17.12.14

Remember Me - Capítulo 11

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Quando chegaram a Kitteridge House, Demi recostou-se no assento, deixando-se levar pela onda de lembranças. A primeira vez que passara pelo aquele portão alto não era grande o bastante para enxergar pela janela do carro. Lembrava-se dos galhos nus das árvores, erguendo-se para o céu como braços de um esqueleto. Sentira medo. Tudo que confirmara sua identidade desaparecera: seus pais, sua casa, até mesmo seus brinquedos. As únicas coisas que tinham deixado levar eram suas roupas, um ursinho de pelúcia e seu cobertorzinho.
Suspirou. Pelo que lembrava, o cobertorzinho não durara muito tempo. Um dia ele fora para a lavanderia e nunca mais voltara. Quando crescera, muitas vezes se perguntara se não o tinham tirado dela para libertá-la do passado ou se ele havia mesmo sido perdido na lavanderia, como lhe tinham dito.
— Você está bem? — perguntou Joseph.
Demetria anuiu, mas a preocupação em seu rosto era tocante.
— Estou bem — disse baixinho -, só um pouco triste.
Ele assentiu, lembrando-se de si mesmo aos quatro anos de idade e tentando colocar-se no lugar dela. Era-lhe impossível imaginar a devastação que significava a perda da mãe e do pai; chorou intimamente pela pequena que ela havia sido.
A alameda iniciou um circulo e Joseph diminuiu a velocidade para percorrê-lo. Impressionou-o pensar que Demi estava voltando a Kitteridge House mais ou menos do mesmo modo como chegara ali da primeira vez. Naquele tempo ela perdera os pais, agora perdera os dois últimos anos de sua vida. Este trauma era quase tão forte quanto o outro.
— Como é grande! — admirou-se, vendo com olhos de construtor os edifícios que compunham o orfanato.
— E antigo — acrescentou Demi.
Os jardins cuidadosamente mantidos tinham mais ou menos o estilo do sudoeste do país, se bem que se espalhavam pelos gramados enormes árvores que davam sombra a bancos ornamentais de madeira. Nos canteiros de flores divisava-se um cacto de vez em quando. Joseph sabia que tudo se mantinha verde em Albuquerque era à custa de bons sistemas de irrigação.
Os edifícios, grandes, não tinham formas bonitas. Uma construção de dois pisos, sem o beneficio de marquises ou varandas, formava um cubo central com prolongamentos angulando para a entrada principal, como os raios de uma roda.
Kitteridge House havia sido fundada por Gladys Eugênia Kitteridge, em 1922, para abrigo e amparo de crianças órfãs. Com o passar dos anos, as regras haviam mudado um pouco, e passara a receber também crianças abandonadas. Embora estas não fossem órfãs, o que as impedia de ser adotadas, apresentavam uma coisa em comum com as demais: não tinham para onde ir.
Quando passaram pelo jardineiro, que cuidava de uma parte do jardim, Demetria voltou-se para continuar a olhá-lo. Não o reconheceu, mas provavelmente nem poderia. Fazia oito anos que saíra do orfanato e muita coisa devia ter mudado.
— Tudo parece menor do que me lembro — comentou.
Joseph sorriu.
— Não, meu anjo. É que seu mundo tornou-se mais amplo.
Ela colocou a mão na coxa do marido, procurando conforto em sua força.
— Você é o meu mundo.
O peito dele apertou-se. Por favor, meu Deus, permita-me conservá-la no meu mundo.
Parou o carro diante da entrada principal e desligou o motor. Demi ficou estática, esperando que ele fizesse o movimento seguinte.
Piscando para ela, Joseph falou com suavidade:
— Eu também a amo e quero deixar registrado que continuaremos esta conversa mais tarde… quando estivermos no hotel.
— Parece-me que vai ser bom! Agora, vamos acabar com isto.
— Ainda está com medo?
Ela imobilizou-se, olhando através do pára-brisa. Um pequeno grupo de crianças ia de um edifício para outro. Consultou o relógio e soube para onde elas iam. Como era sábado, havia uma boa chance de que estivessem indo para o salão de ginástica.
— Não. Não estou com medo… Pelo menos não deste lugar, desta gente. É o que não sei sobre mim mesma que está me deixando louca.
Joseph saiu do carro, foi abrir a porta dela e pegou-a pela mão.
-Venha, meu anjo. Enfrentaremos juntos o dragão.
Enquanto Demi saía do automóvel uma rajada de vento soprou e foi como se dedos gelados passassem por usa nuca, fazendo-a estremecer.
— Frio? — perguntou o marido.
— Um pouco.
— Então, vamos correr — convidou ele.
Riam quando chegaram à entrada, e o mal estar quase passara. Joseph abriu a porta, ainda sorrindo, e quase atropelou uma senhora alta, de cabelos grisalhos, que estava por abri-la.
— Oh, desculpe!
A senhora sorriu, bem educada, mas seu sorriso ampliou-se quando viu Demi.
— Demetria Lovato, eu sabia que era você!
— Srta. Bell! — exclamou Demi, abraçando-a num impulso.
Joseph começou a se descontrair. Se aquela era um indicação, a visita não ia ser traumática.
Addie Bell olhou-o por cima do ombro de Demi.
— Esse deve ser seu marido, suponho.
— Sim, senhora — sorriu Demi. — Joseph, a srta. Bell é administradora de Kitteridge House. Srta. Bell, este é meu marido, Joseph Jonas.
Addie estendeu a mão, notando o aperto forte e olhar direto de Joseph. Um bom homem, pensou.
— Meu nome é Adeline — informou -, mas pode chamar-me de Addie. — Voltou-se para Demi. — Quando minha secretária me disse que uma Demetria Jonas havia telefonado, avisando que viria, algo me garantiu que era você. Onde está morando?
— Em Denver.
Addie assentiu.
— Nunca estive lá, mas ouvi dizer que é uma linda cidade. O que a traz a Albuquerque, querida? Negócios ou passeio?
Como sabia que Addie Bell jamais a deixaria desamparada, Demi sentiu-se segura e o restante do mal-estar desapareceu completamente. Tudo que queria nesse momento era contar sua história, partilhar o peso com alguém. Mordeu os lábios, porém isso não bastou para impedir que um brilho de lágrimas se espelhasse em seus olhos.
— Eu não sei classificar o que me aconteceu, mas estamos numa encrenca, srta. Bell.
O sorriso de Addie apagou-se.
— Vamos para o meu escritório, onde ficaremos mais confortáveis. Creio que poderemos dar um jeito, seja lá o que está acontecendo. Mas primeiro quero que me conte tudo, desde o momento em que você saiu daqui até este instante. — Então, quase piscou um olho para Joseph. — Bem, não precisa contar tudo, creio que me entende.
Depois de um rápido olhar para o marido, Demi deixou que a srta. Bell a pegasse pela mão e a levasse pelo hall, como fizera tantas vezes em sua vida. Ele as seguia, observando o modo como ela, bem alta, inclinava-se para
sua mulher, ouvindo-a com atenção. Por um instante ele não soube definir o que sentia. Afinal conseguiu.
Confiança.
Demetria confiava naquela mulher de um modo que confiara em pouquíssimas pessoas. Nesse momento desapareceram as últimas reservas que sentira antes de levá-la ao orfanato.
Dizer que Addie Bell estava espantada com a historia deles seria pouco. No entanto, tratava-se de Demetria, e a administradora do orfanato era capaz de julgar com segurança o caráter de uma pessoa. Além de tudo, conhecia aquela moça desde pequenina.
— Santo Deus! Está falando sério, Demetria?
O alívio de ter contado tudo era tal que Demetria sentia-se fraca.
— Sim, senhora.
— Dois anos… e você não tem a menor idéia de onde esteve?
Os ombros de Demi descaíram e a essa altura Joseph achou que devia participar da conversa.
— Não, ela não tem. A única coisa que tem certeza é que estava havendo um terremoto quando saiu do lugar onde se encontrava.
— Houve um terremoto no sul da Califórnia, há pouco tempo — comentou a srta. Bell.
— Nós sabemos — assentiu Joseph.
Addie inclinou-se para a frente, observando o rosto de Demi.
— Demetria, você acredita, realmente, que foi levada contra a sua vontade?
Demi olhou para o marido, procurando conforto, pois seu coração sempre acalmava quando olhava para ele, depois voltou-se para Addie.
— Sim, senhora. Por nada deste mundo eu teria deixado Joseph voluntariamente. Ele é a minha vida. A senhora pode ver como estamos perdidos. Primeiro a policia, segundo eu soube, passou a maior parte desses dois anos tentando provar que Joseph me matara; depois, um investigador particular, contratado por Joseph para me procurar, pensou o mesmo. Contratado de novo, agora ele foi para a Califórnia, levado pelo pouco que me lembro.
— E descobriu alguma coisa?
Demi sacudiu a cabeça.
— Ainda não… Seja quem for que tenha me seqüestrado, não o fez por dinheiro. Não pediram resgate.
Ela hesitou, sabendo que o que ia dizer a seguir magoaria Joseph, mas tratava-se de algo que até agora ninguém, havia levado em consideração.
— Quando reapareci, todos pensaram que eu andara me drogando. Havia uma porção de marcas de agulhas nos meus braços, mas foi verificado que a única droga encontrada em meu sangue era sedativo.
Demetria respirou fundo, desejando ter um outro meio de dizer a feia verdade, mas não tinha.
— Não penso que eu tenha sido torturada de algum modo… Estava ilesa, a não ser pelos ferimentos causados no desastre com o ônibus, que causou a perda de memória. Mas não posso dizer o mesmo sobre abuso sexual porque, Deus me ajude… não me lembro.
Addie estava horrorizada.
— Então, você voltou para casa…
— Sim, mas acho que não me soltaram. Penso que fugi e por causa disso tenho quase certeza de que ainda estou em perigo.
A srta. Bell deu a volta em sua escrivaninha e abraçou Demi.
— Minha querida! Minha querida! Não sei o que dizer… — Olhou para Joseph. — Deve estar sendo muito difícil para o senhor, também.
Ele sacudiu os ombros.
— Tenho minha mulher de volta e nada mais me importa.
A administradora aprovou com a cabeça, afagou a mão de Demi e voltou para sua mesa.
— É evidente que vocês vieram aqui apenas para me contar isso… Como posso ajudá-los? O que querem saber?
Demi voltou-se para o marido, como se pedisse ajuda; ele se pôs de pé e começou a andar de um lado para o outro.
— Quando contratei o investigador particular pela primeira vez estávamos procurando fatos na vida de Demi que nos dessem algum indicio. A senhora sabe, tentamos nos lembrar de pessoas com as quais ela entrou em contato por trabalho, pensamos no fato de que alguém poderia ter raiva de mim. Levamos em consideração até mesmo gente que houvesse cruzado em seu caminho por puro acaso. Essas coisas. Mas o fato de ela ter sido levada de casa nos levou a crer que a casualidade estava fora de questão no seu desaparecimento. Tratava-se de alguém que conhecia nossos hábitos, para saber que eu saía cedo para o trabalho todos os dias e que só voltava à noite… alguém sabia que eu não ficaria assustado se ligasse para casa durante o dia e ninguém atendesse.
— E o investigador descobriu alguma coisa?
— Absolutamente nada.
Joseph passou um braço ao redor dos ombros de Demi, que se achegou a ele. Abraçou-a antes de continuar.
— Desta vez, quando contratei o investigador, ele sugeriu que começássemos do inicio, e o que significa verificar tudo que Demi possa
lembrar. É por isso que estamos aqui. Há alguma coisa, alguma circunstância, alguma pessoa, que a senhora possa imaginar que tenha a ver com o que aconteceu?
— Não… — murmurou Addie. — Nada que tenha acontecido em Kitteridge House me leva a pensar nessa possibilidade. Ao contrario de algumas das outras crianças, Demetria não tinha parentes. Era muito pequena quando chegou aqui e duvido que tenha alguma lembrança dos primeiros anos de vida.
— É verdade — concordou Demi, triste — Lembro-me vagamente de como meus pais eram, mas não sei sequer onde morávamos quando eles morreram.
— Por que Demi não foi adotada? — perguntou Joseph.
Addie sacudiu os ombros.
— Não sei… Muitas vezes pensamos que iam adotá-la, mas na última hora os casais se decidiam por outra criança.
— Lembro-me de ter ido para a casa de um casal que tinha uma filha — comentou Demetria. — A menininha não gostou de mim e eles me trouxeram de volta.
— E nós ficamos muito contentes por recuperá-la — garantiu a srta. Bell. — Demetria era uma criança muito meiga e todos gostavam dela.
Pensativa de repente, Addie calou-se. Em seguida continuou, com ar de reprovação.
— Até mesmo aquele menino esquisito. Hum… Esqueci o nome dele. De qualquer modo, até que Demi entrasse para o orfanato ele era insuportável. Que criança mais perturbada e amarga! Ele e Demi se tornaram muito unidos, e era de admirar, porque ela estava com quatro anos, e ele era quase adolescente. A afeição dela o transformou, se bem que nunca tenha se tornado o homem que desejávamos.
Algo agitou-se no fundo da mente de Demi. Quase uma lembrança. Ela teve a esperança de conseguir agarrar aquela sombra, porém não foi assim.
Joseph reparou que a esposa estava quieta demais e tocou-lhe o ombro.
— Você está bem, querida?
Ela quase saltou.
— Desculpe! O que você disse?
— A srta. Bell estava falando de um amigo seu. Lembra-se de alguma coisa?
— Não. É engraçado, mas não me lembro de nenhum menino.
Adeline Bell fitou Demetria, surpreendida.
— Verdade, mesmo?
Demi fez que sim.
— Não me lembro de ter tido uma amizade especial com nenhum menino.
A srta. Bell ficou preocupada.
— Isso não faz sentido. Aliás, quando você ficou maiorzinha, começamos a nos preocupar com essa amizade. Ele ia se tornando persistente demais, quase obsessivo. Eu tinha medo pela sua segurança.
Demetria ficou tensa.
— A senhora quer dizer que ele poderia me machucar?
— Não da maneira que você está pensando — respondeu Addie. De súbito empalideceu.
— Oh, meu Deus!
— O que foi? — preocupou-se Joseph.
— Acabo de lembrar-me de uma coisa.
— O quê?— afligiu-se Demi.
As mãos de Addie tremiam quando ela ajeitou a gola da blusa.
— Pode não ser nada, devo estar dando importância demais a uma coisa banal. Foi há muito tempo…
— Por favor, srta. Bell — pediu Joseph -, deixe que julgaremos se é importante ou não.
Os lábios de Addie apertaram-se numa linha fina e amarga, depois ela forçou-se a falar.
— Você era uma menina muito bonitinha, mas quando ficou mocinha sua beleza ficou tão notável quanto é agora.
Demetria corou.
— Aquele menino… — continuou Addie. — Por que não consigo lembrar-me do nome dele? Bem, aquele menino tornou-se um homem. — Olhou para Joseph. — Todas as nossas crianças vão embora quando completam dezoito anos e ele saiu quando seu dia chegou, porém vivia arranjando pretextos para voltar. Inclusive trabalhou aqui como jardineiro por um curto período. Levamos algum tempo para perceber, mas afinal compreendemos que ele voltara para continuar perto de Demetria.
A pele da nuca de Joseph arrepiou-se. Uma obsessão desse tipo não era natural, principalmente de um homem por uma criança.
— E como eu reagi?
— No começo não houve reação. Afinal ele fizera parte de toda a sua infância — explicou a srta.Bell. — Mas com o passar do tempo acho que você começou a sentir-se desconfortável. Na verdade, creio que tinha até um pouco de medo dele. E então, um dia ele não veio mais trabalhar. Algum tempo depois soubemos que havia sido detido e condenado a um período de prisão.
Inclinando-se para a frente, Demetria indagou, ansiosa:
— Quer dizer que eu nunca mais o vi?
Addie fez um gesto de incerteza.
— Eu não tenho como saber isso, meu bem, mas quando saiu da cadeia ele veio aqui procurar você.
A senhora calou-se, nervosa, e Joseph compreendeu que havia mais.
— O que aconteceu?— perguntou.
— Ele ficou louco de raiva quando soube que você tinha ido embora. Quebrou uma porção de coisas aqui no meu escritório, nos xingou de tudo quanto é nome. Gritava que Demetria pertencia a ele.
Mais uma vez algo flutuou na mente na mente de Demi. Algo sombrio, feio.
Joseph estava tomando notas. Queria lembrar-se de todos os detalhes a fim de passá-los para Harold Borden. Parou e fitou a senhora com intensidade.
— O nome dele, srta. Bell. Precisa lembrar-se do nome!
— Sei que preciso — concordou Addie. — Deixe-me ver na ficha dele… Só me lembro que era um nome muito esquisito. — Abriu uma gaveta de um arquivo atrás de sua mesa. — Vejamos… Creio que o ano em que ele fez dezoito anos foi o mesmo em que o salão de ginástica pegou fogo. Nós achamos que ele provocou o incêndio.
Os olhos de Demetria tornaram-se maiores.
— A senhora quer dizer, então, que ele era muito mau?
— Oh, sim… Temo que sim, querida.
— Então, por que eu gostava dele? — murmurou Demi.
Addie sacudiu a cabeça e continuou examinando as fichas.
— Ele não era mau com você. Na verdade, era até o oposto. Quem pode saber o que se passa pela cabeça de uma criança? Você acabava de perder seus pais e encontrava-se num lugar desconhecido, assustador. De algum modo ele preencheu o vazio em sua vida.
Demetria aproximou-se mais de Joseph.
Minutos se passaram, enquanto Addie continuava procurando. Afinal, voltou para a mesa com uma ficha na mão.
— Aqui está!
— O nome dele… Como é o nome dele?
A senhora abanou a cabeça.
— Que nome mais esquisito para uma criança! Há uma fotografia dele na ficha. Moreno, cabelos negros e encaracolados… Não temos certeza de sua procedência, mas desconfiamos que pelo menos um de seus pais tenha sido do Oriente Médio. O nome dele, Pharaoh, é egípcio, claro. Mas quem sabe?
Quando Demetria viu a foto um pânico tão violento tomou conta dela que perdeu a respiração. Tentou inutilmente inalar o ar. A sala passou a girar. Procurou segurar-se em Joseph, porém não encontrou nada diante das mãos.
Ouviu o marido gritando seu nome, mas de um modo abafado, como se estivesse muito distante. Não conseguiu responder. Deslizou da cadeira para o soalho sem um gemido sequer.

