embora Pharaoh não mais morasse no orfanato, trabalhava lá. Um ano atrás o tribunal o havia considerado adulto e ele fora morar num apartamento nas redondezas. Aparentemente, não era diferente dos adolescentes do seu tempo, mas a aparência enganava. Ele gostava de luxo, porém, como não tinha educação nem a paciência necessárias para alcançá-lo, entrara para o crime. Era um modo fácil, rápido, de conseguir dinheiro e apresentava um desafio ao qual não conseguia resistir. Queria tudo, mas queira ¨agora.¨Aos dezesseis anos, já estava envolvido com uma gang local. Não havia sido fácil ingressar nela. Seu tempo era mais restrito que os dos demais adolescentes, mas ele logo descobriu como fraudar o sistema ao qual se achava preso. Os últimos três anos passados com essa gang haviam sido apenas um período de treino. Roubar carros acabara se tornando facílimo, e ele logo se formou em arrombamentos e roubos à mão armada. Se bem que ainda não houvesse matado, já usara um revolver mais de uma vez para assaltar. Quando alcançara a independência, obtidos dinheiro e experiência, comprara um bonito carro, roupas elegantes e colocara um diamante de dois carates na orelha. Sua bonita aparência, olhos negros, cabelos também negros e encaracolados, enlouquecia as mulheres. Ele tirava tudo que queria delas e as jogava fora, como latas vazias de cerveja, quando mais nada tinha a tirar.
Sua saída do orfanato havia sido como um impulso para os planos que tinha para o futuro. Era jovem, forte e ambicioso. Queria tudo, imediatamente. Porém, a falha nos planos era ter que deixar Demetria para trás.
Supersticioso, ele acreditava firmemente que Demetria Lovato era a sua sorte, que tendo-a ao seu lado conseguiria o poder máximo. Contudo, ela estava apenas com dez anos. Seria preciso esperar anos para que pudesse ir juntar-se a ele. Mas quando esse dia chegasse, e Pharaoh acreditava que chegaria, com Demi ao seu lado ele se tornaria o mais poderoso.
Assim aceitara o emprego de hortelão e jardineiro da Kitterige House. Se não podia levar Demetria consigo, pelo menos ficaria por perto dela, de sua magia que protegeria o futuro dele.
Com o passar dos anos, tornara-se confidente da garota, seu protetor e, às vezes, um substituto da figura paterna. A menininha era a única pessoa no orfanato a acreditar que Pharaoh Carn era bom. Desde que ela chegara lá, professores, dirigentes e mesmo companheiros haviam começado a vê-lo sob outra luz. Era como se o vissem através dos olhos da pequena órfã. Todos sabiam que uma criança não podia ser enganada, e era evidente que Demetria Lovato via algo naquele menino que ninguém havia visto. A dependência dela a ele e a adoração que lhe dedicava tornavam-no importante, até mesmo especial. Com ela em sua vida nada poderia dar errado.
Assim, quando a viu na sala de aula, com o queixo apoiado nas mãos, olhando através das janelas os balanços lá fora. Pharaoh sentiu que não podia passar despercebido aos olhos de Demetria.
Caminhou para a janela até entrar no campo de visão da menina; assim que o viu sua expressão mudou, ela riu e ele sentiu-se tão leve quanto o ar.
A professora bateu com o lápis na própria mesa e depois apontou-o para Demetria.
— Demi, preste atenção!
Ela saltou ao tom de voz zangado da professora e olhou-a, embaraçada por ter sido apanhada distraída.
— Sim, senhora — respondeu baixinho.
Quando a atenção da professora voltou-se de novo para o quadro negro, ela se atreveu a dar uma olhada para a janela, porém sabiamente Pharaoh havia ido embora.
Demetria não ficou triste por isso, não fazia mal; ela o veria de novo. Ele nunca ficava longe por muito tempo.

(...)

Depois de dormir o resto da noite nos braços de Joseph. Demi acordou sozinha na grande cama. O coração dela sofreu um aperto doloroso quando, rolando o corpo, tocou o travesseiro vazio dele, mas que ainda guardava seu calor. Não fazia muito tempo que o marido levantara.
Sua mão apertou a fronha, amarrotando-a, e ela fechou os olhos, lembrando-se que costumavam fazer amor ao acordar. Mas não. Não ia sentir pena de si mesma nesse dia.
A noite anterior havia sido uma revelação. Quem diria que depois de ir deitar-se, tão angustiada que custara a dormir, iria amanhecer com tanta alegria. Cantando baixinho, levantou-se.
