14.12.14

Remember Me - Capítulo 6 - MARATONA 1/5

Os capítulos serão postados de duas em duas horas :)

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Eram quase duas horas da manhã quando Joseph acordou de repente. A casa achava-se às escuras, o quarto silencioso, mas o instinto lhe dizia que alguma coisa estava errada.
Demetria!
Saltou em pé e foi vestindo a calça jeans enquanto percorria o corredor. A porta do quarto dela estava aberta e a cama vazia. O pânico inundou dolorosamente seu coração pela primeira vez desde que vivera aquele horror, dois anos atrás. Voltou-se, rápido, e correu para o hall. Quase imediatamente percebeu uma luminosidade na sala de estar e perguntou-se se por acaso deixara a televisão ligada.
Chegou à porta e viu-a no sofá, enrolada em sua manta preferida, chorando silenciosamente na penumbra. O controle remoto estava numa de suas mãos, enquanto imagens se sucediam no vídeo da televisão.
Ele obrigou-se a respirar mais devagar e procurou dominar o pânico. Graças a Deus! Graças a Deus! , era tudo que conseguira pensar. Silenciosamente aproximou-se, parou atrás de Demi e inclinou-se até o rosto encostar em seus cabelos.
— Demetria, o que está fazendo, acordada?
Sobressaltando-se, ela ergueu os olhos e só relaxou quando viu que era Joseph.
— Você me assustou — disse. Então, acrescentou: — Eu não conseguia dormir.
Ele aproximou-se do sofá, apoiou um joelho no chão, curvou-se, envolveu o rosto de Demi com as duas mãos e enxugou as lágrimas com os polegares. Beijou-a no rosto.
— Você está bem?
Como durante aqueles dias todos ele havia se mantido frio e distante, os inesperados gestos carinhosos a perturbaram. Suas palavras vieram molhadas de lágrimas e interrompidas por soluços.
— Filme… tão triste… a amava muito.
Ela indicou a televisão ao falar.
Joseph olhou para a caixa vazia de um videocassete, que estava sobre a mesinha, e ocultou um sorriso. Era um dos filmes de sua mãe e, até onde podia se lembrar, muito romântico e triste.
— Mas termina bem — consolou-a.
Meio tranqüilizada pelo comentário, ela fungou.
— Termina?
Fitando os olhos castanhos, profundos e luminosos de lágrimas, Joseph teve vontade de beijá-la. Contudo, por mais forte que fosse o impulso, ele se obrigou a erguer-se. Estava agindo como um louco desde que ela voltara para casa e precisava controlar seus impulsos e ajudá-la a sentir-se segura.
— Sim, termina bem — confirmou.
Demetria enxugou os olhos e o rosto com a barra da manta.
— Jura?
— Juro — respondeu ele, baixinho. Olhou para a parte vazia do sofá e perguntou: — Quer companhia?
O coração de Demi deu um salto.
— Quero sim…
Em vez de sentar-se ao lado dela, Joseph ergueu-a, com manta e tudo, sentou-se e depois acomodou-a em seu colo. Ela prendeu a respiração, esperando pelo que viria a seguir.
— Está confortável?
Ele falava com voz suave, fazendo-a descansar a cabeça na curva de seu pescoço e ajeitando a manta ao redor de suas pernas.
O coração de Demetria saltava no peito.
— Estou — murmurou.
— Está bem agasalhada?
Faltou-lhe a voz e ela fez que sim com a cabeça .
— Onde está o controle remoto?
Demi entregou-o a ele e viu-o apertar o botão do volume até tornar os diálogos audíveis.
-Está ouvindo melhor assim?
Acima do ruído forte das batidas do meu coração?, pensou ela.
— Estou.
— Ótimo, então.
Ela voltou a se integrar na vida da heroína e só quando os letreiros começaram a aparecer na tela soltou um suspiro de alivio. Ergueu o rosto para Joseph, com os olhos brilhantes e o coração mais leve.
— Eu adoro finais felizes, você não?
Ele sorriu e fez que sim, mas seu peito estava apertado. Mesmo depois do modo ofensivo com que a vinha tratando, ela continuava a ser a mulher meiga e compreensiva por quem ele se apaixonara e com quem se casara. Por que não havia percebido isso antes? Por que, depois que ela praticamente ressurgira dos mortos, não vira nada a não ser fatos negativos? Deveria ter se posto de joelhos e agradecido a Deus, em vez de ficar procurando verificar o que julgava mentiras.
— Demi, eu sinto tanto!
Demetria permaneceu em silêncio. O momento pelo qual tanto ansiara afinal ali estava, e tinha medo até de se mexer, temendo acordar e descobrir que estava sonhando. Mordeu os lábios e, hesitante, tocou o rosto dele com a mão tremula. Os olhos de Joseph se fecharam enquanto se virava o rosto para beijava a palma da mão dela.
— Eu nunca tomei drogas, Joseph, eu juro.
Ele inclinou-se até que suas testas se tocaram.
— Eu sei, meu anjo, eu sei.
— Não consigo explicar as marcas de agulhas nas veias dos meus braços, mas eu não…
— Psiuu… — fez Joseph e abraçou-a com força.
Demi compreendeu que de todas as emoções que tinha naquele momento, a mais poderosa era a de sentir-se segura.
— Não estou mentindo para você. Eu quero me lembrar.
— Eu sei — repetiu ele. — E vai lembrar-se… quando chegar o momento.
Ela suspirou.
— Eu não sei onde estava, mas voltei para você, não?
A consciência de Joseph doeu. Por que isso não lhe bastara?
— Sim, Demetria, e vou ser-lhe eternamente agradecido por isso.
Fez-se um longo silêncio antes que Demi falasse de novo, desta vez mostrando-se preocupada com ele.
— Foi horrível para você, não?
Os braços dele apertaram-na mais quando lembrou-se dos dias intermináveis e das noites de tortura, imaginando as mais terríveis situações, às vezes até mesmo supondo-a morta. Assentiu.
— Sinto muito por tudo que aconteceu conosco… — A voz dela soava muito triste. — Éramos tão felizes!
Joseph fitou-a.
— E seremos de novo. Precisamos apenas de tempo para que o choque passe. — Ele forçou um sorriso. — Algumas vezes, depois de passado o primeiro ano, perdi a esperança. Meu coração me dizia que a única coisa que poderia manter você longe mim era estar morta.
Demetria teve ímpetos de chorar outra vez, só que por ela e por Joseph, não por um filme.
— Posso entender isso e tenho certeza de que não fui embora por minha própria vontade. Voltei para você, Joseph, e tudo que lhe peço é que tenha paciência comigo. Ajude-me a descobrir o que aconteceu… e faça tudo para que não aconteça de novo.
O sorriso de Joseph desapareceu.
— É um aviso ou uma profecia?
— Nem uma coisa, nem outra — assegurou ela.— Trata-se apenas de um fato. Eu sei que jamais o deixaria voluntariamente… portanto, tenho certeza de que só pode ter acontecido de um jeito.
— Qual?
— Alguém me levou à força. — Ela estremeceu. — O que me assusta é que se aconteceu uma vez poderá acontecer de novo.
De acordo com o pouco que sabiam, ela devia ter razão. O perigo poderia estar em qualquer canto, mas só teriam idéia de onde procurá-lo quando Demi se lembrasse o que tinha acontecido, pelo menos onde havia estado.
— Venha deitar-se — disse ele. — Mais tarde teremos muito tempo para nos preocuparmos com isso.
Demi hesitou em fazer a pergunta que lhe ocorreu enquanto Joseph levantava-se com ela do sofá.
— Com você?
Ele acariciou-lhe os cabelos e apertou-a mais contra o peito.
— Sim, meu anjo, comigo… se ainda quer dormir com um idiota.
Passando o braço pela cintura dele, ela pensou que pela primeira vez, desde que saíra do hospital, estava começando a acreditar que tudo poderia ficar certo outra vez.
— Creio que posso esquecer meus preconceitos por uma noite — brincou.
Rindo, Joseph começou a andar.
— Vamos. É tarde e você precisa descansar. Só porque não está no hospital não quer dizer que pode desobedecer às ordens do médico.
— Eu estava quietinha, sentada!
Enquanto ela protestava, entraram no quarto.
— E agora vai ficar deitada…
Ele ergueu as cobertas e Demetria acomodou-se na cama. Em seguida Joseph deitou-se ao seu lado, num silêncio desajeitado.
Reparou no respirar de Demi, que pareceu chegar-lhe ao coração. Jamais avaliara o quanto era precioso esse leve som, até que o perdera. Apesar da cama deles ser King size, dava a impressão de ter diminuído. Por algum motivo que ignorava, ele hesitava em passar para o espaço dela sem seu consentimento. Levou alguns minutos para que se desse conta de que o tempo que haviam passados separados era o dobro do que haviam estados juntos, casados. Parecia loucura, mas ele sentia-se quase como se estivesse na cama com uma estranha.
Quando a voz dela rompeu o silêncio, no momento em que a ouviu, tudo encaixou-se em seus lugares.
— Joseph…
— Sim, meu anjo?
— Quer me abraçar?
Mais uma vez ele foi atormentado pelo remorso de obrigar sua própria esposa a pedir-lhe que fizesse o que já deveria ter feito.
— Com o maior prazer — respondeu, com carinho, e abraçou-a.
Momentos depois, a cabeça de Demi repousava sobre o ombro dele e sua mão estava sobre o largo peito. Logo o ritmo suave da respiração dela disse-lhe que adormecera. Mas o sono não vinha para Joseph, que não parava de pensar que ela havia dito que tinha medo que tudo acontecesse de novo. E se assim fosse? E se sua mulher estivesse em perigo? Não podiam continuar ali, levando suas vidas como se nada tivesse acontecido. O que o investigador Avery Dawson havia dito sobre a mulher que pegara um táxi na estação rodoviária? Ah, sim. Que ela saíra correndo do terminal e o taxista quase a atropelara.
Quando ouvira isso, tudo lhe soara tão falso que se inclinara a ignora-lo, porém, agora esse detalhe lhe parecia muito importante. Que explicação poderia haver para ele? O desaparecimento de Demetria havia sido desconcertante e sua volta também. Tudo indicava que ela estava voltando
para casa quando o desastre, uma jogada infeliz do destino, a fizera perder a memória, impedindo-a de contar o que lhe acontecera.
Sentindo-se impotente diante dos fatos, Joseph ajeitou as cobertas sobre Demetria, fechou os olhos e abraçou-a com mais força. Lá fora o ar estava frio, o vento, cortante,
Um novo dia estava por nascer.

(...)