(...)

Demetria estava sentada na cama do quarto de hotel, vestida com seu robe, olhando para o quadro com uma paisagem marinha, na parede em frente. Vapor saía do banheiro e enchia o quarto com uma leve nuvem, obscurecendo a cortina de banho com gaivotas e a luz do abajur de cabeceira.
Joseph ainda estava tomando banho. Já conversara com Borden pelo telefone e agora esperava que o policial Dawson desse retorno ao seu telefonema.
O absurdo da aparência do quarto impressionava Demetria. Incomodava-a notar que aquele tipo de decoração ficaria melhor numa cidade à beira-mar do que num hotel construído no deserto. De vez em quando seu coração palpitava e falhava uma batida. Era claro que essa arritmia devia-se ao estresse em que se encontrava, porém não tinha como aliviar o nervosismo. Impossível consegui-lo quando cada novo dia trazia mais problemas.
Deitou-se de costas na cama e fechou os olhos voltando a ver a foto da ficha que Adeline Bell lhe mostrara. Ele devia ser bem mais velho, agora. Não conseguia visualizar ninguém com aquele tom de pele, aqueles bastos e negros cabelos crespos. E os olhos! Estremeceu. A falta de expressão que havia neles a assustava.
Rolou de lado e colocou as mãos sob a face, repassando os acontecimentos do dia. Desmaiara. Era aflitivo saber que uma parte de si lembrava-se do menino, porém não se lembrava absolutamente do homem. Mas o pior era compreender que devia ser muito assustador a simples visão de seu rosto lhe causara aquela violenta reação. De acordo com a srta.Bell, ela não havia retribuído o afeto de Pharaoh Carn.
Se aceitasse a teoria de que o seqüestrador havia sido essa pessoa do seu passado, como ele a encontrara depois de todos aqueles anos? Os dirigentes da Kitteridge House não sabiam seu endereço, portanto não fora lá que ele descobrira. Em geral, sua vida havia sido discreta, até o dia em que desaparecera. Não era o caso de ela e Joseph viverem aparecendo em colunas sociais. Além disso, Demi jamais infringira a lei, nem mesmo estacionando em lugar proibido, portanto jamais tivera que se apresentar num tribunal, o que poderia redundar em noticia.
De repente, lembrou-se.
— Joseph!
A água do chuveiro continuou correndo.
Ela rolou por cima da cama, ergueu-se e foi até o banheiro.
— Joseph!
Alarmado com o tom de voz dela, ele abriu a cortina da banheira. Abundante espuma de xampu escorria do seu cabelo, do pescoço, e a esponja caiu no chão.
— O que foi?
— Minha fotografia.
— Que fotografia, meu anjo?
— Você está molhando o chão — avisou ela, recolocando a cortina para dentro da banheira. — Vá se enxaguando, que eu falo alto.
— Que fotografia? — repetiu ele.
E foi para debaixo do chuveiro para enxaguar o cabelo.
— Aquela de mim na chuva, que saiu nos jornais. Lembra?
A espuma foi embora e a paciência de Joseph também. Fechou a torneira, saiu da banheira e enrolou uma toalha na cintura. O nervosismo dela era evidente, porém ele ainda não entendia por quê.
— Sim, lembro-me. Mas não sei o que você está querendo dizer.
— Suponha — começou ela, andando de um lado para o outro do quarto -, apenas suponha que esse Pharaoh ficou obcecado por mim desde criança e me seqüestrou.
Joseph encostou-se na cômoda.
— Estou ouvindo.
— Desde que saímos do orfanato estou tentando encontrar um sentido em tudo isso. Se ele se importava tanto comigo, não é de admirar que tenha esperado tanto para vir me buscar?
— Sim, talvez… — resmungou Joseph. — Mas a srta.Bell disse que ele voltou lá à sua procura, porém você já se formara e deixara Kitteridge House.
— Certo. E ela disse também que ele fez um verdadeiro escândalo por não me encontrar lá.
O marido assentiu e Demi continuou.
— Então, considere isso. Como ele agiria se um dia conseguisse encontrar-me?
— De que modo está sugerindo que ele a encontrou?
— Sei que é um tiro no escuro, mas até que faz bastante sentido. Lembra-se da foto de mim sob a chuva, publicada num jornal de Denver? Aquela que foi distribuída pela Associated Press?
— Lembro-me e daí?
— Ela foi publicada duas semanas antes de eu desaparecer.
A expressão de Joseph endureceu.
— Esse maldito!
— É apenas uma teoria, Joseph!
— Sim, mas uma teoria muito boa, Demetria.
Ela sorriu. Era bom fazer alguma coisa positiva para resolver o mistério que a envolvia.
— Então, o que acha?
— Acho que vou telefonar de novo para Borden e quando Dawson ligar vou acrescentar isso na lista de coisas que ele precisa saber. — Joseph fez uma pausa, depois acrescentou: -É preciso ter em mente que podemos estar completamente errados, que Pharaoh Carn esteja casado e levando uma vida feliz num subúrbio qualquer.
— Não, de acordo com a srta.Bell — contrapôs Demi. — Rapazinhos que provocam incêndios e andam com criminosos raramente levam uma vida pacata em subúrbios.

xx

— Tome cuidado, droga! — gemeu Pharaoh.
Fuzilou com o olhar o fisioterapeuta que cuidava de sua reabilitação.
— Desculpe, sr.Carn, mas o senhor não voltará ao normal se não usar estes músculos.
Pharaoh praguejou em voz baixa, o que não pareceu afetar o fisioterapeuta.
— Agora, sr.Carn, preciso que se deite de bruços.
Ele rolou o corpo e aceitou a massagem porque tinha que aceitar. Os dedos longos do homem enterravam-se nos músculos sem uso, fazendo-o gemer entre dentes cerrados. Ia virar-se para reclamar, mas antes que falasse Duke entrou na sala com o telefone sem fio na mão.
— É para o senhor, chefe.
— Estou ocupado — retrucou Pharaoh.
— Creio que vai querer atender. É um chamado interurbano, de Denver.
— Já era tempo! — Pharaoh pegou o telefone.— Alô?
— Chefe, sou eu.
A testa de Pharaoh franziu-se profundamente. Afinal Stykowskin entrava em contato.
— Onde você andou? — zangou-se. — E por que não telefonou antes?
— Ande logo, Stykowski — apressou o guarda. — Você não tem o dia inteiro.
Marvin olhou para o carcereiro por cima do ombro e anuiu.
— Quem foi que falou aí? — perguntou Pharaoh. — Quem está com você? Eu mandei que passasse despercebido.
— Hum… É que estou numa pequena encrenca, chefe.
Pharaoh retesou-se e deu um olhar a Duke que se apressou a fazer o fisioterapeuta sair da sala.
— Que tipo de encrenca?
— Fui apanhado, chefe. Estou na cadeia.
Ignorando a dor causada pelo movimento, Pharaoh girou o corpo até estar sentado na beira da mesa de massagem. Ninguém imaginaria a fúria dele pelo tom de voz e as palavras escolhidas, porém Duke, que acabava de voltar para a sala, percebeu e ficou tenso, imaginando o que Stykowski teria feito de errado.
— Por que o prenderam? — perguntou Pharaoh. — E onde você está?
A primeira pergunta do chefe era a que Marvin mais temia.
— Por posse de cocaína, chefe. Passei um sinal vermelho eles a encontraram no meu carro. Estou na detenção da Quarta Delegacia de Denver, tentando conseguir fiança.
O sangue rugiu nos ouvidos de Pharaoh.
— Quando vai ser a acusação?
— Daqui a algumas horas.
— Um advogado estará presente à acusação. A fiança será paga e assim que estiver livre venha para Las Vegas. Entendeu?
— Sim, chefe — respondeu Marvin.
— Não repita a façanha — avisou Pharaoh -, não gosto de erros.
Marvin empalideceu. Só nesse momento percebera a intensa raiva na voz de Carn.
— Irei imediatamente, chefe. Pode contar comigo.
-Vamos ver.
— Chefe, quanto à ¨outra coisa¨…
— Cale a boca — interferiu Pharaoh.— Você não está sozinho!
Stykowski olhou de relance para o guarda.
— Sim, senhor. Explico quando chegar aí.
Assim que o sinal de linha soou em seu ouvido, Pharaoh atirou o telefone contra a parede.
— Quer que o fisioterapeuta volte? — perguntou Duke.
— Claro que quero! Vamos acabar logo com isto, já que depende de mim e de mais ninguém. Quero ficar bom!

(...)