Vestiu depressa a calça de um abrigo de ginástica de Joseph, dobrando-lhe as pernas até que ficassem pouco acima de seus pés, e uma camiseta dele de mangas compridas. Foi para o banheiro, onde escovou os dentes. Voltou para o quarto e sentou-se à penteadeira para escovar os cabelos. O local machucado ainda estava sensível e ela encolheu-se quando os pelos da escova o tocaram. Depois de pronta, parou um instante olhando-se ao espelho. Aparentemente, continuava a mesma, mas havia tanta coisa que não conseguia lembrar-se que não acreditava nem mesmo na própria aparência. Nunca mais as coisas seriam as mesmas entre ela e Joseph, por mais que ambos perdoassem e procurassem entender um ao outro. Para ela, então, era impossível que o mundo e a existência continuassem os mesmos: alguém roubara dois anos de sua vida.
Nesse momento, ouviu passos aproximando-se pelo hall e seu coração agitou-se, mais de medo do que de ansiedade. Alguém ia entrar no quarto e o instinto lhe dizia para fugir.
— Demi?
Ao som da voz de Joseph, ela chegou a sentir-se fraca de tanto alivio e respirou com mais facilidade.
— Estou aqui.
Ele empurrou a porta do banheiro e riu, alegre, ao ver como ela estava vestida.
— Lembre-se trazer suas roupas para o nosso armário — disse, indo colocar a bandeja com café sobre a cama.
Demetria colocou a escova sobre a penteadeira, ergueu-se e foi ao encontro do marido, abraçando-o com força.
— O que foi? — perguntou Joseph. — Espero que não seja nada triste.
— Não…— murmurou ela . — Só estou contente por ser você.
Ele franziu a testa.
— Quem mais poderia ser:
Perturbada pelo pensamento que lhe passara pela cabeça, Demi escondeu o rosto no peito dele.
— Não sei… Às vezes, quando me viro, tenho a impressão de que vou ver o rosto de outra pessoa.
Joseph procurou falar sem que a voz traísse sua preocupação.
— Talvez isso seja um bom sinal. Pode ser que você esteja começando a lembrar-se.
Ela suspirou.
— Espero que sim. A sensação é de que há um buraco na minha mente e que de vez em quando cenas do passado passam por esse ponto escuro, rápidas. Tento focar as imagens, porém quanto mais me esforço mais tênues elas se tornam.
— Só quero que não se esqueça de uma coisa: não está sozinha nisso, querida. No entanto…
O marido deu-lhe um longo e intenso olhar.
— O quê? — indagou Demi.
— Pergunto-me até onde podemos ir agora.
O coração dela falhou uma batida e sua voz fraquejou.
— Você quer dizer, nós dois?
Ele acariciou-lhe o rosto.
— Não, meu anjo… Nós propriamente, não.
— Então, o que quer dizer, Joseph?
— Enquanto você não conseguir lembrar-se de alguma coisa a policia não poderá levar o seu caso para a frente. Para eles, você apenas me abandonou e decidiu voltar. A menos que apresentemos um motivo, não vão considerar que houve crime e continuarão a pensar que apenas uma mulher entediada foi embora de casa.
Demetria empalideceu.
— Eu não…
— Eu sei, querida — interrompeu o marido. — Mas legalmente é assim que a situação se apresenta.
Os ombros dela descaíram.
— Explique-me o que quer dizer.
Vendo a esposa passar da alegria à desesperança, Joseph detestou-se por ser o causador disso. Mas depois do que ela dissera, na noite anterior, ter medo de que aquilo tudo acontecesse de novo, não ia ficar sentado esperando para ver se acontecia ou não.
— Quando você desapareceu e a policia me apontou como suspeito, contratei um investigador particular para tentar encontrá-la.
Os grandes olhos de Demetria tornaram-se maiores ao fitá-lo.
— Oh, Joseph, eu não sabia!
— Há uma porção de coisas que você não sabe, querida… O que quero lhe perguntar é o seguinte: o que acha de contratarmos o investigador de novo?
Ela hesitou e, quanto mais pensava na pergunta, mais intrigada ficava.
— Você acha que temos dinheiro para uma despesa como essa?
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— O problema não é esse. Devemos contratá-lo ou não?
Demi suspirou, abraçou a si mesma e voltou-lhe as costas. Joseph puxou-a para si, passando os braços sobre os dela.
— Diga, Demi… Diga-me o que está pensando.
Antes que ela respondesse, o telefone tocou. Ele estendeu-se sobre a cama para atender.
— Alô?
— Joseph, sou eu. A Demi está bem?
— Olá, mamãe. Sim, ela está bem…
Enquanto falava, ele observava a esposa mover-se agilmente dentro das roupas grandes demais para ela, procurando um par de meias na última gaveta da cômoda. Riu; as meias eram dele também.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou Betty.
— Hoje, não. Papai foi para lá, não?
— Foi, saiu de casa às sete horas.
— Ótimo — disse Joseph. — Vou telefonar para ele mais tarde, porém pretendo passar o dia com Demetria. Não tenho vontade de deixá-la sozinha já…
— Foi por causa disso que telefonei. Para oferecer meus préstimos de enfermeira, de babá, de sogra ou o que for preciso, filho.