Pharaoh Carn sentou-se diante da vidraça que dava para os fundos de sua propriedade. Tomava café contemplando o nascer do dia. Brincava com um chaveiro de patinha de coelho enquanto seu olhar vagueava pela paisagem.
Sua noite havia sido cansativa, o sono interrompido várias vezes. Sempre que fechava os olhos, a mesma coisa voltava-lhe a mente. A expressão de medo de Demetria, o chão faltando-lhe sob os pés e a queda pela escadaria.
Depois disso, as lembranças esmaeciam-se e se tornavam retalhos: o rosto de um homem que se inclinava sobre ele; o transporte para um helicóptero e depois aqueles dias no hospital. As horas intermináveis povoadas por semblantes estranhos, a manipulação dolorosa, a tortura de agulhas… tudo em nome da medicina. E pairando sobre esse painel angustiante, a consciência de que perdera a sua sorte pela segunda vez na vida.
Apertou na mão a pata de coelho, sabendo que ela não possuía magia bastante para anular a perda de Demetria, mas no momento era tudo que tinha . Colocou a xiacara na mesa e ergueu-se, caminhando lenta e penosamente até a lareira, em seguida até a confortável poltrona de couro diante dela. Com um gemido, deixou-se cair no macio estofado e fechou os olhos.
Precisava descansar. Não conseguia concentrar-se por mais de alguns minutos por vez. A organização que criara exigia uma figura autoritária constantemente no comando. Sua fraqueza era perigosa. No seu mundo apenas os fortes sobreviviam, o dinheiro e o poder eram as únicas finalidades válidas. Força igualava-se ao poder. O poder igualava-se ao controle. E para continuar dominado o mundo que criara precisava manter-se no controle. No entanto, o silêncio da sala era sedutor e, antes que pudesse perceber, Pharaoh adormeceu, mais uma vez voltando ao passado através do sonho.


Albuquerque, Novo México
Demetria Lovato, com dez anos, riu para o rapazinho que estava do outro lado da janela da sala de aula. Durante os seis anos anteriores. Pharaoh Carn havia sido a única pessoa importante em sua vida. Para uma criança golpeada pela morte dos pais e ávida de afeição como ela era, as atenções dele haviam sido a salvação. Embora Pharaoh não mais morasse no orfanato, trabalhava lá. Um ano atrás o tribunal o havia considerado adulto e ele fora morar num apartamento nas redondezas. Aparentemente, não era diferente dos adolescentes do seu tempo, mas a aparência enganava. Ele gostava de luxo, porém, como não tinha educação nem a paciência necessárias para alcançá-lo, entrara para o crime. Era um modo fácil, rápido, de conseguir dinheiro e apresentava um desafio ao qual não conseguia resistir. Queria tudo, mas queira ¨agora.¨Aos dezesseis anos, já estava envolvido com uma gang local. Não havia sido fácil ingressar nela. Seu tempo era mais restrito que os dos demais adolescentes, mas ele logo descobriu como fraudar o sistema ao qual se achava preso. Os últimos três anos passados com essa gang haviam sido apenas um período de treino. Roubar carros acabara se tornando facílimo, e ele logo se formou em arrombamentos e roubos à mão armada. Se bem que ainda não houvesse matado, já usara um revolver mais de uma vez para assaltar. Quando alcançara a independência, obtidos dinheiro e experiência, comprara um bonito carro, roupas elegantes e colocara um diamante de dois carates na orelha. Sua bonita aparência, olhos negros, cabelos também negros e encaracolados, enlouquecia as mulheres. Ele tirava tudo que queria delas e as jogava fora, como latas vazias de cerveja, quando mais nada tinha a tirar.
Sua saída do orfanato havia sido como um impulso para os planos que tinha para o futuro. Era jovem, forte e ambicioso. Queria tudo, imediatamente. Porém, a falha nos planos era ter que deixar Demetria para trás.
Supersticioso, ele acreditava firmemente que Demetria Lovato era a sua sorte, que tendo-a ao seu lado conseguiria o poder máximo. Contudo, ela estava apenas com dez anos. Seria preciso esperar anos para que pudesse ir juntar-se a ele. Mas quando esse dia chegasse, e Pharaoh acreditava que chegaria, com Demi ao seu lado ele se tornaria o mais poderoso.
Assim aceitara o emprego de hortelão e jardineiro da Kitterige House. Se não podia levar Demetria consigo, pelo menos ficaria por perto dela, de sua magia que protegeria o futuro dele.
Com o passar dos anos, tornara-se confidente da garota, seu protetor e, às vezes, um substituto da figura paterna. A menininha era a única pessoa no orfanato a acreditar que Pharaoh Carn era bom. Desde que ela chegara lá, professores, dirigentes e mesmo companheiros haviam começado a vê-lo sob outra luz. Era como se o vissem através dos olhos da pequena órfã. Todos sabiam que uma criança não podia ser enganada, e era evidente que Demetria Lovato via algo naquele menino que ninguém havia visto. A dependência dela a ele e a adoração que lhe dedicava tornavam-no importante, até mesmo especial. Com ela em sua vida nada poderia dar errado.
Assim, quando a viu na sala de aula, com o queixo apoiado nas mãos, olhando através das janelas os balanços lá fora. Pharaoh sentiu que não podia passar despercebido aos olhos de Demetria.
Caminhou para a janela até entrar no campo de visão da menina; assim que o viu sua expressão mudou, ela riu e ele sentiu-se tão leve quanto o ar.
A professora bateu com o lápis na própria mesa e depois apontou-o para Demetria.
— Demi, preste atenção!
Ela saltou ao tom de voz zangado da professora e olhou-a, embaraçada por ter sido apanhada distraída.
— Sim, senhora — respondeu baixinho.
Quando a atenção da professora voltou-se de novo para o quadro negro, ela se atreveu a dar uma olhada para a janela, porém sabiamente Pharaoh havia ido embora.
Demetria não ficou triste por isso, não fazia mal; ela o veria de novo. Ele nunca ficava longe por muito tempo.

(...)

Depois de dormir o resto da noite nos braços de Joseph. Demi acordou sozinha na grande cama. O coração dela sofreu um aperto doloroso quando, rolando o corpo, tocou o travesseiro vazio dele, mas que ainda guardava seu calor. Não fazia muito tempo que o marido levantara.
Sua mão apertou a fronha, amarrotando-a, e ela fechou os olhos, lembrando-se que costumavam fazer amor ao acordar. Mas não. Não ia sentir pena de si mesma nesse dia.
A noite anterior havia sido uma revelação. Quem diria que depois de ir deitar-se, tão angustiada que custara a dormir, iria amanhecer com tanta alegria. Cantando baixinho, levantou-se.
Vestiu depressa a calça de um abrigo de ginástica de Joseph, dobrando-lhe as pernas até que ficassem pouco acima de seus pés, e uma camiseta dele de mangas compridas. Foi para o banheiro, onde escovou os dentes. Voltou para o quarto e sentou-se à penteadeira para escovar os cabelos. O local machucado ainda estava sensível e ela encolheu-se quando os pelos da escova o tocaram. Depois de pronta, parou um instante olhando-se ao espelho. Aparentemente, continuava a mesma, mas havia tanta coisa que não conseguia lembrar-se que não acreditava nem mesmo na própria aparência. Nunca mais as coisas seriam as mesmas entre ela e Joseph, por mais que ambos perdoassem e procurassem entender um ao outro. Para ela, então, era impossível que o mundo e a existência continuassem os mesmos: alguém roubara dois anos de sua vida.
Nesse momento, ouviu passos aproximando-se pelo hall e seu coração agitou-se, mais de medo do que de ansiedade. Alguém ia entrar no quarto e o instinto lhe dizia para fugir.
— Demi?
Ao som da voz de Joseph, ela chegou a sentir-se fraca de tanto alivio e respirou com mais facilidade.
— Estou aqui.
Ele empurrou a porta do banheiro e riu, alegre, ao ver como ela estava vestida.
— Lembre-se trazer suas roupas para o nosso armário — disse, indo colocar a bandeja com café sobre a cama.
Demetria colocou a escova sobre a penteadeira, ergueu-se e foi ao encontro do marido, abraçando-o com força.
— O que foi? — perguntou Joseph. — Espero que não seja nada triste.
— Não…— murmurou ela . — Só estou contente por ser você.
Ele franziu a testa.
— Quem mais poderia ser:
Perturbada pelo pensamento que lhe passara pela cabeça, Demi escondeu o rosto no peito dele.
— Não sei… Às vezes, quando me viro, tenho a impressão de que vou ver o rosto de outra pessoa.
Joseph procurou falar sem que a voz traísse sua preocupação.
— Talvez isso seja um bom sinal. Pode ser que você esteja começando a lembrar-se.
Ela suspirou.
— Espero que sim. A sensação é de que há um buraco na minha mente e que de vez em quando cenas do passado passam por esse ponto escuro, rápidas. Tento focar as imagens, porém quanto mais me esforço mais tênues elas se tornam.
— Só quero que não se esqueça de uma coisa: não está sozinha nisso, querida. No entanto…
O marido deu-lhe um longo e intenso olhar.
— O quê? — indagou Demi.
— Pergunto-me até onde podemos ir agora.
O coração dela falhou uma batida e sua voz fraquejou.
— Você quer dizer, nós dois?
Ele acariciou-lhe o rosto.
— Não, meu anjo… Nós propriamente, não.
— Então, o que quer dizer, Joseph?
— Enquanto você não conseguir lembrar-se de alguma coisa a policia não poderá levar o seu caso para a frente. Para eles, você apenas me abandonou e decidiu voltar. A menos que apresentemos um motivo, não vão considerar que houve crime e continuarão a pensar que apenas uma mulher entediada foi embora de casa.
Demetria empalideceu.
— Eu não…
— Eu sei, querida — interrompeu o marido. — Mas legalmente é assim que a situação se apresenta.
Os ombros dela descaíram.
— Explique-me o que quer dizer.
Vendo a esposa passar da alegria à desesperança, Joseph detestou-se por ser o causador disso. Mas depois do que ela dissera, na noite anterior, ter medo de que aquilo tudo acontecesse de novo, não ia ficar sentado esperando para ver se acontecia ou não.
— Quando você desapareceu e a policia me apontou como suspeito, contratei um investigador particular para tentar encontrá-la.
Os grandes olhos de Demetria tornaram-se maiores ao fitá-lo.
— Oh, Joseph, eu não sabia!
— Há uma porção de coisas que você não sabe, querida… O que quero lhe perguntar é o seguinte: o que acha de contratarmos o investigador de novo?
Ela hesitou e, quanto mais pensava na pergunta, mais intrigada ficava.
— Você acha que temos dinheiro para uma despesa como essa?
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— O problema não é esse. Devemos contratá-lo ou não?
Demi suspirou, abraçou a si mesma e voltou-lhe as costas. Joseph puxou-a para si, passando os braços sobre os dela.
— Diga, Demi… Diga-me o que está pensando.
Antes que ela respondesse, o telefone tocou. Ele estendeu-se sobre a cama para atender.
— Alô?
— Joseph, sou eu. A Demi está bem?
— Olá, mamãe. Sim, ela está bem…
Enquanto falava, ele observava a esposa mover-se agilmente dentro das roupas grandes demais para ela, procurando um par de meias na última gaveta da cômoda. Riu; as meias eram dele também.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou Betty.
— Hoje, não. Papai foi para lá, não?
— Foi, saiu de casa às sete horas.
— Ótimo — disse Joseph. — Vou telefonar para ele mais tarde, porém pretendo passar o dia com Demetria. Não tenho vontade de deixá-la sozinha já…
— Foi por causa disso que telefonei. Para oferecer meus préstimos de enfermeira, de babá, de sogra ou o que for preciso, filho.
Demi pegou de uma das gavetas da penteadeira um elástico para prender os cabelos. Joseph lembrou-se das manhãs depois do desaparecimento, quando ele ficava no quarto, imóvel, imaginando como iria fazer para viver sem ela. Mas agora estava ali outra vez e desejou que ela voltasse a ser sua esposa do modo mais intimo.
— Joseph, você não respondeu — reclamou Betty.
Ele piscou.
— Desculpe, mãe. Por hoje não, mas acho que vou aceitar seu oferecimento para amanhã. Está bem?
— Claro, meu querido. É só me telefonar e estarei aí em quinze minutos.
— Está certo.
— Até logo. Dê um beijo em Demi.
— Pode deixar…
Joseph desligou o telefone e Demetria voltou-se com a escova de cabelo numa das mãos, o elástico na outra.
— Era minha mãe — sorriu ele -, e se ofereceu para vir ajudá-la até você se sentir mais forte.
— Adoro sua mãe — observou Demetria, com as sobrancelhas erguidas-, ficarei feliz com uma visita dela, mas não preciso de babá.
— Isso é discutível.
Antes que Demi pudesse responder, ele tirou a escova das mãos dela, e fez levantar-se e puxou-a para si.
— Venha cá… Tenho que lhe dar uma coisa.
Demetria sorriu, hesitante.
— O que é?
— Minha mãe mandou-lhe um beijo e este é o melhor modo para passar o recado.
Tocou com os lábios os cantos da boca de Demi, depois beijou-a com intensidade. Ela conteve um gemido e passou os braços pelo pescoço dele.
Quando Joseph interrompeu o beijo para respirar, ela suspirou.
— Isto é o melhor que você pode fazer? — murmurou.
Os olhos dele escureceram.
— Não, mas é só o que você vai ter até que possa suportar mais.
O rosto dela ficou corado.
— Suportar? Não acha que está nos menosprezando?
Ele recuou um pouco.
— Acho que não. Nós estamos sem fazer amor há muito tempo…
Demi deu um passo à frente, encostando-se de novo nele, e apertou mais os braços ao redor do seu pescoço.
— Então, não acha que já está em tempo de corrigir isso?