Pharaoh achava-se a uma das janelas da biblioteca fazia horas, às vezes sentado, outras em pé, contemplando a cidade, as luzes e, agora, observava os faróis de um carro que se aproximava pela estradinha que levava à sua propriedade. A fúria agitou-se dentro dele, investindo de um lado para outro, sem ter por onde sair.
Por fim, o automóvel parou diante do enorme portão principal. Sob a luz intensa dos fortes holofotes de segurança, foi possível perceber o
cavanhaque e os cabelos ruivos do motorista, que revelaram sua identidade. Stykowski.
Pharaoh acionou o intercomunicador.
— Faça-o entrar — trovejou.
O portão abriu-se para dentro, dando passagem ao automóvel. Pharaoh ficou olhando Marvin Stykowski estacionar, percebeu a fanfarronice no seu modo de andar e só saiu da janela quando ele entrou na casa.
Rolou várias vezes a patinha de coelho entre os dedos ao dirigir-se para sua escrivaninha. Eles logo estariam ali. Duke já recebera suas ordens. No minuto que Stykowski entrara deveria levá-lo para o escritório. Jogou a patinha de coelho sobre a mesa e abriu uma gaveta no instante em que soou uma batida à porta.
— Entre.
Marvin Stykowski entrou.
Pharaoh continuou em pé atrás da escrivaninha e atirou sem mirar. Felizmente para Duke, que estava atrás e meio ao lado de Marvin, o chefe tinha uma ótima pontaria. A bala penetrou no cérebro de Stykowski antes mesmo que ele sentisse medo. O sangue bateu no rosto de Duke, como chuva na vidraça de uma janela.
Duke soltou uma exclamação de pasmo, depois ficou petrificado, com medo de se mexer e até mesmo de respirar. A expressão de Pharaoh era terrificante. Jamais, durante todos os anos que vinha trabalhando para aquele homem, vira nele tanto ódio. Por fim, pegou um lenço e limpou o sangue do rosto.
— Mande limpar esse lixo — resmungou Pharaoh.
Jogou o revólver na gaveta e fechou-a.
Depois de recolocar o lenço no bolso, Duke falou ao telefone.
Em minutos o cadáver havia desaparecido.
Pharaoh estava junto da janela, com as mãos unidas atrás das costas, contemplando o horizonte de Las Vegas como se nunca o houvesse visto.
— Esta é uma cidade poderosa — declarou.
— É, sim, senhor — concordou Duke.
— Eu devia ter esperado que ele me dissesse o que descobriu em Denver.
— Se o senhor assim o diz, chefe…
Voltando-se, Pharaoh franziu a testa, como se só então tomasse conhecimento da presença do assecla.
— Seu terno está estragado. Amanhã vá ao meu alfaiate e mande fazer outro. Gosto de meus homens bem vestidos.
Quanto a si, Duke já se sentia bastante feliz por estar respirando, mas faria o que o chefe mandara.
— Está bem. Quer mais alguma coisa esta noite?
Após pensar um instante, Pharaoh respondeu:
— No momento, não, porém preciso de alguém que vá a Denver. Quem você sugere?
— Não sei, sr.Carn. Tudo ficou tão confuso desde o terremoto que não sei onde o pessoal está, se estão vivos.
— E isso é um problema, não, Duke? — suspirou Pharaoh. — Por culpa do maldito terremoto. Verifique se Simon Law está disponível. Ele fez um trabalho para mim, uma vez.
— Sim, senhor. Vou ver agora mesmo.
Com um gesto displicente e um sorriso, Pharaoh deteve Duke.
— Posso esperar até amanhã. Tenha uma boa noite de sono. Deus sabe o quanto estamos precisando de repouso.
— Sim, senhor.
Duke voltou-se para sair e, mesmo sabendo que o revólver estava guardado na gaveta, teve uma sensação horrível nas costas. Mais tarde, quando tirou as roupas ensangüentadas e entrou debaixo do chuveiro, perguntou-se o que seria pior, a pessoa saber que ia morrer ou ser atingido nas costas, sem esperar.

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Especialmente p Gi ♥ Comentem! Beijos, amo vcs <3


14.12.14

Remember Me - Capítulo 10 - MARATONA 5/5

Gostaram? Comentem para o próximo! Boa leitura... Amo vocês ♥

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Joseph verificou a agenda de telefones e endereços que tinha em sua mesa, à procura do numero do investigador particular que contratara uma vez. Como não se lembrava do nome teve que ir de letra em letra, até que ao vê-lo reconheceu-o. Alguns minutos mais tarde discava o numero de Harold Borden. A campainha tocou uma vez, duas…seis vezes e ninguém atendeu, nem mesmo uma secretária eletrônica.
Fazia mais de um ano que falara com Borden e havia uma possibilidade de ele ter abandonado a profissão, se bem que essa fosse uma idéia pouco provável. Harold Borden impressionara Joseph como o tipo do homem que morreria de velho trabalhando, não consertando objetos caseiros na garagem e menos ainda jogando golfe entre refeições para matar o tempo.
Quando ia desligar, afinal alguém atendeu e Joseph ouviu a respiração curta e ofegante de quem correra.
— Investigações Borden.
— Aqui é Joseph Jonas. Quero falar com o sr.Borden, por favor.
O investigador colocou o copo com café e o saco de papel com sonhos sobre a mesa. Largou-se na cadeira.
— Está falando com ele. Bom dia, sr. Jonas. Faz bastante tempo… Que noticias me dá?
Os sons dos passos de Joseph soaram sobre o assoalho de seu escritório transportável., enquanto ele ia para a janela olhar o prédio em construção.
— Uma boa… outras menos boas.
Borden pegou um sonho do saco, deu-lhe uma mordida e falou enquanto mastigava.
— Dê-me a boa noticia primeiro.
— Demetria voltou.
O investigador ficou surpreso.
— Não me diga! — Tomou um gole de café, depois inclinou-se para a frente, atento. — Como? Quando? E, mais importante, onde sua senhora esteve?
Joseph suspirou.
— Essas são as más noticias.
— Logo vi que não se tratava de um telefonema social…
— Pois é.
— Espere — pediu Harold Borden. — Preciso achar uma caneta… Aqui está! Pronto, fale.
Voltou a comer seu enorme sonho com recheio de creme e cobertura de chocolate enquanto ouvia Joseph.
— Cheguei do trabalho e a encontrei dormindo em nossa cama. Tudo que se pôde saber com certeza é que ela estava num táxi que se acidentou, logo
depois de sua chegada aqui. Demetria não se lembra de onde esteve, nem como foi parar lá.
— E seu problema é…
Depois de respirar fundo, Joseph respondeu:
— Demi acredita que está em perigo. Afirma que jamais teria ido embora de nossa casa por sua própria vontade. E nós dois sabemos que ninguém que seqüestrou uma pessoa por dois anos a deixa ir embora sem opor resistência.
— É verdade — concordou Borden. — Não me leve a mal, mas o que o senhor acha?
— Acredito nela.
— Está bem. Então, o que quer de mim?
Joseph passou a mão nos cabelos.
— Esse é o problema. Eu sei o que quero, mas não tenho muitas informações a dar-lhe.
O investigador abriu seu caderno de notas numa pagina em branco. Desde que desistira daquele caso ficara com a sensação desagradável de ter abandonado o cliente. Ali estava a oportunidade de recompensá-lo.
— O que o senhor sabe? — perguntou.
— A policia interrogou o taxista que pegou uma mulher no terminal de ônibus. A descrição dela combina com a de Demetria. Ele disse que a passageira agia de modo estranho, que parecia estar com medo. Além de poucas lembranças que não fazem sentido. Demi não sabe de nada, E tem no pescoço uma tatuagem ankh, dourada, que não tinha antes de sumir.
— O que é esse negócio de ankh? — perguntou Borden;
— Imagine uma cruz, só que com a extremidade do braço central arredondada e não reta.
— Ah, sei. Um desses desenhos egípcios.
— Isso mesmo.
— Mais alguma coisa?— insistiu o investigador.
— Bem, Demi diz que o homem que a manteve presa tem uma tatuagem igual no peito. Ela diz, também, que houve um terremoto no lugar onde estava. E, como sabe, aconteceu um grande terremoto na Califórnia recentemente.
O interesse de Harold Borden intensificou-se.
— É um lugar para começarmos.
— Sim, foi o que pensei — concordou Joseph.
Borden inclinou-se para trás coma cadeira, revendo mentalmente a ficha que fizera de Demetria.
— Escute, eu mencionei isso antes para o senhor, porém nunca mais voltamos ao assunto. O que acha de esclarecer o passado dela, já que estamos neste ponto?
As sobrancelhas de Joseph ergueram-se.
— Eu ainda acho que Demetria não tem um passado secreto.
— Não me entenda mal, sr. Jonas. Não estou me referindo a essa espécie de passado, mas sim à infância dela.
— Minha mulher foi criada num orfanato — lembrou-o Joseph.
— Eu sei, e sei também que é um tiro no escuro, mas talvez haja algo que possa nos ajudar.
— A esta altura, confesso que estou disposto a qualquer coisa, Borden.
O investigador fez mais algumas anotações.
— O orfanato ficava em Albuquerque, não?
— Isso mesmo.
Borden ficou tamborilando com a caneta sobre a mesa, enquanto imagens desfilavam por sua mente.
— Creio que sabe, sr. Jonas, que os dirigentes de orfanatos são pouquíssimos inclinados a dar informações sobre pupilos a estranhos. Eu poderia verificar algumas coisas, mas na minha opinião seria melhor o senhor ir lá para uma visita, com sua esposa. Fale com os funcionários, pergunte sobre os amigos e os hábitos dela, por que não foi adotada… Coisas desse tipo. O pior que pode acontecer é o senhor fazer uma viagem inútil até Albuquerque. O melhor é que ela talvez venha a lembrar-se de algo que nos ajude.
— É uma boa idéia — aprovou Joseph. — Vou falar hoje a noite com Demi.
— Ótimo. Enquanto isso, vou agir por meu lado. Creio que juntos poderemos conseguir alguma informação útil.
— Obrigado, Borden, por me atender tão rápido.
O investigador franziu a testa.
— Eu lhe devo uma, meu caro. Lembre-se, trabalhei durante um ano procurando sua esposa e nada consegui. É bom saber que ela voltou, e quero ajudar a descobrir o que aconteceu. Diga-me, seu telefone continua o mesmo?
Caly confirmou o telefone normal e deu o numero do celular, para ser anexado à ficha.
— Muito bem, vamos lá — disse o investigador. — Mantenha-se em contato comigo e farei o mesmo.
Joseph desligou , sentindo-se melhor desde o dia em que Demi voltara para casa. Já estava perto da porta quando o telefone tocou. Voltou e atendeu distraído, a mente ainda ocupada com a conversa que tivera com Borden. Mas quando ouviu a voz de Avery Dawson, tornou-se alerta.
— Eu ia telefonar para você hoje, Dawson.
— Foi o que sua esposa me disse — respondeu o policial.
— Falou com Demetria? — surpreendeu-se Joseph.
— Sim. Apenas uma entrevista de rotina, antes que o chefe de policia assine o porte de arma dela.
— Porte de arma? Que porte de arma?
Dawson hesitou. Não lhe ocorrera que a sra. Jonas pudesse ter mantido em segredo a compra do revólver, mas agora era tarde.
— O porte de arma do revólver dela — explicou.
— Ah, isso — volveu Joseph. — Eu tinha esquecido. Então, está tudo certo?
— Creio que sim. Penso que o chefe vai assinar o porte.
— Foi por isso que me telefonou?
— Não…— Avery Dawson hesitou um pouco. — Aconteceu uma coisa na chefatura, outro dia, e acho que o senhor deve saber. Alguém telefonou, identificando-se como investigador do Departamento de Policia de Los Angeles. Disse que estava tentando identificar uma mulher morta..
O peito de Joseph contraiu-se ao lembrar de suas idas aos institutos médicos legais, durante o longo tempo que procurara por Demi. Pelo menos, não precisava mais fazê-lo.
— O que isso tem a ver com minha mulher, Dawson?
— É aí que a situação se torna estranha. O homem falou num impresso que dava Demetria Jonas como desaparecida e disse que a morta combinava com a descrição dela. Respondi que não podia ser, porque a sra. Jonas havia reaparecido. Entre comentários, eu disse que tínhamos tido sorte, porque ela estava viva e de volta á sua casa.
Joseph ouvia, mas não apreendia o significado daquelas palavras.
— Depois — continuou Dawson -, trocamos algumas brincadeiras e eu ia desligar quando o homem fez mais uma pergunta. Queria saber quando a sra. Jonas havia reaparecido e eu respondi. Só depois de desligar comecei a imaginar por que ele se interessara pelo dia da volta dela. Se a sra. Jonas estava aqui não podia se a desconhecida do morgue, e caso encerrado.
— Certo — concordou Joseph. — Mas qual é o problema?
Percebeu que o policial respirava fundo e afligiu-se. Era como se soubesse o que ele ia dizer.
— Não sei… Como sou de natureza muito desconfiada, liguei para o Departamento de Policia de Los Angeles, pedi para falar com aquele investigador e a telefonista respondeu que não havia ninguém ali com o nome que ele me dera.
As pernas de Joseph fraquejaram.
— O que está querendo dizer?
— Que alguém queria informações sobre Demetria Jonas e mentiu para consegui-las. Considerando a situação como a conhecemos, achei o fato bastante perturbador.
— Santa misericórdia! — murmurou Joseph.— Demi tem razão, ela ainda está em perigo.
— Não sei se está, mesmo porém senti-me na obrigação de lhe contar sobre o telefonema — disse Avery Dawson. — Tome as precauções que achar necessárias. Estaremos investigando, por nosso lado, porém há muito pouco sobre o que investigar. Já verificamos a origem da ligação; foi feita de um telefone público de Las Vegas.
— Contou isso a Demetria? — quis saber Joseph.
— Não. Considerando o que ela passou, preferi falar com o senhor, que lhe contará o que achar melhor.
O impulso de pegar Demi e fugir com ela para muito longe dali era quase insuportável, mas Joseph sabia que isso não resolveria o problema.
— Escute, Dawson, vou com Demi ao orfanato onde ela foi criada e talvez consiga saber alguma coisa que seja a chave para revelar o que e por que aconteceu.
O policial fez uma rápida anotação.
— Não é má idéia, principalmente considerando a falta de qualquer outra evidência. Quando irão?
— O mais cedo possível. Se eu descobrir algo interessante, comunico imediatamente.
— Agradeço se o fizer — disse Avery.
— Pode ter certeza, e obrigado por ter me contado.
Alguns momentos mais tarde, Joseph estava de novo ao telefone, mas dessa vez falava com seu pai. Em uma hora, Winston Jonas chegou ao canteiro de obras e seu filho foi para casa.

xx

Pharaoh Carn estava inquieto, e não era apenas a forçada inatividade por causa dos ferimentos que o irritava. Seu corpo doía, porém sentia-se um pouco melhor. A cada hora que passava as forças aumentavam. Naquele dia ficara em sua escrivaninha por quase quatro horas e poucos dias atrás sentira-se exausto depois de apenas duas horas fora da cama. No entanto, nos acontecimentos havia um lado positivo que deveria diminuir sua frustração: seu império voltava a estar em lenta ascensão mais uma vez.
Desde que voltara para Las Vegas o telefone não parava de receber chamadas de seus associados. Ele deveria estar satisfeito com isso, porém não conseguia alegrar-se nem mesmo com a própria sobrevivência porque a mulher que deveria estar ao seu lado tinha ido embora. Não sabia até
quando poderia suportar aquela situação. Não importava o quanto tentasse, quanto dinheiro gastasse para fazer com que isso acontecesse, sua permanência no topo dos negócios não se prolongaria por muito tempo sem Demetria.
Antes que ela reaparecesse em sua vida ele fazia parte, com bastante êxito, dos arredores do mundo das drogas como um entre centenas de intermediários do cartel de Alejandro.
Descobrira Demetria durante um vôo de volta a Los Angeles. Vinha de Seattle, onde fora resolver um pequeno problema interno. O fato de que a essa altura Pepe Alejandro havia ficado com um cunhado a menos pouco importava, uma vez que os milhões dele que haviam desaparecido tinham sido recuperados intatos.
Rolando a patinha de coelho entre os dedos, Pharaoh inclinou a cadeira da escrivaninha para trás e fechou os olhos, relembrando aquele dia no avião. Ficara muitos anos sem vê-la, porém reconheceria o rosto dela em qualquer lugar.