Demi pegou de uma das gavetas da penteadeira um elástico para prender os cabelos. Joseph lembrou-se das manhãs depois do desaparecimento, quando ele ficava no quarto, imóvel, imaginando como iria fazer para viver sem ela. Mas agora estava ali outra vez e desejou que ela voltasse a ser sua esposa do modo mais intimo.
— Joseph, você não respondeu — reclamou Betty.
Ele piscou.
— Desculpe, mãe. Por hoje não, mas acho que vou aceitar seu oferecimento para amanhã. Está bem?
— Claro, meu querido. É só me telefonar e estarei aí em quinze minutos.
— Está certo.
— Até logo. Dê um beijo em Demi.
— Pode deixar…
Joseph desligou o telefone e Demetria voltou-se com a escova de cabelo numa das mãos, o elástico na outra.
— Era minha mãe — sorriu ele -, e se ofereceu para vir ajudá-la até você se sentir mais forte.
— Adoro sua mãe — observou Demetria, com as sobrancelhas erguidas-, ficarei feliz com uma visita dela, mas não preciso de babá.
— Isso é discutível.
Antes que Demi pudesse responder, ele tirou a escova das mãos dela, e fez levantar-se e puxou-a para si.
— Venha cá… Tenho que lhe dar uma coisa.
Demetria sorriu, hesitante.
— O que é?
— Minha mãe mandou-lhe um beijo e este é o melhor modo para passar o recado.
Tocou com os lábios os cantos da boca de Demi, depois beijou-a com intensidade. Ela conteve um gemido e passou os braços pelo pescoço dele.
Quando Joseph interrompeu o beijo para respirar, ela suspirou.
— Isto é o melhor que você pode fazer? — murmurou.
Os olhos dele escureceram.
— Não, mas é só o que você vai ter até que possa suportar mais.
O rosto dela ficou corado.
— Suportar? Não acha que está nos menosprezando?
Ele recuou um pouco.
— Acho que não. Nós estamos sem fazer amor há muito tempo…
Demi deu um passo à frente, encostando-se de novo nele, e apertou mais os braços ao redor do seu pescoço.
— Então, não acha que já está em tempo de corrigir isso?

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Comentem... Estou de olho! ;) Beijos, amo vcs!

Remember Me - Capítulo 5

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Fora do hospital, o sol era fraco, porém persistente. A enfermeira empurrava a cadeira de rodas, levando Demetria para junto da área de estacionamento. Quando o frio penetrou seu fino suéter de lã, Demi estremeceu. Ocorreu-lhe, então, o que teria sido feito de suas roupas. Será que Joseph as jogara fora, acreditando que ela estava morta? Seu lábio inferior temeu, enquanto resistia à vontade de chorar. O mundo em que vivera antes se tornara desconhecido e nem sequer lembrava-se de tê-lo deixado. Meu Deus, Meu Deus, como isto aconteceu?
Às vezes sentia alguma coisa pulsando no limite de sua consciência; noutras, os pensamentos eram como borrões escuros. Não podia deixar de comparar o vazio que sentia agora com as emoções que a haviam abalado quando seus pais haviam morrido.
Num dia tinha mãe, pai e uma casa maravilhosa. Em poucas semanas se tornara uma freqüentadora habitual de tribunais, depois passara a viver num orfanato, chorando no escuro e chamando baixinho pela mãe que nunca a atendera.
Agora, isto.
A última coisa que se lembrava era de ter caminhado sob uma forte chuva, de chegar em casa com dor de cabeça e ir se deitar. Então, acordara para encontrar-se num pesadelo. Só que aquele pesadelo não se desfazia e se tornava pior a cada dia. A distancia emocional entre ela e Joseph era tão real quanto o ar que respirava, e a assustava mortalmente. O marido era seu único apoio. Se ele a deixasse…
Estremeceu. Era-lhe impossível imaginar as conseqüências.
— Está com frio, meu bem? — perguntou a enfermeira.
Demi hesitou um momento. Parecia-lhe mais fácil admitir estar gelada do que reconhecer o pavor que a sufocava.
— Um pouco, eu acho.
A enfermeira recuou a cadeira de rodas para junto da porta, onde era mais abrigado do vento.
— Seu marido já vem vindo — disse, apontando para o automóvel cinza.
Demetria não reconheceu o carro, mas como poderia? Sentiu-se ainda mais desanimada. Em dois anos uma porção de coisas poderiam ter mudado.
Ficou olhando enquanto Joseph parava em frente delas e saía. Seus olhos arredondaram-se à medida que ele se aproximava. A primeira vez que o vira estava trabalhando num restaurante. Erguera a cabeça e dera com um rapaz olhando para ela, do outro lado da sala. Naquele momento soubera que eles se amariam.
Suspirou fundo. Alguma vez havia contado isso ao marido?
Forçou-se a erguer o queixo. Lidar com o presente já era bastante difícil, portanto era melhor não questionar o passado.