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Comentem... Estou de olho! ;) Beijos, amo vcs!

Remember Me - Capítulo 5

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Fora do hospital, o sol era fraco, porém persistente. A enfermeira empurrava a cadeira de rodas, levando Demetria para junto da área de estacionamento. Quando o frio penetrou seu fino suéter de lã, Demi estremeceu. Ocorreu-lhe, então, o que teria sido feito de suas roupas. Será que Joseph as jogara fora, acreditando que ela estava morta? Seu lábio inferior temeu, enquanto resistia à vontade de chorar. O mundo em que vivera antes se tornara desconhecido e nem sequer lembrava-se de tê-lo deixado. Meu Deus, Meu Deus, como isto aconteceu?
Às vezes sentia alguma coisa pulsando no limite de sua consciência; noutras, os pensamentos eram como borrões escuros. Não podia deixar de comparar o vazio que sentia agora com as emoções que a haviam abalado quando seus pais haviam morrido.
Num dia tinha mãe, pai e uma casa maravilhosa. Em poucas semanas se tornara uma freqüentadora habitual de tribunais, depois passara a viver num orfanato, chorando no escuro e chamando baixinho pela mãe que nunca a atendera.
Agora, isto.
A última coisa que se lembrava era de ter caminhado sob uma forte chuva, de chegar em casa com dor de cabeça e ir se deitar. Então, acordara para encontrar-se num pesadelo. Só que aquele pesadelo não se desfazia e se tornava pior a cada dia. A distancia emocional entre ela e Joseph era tão real quanto o ar que respirava, e a assustava mortalmente. O marido era seu único apoio. Se ele a deixasse…
Estremeceu. Era-lhe impossível imaginar as conseqüências.
— Está com frio, meu bem? — perguntou a enfermeira.
Demi hesitou um momento. Parecia-lhe mais fácil admitir estar gelada do que reconhecer o pavor que a sufocava.
— Um pouco, eu acho.
A enfermeira recuou a cadeira de rodas para junto da porta, onde era mais abrigado do vento.
— Seu marido já vem vindo — disse, apontando para o automóvel cinza.
Demetria não reconheceu o carro, mas como poderia? Sentiu-se ainda mais desanimada. Em dois anos uma porção de coisas poderiam ter mudado.
Ficou olhando enquanto Joseph parava em frente delas e saía. Seus olhos arredondaram-se à medida que ele se aproximava. A primeira vez que o vira estava trabalhando num restaurante. Erguera a cabeça e dera com um rapaz olhando para ela, do outro lado da sala. Naquele momento soubera que eles se amariam.
Suspirou fundo. Alguma vez havia contado isso ao marido?
Forçou-se a erguer o queixo. Lidar com o presente já era bastante difícil, portanto era melhor não questionar o passado.
Em silêncio, continuou a olhar para Joseph, que se aproximava. Ele era um homem forte, saudável, e dois anos significavam tempo demais para ter ficado sem mulher. Será que a esquecera e encontrara outra? Gemeu baixinho. Só de pensar nisso sentia-se mal.
— Sra. Jonas, está com alguma dor? — preocupou-se a enfermeira.
— Estou bem. — respondeu Demetria.
E reteve as lágrimas. Tinha que estar bem, não havia outra escolha.
Então, Joseph chegou junto delas. Demetria fitou-lhe os olhos e tentou ler os pensamentos dele. Sua expressão suave, quase polida, provocou nela uma enorme vontade de gritar.
— Sua esposa está ficando gelada — disse a enfermeira, falando com Joseph como se Demi não estivesse presente.
Percorrendo-a com o olhar, ele notou seus ombros rígidos.
— Desculpe, querida, mas não pensei nisso.
De imediato, tirou a jaqueta, e quando Demetria ergueu-se para ir para o carro, agasalhou-a, fazendo-a enfiar as mãos nas mangas compridas demais e fechando o zíper.
As lágrimas ameaçaram transbordar. Joseph a chamara de querida. Isso queria dizer que começara a perdoar ou era apenas uma palavra que ele usava por hábito?
— Dirija com cuidado — advertiu a enfermeira.
— Sim, pode deixar — respondeu Joseph.
Ela ficou olhando até Demi acomodar-se no assento do passageiro e só então voltou para o hospital.
Joseph sorriu de leve, deu umas palmadinhas leves na perna de Demi e ficou em silêncio. Era impossível para ela fingir que estava tudo bem entre eles. Devia estar contente por voltar para casa, mas tudo que conseguia sentir era um pânico crescente, com o qual reforçava-se a certeza de que nunca teria ido embora por vontade própria. Não lembrava dos dois últimos anos de sua vida, mas lembrava-se do profundo amor que sentia por aquele homem. Jamais teria abandonado Joseph. No entanto, ele acreditava que ela o fizera e isso a enchia de raiva. Uma raiva que doía .
Quando o carro parou num sinal vermelho, outra realidade chocou Demetria. Assumindo que seu desaparecimento não houvesse sido voluntário, que garantia tinha de que não aconteceria de novo? Meu Deus, que confusão! , era tudo que conseguia pensar.
— Joseph…
Ele respondeu com ar ausente, os olhos no sinal vermelho que a qualquer momento ficaria verde.
— Hum?
— Eu não tenho mais emprego, tenho?
— Claro que não, querida. — Ele fitou-a, perplexo então acrescentou, como se pedisse desculpas: — Passaram-se dois anos.
Ela pensou na biblioteca, depois olhou para fora.
— Eu gostava de trabalhar lá. — Suas mãos se fecharam com força quando o sinal abriu e Joseph passou pela esquina. — Quando estiver melhor, vou procurar outro emprego.
Joseph ergueu uma sobrancelha. Pensar em Demi longe dele por algumas horas o assustava.
— Não há pressa — respondeu, depressa.
— Mas vamos precisar de dinheiro. Meu salário paga…quero dizer, pagava, a faxineira e os mantimentos. Se eu não trabalhar, vamos ficar apertados.
Hesitante, ele tratou de escolher as palavras com cuidado para não insultá-la.
— Na verdade, não… Quero dizer, não há mais perigo de isso acontecer. Meu pai aposentou-se e estou no lugar dele há tempo. A empresa vai indo muito bem. Não há problemas.
Demetria não soube o que dizer. Um de seus sonhos se realizara e ela não estivera presente para ver. O medo redobrou. O que mais havia acontecido na sua ausências?
Por favor, meu Deus, faça com que ele ainda me ame!
Poucos minutos se passaram e o silêncio dentro do carro se tornava cada vez mais desconfortável . Afinal por falta do que falar, Demi disse:
— Eu estava pensando nas minhas roupas…
Um músculo saltou dos maxilares dele.
— Estavam no armário do quarto de despejo. Minha mãe tirou-as de lá, lavou e passou tudo.
— Tudo?
Ele fez que sim.
— Eu não trouxe nada comigo?
Joseph hesitou, depois sacudiu a cabeça, indicando que não. O tom de voz de Demi foi um tanto sarcástico .
— E você não achou isso estranho?
Antes de responder, ele respirou fundo, zangado pela acusação implícita na pergunta dela.
— Não comece com isso, Demetria. Você não sabe do que está falando. Dois anos atrás, neste mesmo mês, eu cheguei em casa esperando ver minha mulher, no entanto só encontrei sangue no banheiro e uma xícara de café, quebrada, no chão da cozinha. Em menos de uma hora fui apontado como suspeito de assassinato, portanto não me venha com essa conversa de ¨estranho¨. Tudo na nossa situação é estranho.
À medida que ele respondia, Demi começava a tremer.
Continuava a ouvir a voz do marido, mas as palavras eram ininteligíveis. Um flash explodiu na sua memória.
A mão tapando-lhe a boca.
Uma picada no braço.
Alguém murmurando seu nome.
Ela gemeu e segurou a cabeça como que tentando reter as imagens, mas elas desapareceram tão depressa quanto tinham surgido.
— O que foi? — perguntou Joseph.
— Não sei… Alguma coisa… — Ela sacudiu a cabeça.— Desapareceu. Não sei se foi uma lembrança ou a minha imaginação.
Joseph recusou-se a ser envolvido pela confusão que ela sentia e preferiu ignorar o que ouvira.
— Estamos quase chegando em casa, Demi. Você vai se sentir melhor depois que descansar um pouco.
Ela encolheu-se. A recusa dele em ajudá-la a desfazer a confusão a irritou.
— Não, Joseph, não vou — respondeu, agressiva. — Não vou me sentir melhor enquanto não descobrir o que aconteceu. Perdi dois anos da minha vida e, pelo que percebo, estou perdendo meu marido também. O sono não cura algo tão complicado.
A cor fugiu do rosto de Joseph.
— Você não está me perdendo, Demi.
— Parece-me que sim.
Ela fitou durante um longo, silencioso momento, esperando por uma resposta mais tranqüilizadora ou, pelo menos, um gesto de ternura. Não houve nem uma coisa, nem outra. Quando ele virou a esquina e entrou na rua em que moravam, Demetria manteve-se olhando pela janela do carro.