Até o momento em que pegou o jornal para ler, o vôo transcorreu monótono. Quando viu a fotografia quase passou por ela sem reparar. Era uma foto sem importância, apenas muito bonita, que um fotógrafo de Denver tirara da moça rindo sob a chuva. No entanto fora comprada pela Associated Press e distribuída para todos os jornais do país. No momento em que reconheceu a moça, ele ficou fortemente abalado.
Era Demetria. A sua Demetria.
Sentiu a cabeça vazia e, de repente, o peso de todos aqueles anos que tinham passado com quilômetros e quilômetros entre eles fez vergar seus ombros. O primeiro ímpeto que teve foi de sair correndo, então lembrou-se de onde estava. A frustração pareceu esmagá-lo quando se conscientizou de que nada poderia fazer até que o avião aterrissasse.
Pensou em Demetria durante o vôo inteiro, lembrando-se dos anos de infância passados na Kitteridge House e de como ela se obstinara em fazer amizade com ele. Lembrou-se de que se encontrava perto da menininha que ela era naquele tempo, ao passo que os pais dela não podiam estar. Lembrou-se de vê-la crescendo e dos seus sentimentos modificando-se, passando daqueles de um menino em relação a uma criança para os de um homem por uma mulher.
Quando soube que Demetria não correspondia ao seu amor, como esperava, achou que isso acontecia porque ela ainda era muito criança. Quando crescesse as coisas seriam diferentes e ele saberia esperar até então.
Então, foi preso. Chamava de cinco anos de estupidez aquele tempo que culminara com sua prisão. Quando foi solto, Demetria já tinha dezoito anos e havia ido embora do orfanato, ninguém sabia para onde. Um pânico gelado, assustador, o assaltou ao saber que, como todos os demais, ela havia desaparecido de sua vida.
Quando o avião pousou em Los Angeles, a mente de Pharaoh continuava focalizada nela. No entanto, seu lema era que as primeiras coisas devem vir primeiro.
Pepe Alejandro devia estar esperando para saber o resultado da viagem e não convinha fazê-lo esperar.
Quatro horas depois Pharaoh estava a caminho de sua casa, tentando acostumar-se com a sorte inesperada. Pepe ficara muito satisfeito com o desempenho dele, tão satisfeito que o promovera a chefe de um distrito. Tratava-se de um bairro pobre de Los Angeles, constantemente sacudido por guerras de gangues, mas isso não importava a mínima para Pharaoh. Era a sua chance de provar o quanto valia e não ia perdê-la.
E havia um outro fato que não podia ignorar. Isso acontecera depois que reencontrara Demetria. O pensamento o fez sorrir. Continuava a ser como antes. Os professores e funcionários do orfanato o consideravam um encrenqueiro destinado a fracasso e então ela chegara. Depois disso fora difícil para todos continuar a considerá-lo um individuo mal, com aquela doce criança adorando-o. Foi nessa ocasião que ele descobrira que Demetria era mais do que sua amiga: era a sua sorte.
Esfregou as palmas das mãos nas coxas cobertas pelo tecido da calça, sorrindo feliz ao olhar mais uma vez a foto no jornal. Se Demetria achava divertido estar sob a chuva iria delirar de alegria ao vê-lo. Ele a encontraria, pois tinha certeza de que seu sucesso dependia da proximidade dela.
Mas isso tinha sido antes, e agora Pharaoh era filósofo o bastante para saber que nunca é fácil obter coisas valiosas. Seu corpo inteiro protestou, doendo, quando ele se mexeu na cadeira. Não queria pensar na decepção que sofrera, porém a verdade é que reencontrar Demetria não havia sido como ele imaginara que seria. Não esperara aquela violenta rejeição dela. Não planejara mantê-la presa num quarto, mas um dia sucedera ao outro, depois outro, e antes que ele percebesse ela era sua prisioneira havia meses. Os meses haviam se transformado em anos e Demetria continuara a virar-lhe a cara, pedindo que a libertasse, implorando que a deixasse voltar para o marido. Ironicamente havia sido a natureza, e não um homem, que o derrotara. Ele não contara com um terremoto destruindo seus cuidadosos planos.
Voltou-se para a janela e observou o céu cinzento, coberto por nuvens. Alguma coisa estava errada e ele sabia. Stykowski já devia ter entrado em contato e isso o enervava. No entanto, lembrou a si mesmo, desde o terremoto tudo ficara muito confuso. Numa emboscada de estrada, dois dos melhores homens de Alejandro tinham sido mortos no carro em que viajavam, vários tinham ficado feridos e um ainda estava desaparecido. A infra-estrutura da organização se achava abalada. Homens de qualidade, com os quais Pharaoh contava para realizações importantes, tinham sido postos fora de combate, e ele via-se forçado a utilizar para seus negócios pessoais homens de segunda categoria, como Martin Stykowski.
Jogou a patinha de coelho em cima da mesa e praguejou. Seu erro não havia sido manter Demetria presa, mas sim deixar o marido dela vivo. E agora, mesmo que por acaso pensasse em deixá-la em paz, sua ambição não o permitiria. Com ela, a fortuna que conseguira estaria segura em suas mãos. Seu poder no cartel, no momento, era um pouco menos menor do que o de Alejandro.
Todavia, estava cansado. Cansado de pensar. Cansado de esperar que seu cuidadosamente organizado mundo se tornasse independente. Precisava de Demetria. E também precisava descansar. Olhou para a estante repleta de livros que forrava uma parede. Ia descansar, sim, só que mais tarde. Havia algo muito importante que precisava fazer.
Ergueu-se. Coxeando, aproximou-se da estante e foi passando os dedos pelos livros, desatento aos títulos, contando-os; quando chegou ao décimo primeiro puxou-o e, assim que o fez, a estante girou sem um ruído sequer. Ele entrou pela abertura diante de si e a estante tornou a girar, ocultando-a.
A passagem secreta era estreita e sinuosa, cheia de curvas e becos sem saída, para confundir intrusos. Porém Pharaoh sabia para aonde ia e, quanto mais perto chegava, mais seus passos se apressavam. Gostava da sensação que aquelas paredes lhe davam de estar dentro de um útero. Os grandes blocos de granito eram remanescentes da construção de pirâmides e o estreito corredor por onde passava parecia-se com as passagens no interior dos túmulos dos reis do antigo Egito. Quanto mais perto chegava da luz, mais rápido o seu coração batia.
Um leve odor de incenso recebeu-o quando chegou ao fim do labirinto. Instintivamente seu olhar foi para o par de estátuas de mármore negro encostadas na parede, ao fundo. Suas feições majestosas haviam sido esculpidas na pedra, capturando a qualidade de semelhança com deuses que permanecera através dos séculos.
Pharaoh aspirou o ar profundamente, procurando obter forças das imagens. Suas pernas tremiam de exaustão e pediam por descanso, mas esse conforto pouco importava em comparação com a sensação que o envolvia por estar ali.
Deu mais alguns passos, parando a apenas poucos centímetros das estátuas. No profundo subterrâneo daquela casa o silencio era quase ensurdecedor. O som das batidas do seu coração, da exalação do ar respirado, serviam para lembrá-lo de que ainda se encontrava admirando a fronte alta, nobre, e os olhos sem expressão; imaginou o toque da face de mármore contra a sua e o toque dos lábios bem feitos em sua fonte.
Isis.
Se um dia ele houvesse tido mãe, ela teria sido assim, nobre e magnífica.
Soltou a respiração que contivera, devagar. O som foi como um lamento entre as baixas e estreitas paredes. Ali, nas sombras, Pharaoh esperava por um sinal. Em algum lugar em seu intimo o tempo parou. Indiferente ao frio e duro mármore sobre o qual se encontrava, à fraqueza e dor em seus ossos, ouviu o próprio coração, sabendo que teria uma resposta.
Estremeceu quando a imagem do lindo rosto de Demetria brilhou diante de seus olhos. A necessidade de ouvir a voz dela, de sentir a textura de sua pele provocou uma dor visceral. Mas obtivera a resposta. Sabia, com tanta certeza quanto sabia qual era seu nome, que Demetria Jonas estaria com ele de novo.

xx

Só quando o avião deixou o aeroporto de Denver é que Joseph voltou a respirar com naturalidade. O telefonema do investigador Dawson fizera com que se apressasse a realizar seus planos. Observou Demetria, que estava na poltrona ao lado da sua. Com as mãos fechadas, os nós de seus dedos estavam brancos e seu rosto, tenso. Ele colocou a mão sobre a dela e inclinou-se, para murmurar ao seu ouvido.
-Tudo bem, já saímos do chão…
Os olhos de Demi se haviam tornado maiores e refletiam medo quando se fitaram.
— Eu fiz isto antes — disse Demi num fio de voz.
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— Pensei que fosse o seu primeiro …
De repente, entendeu. Ela estava se lembrando.
— Conte-me, Demi! — pediu.
— Estou enjoada.
Ele ergueu os olhos. O aviso de apertar cintos continuava aceso e o avião ainda estava subindo. Não poderia levá-la ao banheiro.
— Fique firme, Demi, vou chamar a comissária.
— Não — pediu ela, segurando a mão que ele começou a erguer. — Não enjoada desse jeito.
A expressão de Joseph tornou-se intrigada além de preocupada. Segurando o queixo da esposa fez com que ela o fitasse.
— Então, está enjoada como, meu anjo?
Ela estremeceu.
— De medo. Estou enjoada de medo. Quando me levaram embora de Denver, foi num avião. — Ela fechou os olhos — O solo está tão distante, lá embaixo. Há nuvens… voamos através de nuvens. O som do motor soa diferente, mais baixo, parece. Posso ver as mãos do piloto e as luzes do painel à nossa frente.
— É capaz de dizer onde estão? — indagou Joseph, em voz baixa. — O que vê lá embaixo? É verde? É…
— Montanhas! Vejo montanhas… e há uma enorme cidade depois delas.
Demi abriu os olhos e Joseph acariciou-lhe a mão.
— Isso é muito bom, Demi. Muito bom, mesmo. Quero dizer que a sua memória está voltando.
No entanto, ela não se sentia nada alegre.
— O que lembrei não revela o lugar onde aterrissamos.
— Tudo virá a seu tempo, querida. Por enquanto. Vamos nos concentrar na visita a Kitteridge House. Você deve ter deixado amigos lá.
— Sim, você tem razão.
Ele riu.
— Como sempre!
Procurando normalizar a respiração alterada, Demi conseguiu forçar um sorriso.
— E é um grande convencido.
Joseph inclinou-se de novo e segredou-lhe:
— Sim, e nunca se esqueça disso.
Ela ergueu as sobrancelhas e desta vez o sorriso foi verdadeiro.
— Como se você fosse me deixar esquecer!
— Ora — riu ele -, estou apenas tentando justificar minha existência.
Ela riu e o som de seu riso aqueceu o coração do marido. Alguns momentos mais tarde toda a tensão desapareceu. Quando Demi adormeceu, ele continuou a observá-la ansiosamente. Não podia deixar de pensar que
quanto mais ela se lembrasse, mais desesperada se tornaria a situação deles.

(...)