Em silêncio, continuou a olhar para Joseph, que se aproximava. Ele era um homem forte, saudável, e dois anos significavam tempo demais para ter ficado sem mulher. Será que a esquecera e encontrara outra? Gemeu baixinho. Só de pensar nisso sentia-se mal.
— Sra. Jonas, está com alguma dor? — preocupou-se a enfermeira.
— Estou bem. — respondeu Demetria.
E reteve as lágrimas. Tinha que estar bem, não havia outra escolha.
Então, Joseph chegou junto delas. Demetria fitou-lhe os olhos e tentou ler os pensamentos dele. Sua expressão suave, quase polida, provocou nela uma enorme vontade de gritar.
— Sua esposa está ficando gelada — disse a enfermeira, falando com Joseph como se Demi não estivesse presente.
Percorrendo-a com o olhar, ele notou seus ombros rígidos.
— Desculpe, querida, mas não pensei nisso.
De imediato, tirou a jaqueta, e quando Demetria ergueu-se para ir para o carro, agasalhou-a, fazendo-a enfiar as mãos nas mangas compridas demais e fechando o zíper.
As lágrimas ameaçaram transbordar. Joseph a chamara de querida. Isso queria dizer que começara a perdoar ou era apenas uma palavra que ele usava por hábito?
— Dirija com cuidado — advertiu a enfermeira.
— Sim, pode deixar — respondeu Joseph.
Ela ficou olhando até Demi acomodar-se no assento do passageiro e só então voltou para o hospital.
Joseph sorriu de leve, deu umas palmadinhas leves na perna de Demi e ficou em silêncio. Era impossível para ela fingir que estava tudo bem entre eles. Devia estar contente por voltar para casa, mas tudo que conseguia sentir era um pânico crescente, com o qual reforçava-se a certeza de que nunca teria ido embora por vontade própria. Não lembrava dos dois últimos anos de sua vida, mas lembrava-se do profundo amor que sentia por aquele homem. Jamais teria abandonado Joseph. No entanto, ele acreditava que ela o fizera e isso a enchia de raiva. Uma raiva que doía .
Quando o carro parou num sinal vermelho, outra realidade chocou Demetria. Assumindo que seu desaparecimento não houvesse sido voluntário, que garantia tinha de que não aconteceria de novo? Meu Deus, que confusão! , era tudo que conseguia pensar.
— Joseph…
Ele respondeu com ar ausente, os olhos no sinal vermelho que a qualquer momento ficaria verde.
— Hum?
— Eu não tenho mais emprego, tenho?
— Claro que não, querida. — Ele fitou-a, perplexo então acrescentou, como se pedisse desculpas: — Passaram-se dois anos.
Ela pensou na biblioteca, depois olhou para fora.
— Eu gostava de trabalhar lá. — Suas mãos se fecharam com força quando o sinal abriu e Joseph passou pela esquina. — Quando estiver melhor, vou procurar outro emprego.
Joseph ergueu uma sobrancelha. Pensar em Demi longe dele por algumas horas o assustava.
— Não há pressa — respondeu, depressa.
— Mas vamos precisar de dinheiro. Meu salário paga…quero dizer, pagava, a faxineira e os mantimentos. Se eu não trabalhar, vamos ficar apertados.
Hesitante, ele tratou de escolher as palavras com cuidado para não insultá-la.
— Na verdade, não… Quero dizer, não há mais perigo de isso acontecer. Meu pai aposentou-se e estou no lugar dele há tempo. A empresa vai indo muito bem. Não há problemas.
Demetria não soube o que dizer. Um de seus sonhos se realizara e ela não estivera presente para ver. O medo redobrou. O que mais havia acontecido na sua ausências?
Por favor, meu Deus, faça com que ele ainda me ame!
Poucos minutos se passaram e o silêncio dentro do carro se tornava cada vez mais desconfortável . Afinal por falta do que falar, Demi disse:
— Eu estava pensando nas minhas roupas…
Um músculo saltou dos maxilares dele.
— Estavam no armário do quarto de despejo. Minha mãe tirou-as de lá, lavou e passou tudo.
— Tudo?
Ele fez que sim.
— Eu não trouxe nada comigo?
Joseph hesitou, depois sacudiu a cabeça, indicando que não. O tom de voz de Demi foi um tanto sarcástico .
— E você não achou isso estranho?
Antes de responder, ele respirou fundo, zangado pela acusação implícita na pergunta dela.
— Não comece com isso, Demetria. Você não sabe do que está falando. Dois anos atrás, neste mesmo mês, eu cheguei em casa esperando ver minha mulher, no entanto só encontrei sangue no banheiro e uma xícara de café, quebrada, no chão da cozinha. Em menos de uma hora fui apontado como suspeito de assassinato, portanto não me venha com essa conversa de ¨estranho¨. Tudo na nossa situação é estranho.
À medida que ele respondia, Demi começava a tremer.