A tensão entre eles aprofundou-se. Momentos depois ele estacionou na entrada da garagem, ajudou-a a descer e a entrar em casa. Tudo no mais absoluto silêncio.
A casa tinha um leve cheiro de umidade, por ter permanecido fechada aquele tempo todo, durante as chuvas recentes. Depois de entrarem, Joseph soltou-a para ir ligar o sistema de aquecimento central, e quando o fez. Demetria cambaleou. Ele apressou-se a ampará-la e no movimento sua mão esbarrou num seio dela, antes de o braço envolver-lhe a cintura.
Ela observou que as narinas dele fremiam e sua boca se suavizava. Aproximou o rosto, oferecendo-se com amor e desespero ao mesmo tempo.
Ele não se mexeu.
Demetria ficou tensa, esperando que o marido a tomasse nos braços e dissesse o quanto ela representava para ele e que estava feliz por tê-la de volta em casa.
Mas esse momento não chegou. Ela ergueu o queixo e sua voz traiu o amargor de lágrimas.
— Sabe de uma coisa, Joseph? Nunca pensei que você fosse covarde.
Em seguida tirou a bolsa com suas coisas da mão dele e atravessou o hall sozinha. Foram os quatro metros mais longos de sua vida.
Joseph ficou olhando, sentindo vontade de ir atrás dela. Mas lembrou-se dos dois anos durante os quais a acreditara morta e fora atormentado sem misericórdia pela policia e a imprensa. De fato, uma parte dele tinha medo de sair do casulo de segurança que construira para se defender.
— Covarde — murmurou para si mesmo.
E foi para a cozinha fazer café.
Um envelope e duas peças de roupas achavam-se sobre a mesa da cozinha. Deviam ter sido deixados lá por sua mãe. Pegou a calça e a blusa, examinando o tecido e as etiquetas. Não sabia muito a respeito de roupas femininas, porém era obvio que aquelas não provinham de uma loja de artigos prontos. Largou-as sobre a mesa, pegou o envelope e olhou dentro dele,
ainda sem poder acreditar que Demetria levava uma quantia tão elevada consigo.
Voltou-se para a porta. Ela vinha vindo pelo hall e, de repente, ele quis ver a expressão de sua mulher quando lhe mostrasse o dinheiro. Perceberia se Demi tivesse alguma coisa a esconder.
Ela entrou na cozinha com um vidrinho de comprimidos na mão. Seu rosto estava fechado e a linguagem corporal dava sinais de que atingira o limite do suportável. Isso era tão evidente que até um idiota perceberia.
— Estou com dor de cabeça e os analgésicos acabaram — comentou.
Ele jogou o envelope sobre o aparador e foi olhar no armário acima da pia.
— Aqui está — disse, entregando-lhe um pequeno frasco com aspirina.
— Obrigada.
A consciência de Joseph doeu. Sua mulher parecia tão triste, tão confusa.
— Demi…
— O quê?
— Olhe, eu sinto muito se a magoei, mas você tem que entender minha…
— Por quê?
Ele hesitou, franziu a testa.
— Por que o quê?
— Por que tenho que entender a sua situação? Você não parece disposto a entender a minha.
Joseph ficou calado por alguns instantes. Não queria brigar, queria apenas respostas.
— Como posso entender qualquer coisa, Demetria, se tudo a seu respeito é um enorme mistério?
Mais uma vez brilharam lágrimas nos olhos dela.
— E ninguém lamenta isso mais do que eu. Mas há uma coisa que não esqueci.
— O quê? — interessou-se Joseph.
— O quanto amo você.
A dor evidente na voz dela o fez empalidecer.
— E eu também a amo — murmurou, emocionado.
O queixo de Demetria tremeu.
— Então por quê, Joseph? Por que não quer se aproximar de mim?
As mãos dele tremiam quando entregou o envelope a ela.
— Isto estava no bolso de sua calça. De onde veio?
Ao ver as notas de cem dólares, Demi teve uma vertigem e sentiu-se transportada para outra cena do passado.
Ela fez o corpo dele rolar até ficar de costas e o sangue que saía de seus lábios a chocou. Então, apertou os dentes e revistou os bolsos dele. Precisava de dinheiro para ir embora.
— Demi?
Ela ergueu o rosto vazio de qualquer expressão.
— Eu lhe fiz uma pergunta.
— Desculpe, Joseph. O que perguntou?
— De onde veio esse dinheiro?
A resposta surgiu sozinha, surpreendendo-a tanto quanto a Joseph.
— Eu pensei que ele estivesse morto.
Joseph saltou como se houvesse sido esbofeteado, depois segurou-a pelos braços, obrigando-a a encará-lo.
— O que você disse?
Demetria cobriu o rosto com as mãos.
— Não sei… não sei — soluçou.
Mas Joseph não a soltou.
— Quem, Demi? Quem você pensou que estivesse morto?
Olhos negros, dentes muito brancos… Sorrindo, sempre sorrindo.
Então, a imagem desapareceu, depressa demais para ela ver as feições do rosto.
— Eu não sei! — gemeu.
Ele praguejou e soltou-a.
De súbito foi demais. Demetria caiu de joelhos desesperada por fazer Joseph acreditar.
— Por favor, dê-me uma chance!
Ao vê-la de joelhos, ele sentiu vergonha.
— Pelo amor de Deus, Demi, não faça isso!
Ergueu-a e levou-a para o quarto, através do hall. O choro silencioso dela maltratava-lhe o coração, enquanto a deitava na cama. Quando a soltou, ela rolou para longe dele, encolhendo-se, os joelhos encostados no peito, os ombros frágeis sacudidos por soluços.
— Demi, eu…
Viu-a tapar os ouvidos com as mãos e, com o peito apertado, cobriu-a com uma manta e dirigiu-se para a porta. Num movimento súbito, ela virou-se, deitando-se de costas, os olhos cheios de lágrimas e terror.
— Não feche a porta!
Joseph parou e voltou-se, chocado com o horror que se espelhava nos olhos e na voz dela.
— Está bem, Demi…
— Não quero ficar presa aqui.
Tensa, ficou olhando para ver se ele deixava a porta aberta.
O coração de Joseph batia forte demais quando voltou para a cozinha. Parou à porta e depois, enquanto pegava o dinheiro caído no chão, ainda pensava no medo na voz dela. Ficou parado, com as notas nas mãos e as palavras de Demetria ecoando em sua mente. Eu pensei que ele estivesse morto.
Olhou para o dinheiro que segurava e estremeceu.
— Meu Deus… — murmurou .
Recolocou as notas no envelope e guardou-o numa gaveta do guarda-louça. Mais tarde resolveria o que fazer com ele. Por enquanto não queria vê-lo.
No quarto, Demetria jazia largada na cama, engolindo os últimos soluços e pensando no vazio existente em sua volta para casa. Aquilo estava errado, muito errado, mas não sabia como corrigi-lo. Joseph não acreditava nela e, apesar da afirmativa dele, ela não acreditava que o marido ainda a amava. Pelo menos, não como amava antes. Sentia-se destruída. Deitou-se de lado, aconchegando-se na manta, e fechou os olhos.
Joseph estava na cozinha, como indicava o barulho de panelas. Em outra situação, teria sido engraçado ele tentando cozinhar. Ela respirou profundamente. Mas ele deveria ter cozinhado durante boa parte daqueles dois anos, não? E, na verdade, durante todo aquele tempo deveria ter pensado que estava viúvo.
Uma última lágrima amarga desceu-lhe pelo rosto e perdeu-se no travesseiro. Mas ela não havia morrido. Estava viva, voltara, e ele teria que aprender a conviver com o espaço em branco da vida dela até que Demetria conseguisse preenchê-lo.

(...)

Las Vegas, Nevada

O luxuoso jato particular taxiou na pista te parar a pouca distancia de uma limusine branca. Momentos depois a porta do avião abriu-se, Duke Needham apareceu no alto da escada, acenou para o motorista da limusine e desapareceu de novo lá dentro. Depois de breves instantes, o motorista saiu da limusine com uma cadeira de rodas e correu escada acima.
O cheiro do combustível do avião pairava no ar, sob o céu pesado, coberto de nuvens cinzentas e movimentadas pelo vento gelado. Decorridos vários minutos, Duke reapareceu à porta do jato como motorista logo atrás dele. Entre os dois estava Pharaoh Carn, sentado na cadeira de rodas e bem agasalhado contra o frio. Os dois homens carregaram a cadeira escada abaixo e depositaram-na no solo, com uma leve sacudida.
Sem que ninguém soubesse, Pharaoh dirigia-se a sua casa em Las Vegas, para recuperar-se. Intencionalmente escondia-se sob um pesado sobretudo, chapéu e mantas de lã. Os óculos escuros ocultavam sua expressão e a pele morena exibia a palidez de quem estivera muito doente.
Assim mesmoa presença dele se impunha, mesmo na cadeira de rodas. O porte da cabeça, os gestos das mãos, o tom cortante de voz faziam os dois homens que o acompanhavam saltar às suas ordens.
Duke inclinou-se, numa atitude atenta e submissa. Trocaram palavras. Pouco depois a limusine foi embora e não restou nenhum sinal da passagem dos três homens por ali, a não ser por um pedaço de papel que voou para longe quando o avião levantou vôo.