Fazia sol em Albuquerque quando o avião pousou, mas o ar era frio. Demetria fechou a frente de sua jaqueta de lã e sentou-se no banco do passageiro, no carro que haviam alugado, enquanto Joseph guardava a bagagem no porta-malas. Um segurança cumprimentou-a com um aceno de cabeça ao passar. Ela correspondeu, sorrindo. Nada de extraordinário naquilo. Tomara sua vida fosse sempre tão simples assim.
Joseph fechou o porta-malas e um instante depois acomodava-se ao volante, piscando um olho para a esposa e ligando o motor.
— Muito bem, meu anjo, cá estamos. Acho que devemos ir para um hotel, primeiro. De lá telefonaremos para Kitteridge House para marcar hora com o administrador, depois iremos almoçar num bom restaurante. O que acha da idéia?
— Maravilhosa — assentiu ela — , porque estou morta de fome.
Algum tempo depois Joseph entrava com as malas que fora pegar no carro e Demi procurava na lista telefônica o número do orfanato. Seu coração deu um pequeno salto quando o encontrou.
— Joseph…
Ele parou à porta do banheiro e voltou-se para ela.
— Sim, meu anjo?
— É esquisito.
— O que é esquisito, Demi?
— Não sei… Sinto-me como se estivesse voltando para o orfanato com pretensões acima do normal. Quando vou contar ao diretor do que me aconteceu? Seja o que for que eu lhe diga, vai parecer que estou louca.
— Não, não concordo — respondeu Joseph e aproximou-se dela, sentando-se ao seu lado na cama. — Veja as coisas desta maneira: o trabalho deles é ajudar crianças, durante anos e anos, não é?
Ela fez que sim.
— Bem, só porque você cresceu não quer dizer que não podem ajudá-la de novo. Eles a alimentaram, agasalharam e, suponho, alguns deles até a amaram.
O sorriso de um menino surgiu como flash na mente de Demetria, que estremeceu. Joseph percebeu a sombra que lhe passava pelo rosto e notou o estremecimento. Tomou-a nos braços.
— O que é, meu anjo?
Ela cobriu o rosto com as mãos trêmulas.
— Não sei. Algo surgiu na minha mente e desapareceu no mesmo instante.
— Quer que eu telefone? — ofereceu-se Joseph.
Demi hesitou, então endireitou-se.
— Não, eu telefono. Mas fique perto de mim, querido.
— Ficarei perto de você para sempre, Demetria.

Remember Me - Capítulo 9 - MARATONA 4/5

Boa leitura... Comentem! Estou de olho ;) :D ♥

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Ao sentir o toque em seu ombro, Demetria abaixou o revólver e voltou-se retirando os fones de ouvido para escutar a opinião do instrutor.
— Ainda está muito tensa ao apertar o gatilho, sra. Jonas. Relaxe e aperte, lembra-se?
Ela assentiu, recolocou os protetores e olhou mais uma vez para o alvo. Repetindo mentalmente as instruções que lhe haviam sido dadas, segurou a arma com as duas mãos e apontou para o alvo.
Mirar.
Aspirar.
Exalar.
Apertar.
O cheiro de pólvora ardeu dentro de suas narinas quando o revólver disparou, dando um tranco em sua mão, mas desta vez ela percebeu que tinha sido diferente. Quando leu nos lábios do instrutor as palavras ¨muito bem¨ e ele ergueu o polegar, soube que havia atingido o alvo.
Sorrindo, satisfeita, apontou de novo e repetiu o ritual.
E mais uma vez. Outra. Ainda outra…

xx

— Ei Dawson, o chefe quer falar com você.
Agradecido pela chance de abandonar o relatório sem fim, Avery Dawson largou a caneta sobre a mesa e levantou-se. Mesmo que momentaneamente, a folga era muito bem recebida. Alguns minutos depois entrava na sala do seu superior.
— Quer falar comigo? — perguntou.
O chefe de policia estendeu-lhe uma folha de papel.
— Acabam de me entregar isto e quero que você dê uma olhada.
Dawson franziu as sobrancelhas ao ver o que era.
— Uma solicitação de porte de arma?
— Não é apenas uma solicitação de porte de arma. Veja o nome do solicitante.
A boca de Dawson permaneceu aberta por uns momentos.
— Mas é incrível! Demetria Jonas!
— Pensei a mesma coisa — concordou o chefe.— Quero que descubra o que está passando pela cabeça dessa senhora. Não me inclino muito a atender a esse pedido feito por uma mulher com a história dela.
— Mas como quer que eu faça isso? Não há lei que a proíba de ter um revólver e nem mesmo de receber um porte de arma.
— Não é você o encarregado do caso de desaparecimento dela?
— Sou — respondeu o investigador — , e o caso continua um beco sem saída, apesar de ela ter voltado.
— Ela declarou que foi levada de casa contra a vontade — lembrou o chefe de policia.
— Pois é… Mas de qualquer maneira estamos no mesmo ponto em que estávamos dois anos atrás: sem nenhum indicio.
— E aquele telefonema que você recebeu outro dia, sobre o cadáver de uma mulher desconhecida:
A consciência de Dawson doeu.
— Eu já disse ao capitão que foi impossível descobrir a procedência do telefonema.
— O que o instinto lhe diz? — insistiu o chefe.
O policial hesitou, depois disse o que pensava.
— Que é mais do que uma simples coincidência.
— Falou com os Jonas sobre esse telefonema?
— Não… O capitão disse que não havia necessidade de afligi-los, a não ser que se tivesse algo concreto.
A testa do chefe de policia franziu-se.
— Um telefonema é algo concreto. Eles tem direito de saber. Conte-lhes.
— Sim, senhor.
O chefe ergueu-se, foi até a janela e olhou as ruas e os pequenos flocos de neve que caíam.
— Ela ainda não disse nada sobre seu desaparecimento? — indagou.
— Não, senhor…
Indicando o pedido de porte de arma, o chefe observou:
— Algo me diz que ela tem segredos, e não gosto disso. É evidente que essa mulher sente-se ameaçada, caso contrário não se armaria. Verifique como estão as coisas. Não quero que alguém morra só porque ela está paranóica. Entende?
— Sim, senhor.
— E conte-me o que ela disser, Dawson.
— Sim, senhor. É a primeira coisa que farei amanhã.

xx

Marvin Stykowski caminhou pela calçada e escondeu-se atrás de uma árvore quando Demetria Jonas saiu do Centro de Tiro. Fazia um dia que ele a estava seguindo e sabia que já devia ter falado a respeito com seu chefe.
Levara dois dias para localizar a casa, mais meio dia para ver se ela estava lá. Estava abusando de sua sorte em não telefonar logo para Pharaoh, mas havia umas coisas que precisara fazer antes de começar a procurar aquela mulher, tais como descobrir um fornecedor e se abastecer para dar uma cheirada de vez em quando. Depois que começasse a agir para seqüestra-la,, não teria tempo para ir atrás de cocaína. E entrar frio naquela missão não era a coisa mais inteligente a fazer.
Ninguém na organização de Pharaoh sabia que Marvin era um viciado e ficaria numa situação critica se descobrissem. Para ele, a regra de não se drogar que Pharaoh impunha era piada. Eles compravam e vendiam a droga. O fato de ele ser um dos melhores clientes de seu chefe devia ser demonstrado e não escondido.
Esperou que o carro de Demetria estivesse um pouco distante e só então foi para o seu. Não havia motivo para pressa. Sabia para onde ela ia. Tudo que tinha que fazer era encontrar um telefone e ligar para casa.
E era o que teria acontecido se não houvesse avançado um sinal vermelho. O guarda que estava na esquina saiu atrás, e quando Marvin ouviu a sirene e viu as luzes vermelha e azul teve um sobressalto. Com medo que a cocaína que tinha no porta-luvas fosse encontrada, fez uma coisa idiota. Apertou o acelerador até o fundo.
Vinte quarteirões e cinco minutos depois estava de bruços no chão, com as mãos para trás e pulsos presos com algemas.
— Ei, estão apertadas demais! — reclamou.
— Então, fique quieto — respondeu o policial.
Marvin gemeu. Pharaoh ia matá-lo.
xx

Demi tirava o assado do forno quando ouviu o carro de Joseph entrar na alameda ao lado da casa. Depressa, colocou a assadeira no balcão da pia e verificou o fogão, para ver se todos os bicos de gás estavam apagados. Com poucos minutos para agir atravessou correndo o hall e desapareceu dentro do quarto no momento em que Joseph se dirigia para a porta da frente.
— Meu anjo, cheguei!
— Estou aqui — gritou ela.
Jogou as roupas em cima da cama e correu para o chuveiro. A água quente jorrou, espalhando vapor no ar. Ela entrou na enorme banheira, fechou a cortina e colocou-se sob o jorro de água. Pegou o frasco de sabonete liquido da prateleira e esfregou-o no corpo inteiro, cobrindo queixo, seios, braços e ombros com espuma.
— Hum, que cheiro gostoso! — exclamou Joseph.
Enquanto se dirigia para o quarto, começou a tirar a camisa. Estava com frio, cansado e feliz por estar em casa.
— Demi você já terminou o banho?
Ela entreabriu a cortina.
— O que você disse?
Joseph tirou as botas e deixou-as junto do armário, depois foi para o banheiro.
— Eu disse, você já está terminando o banho?
Demetria abafou uma risada.
— Desculpe, mas não estou ouvindo direito!
Ele estava próximo da banheira quando a cortina se abriu de repente. A mão de Demi apareceu e agarrou-o pela camisa. Antes que ele pudesse pensar, estava embaixo do chuveiro, as roupas colando-se no corpo.
Ela riu e desabotoou a camisa dele, depois passou a ponta dos dedos pelo peito nu. Joseph gemeu e imediatamente desejou-a.
— Você vai se arrepender! — ameaçou.
Prendeu-a pelos braços, mas não conseguia segurá-la por causa do sabonete. Ela soltou-se, rindo, e tentou tirar a camisa dele, quando o marido a abraçou.
— Sua feiticeira!
— Você está com roupa demais — provocou ela, abraçando-o pela cintura.
Quando os seios firmes achataram-se contra o peito de Joseph, ele baixou a cabeça, gemendo.
— Meu Deus, Demetria, você me faz perder a respiração!
— Então, tire a minha, também — implorou ela, erguendo o rosto para um beijo.
Seus lábios se encontraram, os dele rijos e exigentes, os dela macios e submissos. A brincadeira tornou-se desejo e os dois tiraram a roupa de Joseph, ele arrancando a camisa e ela descendo a calça jeans, que ficou jogada aos pés deles.
Ereto a ponto de doer, ele fechou a torneira e foram envoltos em silencio e vapor. Gotas de água brilhavam na pele de Demi, como pequenos diamantes. Os olhos de Joseph, brilhantes, estreitaram-se quando cobriu os seios dela com as mãos. Em seguida, antes que ela percebesse o que estava acontecendo, uma das mãos dele aninhou-se entre suas pernas; Demetria inclinou a cabeça para trás, encostando-a na parede, e agarrou-se ao marido para não cair.
Em segundos achava-se deitada de costas na banheira, com Joseph por cima. A camisa dele estava embolada sob um de seus ombros, e o jeans, encostado em seus pés, mas ela não percebia. Todos os seus sentidos achavam-se presos aos movimentos perfeitamente sincronizados de seus corpos.
O tempo se deteve. Nada mais importava a não ser o latejar de carne contra carne e o gozo que se aproximava. Cada vez com mais ímpeto, Joseph movia-se dentro dela, em busca da explosão final.
E o orgasmo chegou, envolvendo-os, atingindo Demi com tal violência que destruiu qualquer inibição que poderia ter. As pernas esguias envolveram a cintura dele e ela deixou-se levar pelo êxtase com um grito que ecoou de maneira quase sobrenatural entre as paredes do banheiro. Momentos depois, sentiu que Joseph estremecia e ouviu-o gemer. Ele largou-se sobre ela, com todos os músculos tremendo e a respiração rouca e ofegante. Fez um movimento para se erguer, porém Demi segurou-o.
— Espere, Joseph — ofegou. — Não me deixe ainda.
Ele passou os braços ao redor dela e rolou o corpo de maneira a fazê-la ficar por cima dele, o rosto aninhado entre seu ombro e pescoço. Mais um estremecimento de prazer percorreu o corpo de Joseph e ele respirou fundo, procurando acalmar as batidas de seu coração.
— Meu Deus, Demetria…
Ela pegou a mão dele e beijou a palma.
— Eu sei… — murmurou. — Eu sei…
Um minuto passou, depois outro. O ar começou a esfriar à medida que o vapor se dispersava, Demi teve um arrepio e o marido envolveu-a com os braços.
— Está com frio, meu anjo?
— Um pouco.
Ele ajudou-a a levantar-se.
— Vou tomar um banho e você vai se enxugar e se vestir, antes que pegue um resfriado.
Demi aproximou-se mais dele, beijou-lhe um canto da boca, depois o outro. Num gesto rápido, pegou a camisa e o jeans, torceu-os o mais que pode e jogou-os no chão do banheiro. Em seguida, abriu a torneira do chuveiro.
— O que está fazendo? — perguntou Joseph.
— Vou ajudar no seu banho — ronronou ela. — E se você for bonzinho, até esfrego suas costas.
Ele riu.
— Por que esse tratamento especial?
O sorriso dela tornou-se tentador ao perceber que o marido excitava de novo. Pegou a esponja, colocou sabonete liquido nela e começou a esfregar o peito e o ventre dele.
— Não acha que merece? — indagou, maliciosa.
Quando os dedos de Demi envolveram sua masculinidade, ele fechou os olhos e gemeu.
— Não sei se mereço ou não — sussurrou — , mas sei que torcerei seu delicado pescoço se você parar agora.

(...)