Continuava a ouvir a voz do marido, mas as palavras eram ininteligíveis. Um flash explodiu na sua memória.
A mão tapando-lhe a boca.
Uma picada no braço.
Alguém murmurando seu nome.
Ela gemeu e segurou a cabeça como que tentando reter as imagens, mas elas desapareceram tão depressa quanto tinham surgido.
— O que foi? — perguntou Joseph.
— Não sei… Alguma coisa… — Ela sacudiu a cabeça.— Desapareceu. Não sei se foi uma lembrança ou a minha imaginação.
Joseph recusou-se a ser envolvido pela confusão que ela sentia e preferiu ignorar o que ouvira.
— Estamos quase chegando em casa, Demi. Você vai se sentir melhor depois que descansar um pouco.
Ela encolheu-se. A recusa dele em ajudá-la a desfazer a confusão a irritou.
— Não, Joseph, não vou — respondeu, agressiva. — Não vou me sentir melhor enquanto não descobrir o que aconteceu. Perdi dois anos da minha vida e, pelo que percebo, estou perdendo meu marido também. O sono não cura algo tão complicado.
A cor fugiu do rosto de Joseph.
— Você não está me perdendo, Demi.
— Parece-me que sim.
Ela fitou durante um longo, silencioso momento, esperando por uma resposta mais tranqüilizadora ou, pelo menos, um gesto de ternura. Não houve nem uma coisa, nem outra. Quando ele virou a esquina e entrou na rua em que moravam, Demetria manteve-se olhando pela janela do carro.
A tensão entre eles aprofundou-se. Momentos depois ele estacionou na entrada da garagem, ajudou-a a descer e a entrar em casa. Tudo no mais absoluto silêncio.
A casa tinha um leve cheiro de umidade, por ter permanecido fechada aquele tempo todo, durante as chuvas recentes. Depois de entrarem, Joseph soltou-a para ir ligar o sistema de aquecimento central, e quando o fez. Demetria cambaleou. Ele apressou-se a ampará-la e no movimento sua mão esbarrou num seio dela, antes de o braço envolver-lhe a cintura.
Ela observou que as narinas dele fremiam e sua boca se suavizava. Aproximou o rosto, oferecendo-se com amor e desespero ao mesmo tempo.
Ele não se mexeu.
Demetria ficou tensa, esperando que o marido a tomasse nos braços e dissesse o quanto ela representava para ele e que estava feliz por tê-la de volta em casa.
Mas esse momento não chegou. Ela ergueu o queixo e sua voz traiu o amargor de lágrimas.
— Sabe de uma coisa, Joseph? Nunca pensei que você fosse covarde.
Em seguida tirou a bolsa com suas coisas da mão dele e atravessou o hall sozinha. Foram os quatro metros mais longos de sua vida.
Joseph ficou olhando, sentindo vontade de ir atrás dela. Mas lembrou-se dos dois anos durante os quais a acreditara morta e fora atormentado sem misericórdia pela policia e a imprensa. De fato, uma parte dele tinha medo de sair do casulo de segurança que construira para se defender.
— Covarde — murmurou para si mesmo.
E foi para a cozinha fazer café.
Um envelope e duas peças de roupas achavam-se sobre a mesa da cozinha. Deviam ter sido deixados lá por sua mãe. Pegou a calça e a blusa, examinando o tecido e as etiquetas. Não sabia muito a respeito de roupas femininas, porém era obvio que aquelas não provinham de uma loja de artigos prontos. Largou-as sobre a mesa, pegou o envelope e olhou dentro dele,
ainda sem poder acreditar que Demetria levava uma quantia tão elevada consigo.
Voltou-se para a porta. Ela vinha vindo pelo hall e, de repente, ele quis ver a expressão de sua mulher quando lhe mostrasse o dinheiro. Perceberia se Demi tivesse alguma coisa a esconder.
Ela entrou na cozinha com um vidrinho de comprimidos na mão. Seu rosto estava fechado e a linguagem corporal dava sinais de que atingira o limite do suportável. Isso era tão evidente que até um idiota perceberia.
— Estou com dor de cabeça e os analgésicos acabaram — comentou.
Ele jogou o envelope sobre o aparador e foi olhar no armário acima da pia.
— Aqui está — disse, entregando-lhe um pequeno frasco com aspirina.
— Obrigada.
A consciência de Joseph doeu. Sua mulher parecia tão triste, tão confusa.
— Demi…
— O quê?
— Olhe, eu sinto muito se a magoei, mas você tem que entender minha…
— Por quê?
Ele hesitou, franziu a testa.
— Por que o quê?
— Por que tenho que entender a sua situação? Você não parece disposto a entender a minha.
Joseph ficou calado por alguns instantes. Não queria brigar, queria apenas respostas.
— Como posso entender qualquer coisa, Demetria, se tudo a seu respeito é um enorme mistério?
Mais uma vez brilharam lágrimas nos olhos dela.