O luar refletia-se nos degraus molhados pela chuva enquanto Pharaoh dormia em sua luxuosa casa, em Las Vegas . No entanto seu sono era perturbado por sonhos estranhos. Duas vezes acordou sobressaltado, com impressão que o chão balançava. Cadavez que tornava a fechar os olhos sentia as mãos de Demetria em seu peito, lutando com ele, empurrando-o. E tinha a sensação de cair, rolando por uma alta escadaria. Gemeu. A traição era o que doía mais…
Assim que emitiu o gemido, soou uma voz de mulher e ele sentiu um leve toque em sua testa.
— Está com dores, Sr. Carn?
Pharaoh irritou-se. A maldita enfermeira. Se ele estava bastante bem para receber alta do hospital, podia muito bem dormir sozinho. Jamais em sua vida partilhara o quarto com uma mulher, nem mesmo com Demetria e não ia começar agora.
— Claro que sinto dores.
— Um momento, vou pegar o seu remédio.
— Não quero remédio. Quero paz e sossego. Saia daqui. Se eu precisar de comprimidos, sei pegá-los.
— Mas o sr. Needham disse que…
Pharaoh soergueu-se na cama e, mesmo deitado, sua atitude exigia submissão;
— Eu lhe dei um aordem — Saia do meu quarto já.
A enfermeira praticamente voou para fora.
No momento em que ouviu a porta fechar-se atrás da mulher, ele começou a relaxar. O ar no quarto pareceu-lhe mais leve, as paredes menos sufocantes. Com dificuldade, virou-se de lado, abafando um gemido, quando sem querer apoiou-se sobre as costelas quebradas.
— Maldição, maldição, maldição! — sussurrou , quando um músculo entrou em cãibra.
Mas a enfermeira tinha saído e não havia ninguém para ajudá-lo. Cerrou os dentes, forçando o corpo machucado a relaxar, até que a cãibra cedesse e a dor passou. Só então respirou fundo e expirou devagar. O pior passara.
Imediatamente corrigiu-se. O pior ainda não passara. Estava apenas começando. Ele não teria sossego enquanto não descobrisse o que acontecera com Demetria. Só de pensar nela sentia-se enlouquecer. Não era justo. Aquela mulher lhe pertencia e ele soubera disso desde o primeiro dia em que a vira.
Moveu-se, procurando uma posição mais confortável.
Seus olhos se fecharam e ele começou a sonhar… com o começo, quando Demetria Lovato aparecera em sua vida.

Aos treze anos Pharaoh Carn tivera que aceitar o fato de que as pessoas não gostavam dele. Isso acontecia por ele viver constantemente aterrorizando os demais órfãos de Kitteridge House. Era o incontestado senhor, tanto na sala de aulas quanto nas demais dependências do orfanato. Mas não eram apenas sua atitude e sua aparência que o colocavam à parte dos demais. No Novo México, onde o semblante dos nativos americanos tinham aspecto familiar, sua pele morena e cabelos negros não eram notados. O ódio é que o tornava tão diferente. Um ódio que era uma força. Perverso e cruel, Pharaoh orgulhava-se de fazer com que todos, inclusive os professores tivessem medo dele. E assim havia sido até ela aparecer.
Ele estava sentado na sala do diretor, esperando por mais um castigo, quando a assistente social chegou com a menininha. A primeira coisa que ele notou na criança foram os cabelos. Eram quase tão negros quanto os seus. E os olhos dela, castanhos e redondos pelo medo, brilhavam com lágrimas contidas. Ela segurava um pequeno urso de pelúcia numa das mãos e um cobertorzinho na outra. Seus sapatos estavam gastos e o laço que alguém amarrara nos cabelos crespos havia escorregado e pendia atrás da cabeça.
A pequena o fitou e enfiou o polegar na boca.
Os olhos dele se fixaram nela, só que dessa vez seu olhar ameaçador não fez efeito. A garotinha permaneceu olhando para seu rosto com interesse. A expressão dele se tornou mais ameaçadora. Menina idiota! Nunca ninguém o encarara daquele modo, e só porque ela era muito pequena, não significava que ia levar vantagem sobre ele.
Mas sua cara enfurecida não pareceu impressioná-la. Ao contrario. Quando assistente social sentou-se, ela tirou o polegar da boca e se aproximou dele, arrastando o cobertor no chão. Para seu desconforto, a pequenina atravessou a sala inteira e parou à sua frente. Os grandes olhos castanhos permaneceram fixos nos dele, e pela primeira vez na vida Pharaoh Carn não soube como agir.
— Dê o fora, garota.
Ela mal piscou.
Não havia como Pharaoh saber que o pai da menina tinha os cabelos negros como os seus, e a mãe a mesma pele morena. Tudo que ele via era uma menina que deveria estar assustada, mas não estava.
— Demetria, venha pra cá, por favor — chamou assistente.
Mas a garota não obedeceu.
Pharaoh viu a mulher levantar-se e algo lhe disse que a menina ia passar por maus momentos. Naquele instante acontecera uma coisa esquisita no intimo dele, que não sabia o que era.
— Está tudo bem — resmungou. — Ela não está me amolando.
A assistente social hesitou, depois sacudiu os ombros e tornou a sentar-se, olhando de vez em quando para as duas crianças.
— Quantos anos você tem, menininha? — perguntou ele.
A pequena mostrou quatro dedos.
Ele assentiu, depois recostou-se na cadeira, pensando que para a idade a garota era muito esperta. E os olhos inocentes ultrapassaram a armadura que o protegia, atingindo o menino que havia dentro dele.
Ficaram olhando um para o outro. Por fim, Pharaoh procurou uma pergunta que a obrigasse a falar.
— Quer dizer que seu nome é Demetria?
Apertando mais o ursinho ao peito, ela pensou um pouco e assentiu.
— Mas meu pai me chama de Demi — explicou.
Então, os lábios róseos tremeram e as lágrimas contidas desceram pelo rostinho.
— Minha mãe e meu pai foram embora para o céu e não me levaram.
Pharaoh ficou vermelho. Droga, aquilo era tão comovente!
O que deveria fazer agora? Olhou para o teto, certo de que alguém iria culpá-lo por a menininha estar chorando, mas ninguém estava prestando atenção neles. Para sua aflição o choro redobrou. Ele inclinou-se para a frente, com o cotovelo nos joelhos, e falou em voz baixa.
— Olhe, garota, não chore. Veja, eu também não tenho pai nem mãe, por isso estou aqui. — A menina pareceu absorver essas palavras.
— E você também está triste?— perguntou, afinal.
Pharaoh endireitou-se bruscamente.
— Diabo do inferno, não! — respondeu.
Em seguida ficou vermelho de novo por ter praguejado diante de uma criancinha.
— Mas é porque já sou grande — acrescentou. — Quando a gente cresce não chora mais, também.
Então, como não queria ser acusado de fazer a pequenina chorar, segurou a ponta do cobertor e enxugou-lhe as faces.
— Pronto — disse e brincou, tocando com o cobertor o narizinho dela . — Acabou.

Pharaoh acordou sobressaltado e olhou para o relógio. Passava pouco das quatro horas da manhã e ele precisava ir ao banheiro. Pensou em chamar a enfermeira, porém, descartou a idéia. Estava em sua casa e certamente poderia arranjar-se sozinho.
Com um gemido, levantou-se e andou lentamente junto à cama. Seu corpo todo doía, porém a dor maior era no coração. Havia dentro dele um vazio que o tempo não conseguiria preencher. Faltava-lhe Demetria. Não haviam encontrado o corpo dela entre os escombros de sua casa, no sul da Califórnia, por isso não queria acreditar que ela morrera. Os hospitais estavam repletos de gente ferida, uma boa parte sem identificação.
Apertando os dentes com força para suportar as dores, camihou devagar até o banheiro. Alguns minutos depois voltou, olhou para a cama desfeita e foi para a janela em vez de deitar-se.
As luzes de segurança brilhavam na escuridão. No circulo de iluminação percebeu um movimento na vegetação rasteira. Provavelmente uma toupeira. Tomou nota mental para avisar o jardineiro no dia seguinte. Corrigiu o pensamento: já era o dia seguinte.
Encostou as mãos espalmadas no vidro da janela.
— Esteja viva, Demetria… e apronte-se, porque vou buscá-la.

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Desculpem a demora, eu fiquei com uma preguicinha hj... Vou adaptar tds os caítulos agr para postar pelo tablet, o que vcs acham de uma maratona amanhã?
Vou deixar o capítulos programados!
Beijos, amo vcs!
Comentem, hein!

12.12.14

Remember Me - Capítulo 4

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Durante o primeiro dia e a metade do segundo, depois de Demetria ser hospitalizada, Joseph só fora para casa uma vez, tomar um banho de chuveiro e trocar de roupa. Seus pais haviam se oferecido para ficar com ela enquanto ele dormia um pouco, mas recusara. Tinha medo. Medo de que se a deixasse por um minuto que fosse ela desaparecesse de novo. Então, dormira por momentos na poltrona ao lado da cama e enquanto permanecera acordado não conseguira desviar os olhos do rosto da esposa.
Ela parecia a mesma, no entanto havia diferenças que lhe chamavam a atenção. Os cabelos estavam mais curtos do que antes, por exemplo. Tentava imaginar a vida que Demi levara longe dele. Saindo para comprar roupas e mantimentos. Indo cortar o cabelo e assistindo a filmes que a emocionavam até as lágrimas. Parecia-lhe obsceno que ela houvesse permanecido a mesma enquanto ele morria por dentro.
Havia outras diferenças além das óbvias. Ela estava mais magra, pálida. Havia duas leves rugas nos cantos dos lábios e outras entre as sobrancelhas, que não existiam antes. Ela dava impressão de uma mulher que sofrera.
E além do mistério do dinheiro, havia a tatuagem.
Não a tinha descoberto até a manhã anterior quando as enfermeiras tinham ido trocar a roupa de cama e a camisola de Demetria. Quando as moças a rolaram para um lado, a fim de tirar o lençol usado, os cabelos dela haviam pendido para trás, revelando uma pequena tatuagem dourada no lado do pescoço, entre o início do maxilar e o lóbulo da orelha.
— Oh, que coisa estranha!— dissera uma das enfermeiras.
Ao ouvir aquilo Joseph aproximara-se e seu coração dera um salto ao ver a pequena marca. Acompanhou o desenho com a ponta dos dedos, tentando imaginar Demi decidindo tatuar-se. Mas não conseguiu. Sua mulher tinha um medo mortal de agulhas.
— Parece uma cruz, mas não é… — comentara a enfermeira, intrigada. — Já vi esse desenho antes, mas esqueci como se chama.
— É uma ankh — esclarecera Joseph. — O símbolo egípcio da eternidade… acho.
A enfermeira lançou-lhe um olhar curioso, mas não disse nada. O hospital inteiro sabia a historia daquele casal. O rosto do sr. Jonas aparecera na televisão local quase tanto quanto o adorado time de futebol da cidade, o Denver Broncos.
A moça sorriu para Joseph, depois terminou de ajeitar os lençóis.
— Pronto… — Deitou Demetria de novo sobre o travesseiro. — Está tudo limpinho. Mais tarde eu volto para trocar o soro.
Joseph ressentia-se com a piedade que lhe demonstravam tanto quanto se ressentira ao ser injustamente suspeito de assassinato. Ficou satisfeito quando as enfermeiras saíram do quarto. A descoberta da tatuagem era algo estranho e não oferecia resposta ao mistério de onde Demi estivera durante aqueles dois anos. Tudo que ele podia fazer era esperar que ela recuperasse a consciência. Talvez, então, poderia descansar.