Já era de manhã e Joseph relutava em levantar-se. Olhou para o relógio, desejando que não chegasse a hora de ele despertar. Porém, quanto mais os ponteiros aproximavam-se das seis horas, mais ele se via obrigado a encarar o inevitável.
Desligou o alarme e saiu da cama, resolvido a levar as roupas para a sala a fim de vestir-se sem acordar Demi. Quando chegou à porta, voltou-se. Ela sempre dormira com o abandono de uma criança, um braço erguido, um pé para fora da cama, e ele sempre brincava a respeito. Porém, desde que voltara, Demi dormia encolhida e com cobertas envolvendo-a como uma concha. A testa de Joseph enrugou-se. Se, pelo menos, ela se lembrasse do que acontecera! Não era apenas sua esposa. Era a sua vida, a sua razão de viver. E estava dormindo na cama deles, do mesmo jeito que dormia naquele dia…
Sentiu o coração apertar-se, mas tratou de afastar o medo, zangado consigo mesmo por aquele pensamento. Havia uma semana que não sentia mais esse pânico. Provavelmente ele renascera agora por causa da noite
anterior. Fazer amor com Demi era maravilhoso, contudo também o levava a lembrar-se mais agudamente do desaparecimento dela.
Desgostoso por causa dessa sensação tão negativa, foi para a sala. Vestiu-se e um momento depois achava-se na cozinha, colocando água na cafeteira e planejando seu dia. Quando foi pegar o coador de papel, a caixa estava vazia. Escreveu o lembrete para comprá-lo na lista de compras e procurou a toalha de papel. Não era a primeira vez que a usaria para substituir o coador. Ajeitou-a dentro do suporte e abriu a gaveta do gabinete, à sua direita, a fim de pegar a tesoura para cortar o excesso da toalha, o que fez com duas tesouradas.
Cantarolando, colocou o pó no coador improvisado, ajeitou o suporte sobre a cafeteira, tampou e ligou o aparelho. Distraído, pos de volta a tesoura na gaveta, fechou-a e dirigiu-se para a geladeira. Foi então que parou, com os cabelos da nuca arrepiados. Voltou com o coração agitado, e abriu de novo a gaveta.
O envelope com dinheiro não estava mais lá.
Seu coração apertou-se e, em seguida, passou a bater mais apressado ainda. Ficou muito pálido e sentiu enjôo por alguns momentos. Não gostava do que estava pensando, porém era um fato indiscutível e não podia ser ignorado. Os mil quinhentos e cinqüenta dólares haviam desaparecido e ele imaginou há quanto tempo isso teria acontecido.
— Joseph, o que faz aí parado?
Ele voltou-se, observou o rosto sorridente de Demi e pensou em quanto ela havia mudado. Houvera um tempo em que sua mulher não conseguia ter segredos para com ele, quando saberia apenas com um olhar se estava mentindo ou não. E agora? Um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha.
— Onde está? — perguntou.
— Onde está o quê? — rebateu ela.
— O dinheiro.
No mesmo instante o rosto de Demi tornou-se impenetrável. O coração dele parou por instantes e não pôde impedir-se de olhar para os braços delicados, onde antes havia marcas de injeções.
— Não acredito, Joseph! — protestou ela magoada. — Pensei que tivéssemos ultrapassado isto.
Os olhos dele tornaram-se frios e em sua voz transpareceu decepção e ira.
— Eu também pensei, Demetria.
A raiva fez o rosto dela avermelhar-se.
— Eu não cheiro e nem injeto drogas nos braços, se é o que você está pensando.
Joseph atravessou a cozinha e segurou-a pelos ombros, controlando-se para não sacudi-la.
— Eu já não sei o que pensar — resmungou — A mulher com quem me casei não tinha segredos e não mentia para mim.
Demi encolheu-se. A dor dessa acusação era maior do que se o marido houvesse batido nela. Ergueu o queixo e em seus olhos brilharam lagrimas contidas.
— É isso mesmo, Joseph Jonas. Não sou a mesma mulher com quem você se casou. Minha inocência desapareceu para sempre. Alguma coisa que não entendo aconteceu comigo. Mas seja o que for, só posso ter certeza de uma coisa: nunca mais serei a mesma.
Em seguida, segurou Joseph por um braço e puxou-o para o hall.
— O que está fazendo?
— Você quer dinheiro.
De novo o coração dele falhou.
Oh, meu Deus! E se ela apenas guardou em outro lugar? E eu, como um idiota, tirei todas as conclusões, menos a mais lógica.
Sentindo-se mal, ele ficou por segundos parado à porta do quarto e, quando Demi dirigiu-se ao guarda-roupa, seguiu-a completamente despreparado para o que ela colocou em sua mão.
— Aqui está, Joseph! Foi isto que comprei, e pegue o que restou do dinheiro.
Com repulsa ao sentir o frio do revólver em sua mão, ele olhou para a arma, depois para ela. Fitava-a como se nunca a tivesse visto até então.
— Por quê?
Primeiro apenas o queixo dela tremeu, depois o tremor pareceu alastrar-se por todo seu corpo.
— Porque estou com medo, Joseph. Tenho medo a cada minuto que estou acordada e até mesmo dormindo. Quando penso que tudo está bem, pedaços de rostos e lugares desfilam pela minha mente como pequenos, horríveis fantasmas. E quando isso acontece sinto-me como se fosse entrar em estado de choque.
As mãos de Joseph também tremiam quando colocou o dinheiro sobre a penteadeira. Segurou carinhosamente o rosto dela e não escondeu que estava arrependido.
— Por que não me disse que começou a lembrar?
Uma expressão de sofrimento crispou o rosto bonito.
— Porque não sei o que vi. Às vezes são apenas vultos indefinidos, em outras paisagens através de uma janela. De vez em quando eu acordo imaginando que o chão está se movendo sob meus pés, salto ao ouvir um barulho, e até mesmo um cheiro pode me perturbar. — Afinal, as lágrimas
começaram a descer pelo rosto dela. — Muitas vezes penso que estou enlouquecendo.
Ele a abraçou-a e embalou-a, como a uma criança.
— Não está ficando louca, querida. — disse baixinho -, e eu prometo que nunca mais vou duvidar de você. Apenas confie em mim o bastante para me contar-me o que for acontecendo. Não precisa enfrentar essa pressão toda sozinha. De algum modo iremos descobrir o que aconteceu.
— Mas como?
O rosto de Joseph endureceu.
— O investigador particular. Eu já deveria ter falado com ele. Tenho seu telefone no escritório. Vou telefonar-lhe assim que chegar lá e falar com o policial Dawson, também. Quem sabe ele tem alguma novidade.
Demetria assentiu, mas quando Joseph começou a afastar-se, agarrou-se a ele com medo de deixá-lo ir.
— Venha — disse Joseph, carinhoso. — Vista alguma coisa quente e vamos tomar café.
— Eu me sinto como uma criança — soluçou ela, envergonhada.
Joseph pegou o blusão de um de seus abrigos e deu-o a Demi. Em seguida olhou para o revólver.
— Só que não está agindo como uma criança… — comentou. — Você sabe usar essa coisa?
Ela enxugou as lágrimas com as mãos.
— Estou aprendendo.
— Está brincando!
— Não. Estou tendo aulas no Centro de Tiro Foothills, em Lakewood.
O marido olhou-a com novo respeito.
— Não está falando a serio, está?
— Muito a serio — respondeu Demi, vestindo o blusão.

(...)

Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou. Demi pôs de lado a faca de cozinha, lavou as mãos que estavam sujas de tomate e foi enxugando-as a caminho da porta. Pela janela, viu o carro azul-escuro parado junto à guia da calçada. Puxou a cortina e reconheceu o investigador encarregado do seu caso. Teve um sobressalto. Joseph dissera que ia falar com ele, e uma resposta tão imediata a fez supor que havia novidades. Abriu a porta.
— Investigador Dawson, que surpresa! — disse. — Entre, por favor.
Avery Dawson entrou e fechou a porta atrás de si. Aquela mulher não se parecia nada com a aquela que havia interrogado no hospital. A pele dela era clara e perfeita, seu sorriso, resplandecente. Vestia-se de modo casual e havia cheiro de comida sendo feita. Ela não parecia estar apavorada, no entanto comprara um revólver, e o chefe de policia queria algumas respostas antes de assinar o porte de arma.
— Obrigado, sra. Jonas. Peço desculpas pela hora inconveniente, mas gostaria de poder fazer-lhe algumas perguntas.
— Claro — concordou Demetria. — Quer me dar o seu capote?
O policial negou com a cabeça.
— Não vou demorar muito, prometo.
— Pelo menos, venha para a sala. Aqui no hall está muito frio.
Avery Dawson acompanhou-a e sentou-se no sofá oposto à poltrona em que ela se acomodou.
— Quando Joseph me disse, hoje de manhã, que ia telefonar para o senhor, não pensei que fosse nos atender tão depressa. Há alguma novidade?
Dawson franziu as sobrancelhas.
— Não falei com seu marido, sra. Jonas.
O sorriso dela apagou-se.
— Oh…
— Vim aqui a mando do meu chefe. A senhora pediu um porte de arma?
— Sim, pedi — respondeu ela intrigada.
— Isso significa que comprou um revólver recentemente?
Havia algo no tom de voz do policial que a ofendeu. Imediatamente sentiu-se como se estivesse sendo interrogada, quando havia sido a vítima e não a agressora. Inclinou-se para a frente, amarrotando nas mãos o pano de prato e apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Sim, comprei um revólver recentemente. Eu não sabia que as compras de uma arma são rotineiramente investigadas.
O investigador procurou esconder seu mal-estar.
— Normalmente, não são — respondeu.
— Sei… — murmurou Demi. — Continue.
— Olhe, sra. Jonas, estou apenas cumprindo ordens.
Ela permaneceu em silêncio, mas seus olhos eram acusadores, e Dawson procurou uma pergunta que fizesse algum sentido.
— O que a senhora estava pensando quando… Entende? Qual era seu estado de espírito ao decidir comprar a arma?
Demetria sacudiu a cabeça, desanimada. Era tudo que conseguia fazer para impedir-se de gritar. E quando falou, sua voz havia subido uma oitava.
— Diga-me uma coisa, este é o tipo de investigação que o senhor faz normalmente? Porque se for, não é de estranhar que não tenha conseguido encontrar-me.
Dawson corou.
— Olhe sra. Jonas, eu…
Num ímpeto, ela levantou-se.
— Não, olhe o senhor. Alguém roubou dois anos da minha vida. Não sei onde estive, como voltei para casa, mas compreendo que o perigo pode voltar. Sim. Comprei um revólver porque não me sinto segura, e depois desta nossa conversa minha confiança no Departamento de Policia de Denver tornou-se nula. Estou tendo aulas no Centro de Tiro de Foothills. Eu não estou louca, apenas com medo.
— Sim, senhora. Posso entender isso. Mas com certeza a senhora pode compreender a posição do chefe de policia. Nas mãos erradas, um revólver só poderá causar danos.
Ela riu, sarcástica.
— Bem, o que acaba de dizer não é novo, é um slogan de publicidade contra armas. Por que não somos honestos um com o outro? Seu chefe o convenceu que sou uma maluca que abandonou o marido e depois, por motivos de seu próprio interesse, voltou para casa. Não é verdade?
O policial corou de novo. O que ela acabava de dizer estava tão próximo da sua primeira opinião que tinha dificuldade em fitá-la nos olhos.
— Não, senhora. Não foi isso que eu disse.
— Oh, não mesmo. Eu ouvi o que o senhor disse — afirmou Demi — Foi o modo como o senhor falou que me ofendeu. Eu não fiz nada errado, senhor Dawson, no entanto sou a única investigada. Sabe como me sinto diante disso?
Tornara-se ainda mais difícil para Avery encará-la.
— Como já expliquei, estou apenas cumprindo ordens.
— Muito compreensível… — observou ela. — E já que está aqui, importa-se que eu lhe faça algumas perguntas?
Dawson se pôs de pé, extremamente desconfortável com o olhar frio e zangado de Demetria.
— Pode perguntar, senhora.
-O senhor tem alguma novidade a respeito do meu caso?
Ele lembrou-se do telefonema, depois do revólver e negou com a cabeça.
— Não, senhora. Não, desde a informação dada pelo taxista que a apanhou no aeroporto.
— Então, pegue seu caderninho de anotações. Lembrei-me de algumas coisas, nos últimos dias. Não que façam muito sentido, mas, afinal, são lembranças.
O policial passou a escrever no momento em que Demi ergueu-se, começando a andar de um lado para o outro e a falar.
— Onde eu estava aconteceu um terremoto. Não sei por que, mas acho que foi isso que proporcionou minha fuga. Tudo era muito verde. Gramados e árvores… palmeiras, como na Califórnia.
Avery Dawson não pode deixar de lembra-se do telefonema de Los Angeles.
Demetria parou de andar e os grandes olhos castanhos expressaram dolorosa aflição.
— Às vezes quase posso ver o rosto dele… — Então, seus ombros descaíram, ela suspirou e deu um rápido olhar para Dawson. — Mas não posso. No entanto, vi uma tatuagem no peito dele.
O investigador alertou-se.
— Que tipo de tatuagem?
Demi ergueu o cabelo e voltou-lhe as costas.
— Igual a esta.
O policial aproximou-se e olhou atentamente a tatuagem ankh no pescoço esguio.
— Há quanto tempo a senhora tem esta tatuagem?
— Não sei dizer.— Demi soltou o cabelo e virou-se.— Tudo que sei é que não a tinha antes de desaparecer.
Ele tomava notas furiosamente.
— Uma vez tive a impressão de que havia barras de ferro nas janelas do meu quarto. O senhor acha que posso ter estado numa cadeia?
— Com o cenário que descreveu, não. Se a senhora houvesse estado num presídio, a paisagem que veria lá fora seria composta por cimento e arame farpado.
Ela relaxou um pouco.
— Melhor assim… Não posso imaginar onde estive, porém o que acaba de me dizer faz com que me sinta melhor.
— Algo mais? Isso é tudo? Até mesmo as coisas que parecem insignificantes podem ser a chave para nos levar a deduções que nos ajudem.
A testa dela franziu-se, enquanto Demetria pensava com intensidade. Por fim, sacudiu os ombros.
— Não lembro de mais nada.
O policial guardou o caderninho no bolso e nesse momento decidiu nada dizer a Demetria sobre o telefonema de Los Angeles. Preferia contar a Joseph.
— Vou indo. Se por acaso lembrar-se de mais alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me telefonar.
Demi assentiu e acompanhou-o até a porta. Começou a abri-la quando ele a deteve.
— Sra. Jonas, há uma coisa que quero lhe dizer.
Ela esperou.
— Mas deve ficar apenas entre nós.
— Não sei se vai achar importante, porém eu acredito na senhora.
— Não sei se vai achar importante — sorriu ela — , mas eu lhe agradeço por isso.
Momentos depois ele havia ido embora, deixando Demetria com a impressão de que seu mundo ficara mais complicado do que antes. Ocorreu-lhe, então, que não perguntara ao investigador sobre o porte de arma. Paciência. Não importava se o teria ou não: já tinha o revólver e sabia como usá-lo.