— E ninguém lamenta isso mais do que eu. Mas há uma coisa que não esqueci.
— O quê? — interessou-se Joseph.
— O quanto amo você.
A dor evidente na voz dela o fez empalidecer.
— E eu também a amo — murmurou, emocionado.
O queixo de Demetria tremeu.
— Então por quê, Joseph? Por que não quer se aproximar de mim?
As mãos dele tremiam quando entregou o envelope a ela.
— Isto estava no bolso de sua calça. De onde veio?
Ao ver as notas de cem dólares, Demi teve uma vertigem e sentiu-se transportada para outra cena do passado.
Ela fez o corpo dele rolar até ficar de costas e o sangue que saía de seus lábios a chocou. Então, apertou os dentes e revistou os bolsos dele. Precisava de dinheiro para ir embora.
— Demi?
Ela ergueu o rosto vazio de qualquer expressão.
— Eu lhe fiz uma pergunta.
— Desculpe, Joseph. O que perguntou?
— De onde veio esse dinheiro?
A resposta surgiu sozinha, surpreendendo-a tanto quanto a Joseph.
— Eu pensei que ele estivesse morto.
Joseph saltou como se houvesse sido esbofeteado, depois segurou-a pelos braços, obrigando-a a encará-lo.
— O que você disse?
Demetria cobriu o rosto com as mãos.
— Não sei… não sei — soluçou.
Mas Joseph não a soltou.
— Quem, Demi? Quem você pensou que estivesse morto?
Olhos negros, dentes muito brancos… Sorrindo, sempre sorrindo.
Então, a imagem desapareceu, depressa demais para ela ver as feições do rosto.
— Eu não sei! — gemeu.
Ele praguejou e soltou-a.
De súbito foi demais. Demetria caiu de joelhos desesperada por fazer Joseph acreditar.
— Por favor, dê-me uma chance!
Ao vê-la de joelhos, ele sentiu vergonha.
— Pelo amor de Deus, Demi, não faça isso!
Ergueu-a e levou-a para o quarto, através do hall. O choro silencioso dela maltratava-lhe o coração, enquanto a deitava na cama. Quando a soltou, ela rolou para longe dele, encolhendo-se, os joelhos encostados no peito, os ombros frágeis sacudidos por soluços.
— Demi, eu…
Viu-a tapar os ouvidos com as mãos e, com o peito apertado, cobriu-a com uma manta e dirigiu-se para a porta. Num movimento súbito, ela virou-se, deitando-se de costas, os olhos cheios de lágrimas e terror.
— Não feche a porta!
Joseph parou e voltou-se, chocado com o horror que se espelhava nos olhos e na voz dela.
— Está bem, Demi…
— Não quero ficar presa aqui.
Tensa, ficou olhando para ver se ele deixava a porta aberta.
O coração de Joseph batia forte demais quando voltou para a cozinha. Parou à porta e depois, enquanto pegava o dinheiro caído no chão, ainda pensava no medo na voz dela. Ficou parado, com as notas nas mãos e as palavras de Demetria ecoando em sua mente. Eu pensei que ele estivesse morto.
Olhou para o dinheiro que segurava e estremeceu.
— Meu Deus… — murmurou .
Recolocou as notas no envelope e guardou-o numa gaveta do guarda-louça. Mais tarde resolveria o que fazer com ele. Por enquanto não queria vê-lo.
No quarto, Demetria jazia largada na cama, engolindo os últimos soluços e pensando no vazio existente em sua volta para casa. Aquilo estava errado, muito errado, mas não sabia como corrigi-lo. Joseph não acreditava nela e, apesar da afirmativa dele, ela não acreditava que o marido ainda a amava. Pelo menos, não como amava antes. Sentia-se destruída. Deitou-se de lado, aconchegando-se na manta, e fechou os olhos.
Joseph estava na cozinha, como indicava o barulho de panelas. Em outra situação, teria sido engraçado ele tentando cozinhar. Ela respirou profundamente. Mas ele deveria ter cozinhado durante boa parte daqueles dois anos, não? E, na verdade, durante todo aquele tempo deveria ter pensado que estava viúvo.
Uma última lágrima amarga desceu-lhe pelo rosto e perdeu-se no travesseiro. Mas ela não havia morrido. Estava viva, voltara, e ele teria que aprender a conviver com o espaço em branco da vida dela até que Demetria conseguisse preenchê-lo.

(...)

Las Vegas, Nevada

O luxuoso jato particular taxiou na pista te parar a pouca distancia de uma limusine branca. Momentos depois a porta do avião abriu-se, Duke Needham apareceu no alto da escada, acenou para o motorista da limusine e desapareceu de novo lá dentro. Depois de breves instantes, o motorista saiu da limusine com uma cadeira de rodas e correu escada acima.