(...)

Depois de quase dois dias e meio de chuva ininterrupta, por fim o céu de Denver clareou. As ruas apresentavam o aspecto agradável de recém-lavadas e um pouco de água ainda escoava pelos canos das calhas. O ar da manhã era frisante, com indícios de outono. As folhas das árvores já estavam começando a cair e os picos nevados das montanhas Rochosas eram um aceno constante para o inverno que se aproximava.
Demetria acordou e viu Joseph adormecido na poltrona junto da cama. Ela franziu as sobrancelhas lembrando-se vagamente de um sonho sobre palmerias; um sonho que não tinha sentido. Tornou a fechar os olhos quando a claridade do sol pareceu feri-los.
— Oohh — gemeu.
Joseph acordou no mesmo instante.
— Demetria…
Sentindo a língua grossa, ela engoliu com dificuldade.
— O que aconteceu?
— Você está no hospital — respondeu ele. — Fique deitada. Vou chamar a enfermeira.
— Espere.
Mas ele já saíra. Ela suspirou e olhou o quarto ao redor, tentando reunir os fragmentos das lembranças. Estava chovendo, e esperava que Joseph voltasse para casa. Adormecera e…
A essa altura tudo se tornava escuro. Demetria recomeçou, tentando lembrar-se de fatos mais recentes.
Estivera andando na chuva. Mas onde e por quê? Fechou os olhos, cansada de forçar a mente. De repente viu a si mesma sair correndo de uma casa. Lembrou-se da água espirrando na parte de trás de suas pernas e entrando nos sapatos. Lembrou-se de pegar um táxi e sentir uma onda de alívio ao dar o endereço de sua casa. Então, de novo, tudo se tornava confuso. Lembrava-se de estar entre o tráfego, mas sempre havia muito tráfego em Denver.
E depois? Franziu a testa. Um ônibus? Estremeceu com algo que se agitou num canto de sua memória. Tinha havido um acidente? Lembrou-se de ter se machucado e de logo depois ficar muito molhada. Em seguida, a
ansiedade de chegar em casa e ver Joseph parecia sobrepor-se a tudo mais que podia lembrar-se.
Alguém começou a chamar um médico pelo sistema de alto-falantes do hospital e a concentração dela se desfez. Tentou colocá-la em foco de novo, mas tudo que conseguia lembrar-se era de ter pego a chave extra sob o vaso de gerânios mortos, no pórtico, e entrar em casa.
Respirou com mais profundidade, desta vez lembrando-se do interior de sua casa. O que acontecera depois de entrar? Ah, sim. A área de serviço. Suas roupas estavam ensopadas, então havia ido até a secadora e tirara a calça e a blusa, colocando-as dentro dela. De volta, ao passar pela cozinha, tomara um comprimido para dor de cabeça, depois vestira uma das camisetas de Joseph e fora para a cama.
Inconscientemente, seus dedos se fecharam apertando o lençol, enquanto procurava um caminho através das imagens confusas que pareciam explodir em sua mente.
De súbito, algo quebrou-se no corredor em frente à porta do quarto. Antes que ela conseguisse reconhecer o barulho, a porta briu-se e a silhueta de um homem recortou-se contra a claridade. Por mais que seu coração lhe dissesse que aquele homem devia ser Joseph, o cérebro dela dizia-lhe algo diferente. O impulso de fugir sobrepujou toda precaução quando ela jogou as cobertas de lado e tratou de livrar-se dos terminais das maquinas aplicados em seu corpo.
Joseph precipitou-se, segurando-a no momento em que ia sair da cama.
— Demi, não!
— Largue-me — Ela começou a chorar. — Por favor, deixe-me ir embora. Não quero morrer!
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Joseph. O olhar vago de sua esposa era apavorante, mais apavorante do que as marcas de agulhas em seus braços. Ele não conhecia aquela mulher. Quando ela bateu com as costas da mão no rosto dele, Joseph ficou imobilizado pela surpresa e, antes que ele pudesse reagir, o sangue espirrou quando a agulha do soro caiu no chão.
Foi o vermelho do sangue no branco puro da camisola que o fez recuperar-se. Agarrou-a pelos braços e chamou pela enfermeira.
O rosto de Demetria estava contraído pelo medo, enquanto ela se debatia. No instante seguinte o quarto pareceu encher-se de médicos e enfermeiras.
Ele foi levado para o corredor e deixou-se cair na cadeira mais próxima. Inclinou-se para a frente com os cotovelos apoiados nos joelhos, ocultou o rosto com as mãos que tremiam. Sua camisa estava manchada de sangue. Dali ainda podia ouvir Demetria chorando. Um músculo movimentou-se no
alto de suas mandíbulas e em seguida ele respirou fundo. Sentia-se no inferno.
Algum tempo depois, o médico que atendia Demetria aproximou-se e Joseph se levantou.
— Ela está bem?
O dr. Willis assentiu.
— O que foi aquilo? — perguntou Joseph.
— Não sei direito, mas minha impressão é que ela sofreu uma espécie de volta traumática de memória. Aplicamos um calmante, e quando ela estiver fisicamente melhor seria bom que fizesse psicoterapia.
Um psiquiatra?, pensou Joseph. O que mais falta? Ele soltou o ar devagar, contendo-se, e passou os dedos nos cabelos.
— Ela está tendo um colapso nervoso?
O médico sorriu.
— Não sr. Jonas. Não se trata disso. Quando ela se recuperar, veremos do que se lembra e partiremos desse ponto.
Joseph aceitou a explicação, mas havia algo errado naquilo tudo. Demetria desaparecera dois anos atrás. Seu reaparecimento fora tão repentino e inexplicável quanto o desaparecimento. Ele detestava fazer essa pergunta, porque parecia uma traição aos seus sentimentos pela esposa, mas tinha que fazê-la para conseguir um pouco de paz.
— Doutor…
— Pois não?
— Ela poderia estar fingindo ter perdido a memória?
O dr. Willis pensou por instantes, considerando seriamente a pergunta, depois sacudiu a cabeça.
— Poderia ser, mas, na minha opinião, ela não está fingindo.
Joseph assentiu. Não era exatamente o que queria ouvir, mas servia para suavizar parte de suas dúvidas.
— Sr. Jonas, eu sei que é frustrante, mas veja a situação do ponto de vista de sua esposa. Se houvesse algo sinistro no seu desaparecimento, há dois anos, é ela quem está sofrendo mais. Certo?
Depois de dar uns tapinhas consoladores no braço dele, o médico se retirou.
Sentando-se de novo, Joseph inclinou-se e fixou os olhos numa mancha no chão. Tinha a impressão de estar enlouquecendo. Não sabia em quem confiar, nem no que acreditar. Precisava desesperadamente de respostas, mas até que Demi melhorasse não as teria.
— Sr. Jonas…
Ele ergueu a cabeça e deparou com uma enfermeira.
— Sim?
— Sua esposa quer vê-lo.
A hesitação dele ficou evidente enquanto se erguia.
— Está tudo bem — assegurou a moça. — O ferimento na cabeça melhorou bem. Creio que sua senhora está apenas confusa. Não tome isso pessoalmente… O mais estranho é que ela pensa que estamos tendo um terremoto.
Terremoto? Ele lembrou-se de ter ouvido algo a respeito num noticiário.
— Como aplicamos um calmante, ela deve estar meio aturdida. — acrescentou a enfermeira — Caso precise de ajuda, é só apertar o botão de chamada e alguém atendera imediatamente.
Joseph saiu andando para o quarto de Demetria, enquanto a enfermeira caminhava pelo corredor.
Terremoto. Ele não conseguia esquecer-se disso. Era o terceiro indicio a ser acrescentado ao mistério de onde ela teria estado. Primeiro, o dinheiro, depois a tatuagem e agora o terremoto. Empurrou a porta e entrou no quarto. A camisola e os lençóis sujos de sangue haviam sido trocados. A agulha de soro estava de novo enfiada na mão dela. Seus olhos estavam fechados e o rosto era quase tão branco quanto as cobertas que a cobriam até o queixo. Com medo de tocá-la e desencadear um novo ataque de pânico, ele ficou parado, esperando que Demi fizesse algum sinal de permitir que ele se movesse.
Sentindo uma presença no quarto, ela abriu os olhos.
— Joseph?
Com um suspiro, ele aproximou-se dos pés da cama.
— Sim sou eu.
Os grandes olhos castanhos encheram-se de lágrimas.
— Sinto muito… Não sei por que agi daquele modo com você. Sei que parece idiota, mas pensei que estivesse havendo um terremoto… — Ela fez uma pausa, durante a qual seu olhar se tornou longínquo.
— Acho que eu o confundi com outra pessoa.
O coração dele deu um salto.
— Com quem, Demi? Quem você pensou que eu era?
Um longo momento se passou e Demetria franziu a testa, como se fizesse um tremendo esforço.
— Não consigo me lembrar.
De novo um arrepio percorreu a espinha de Joseph. Devia acreditar nela? Soltou a respiração que contivera. O que devia fazer? Demonstrar seu ressentimento? Mas de que adiantaria isso?
— Está tudo bem — disse, por fim.
Demetria sacudiu a cabeça devagar.
— Não. Nada está bem… — Ergueu a mão livre. — Sente-se aqui, perto de mim. Preciso explicar.
Ele sentou-se na poltrona perto da cama.
— Não sei se você deveria estar falando, Demi.
— Sente-se mais perto… por favor.
Joseph passou para a beira da cama.
Lutando contra as lágrimas, Demetria mordeu o lábio inferior na tentativa de que a dor provocada a fizesse controlar-se. Sua linguagem corporal era evidentemente defensiva e não podia censurar o marido por estar ressentido. Mas precisava fazê-lo entender. Suspirou. Entender o quê? Sentia-se perdida na escuridão. Como podia explicar o quê se passava na sua mente se ele lhe dizia que fazia dois anos que ela havia desaparecido de casa?
— Joseph …
— O quê?
— Estive, mesmo, desaparecida por tanto tempo?
Os olhos dele expressaram dor.
— Sim.
Ao perceber que seu queixo tremia, ela mordeu de novo o lábio para não chorar. Estava com medo. Com muito medo. Joseph parecia-lhe tão distante e tão zangado! Dois anos. Meu Deus, onde eu poderia estar? E por que não me lembro?
Procurando recompor-se, respirou fundo.
— Você me odeia?
O peito de Joseph apertou-se.
— Não, Demetria. Não a odeio.
Ela fitou-o intensamente. Aquele rosto querido! Mesmo Joseph estando tão perto dela, a distância entre eles era imensa. Segurando as cobertas com as duas mãos, Demi continuou a encará-lo até que ele desviou os olhos. E quando isso aconteceu, lágrimas desceram pelas faces pálidas dela.
Oh, Deus! Por favor, não deixe que ele se afaste de mim!
Embora tivesse medo de perguntar, havia uma coisa que precisava saber. Tossiu baixinho, procurou abafar as emoções, mas pouco conseguiu.
— Joseph…
Ele olhou-a.
— O quê?
— Você ainda me ama?
Foi evidente o estremecimento que o percorreu quando Joseph levantou-se.
— Eu a amei desde o primeiro dia em que a vi.
As mãos dela apertaram ainda mais as cobertas.
— Por que sinto que existe um “mas” nessa resposta?
Ele hesitou por instantes, então respondeu sem desviar os olhos dos dela.
— Há uma diferença entre amor e confiança, Demetria. Eu ainda a amo, mas acho que não confio mais em você.
Ela apertou os lábios e fechou os olhos. Aquele pesadelo era tão difícil de compreender!
— Sinto muito — murmurou, a voz repassada de lágrimas. — Eu não sei o que dizer para tornar as coisas melhores.
— Para começar, poderia dizer-me onde esteve… o que fez.
Demetria encolheu-se. A voz dele era áspera e a fez sentir uma revolta dolorosa. Teve a impressão de estar sob ameaça e abandonada. Não era justo. Ela conhecia a si mesma bastante bem para saber que jamais teria se separado de Joseph por vontade própria. E se alguém a levara embora, mesmo ela tendo conseguido encontrar o caminho de volta, era possível que tornasse a acontecer.
— Quando eu souber, você também saberá — retrucou, virando o rosto para a parede.
A zanga de Demetria surpreendeu Joseph. E foi nesse momento que sentiu o primeiro sinal de confiança renovada. E se ela estivesse dizendo a verdade? Ele precisava falar com os investigadores para que o acontecimento não fosse conhecido pela imprensa.