Remember Me - Capítulo 8 - MARATONA 3/5

Espero que estejam gostando! Comentem... Boa leitura!

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— E aquele ali? — perguntou Demetria.
O balconista da loja arqueou as sobrancelhas. Aquela mulher podia não entender nada de revolveres, como dissera, porém tinha bom olho. Pegou o pequeno revolver do estojo e colocou-o no balcão, diante dela.
— Boa escolha — disse. — Como os demais que lhe mostrei, este também é um Glock 9mm. É um modelo G26, que é menor, mais leve, mais fácil de transportar e se adaptara direitinho em sua mão. Ele dispara onze tiros, o que é mais que suficiente para proteção normal. Tome, pegue-o — ofereceu. — Veja como o sente.
Demi pegou a arma, fazendo a coronha encaixar-se na palma da mão, e deslizou o dedo no gatilho.
— Este tem as mesmas características que os outros Glock que me mostrou, não?
— O que quer dizer? — indagou o balconista.
— Estou me referindo a tiros acidentais, caso ele caia no chão.
— Oh, sim, claro! — afirmou o vendedor. — De fato, essa é a maior qualidade do Glock. Ele apresenta três mecanismos internos de segurança , todos baseados no gatilho, como eu expliquei. Falando mais simplesmente: esta arma não dispara a menos que o gatilho seja acionado.
Ela assentiu, observou o cano, depois mirou num alvo de papel na parede oposta.
— A senhora já atirou alguma vez? — quis saber o homem.
— Não.
— Então, recomendo que tome umas aulas.
Ao falar o balconista sorriu, tirando a impressão de critica de sua frase.
— Estou pensando em me inscrever no Centro de Tiro de Foothills, em Lakewood. O senhor conhece?
— Excelente escola de tiro. Tenho certeza de que lá receberá toda a instrução que necessita.
Demetria assentiu de novo. Pouco mais havia a ser dito e, na verdade, sentia-se um tanto desconfortável com o fato de estar considerando seriamente comprar um revolver.
Olhou de novo a arma, o modo como seus dedos se curvavam ao redor da coronha, o jeito como ela se aquecia ao contato da mão. Quanto mais a segurava, mais lhe parecia uma extensão de si mesma. Deveria sentir-se estranha, até mesmo aflita, segurando um revólver, mas isso não acontecia. Ao contrário: o contato com ele acalmava seu medo e a fazia sentir-se no mesmo nível que seu captor sem rosto.
Então, ela estremeceu. Ter uma arma não significaria a garantia de que estava a salvo. Havia muitas perguntas não respondidas, e não poderia descansar enquanto não soubesse tudo a respeito dos dois anos que perdera. Simplesmente possuir um revólver não a salvaria de futuros perigos, mas dava-lhe amparo emocional de que tanto necessitava.
Sentiu em si o olhar do vendedor e, sem saber o motivo, teve relutância em encará-lo. De súbito, uma reação bastante estranha a dominou: tinha uma sensação de culpa associada à compra da arma. Era como se estivesse admitindo ao mundo que sua vida havia sido transformada e que estava disposta até mesmo a recorrer à violência para endireitá-la de novo.
Além disso, tratava-se de uma decisão que não submetera a Joseph. Então, argumentou consigo mesma, dizendo-se que não era seu marido que corria um perigo iminente. Pelo vidro da vitrina, viu o carro onde Betty a esperava com paciência.
Respirou fundo.
— Quanto custa?
— Duzentos e vinte e sete dólares, mais as taxas — respondeu o balconista. E acrescentou: — A senhora deverá vir retirá-lo dentro de três dias.
— Está bem — concordou ela.
— Então, tudo certo — alegrou-se o homem. — Preciso que a senhora preencha alguns formulários .
Ela fez o que ele pedia e pouco depois saiu da loja de armas. Deu um sorriso nervoso para a sogra e acomodou-se no assento do passageiro.
— Comprou? — indagou Betty.
— Sim.
— Espero que saiba o que está fazendo…
O sorriso de Demi desapareceu.
— Vou fazer todo possível para não ser uma vítima de novo.
Os olhos claros da sra. Jonas expressaram simpatia e compreensão quando estendeu a mão para apertar a da nora.
— Sinto muito o que aconteceu com você — murmurou, afetuosa -, mas peço-lhe que tome cuidado. Muita gente morre, todos os dias, por ferimentos de tiros acidentais.
Os lábios de Demi apertaram-se, formando uma linha fina.
— Se um dia eu apertar o gatilho de meu revólver não será por acidente.
Betty empalideceu. Aquele era um lado de Demi que não conhecia.
— Você poderia, mesmo? Matar alguém, quero dizer.
— Se a minha vida ou a de Joseph forem ameaçadas, sim.
— Tem certeza Demi?
— Tenho, sim — respondeu ela e desviou o olhar.
Foram para casa em silêncio. Apenas quando o carro virou a esquina de sua rua, Demetria falou.
— Joseph já chegou… — Então lembrou-se e acrescentou: — Muito obrigada pelo almoço e por ter me levado a tantos lugares.
Depois de parar o carro, a sra. Jonas a abraçou.
— Oh, meu bem, foi um prazer. Quando você desapareceu eu sofri como se houvesse perdido uma filha. Pensei que nunca mais estaria com você como se estive hoje. Quando quiser minha companhia, é só dizer.
— Vou querer e logo — prometeu Demi.
Saiu do carro e foi envolvida pelo vento gelado. Parecia que ia nevar. Correu até a porta e seus dedos se contraíram ao pegar na maçaneta fria, mas antes que ela abrisse, Joseph o fez. Deu-lhe um amplo sorriso, ficou de lado para que entrasse na casa aquecida e fechou a porta atrás dela.
— Venha já para cá — ordenou ele e abriu os braços.
Demetria obedeceu imediatamente, encostou o rosto no blusão de moletom vermelho e saboreou o prazer da força do abraço do marido. Joseph esfregou o queixo no alto da cabeça dela, amando senti-la junto de si e agradecendo a Deus por poder abraçá-la mais uma vez.
— Você e mamãe ficaram o dia inteiro fora. Não está cansada?
— Um pouco, mas foi bom estar com ela. Eu a adoro, você sabe.
Ele sorriu.
— Sim, eu sei. E acho que ela a adora também.
Joseph recuou apenas o bastante para fitar o rosto dela.
— Que tal um banho quente antes do jantar?
Ela concordou, depois franziu a testa, lembrando-se de alguma coisa.
— Oh, Joseph, eu não preparei nada para o jantar e nem me lembrei de trazer alguma coisa. Temos em casa o que fazer?
— Não se preocupe, já está feito. — garantiu ele.
Os ombros dela descaíram.
— Não estou cumprindo o nosso acordo, não é?
— Que acordo? — ele estranhou.
— Aquele em que você trabalharia e eu cuidaria da casa.
— Quem é que está se importando com acordos, Demetria? O que acontece a você, acontece a mim e vice-versa. Quanto ao que me diz respeito, você já deveria estar na cama, e pode ter certeza de que não irá começar a cuidar da casa enquanto não estiver mais forte.
Um leve sorriso entreabriu os lábios dela.
— Está bem.
— Agora que tal o banho? — lembrou Joseph.
— Está bem, e me espere, que não vou demorar — prometeu ela.
— Demore o quanto quiser, meu anjo. De qualquer modo as batatas ainda estão no forno, assando.
Demi dirigiu-se apressada para seu quarto, sentindo-se culpada por Joseph tratá-la com tanto carinho e dedicação. Enquanto ela agia as escondidas dele. Mas tratou de lembrar-se que não o fazia apenas por si: estava agindo assim pelo bem de ambos.

xx

Gotas de suor surgiram sobre o lábio superior de Pharaoh quando ele se virou na cama. Pegou a patinha de coelho e esfregou-a com os dedos, tentando bloquear a dor que sentia. Frustrado com a recuperação lenta dos ferimentos e a sonolência que a medicação para a dor causava, parara de tomá-la fazia dois dias. Agora, com a mente clara outra vez, seu corpo se recusava a funcionar. Cerrou os dentes e obrigou os olhos a focalizar as pequenas estátuas de duas personagens egípcias sentadas lado a lado na alcova na parede oposta à que ficava sua cama.
Ísis, esposa de Osíris e reverensiada mãe de todas as coisas, senhora dos elementos, começo do tempo. Osíris, ao lado dela, era o senhor do mundo subterrâneo, o príncipe dos mortos.
Pharaoh apertou ainda mais os dentes quando um outro espasmo de dor cruciante percorreu-lhe o corpo. Fechou os olhos, ordenando à mente que ignorasse a dor e que o fizesse lembrar-se de qual era a sua origem. Viera do rico, indolente mundo dos antigos reis, os faraós, das rajadas de areias do deserto, do calor que nunca terminava, das águas frias do Nilo e da sombra das tamareiras. Era muito mais fácil assimilar essa fantasia do que
encarar o dato de que havia sido abandonado ao nascer e criado num orfanato, sem que tivesse a menor idéia de quem haviam sido seus pais.
Na loucura que dominava sua mente, Pharaoh Carn estabelecera que era a reencarnação de um faraó que falecera no Egito, num mundo de mistério e beleza que nunca havia visto. E havia sido seu nome, Pharaoh, que lhe dera a chave para descobrir o que acreditava ser a sua vida passada.
Tocou o ankh tatuado no peito , olhando atentamente para as estatuas, procurando por si mesmo nas feições dos frios rostos de mármore.
Sua mente saltou do passado para o presente quando a imagem de Demetria se impôs à frente do que via. Um músculo pulsou em suas têmporas e ele procurou afastar a visão do seu cadáver jazendo, desconhecido, em alguma morgue da califórnia. E enquanto seu coração lhe dizia que ela estava viva, a lógica dizia o contrario, pois se houvesse sobrevivido ao terremoto eles já a teriam encontrado. Mandara Stykowski a Denver, dias atrás, mas ele ainda não dera noticias. Seus dentes rilharam de frustração. O mínimo que o maldito poderia fazer era dar um telefonema.
Batidas suaves soaram à porta, interrompendo-lhe os pensamentos atribulados.
— Entre.
Duke Needham abriu a porta, mas ficou parado no umbral.
— Chefe, não quero incomodar, mas tivemos problemas nas docas, em Houston.
O cérebro de Pharaoh rapidamente abandonou o lado pessoal pra focar o lado dos negócios que regiam sua vida.
— O que foi? — indagou bruscamente.
— O DEA. Eles acabam de confiscar o Pequeno Egito e tudo que havia nele.
O rosto de Pharaoh contraiu-se de raiva. Seu iate pessoal sempre fora respeitado pelos agentes do departamento de combate ao narcotráfico. Alguém no DEA não merecia o dinheiro que ele pagava.
— Ajude-me a levantar — ordenou. — Preciso fazer uns telefonemas.
Duke correu para a cama e ajudou o chefe a se pôr em pé.
— O que você quer, agora? — perguntou solícito.
— Ir para o meu escritório . Ache a maldita enfermeira e descubra onde ela enfiou a droga da cadeira de rodas.
— Sim, senhor.
Duke saiu correndo.
Minutos mais tarde, depois de ordenar a remoção permanente do policial Dabney Carruthers da face da Terra, Pharaoh desligou o telefone.
— O desgraçado! — rosnou. — Vai aprender a querer me tapear. Eu gostava daquele iate…

xx


Joseph acordou bruscamente de um sono sem sonhos e rolou na cama, olhando o relógio com dificuldade. Quinze para as seis da manhã. Desligou o alarme antes que ele soasse e acordasse Demi, depois rolou de costas de novo, para aproveitar por mais alguns minutos o calor sob as cobertas.
Adormecida, Demetria estava virada de frente para ele, que pode ver as feições delicadas emolduradas pelos cabelos negros, lembrando as de uma boneca de porcelana. Aproximou-se muito devagar, querendo apenas sentir sua pele de leve na dela, mas assim que a tocou ela deslizou para junto dele e apoiou o rosto no seu peito, com o nariz enfiado sob as cobertas.
O coração de Joseph apertou-se. Para um homem grande, forte e auto-suficiente como ele, era assustador amar com tanta intensidade e saber que uma mulher tão pequena tinha imenso poder sobre sua vida e felicidade.
Passou o braço ao redor do corpo de Demi, adorando a sensação de seu corpo junto ao dele, sabendo que aquela mulher, aquela linda e frágil mulher, era sua esposa. Porém seu maior medo não vinha da fraqueza dela, mas sim de saber que não lhe dera segurança. Prometera honrá-la e protegê-la em todos os dias de sua vida de casados, que mal durara doze meses. Isso não era muito abonador para um homem que fazia questão de cumprir o que prometia.
Ficou olhando-a enquanto Demetria ajeitava-se junto ao corpo dele, sentindo o bater de seu coração e a leveza da respiração em sua pele. Em seu peito surgiu um fogo devorador. Ele iria honrar suas promessas. Iria proteger sua mulher.

(...)