O cheiro do combustível do avião pairava no ar, sob o céu pesado, coberto de nuvens cinzentas e movimentadas pelo vento gelado. Decorridos vários minutos, Duke reapareceu à porta do jato como motorista logo atrás dele. Entre os dois estava Pharaoh Carn, sentado na cadeira de rodas e bem agasalhado contra o frio. Os dois homens carregaram a cadeira escada abaixo e depositaram-na no solo, com uma leve sacudida.
Sem que ninguém soubesse, Pharaoh dirigia-se a sua casa em Las Vegas, para recuperar-se. Intencionalmente escondia-se sob um pesado sobretudo, chapéu e mantas de lã. Os óculos escuros ocultavam sua expressão e a pele morena exibia a palidez de quem estivera muito doente.
Assim mesmoa presença dele se impunha, mesmo na cadeira de rodas. O porte da cabeça, os gestos das mãos, o tom cortante de voz faziam os dois homens que o acompanhavam saltar às suas ordens.
Duke inclinou-se, numa atitude atenta e submissa. Trocaram palavras. Pouco depois a limusine foi embora e não restou nenhum sinal da passagem dos três homens por ali, a não ser por um pedaço de papel que voou para longe quando o avião levantou vôo.

O luar refletia-se nos degraus molhados pela chuva enquanto Pharaoh dormia em sua luxuosa casa, em Las Vegas . No entanto seu sono era perturbado por sonhos estranhos. Duas vezes acordou sobressaltado, com impressão que o chão balançava. Cadavez que tornava a fechar os olhos sentia as mãos de Demetria em seu peito, lutando com ele, empurrando-o. E tinha a sensação de cair, rolando por uma alta escadaria. Gemeu. A traição era o que doía mais…
Assim que emitiu o gemido, soou uma voz de mulher e ele sentiu um leve toque em sua testa.
— Está com dores, Sr. Carn?
Pharaoh irritou-se. A maldita enfermeira. Se ele estava bastante bem para receber alta do hospital, podia muito bem dormir sozinho. Jamais em sua vida partilhara o quarto com uma mulher, nem mesmo com Demetria e não ia começar agora.
— Claro que sinto dores.
— Um momento, vou pegar o seu remédio.
— Não quero remédio. Quero paz e sossego. Saia daqui. Se eu precisar de comprimidos, sei pegá-los.
— Mas o sr. Needham disse que…
Pharaoh soergueu-se na cama e, mesmo deitado, sua atitude exigia submissão;
— Eu lhe dei um aordem — Saia do meu quarto já.
A enfermeira praticamente voou para fora.
No momento em que ouviu a porta fechar-se atrás da mulher, ele começou a relaxar. O ar no quarto pareceu-lhe mais leve, as paredes menos sufocantes. Com dificuldade, virou-se de lado, abafando um gemido, quando sem querer apoiou-se sobre as costelas quebradas.
— Maldição, maldição, maldição! — sussurrou , quando um músculo entrou em cãibra.
Mas a enfermeira tinha saído e não havia ninguém para ajudá-lo. Cerrou os dentes, forçando o corpo machucado a relaxar, até que a cãibra cedesse e a dor passou. Só então respirou fundo e expirou devagar. O pior passara.
Imediatamente corrigiu-se. O pior ainda não passara. Estava apenas começando. Ele não teria sossego enquanto não descobrisse o que acontecera com Demetria. Só de pensar nela sentia-se enlouquecer. Não era justo. Aquela mulher lhe pertencia e ele soubera disso desde o primeiro dia em que a vira.
Moveu-se, procurando uma posição mais confortável.
Seus olhos se fecharam e ele começou a sonhar… com o começo, quando Demetria Lovato aparecera em sua vida.

Aos treze anos Pharaoh Carn tivera que aceitar o fato de que as pessoas não gostavam dele. Isso acontecia por ele viver constantemente aterrorizando os demais órfãos de Kitteridge House. Era o incontestado senhor, tanto na sala de aulas quanto nas demais dependências do orfanato. Mas não eram apenas sua atitude e sua aparência que o colocavam à parte dos demais. No Novo México, onde o semblante dos nativos americanos tinham aspecto familiar, sua pele morena e cabelos negros não eram notados. O ódio é que o tornava tão diferente. Um ódio que era uma força. Perverso e cruel, Pharaoh orgulhava-se de fazer com que todos, inclusive os professores tivessem medo dele. E assim havia sido até ela aparecer.
Ele estava sentado na sala do diretor, esperando por mais um castigo, quando a assistente social chegou com a menininha. A primeira coisa que ele notou na criança foram os cabelos. Eram quase tão negros quanto os seus. E os olhos dela, castanhos e redondos pelo medo, brilhavam com lágrimas contidas. Ela segurava um pequeno urso de pelúcia numa das mãos e um cobertorzinho na outra. Seus sapatos estavam gastos e o laço que alguém amarrara nos cabelos crespos havia escorregado e pendia atrás da cabeça.
A pequena o fitou e enfiou o polegar na boca.