Depois do Terremoto: Quarto dia
Mesmo inconsciente e quase morto, Pharaoh Carn ainda se mantinha nas manchetes dos jornais. Das sete vítimas resgatadas dos escombros causados pelo terremoto naquele verão, ele fora o único a sobreviver. Mas o por quê e como ainda estavam por ser ditos. Pharaoh não tinha condições de explicar.
Duke Needham, o segundo homem depois de Pharaoh no comando, estava fora do pais quando acontecera o terremoto e apressara-se freneticamente a voltar de avião para Los Angeles , onde encontrara a mansão em ruínas e a equipe de busca e salvamento ainda tirando vítimas do entulho.
Perdera mais um dia até localizar o hospital para onde Pharaoh havia sido levado. Depois de ir até lá e encontrar o chefe inconsciente, saíra à procura da mulher dele. A não ser as pessoas mais chegadas a Pharaoh, ninguém sabia que essa mulher existia, mas os que sabiam tinham conhecimento que ele passara a maior parte de dois anos tentando conquistar uma mulher que parecia detestar até a sombra dele.
Depois de vários dias de cuidadosa procura, tudo que Duke conseguira saber era que a mulher de Pharaoh não tinha ido para nenhum necrotério .
Se ela sobrevivera e se encontrava em outro hospital ainda estava por ser descoberto. Acontece que não podiam divulgar o nome e dados pessoais dela para saber se alguém sabia de seu paradeiro. Seria como oferecer uma recompensa para que um objeto roubado fosse devolvido ao ladrão. Ele jamais considerara a possibilidade de que a mulher poderia ter escapado ilesa. Não depois de ter visto a casa.
Portanto, Duke esperava, sabendo que o movimento seguinte deveria partir de Pharaoh, pois apenas ele tinha autoridade para dizer o que deveria ser feito. Tudo que podia fazer era economizar seu fôlego para quando fosse preciso agir.
Haveria tempo mais tarde para recuperar o que fora perdido.

(...)

Depois de algumas horas de ter voltado a si, Demi teve uma recuperação notável . Na manhã seguinte deixaram que se sentasse na poltrona ao lado da cama e a tarde, apoiada no braço de Joseph, caminhou um pouco pelo corredor. O delicado queixo erguido de modo desafiador combinava com os cachos negros que lhe emolduravam o rosto, fazendo-a parecer uma criança zangada por causa de uma punição injusta.
— Quero ir embora daqui — reclamou. — Não gosto de ficar sem fazer nada.
Joseph suspirou. Não era a primeira vez que ela dizia isso e, pela expressão de seus olhos, não seria a última. Mas se ele fosse honesto consigo mesmo, teria que admitir que também estava querendo a mesma cosia. No hospital ela estava sob o olhar vigilante do seu médico e das enfermeiras, assim como ele próprio. Quando voltassem para casa teriam sua privacidade de novo. Para dizer a verdade, estava com medo. Como poderia enfrentar normalmente os dias de novo se cada manhã que saísse para o trabalho pensaria se a encontraria em casa ao voltar?
— O medico disse que você precisa ficar aqui mais uma noite. Tenha paciência, Demi. Logo voltará para casa.
Ela se dirigiu para uma das duas cadeiras juntoà janela, colocadas de maneira que era possível ver a cidade lá embaixo, e sentou-se. Não sabia como explicar a ansiedade que a dominava. Desde o momento em que acordara naquele hospital sentia um impulso quase incontrolável de fugir . Por quê? E fugir para onde? Joseph era tudo no mundo para ela. Era tudo que lhe importava. E a pequena casa que tinham alugado ao se casarem era de fato o seu primeiro lar. Amava aquela casa. Amava Joseph. Então, por que o pânico?
— Eu sei, mas…
Ela suspirou e não completou o que ia falar; baixou a cabeça e olhou para as mãos. Estranhou o esmalte vermelho escuro que lhe cobria as unhas. Aquela era uma cor que jamais teria escolhido. Perguntou a si mesma o que mais estaria diferente nela.
— Joseph?
— O quê?
— Eu pareço diferente?
— Como assim?
Demetria franziu as sobrancelhas e piscou para impedir que as lágrimas aumentassem e caíssem. Detestava sentir-se tão desligada de tudo.
— Eu quero dizer, fisicamente. Estou mais gorda ou mais magra? Meu cabelo sempre foi desta cor? Tenho alguma marca, alguma cicatriz que não tinha antes?
Joseph sentou-se ao lado dela e pegou-lhe a mão. Ela parecia tão sincera! Se, pelo menos, ele se atrevesse a acreditar…
— Está mais magra, mas não muito. Seu cabelo agora é mais curto, porém a cor é a mesma.
Ela observava os lábios dele ao falar e, apesar de estar entendendo o que o marido dizia, lembrava-se da sensação que aquela boca despertava no seu corpo. Olhou os dedos dele, entrelaçados com os seus, e teve um estremecimento. As mãos dele. Sempre as mãos de Joseph. Fortes e morenas, tinham calos causados pelo trabalho, no entanto seu toque era suave e derretia seus ossos.
De repente, percebeu que ele não estava mais falando. Ficou vermelha, imaginando há quanto tempo Joseph estaria em silêncio. Ergueu o rosto. Os olhos dele, escuros, espelhavam uma dor secreta. Dor causada por ela. E havia raiva, também. Estremecendo, Demetria desviou o olhar.
Joseph vira as expressões sucedendo-se no rosto dela e soube o momento em que ela pensou em amor. Ele vira aquele olhar muitas vezes e o reconhecia agora. Chocou-o, então, pensar em como as expectativas de vida deles haviam mudado. Demetria pensava em fazer amor, enquanto os pensamentos dele eram de medo e desgosto.
Quando ela virou o rosto, os cabelos movimentaram-se revelando a tatuagem,e Joseph falou sem pensar:
— A tatuagem… o que significa?
Demetria fitou-o como se ele tivesse ficado louco.
— Que tatuagem?
Ele percorreu o pequeno desenho com a ponta de um dedo.
— Aqui, quase atrás de sua orelha.
Um aperto de pânico fez o estômago dela doer e Demetria levou os dedos à tatuagem, para senti-la. Estava pálida e suas mãos tremiam como se alguém lhe tivesse dito que uma aranha estava em eu pescoço.
— Não dá para sentir nada…
Sua voz era apenas um murmúrio e ela se perguntava por que tinha tanta vontade de chorar.
Ele pegou-lhe um dedo e colocou-o bem sobre a marca dourada.
— Aqui…
Os olhos de Demi espelharam choque, tornando-se mais escuros e maiores, enquanto perguntava:
— Como ela é?
Joseph hesitou. Medo era uma reação que ele não esperava. Em seguida perguntou-se o que, afinal esperava.
— É como uma cruz arredondada no alto. É egípcia, eu acho. Chama-se ankh.
Esta é minha marca. Aos olhos do mundo você sempre será minha.
As palavras ecoaram na mente de Demetria.
Ela fechou os olhos.
— Não me toque — sussurrou. — Eu jamais serei sua.
E inclinou-se para a frente, soltando a mão dele.