Parada junto à janela, Demi acenou pra Joseph, que dava marcha-à-ré em direção à rua, saindo da garagem deles. O segundo carro de Winston e Betty Jonas achava-se estacionado na rua, em frente da casa, e no console do hall havia um telefone celular.
Ela deixou a cortina voltar à posição original e voltou-se para dentro da sala, absorvendo a quietude que a rodeava. Era a primeira vez que ficava sozinha desde que voltara e não sabia se devia sentir-se orgulhosa ou amedrontada. Num cantinho de sua mente, parecia latejar a constante ameaça do desconhecido. No entanto, Joseph fizera todo o possível para ter certeza de que ela nunca mais iria sumir.
Enquanto o carro parado diante da casa dava a Demi uma sensação de liberdade o celular dava segurança a ele. Poderia entrar em contato com Demi a qualquer momento, em qualquer lugar, e ter certeza de que sua mulher estava em segurança.
Demetria ficou olhando a sala silenciosa, discutindo consigo mesma sobre se deveria levar seu plano adiante. Já podia ir buscar o revólver que encomendara. Mas estaria pronta para dar esse passo? Não apenas mentia para Joseph, como também para si mesma. Sim, queria proteção, porém havia uma parte de si que queria vingança. Alguém roubara dois anos de sua vida!
Meu Deus, por que não consigo me lembrar?
Meneando a cabeça, foi para a cozinha, dizendo-se que devia ir cuidar da louça do café da manhã e, depois, colocar roupas na máquina de lavar. Havia tempo para pensar no revólver e poderia até mudar de idéia.
Colocou a louça na máquina, ligou-a e foi tirar a toalha da mesa. Nesse momento seu olhar deu com a gaveta onde Joseph guardara o dinheiro que havia encontrado na sua roupa. Apesar de sentir-se nervosa, abriu-a, pegou o maço de notas e ficou olhando para ele como se a qualquer momento pudesse explicar sua presença.
Mas nada aconteceu.
Nenhum lampejo de lembranças.
Nenhuma revelação.
Com a testa franzida, tornou a guardar o dinheiro na gaveta. Tinha que ir cuidar da roupa para lavar. Era o que devia fazer, em vez de ficar complicando sua vida com idéias que poderiam ser decepcionantes.
Estava separando as roupas quando reparou na camiseta Harley-Davidson de Joseph. Era velha, estava desbotada, mas assim mesmo era a que preferia usar para dormir. Sorriu e encostou-a no peito, pensando em como seu marido era grande.
Quando trabalhava na biblioteca quase sentira ciúme do jeito que suas colegas de trabalho agiam quando ele ia buscá-la. Em geral, ele aparecia vestido com as roupas de trabalho: a macia e desbotada calça jeans; a camisa xadrez, azul de algodão. Ambas
modelavam o corpo musculoso, cobrindo o que importava, mas deixando bem pouco à imaginação. As sobrancelhas dele eram grossas, negras e tendiam a arquear-se quando algo o intrigava. Seu queixo era quadrado, forte, indicando teimosia e auto-confiança, os olhos eram de um azul escuro. Mas era só aparência de um rapaz durão e rebelde. Joseph era tão atraente quanto era crédulo e honesto.
Demetria suspirou, deixou a camiseta cair na pilha de roupas de cor e terminou a separação. Alguns minutos depois a máquina de lavar movimentava-se, ronronando, e a de lavar louça iniciava o ciclo de enxágüe. Ela parou no meio da cozinha, procurando mais o que fazer. De novo seu olhar foi para a gaveta do armário. Mordeu os lábios, foi para a sala de estar e ligou a tevê.
Um programa de entrevistas e sete comerciais depois, continuava tão inquieta quanto no momento em que se sentara ali. Olhou para o relógio acima da lareira. Eram quase dez horas. Faltavam duas horas para o almoço e pelo menos seis horas antes que Joseph voltasse para o jantar.
Quando o programa terminou, começou um breve noticiário, mencionando a possibilidade de neve ainda naquela manhã. Em seguida entrou uma reportagem sobre a continuidade dos trabalhos de reestruturação do sul da Califórnia devido aos estragos causados pelo terremoto.
À medida que o repórter falava e cenas sucediam-se no vídeo, a pele de Demetria começou a arrepiar-se. O sangue fugiu de seu rosto ao ver os prédios desmoronados e o desespero das pessoas.
Corra, Demetria, corra!
Ela ofegou e voltou-se, certa de que alguém falara atrás de si, mas não havia ninguém. Ergueu-se do sofá e correu para a porta, a fim de ver se estava bem trancada, repetindo o procedimento com as outras portas e janelas. Ao mesmo tempo certificou-se de que estava só.
Ficou parada no hall, ouvindo o silêncio e esperando para ver se a voz soava de novo. Então, algo começou a emergir em sua memória.


Ela estava correndo… correndo. Havia uma longa escadaria. Janelas explodiam como tiros. De repente viu-se diante de uma imensa porta e tentou ver além dela. Havia verde, muito verde. Muitas, muitas árvores. E boa parte delas estava caindo. Tudo estava caindo. Estremeceu e fechou os olhos enquanto a imagem solidificava-se em sua mente.
Nesse instante alguém a agarrou. Uma dor terrível explodiu na sua nuca quando o chão movimentou-se e foi atirada violentamente contra a parede.
Ouviu a si mesma gritando:
— Quero ir para casa!
Via os olhos negros dele brilhando de ódio quando a segurou com força.
— Mas você esta em casa, Demetria. Agora você me pertence.
Ela se debatia, lutava, sentindo as mãos do homem apertando-lhe a garganta.
— Largue-me, deixe-me ir! — implorou desesperada, com dificuldade para respirar. — Eu não quero morrer!
Com dificuldade para respirar.— Eu não quero morrer!
Então, empurrou-o e ele caiu. Rolou pela escada que oscilava e acabou estendido lá embaixo, deitado de lado. O sangue que saía da parte de trás da sua cabeça manchava o mármore branco veiado de negro, misturando-se ao reboque e vidro quebrado espalhados pelo chão. O piso movimentou-se sob os pés dela, que foi lançada para a frente e, apoiada nos joelhos e mãos,
escorregou dois ou três degraus abaixo, até que conseguiu parar. O ar estava denso de poeira. Algo explodiu lá fora e as luzes se apagaram. Ignorando a dor, ela desceu correndo a escadaria, também de mármore, segundos antes que ela desabasse, destruída. Foi cair ao lado do corpo imóvel. Quando ergueu o rosto, quase esbarrou no nariz do homem inconsciente.

As imagens começaram a apagar-se.
— Não — murmurou Demetria.
Tentou desesperadamente lembrar-se do que acontecera a seguir. Fechou os olhos e procurou concentrar-se nas feições do homem. Precisava de uma identidade antes de ir à polícia. Mas a imagem não quis voltar. Tudo que conseguiu ver com os olhos da mente foi a lapela do paletó dele quando o rolou, fazendo-o ficar de costas, para pegar a carteira no bolso de dentro.
Levou a mão aos lábios, contendo um grito, e abriu os olhos. O dinheiro! Fora assim que conseguira aquele dinheiro todo.
Correu para a cozinha, achando que se tocasse naquelas notas talvez tivesse as respostas. Mas quando pegou-as da gaveta, tudo que sentiu foi um aperto ruim na boca do estômago. Talvez não fosse mais precisar do revólver. Na visão que tivera o homem parecia morto, no entanto algo a impedia de ficar tranqüila. No último momento, no alto da escada, o homem tentara salvá-la ou matá-la?
Cerrou outra vez os olhos.
— Por favor, meu Deus, ajude-me a me lembrar — pediu.
Mas nada aconteceu.
Segurando o dinheiro com ambas as mãos, apertou-o contra o peito como se fosse uma espécie de escudo. Seu pensamento voava de uma cena a outra, sem que conseguisse apreendê-las. O que acabava de se lembrar a fez sentir mais medo ainda. Ficou imóvel, até que o medo começou a se transformar num frio e raivoso propósito.
Foi para o quarto trocar de roupa.
Alguns momentos depois, saiu. Deu um olhar curioso de alto a baixo da rua e foi para o carro.
A sra. Rafferty, que morava do outro lado, em frente, abaixou-se, pegou seu jornal e ao erguer-se viu-a. Acenou, toda alegre. Demetria acenou em resposta e sorriu. Nada havia mudado. A sra. Rafferty continuava gostando de acordar tarde, pois era evidente que estava começando seu dia.
Quando abriu a porta do carro para entrar, o sr.Davidson, que morava um quarteirão abaixo, ia passando com seu cachorro. Ele não acenou, mas não por não ser amigável. A bengala branca que movimentava adiante dos pés
dizia tudo: ele era cego. Demi deslizou para trás do volante e foi só então que percebeu que o cão guia que acompanhava o cego não era o mesmo de antes. Ficou olhando pelo espelhinho até que o sr. Davidson e seu cão viraram a esquina.
Aquele era mais um sinal de que a vida ali continuara sem ela.
Antes de dar partida no motor, verificou o endereço da loja de armas. Movimentou o carro, pensando que uma parte de sua memória havia desaparecido, porém a parte que mais importava, a da vontade e determinação de viver, continuava forte. Onde quer que tivesse estado, dera um jeito de voltar para Joseph.

(...)

— Pronto, sra. Jonas. Assine aqui e poderá ir embora sossegada.
Demetria assinou o recibo e contou cuidadosamente sete notas de cem dólares, enquanto o balconista acomodava o revólver numa caixa e a enfiava numa sacola.
— Quantas balas a senhora quer comprar, fora as que já estão na arma?
— Não sei — respondeu ela, erguendo os olhos. — O bastante para aprender a atirar, creio.
O vendedor pegou várias caixas de balas e colocou-as na sacola, junto com o revólver.
— Isto dá para o começo, só que vai custar um pouco mais.
Ela pegou outra nota do maço e acrescentou às que pegara. O dinheiro nada significava e pouco lhe importava de onde viera: ia usá-lo bem.
Se pretende andar com o revólver — avisou o homem -, deverá tirar um porte de arma.
Demetria ficou perplexa. Aquilo ia complicar seus planos.
— E como faço isso? — perguntou.
— Precisa solicitar ao chefe de polícia, por meio de um formulário.
— E onde arranjo esse formulário?
O balconista pegou o dinheiro que ela lhe estendia.
— Devo ter algum, vou lá dentro ver.
Desapareceu na sala no fundo da loja, deixando-a sozinha. O sininho da porta bateu. Ela voltou-se, rápida, olhando desconfiada para o homem com roupa de camuflagem que entrava, mas ele não lhe prestou a mínima atenção e foi examinar uns pentes de munição que estavam numa prateleira.
Demetria deu-lhe as costas e observou, nervosa, a porta por onde o vendedor desaparecera. De repente, quis apenas fugir daquela loja e de tudo que ela representava.
Olhou para a sacola que segurava e seus ombros descaíram. Assumindo a responsabilidade pela própria proteção, nunca mais iria sentir-se livre. Viu o balconista voltando. Ainda estava em tempo.
— Aqui está seu troco — disse ele -, e o formulário. É só preenchê-lo e enviá-lo ao endereço que está aí. A polícia manda o porte de arma para a senhora. Está bem?
As mãos dela tremiam quando guardou o troco e o formulário na bolsa. Quando chegou ao carro sentia-se enjoada. Sentou-se ao volante e fechou a porta. O ruído pareceu-lhe ensurdecedor no silencio da rua.
O ar que respirava espessou-se quando olhou para a sacola no banco a seu lado. Tudo o que conseguia pensar era: O que eu fiz?
Uma necessidade insuportável de ouvir a voz de Joseph apoderou-se dela. Pegou o celular na bolsa e discou.
— Construções Jonas, Mike às suas ordens.
— Mike, é Demetria, a esposa de Joseph. Pode chamá-lo, se ele não estiver muito ocupado?
— Claro, sra. Jonas. Espere um momento.
Demi fechou os olhos, concentrando-se nos rumores que ouvia através do telefone. Os estampidos dos revólveres de cravar pregos eram fortes e contínuos. O ronco das maquinarias pesadas, em movimento constante, lembravam-na de como era o mundo de Joseph. Antigamente era um mundo familiar também para ela, mas agora sentia-se uma estranha. Antes que pudesse aceitar esse fato soou a voz do marido trazendo-lhe um grande alivio.
— Demi… meu anjo… alguma coisa errada?
Ela não merecia tanta ansiedade e carinho. Mordeu o lábio inferior e seus olhos brilharam, com lágrimas.
— Não, nada. Está tudo certo.
— Mike disse que você parecia nervosa.
Demetria olhou a sacola de novo. A urgência de contar tudo a ele era forte, porém Joseph já sofrera muito e longamente com o desaparecimento. Não podia sobrecarregá-lo com seus medos. Por isso, em vez de dizer-lhe a verdade, mentiu.
— Não estou nervosa. Apenas queria ouvir sua voz. Só isso.
— Tem certeza de que está bem? Parece que você está chorando…
Tentando transformar um soluço em riso, ela respondeu:
— Você tem muita imaginação! Vai chegar em casa tarde?
— Acho que não — respondeu ele.
— Ótimo. Mas me dê tempo para fazer um jantar especial.
— Não se canse, querida — pediu Joseph. — Qualquer coisa estará bem. — Abaixou a voz: — Na verdade, a única coisa que quero é você.
Desta vez Demi riu de verdade.
— Como eu disse, vou fazer algo especial… — Antes de desligar, acrescentou: — Eu te amo.
— Eu também te amo, Demetria, mais do que nunca. Até logo, meu anjo.
— Até logo — respondeu ela e desligou.
Colocou o celular ao lado da sacola, fitando-a de novo, só que desta vez o brilho em seus olhos não era de lágrimas. Tirou o carro do estacionamento para dirigir-se a Lakewood, onde ficava o Centro de Tiros de Foothills.
Talvez estivesse errada não dizendo nada a Joseph, mas agora já começara, e a única coisa que tinha a fazer era continuar.
Se tivesse olhado para trás nesse momento, teria visto o homem com roupa de camuflagem sair rapidamente da loja de armas. Porém estava prestando tanta atenção no tráfego à sua frente que não se preocupava com o que se passava atrás.