Os olhos dele se fixaram nela, só que dessa vez seu olhar ameaçador não fez efeito. A garotinha permaneceu olhando para seu rosto com interesse. A expressão dele se tornou mais ameaçadora. Menina idiota! Nunca ninguém o encarara daquele modo, e só porque ela era muito pequena, não significava que ia levar vantagem sobre ele.
Mas sua cara enfurecida não pareceu impressioná-la. Ao contrario. Quando assistente social sentou-se, ela tirou o polegar da boca e se aproximou dele, arrastando o cobertor no chão. Para seu desconforto, a pequenina atravessou a sala inteira e parou à sua frente. Os grandes olhos castanhos permaneceram fixos nos dele, e pela primeira vez na vida Pharaoh Carn não soube como agir.
— Dê o fora, garota.
Ela mal piscou.
Não havia como Pharaoh saber que o pai da menina tinha os cabelos negros como os seus, e a mãe a mesma pele morena. Tudo que ele via era uma menina que deveria estar assustada, mas não estava.
— Demetria, venha pra cá, por favor — chamou assistente.
Mas a garota não obedeceu.
Pharaoh viu a mulher levantar-se e algo lhe disse que a menina ia passar por maus momentos. Naquele instante acontecera uma coisa esquisita no intimo dele, que não sabia o que era.
— Está tudo bem — resmungou. — Ela não está me amolando.
A assistente social hesitou, depois sacudiu os ombros e tornou a sentar-se, olhando de vez em quando para as duas crianças.
— Quantos anos você tem, menininha? — perguntou ele.
A pequena mostrou quatro dedos.
Ele assentiu, depois recostou-se na cadeira, pensando que para a idade a garota era muito esperta. E os olhos inocentes ultrapassaram a armadura que o protegia, atingindo o menino que havia dentro dele.
Ficaram olhando um para o outro. Por fim, Pharaoh procurou uma pergunta que a obrigasse a falar.
— Quer dizer que seu nome é Demetria?
Apertando mais o ursinho ao peito, ela pensou um pouco e assentiu.
— Mas meu pai me chama de Demi — explicou.
Então, os lábios róseos tremeram e as lágrimas contidas desceram pelo rostinho.
— Minha mãe e meu pai foram embora para o céu e não me levaram.
Pharaoh ficou vermelho. Droga, aquilo era tão comovente!
O que deveria fazer agora? Olhou para o teto, certo de que alguém iria culpá-lo por a menininha estar chorando, mas ninguém estava prestando atenção neles. Para sua aflição o choro redobrou. Ele inclinou-se para a frente, com o cotovelo nos joelhos, e falou em voz baixa.
— Olhe, garota, não chore. Veja, eu também não tenho pai nem mãe, por isso estou aqui. — A menina pareceu absorver essas palavras.
— E você também está triste?— perguntou, afinal.
Pharaoh endireitou-se bruscamente.
— Diabo do inferno, não! — respondeu.
Em seguida ficou vermelho de novo por ter praguejado diante de uma criancinha.
— Mas é porque já sou grande — acrescentou. — Quando a gente cresce não chora mais, também.
Então, como não queria ser acusado de fazer a pequenina chorar, segurou a ponta do cobertor e enxugou-lhe as faces.
— Pronto — disse e brincou, tocando com o cobertor o narizinho dela . — Acabou.

Pharaoh acordou sobressaltado e olhou para o relógio. Passava pouco das quatro horas da manhã e ele precisava ir ao banheiro. Pensou em chamar a enfermeira, porém, descartou a idéia. Estava em sua casa e certamente poderia arranjar-se sozinho.
Com um gemido, levantou-se e andou lentamente junto à cama. Seu corpo todo doía, porém a dor maior era no coração. Havia dentro dele um vazio que o tempo não conseguiria preencher. Faltava-lhe Demetria. Não haviam encontrado o corpo dela entre os escombros de sua casa, no sul da Califórnia, por isso não queria acreditar que ela morrera. Os hospitais estavam repletos de gente ferida, uma boa parte sem identificação.
Apertando os dentes com força para suportar as dores, camihou devagar até o banheiro. Alguns minutos depois voltou, olhou para a cama desfeita e foi para a janela em vez de deitar-se.
As luzes de segurança brilhavam na escuridão. No circulo de iluminação percebeu um movimento na vegetação rasteira. Provavelmente uma toupeira. Tomou nota mental para avisar o jardineiro no dia seguinte. Corrigiu o pensamento: já era o dia seguinte.
Encostou as mãos espalmadas no vidro da janela.
— Esteja viva, Demetria… e apronte-se, porque vou buscá-la.

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Desculpem a demora, eu fiquei com uma preguicinha hj... Vou adaptar tds os caítulos agr para postar pelo tablet, o que vcs acham de uma maratona amanhã?
Vou deixar o capítulos programados!
Beijos, amo vcs!
Comentem, hein!