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Mais um p vcsssssss ♥ Td bem, gente? Eu to mt bem! E feliz com os comentários, vcs são uns amores! Comentem para o próximo! Beijos, amo vcs ♥

11.12.14

Remember Me - Capítulo 3

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O quarto de hospital estava em silêncio, ao contrário do corredor lá fora. De costas para a janela, Joseph olhava para sua esposa. Ela ainda não recuperara os sentidos. Toda a raiva que ele sentira enquanto se julgava traído se tornara preocupação. Não importava o que ela houvesse feito, jamais desejara vê-la naquele estado lamentável. Amava-a. Sempre a amaria, mesmo que seu amor não houvesse sido suficiente para fazê-la ficar a seu lado.
Ele suspirou, olhando para Demetria. O rosto em forma de coração, o nariz fino e perfeito, a boca grande e sensual. Era a mulher que ele amava, no entanto Joseph pensou que sabia pouquíssimo do seu passado, dito por ela mesma.
Órfã aos quatro anos, passara os quatorze anos seguintes de sua vida na casa Gladys Kitteridge, um orfanato em Albuquerque, Novo México. Depois disso, cursara a faculdade em Denver, encaixando estudos entre dois períodos de trabalho. Ele lembrava-se de quando entrara no restaurante onde ela trabalhava. Magra quase ao ponto de ser esquelética, Demi segurava uma enorme bandeja com quatro grandes filés fumegantes. Estava rindo. Joseph quase podia sentir o nó que se formara em seu estômago. Ele a quisera naquele momento, mesmo antes de saber o nome dela.
Com um suspiro, pensou que fazia muito tempo que isso acontecera, antes que ela o deixasse , antes que o mundo dele caísse.
Um músculo tremeu na face esquerda de Demetria e suas pálpebras agitaram-se. Joseph imaginou se ela saberia onde estava. Sua respiração era lenta e superficial. Os cabelos negros espalhados sobre o travesseiro acentuavam a palidez do rosto. A testa dele franziu-se. Ela estava tão imóvel! Pelo que lera a respeito, os sintomas que Demi apresentava não indicavam que fosse uma viciada em drogas. No entanto, que outra explicação haveria para as marcas de injeções nos braços? E havia aquela estranha agitação pela qual ela passara. Citara um ônibus… O que isso quereria dizer?
Ele passou os dedos nos cabelos, criando momentâneos sulcos nas mechas escuras, que logo voltaram ao lugar enquanto massageava a própria nuca. Joseph não saberia dizer o que doía mais, se sua cabeça ou seu coração. Ainda não conseguia acreditar no que acontecia. Por um lado, o reaparecimento de Demi era um sonho que se tornava realidade. Mas por que ela tinha ido embora?
Inconscientemente, chegou mais perto dela, desejando poder ler sua mente. Precisava de explicações, não de mais mistérios. Mas até o momento não havia respostas e sim apenas mais perguntas.
Um nó começou a formar-se em sua garganta. Maravilhado por ela estar realmente ali, respirou fundo e teve ímpetos de tocá-la. Com cuidado, para não deslocar a agulha intravenosa nas costas da mão dela, Joseph inclinou-se, e seus dedos trêmulos deslizaram pelo braço inerte. Ele passara dois anos recusando-se a sepultar a lembrança de Demetria, no entanto, agora que ela estava ali, tinha medo de esperar demais. Quando ela ficasse boa, se ficasse boa, permaneceria com ele?
Joseph ainda se fazia essa pergunta quando Demi entreabriu os lábios e aspirou fundo, como se lhe faltasse ar. Abriu os olhos e ele poderia jurar que estavam cheios de terror. Em seguida o terror apagou-se e as pálpebras fecharam-se de novo. Ela estava outra vez sem sentidos.
Ele inclinou-se mais, até seus lábios ficarem junto ao ouvido dela.
— O que houve, Demi? Por que você foi embora?
Ela suspirou e ele viu, com o coração apertado, uma lágrima surgir nos cílios de cada um dos olhos e escorregar para os lados, até desaparecer nos cabelos.
Então, Joseph moveu a boca um pouco mais para a direita e, pela primeira vez depois de dois anos, beijou a mulher que era sua esposa.

(...)

Passaram-se horas. Horas em que os pensamentos de Joseph haviam ido de uma imagem para outra, procurando encontrar um sentido naquilo tudo. Mas era impossível, por mais que ele tentasse explicar a ausência e o retorno dela.
De súbito, a porta do quarto abriu-se e entrou o dr. Carl Willis, que estava cuidando de Demetria.
— Vim falar com o senhor — disse o médico.
O coração de Joseph deu um salto.
— Já tem os resultados dos exames, doutor?
— Da maior parte deles.
Sem perceber que cerrara os punhos, Joseph deu um passo à frente.
— Drogas?
O dr. Willis fez um gesto de impotência.
— Não sei o que foi injetado nela, mas não se trata das drogas que está pensando. Aliás, os sintomas que apresenta não são os de viciados em drogas que já vi. Não há traços de substâncias ilegais no organismo dela. Só foram encontrados indícios de sedativos. Sua esposa tinha dificuldade para dormir?
Joseph estava surpreso. Não se tratava de drogas? Olhou para Demetria, tentando assimilar a informação. Se não eram drogas, o que seria?
— Sr. Jonas?
Ele quase saltou.
— Desculpe, doutor. O que disse?
— Perguntei se sua esposa sofria de insônia.
— Não… Não que eu saiba.
A mão de Joseph acariciou a face de Demi. Queria que ela acordasse. Precisava dizer-lhe que sentia muito, que precisava saber em que inferno ela estivera.
— O que há de errado com Demetria, doutor?
— Ela sofre de grave concussão cerebral, e há marcas de ferimentos nas costas e no ombro, que indicam que foi vítima de um acidente.
Joseph estremeceu, lembrando-se das palavras dela antes de perder os sentidos. Cuidado com o ônibus!
— É possível saber quando esse acidente aconteceu?— perguntou.
E Joseph contou ao médico, resumidamente, o que acontecera dois anos antes. O dr. Willis lembrou-se de ter lido e visto notícias do caso Jonas e envergonhou-se por ter pensado que o marido da desaparecida havia cometido o crime. Agora que sabia a verdade, sentia-se quase na obrigação de ajudar a resolver aquele mistério.
— O sangue na cabeça dela ainda está exsudando um pouco de sangue e soro, o que indica que foi ocasionado a cerca de três ou quatro horas,
Joseph empalideceu, lembrando-se que chegara a zangar-se com Demi, e sua voz tremeu quando falou.
— Ela vai ficar bem?
O médico exitou, o que bastou para fazer o peito dele apertar-se.
— O que é, doutor? — insistiu.
— O senhor me disse que sua esposa parecia confusa a respeito do tempo que decorreu desde seu desaparecimento?
— Eu pensei que ela estivesse fingindo — disse Joseph.
— Talvez — o dr. Willis sacudiu os ombros.— Mas existe a possibilidade de que ela realmente não se lembre. A pancada na cabeça foi bastante violenta. Acrescente a isso o estresse, o trauma mental, e é possível que esteja ocorrendo um caso de amnésia seletiva.
— Ela vai se recuperar? Recuperar a memória, eu quero dizer.
— Provavelmente, mas não se pode saber quando.
— Quer dizer que talvez eu nunca fique sabendo o que aconteceu com minha mulher?
O dr. Willis procurou falar de maneira encorajadora, porém nunca havia sido bom em consolar os outros.
— Há sérios motivos para acreditar que, com o tempo, ela se recupere inteiramente. Mas até então o senhor precisará ter paciência.
Joseph suspirou. Não era o que queria ouvir.
— Ah, eu ia me esquecendo!— disse o médico.
— Há dois policiais lá fora querendo falar com o senhor.
Depois de mais um olhar para Demetria, Joseph saiu do quarto.
Avery Dawson aproximou-se assim que o viu, e Ramsey, o parceiro dele, vinha chegando com dois copos de café.
— O dr. Willis disse que você quer falar comigo Dawson.
O investigador pegou o café que o parceiro lhe entregava e levou Joseph para um lugar mais sossegado.
— Achei que o senhor gostaria de saber que houve um desastre às duas horas, esta tarde. Um ônibus colidiu com um caminhão, um carro e um táxi.
Os dentes de Joseph apertaram-se. Meu Deus, o aviso de Demi!
O investigador parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— Não temos certeza de que tenha sido sua esposa, mas quando o motorista de praça voltou a si notou que a passageira havia sumido. Ele disse que era uma mulher jovem, muito bonita, com cabelos negros pouco abaixo dos ombros.
— E você acha que era Demetria? — indagou Joseph.
Dawson deu de ombros.
— Talvez. Mas se era a sua esposa, ela teve muita sorte. Todos os envolvidos no acidente estão no hospital ou no necrotério.
— Que horror… — murmurou Joseph.
Deixou-se cair na cadeira mais próxima e apoiou a cabeça nas mãos. Nesse instante, algo lhe ocorreu. Uma coisa tão evidente que imaginou que os policiais já a teriam feito.
— Alguém perguntou ao motorista onde ele pegou a passageira?
Avery Dawson assentiu.
— Na estação rodoviária. Disse que quase a atropelou quando ela saiu correndo de um terminal, que entrou no táxi tremendo, mas ele atribuiu isso ao frio e à chuva. O tempo todo ela olhava para trás, como se temesse que alguém os estivesse seguindo.
— O que vamos fazer agora? — quis saber Joseph, pondo-se de pé.
— Não há nada a fazer — respondeu o investigador. — Ela desapareceu e agora está de volta. Claro, caso ela dê alguma informação ou comece a lembrar-se dos acontecimentos, peço-lhe que me avise e verificaremos tudo.
— Só isso? — estranhou Joseph.
— Olhe aqui, sr. Jonas, nada mais podemos fazer. Não é crime ir embora de casa.
— Não foi isso o que vocês pensaram há dois anos — irritou-se Joseph.
Voltou as costas aos policiais e foi para o quarto, tão zangado que nem sabia o que fazer.
O médico havia desaparecido. A não ser pelo bip contínuo dos monitores, o quarto estava silencioso. Ele observou o rosto de Demetria. Ela não se
mexera desde que a haviam posto na cama. Um pensamento horrível o fez estremecer: e se a mulher nunca mais acordasse?
Sentou-se na poltrona ao lado da cama e colocou a mão sobre a dela. Ao seu toque, os longos dedos estremeceram espasmodicamente. Ele não saberia dizer se ela resistia ao seu toque ou se queria segurar-lhe a mão; suspirou, com o coração pesado. Momentos depois ergueu-se e foi até a janela. Tinha a impressão de que mesmo inconsciente, Demi não o queria mais.
— Joseph…
Ele voltou-se, rápido. Sua mãe estava à porta.
— Não devia ter voltado mamãe.
Betty Jonas apenas ergueu a pequena bolsa de viagem.
— Achei que você iria precisar de algumas coisas.
Com um sinal, Joseph convidou-a a entrar.
— Como ela está? — perguntou Betty.
— Do mesmo jeito.
— Você falou com o médico?
Joseph fez que sim.
A senhora colocou a bolsa num banco junto a parede e tirou o casaco; pendurou-o no espaldar de uma cadeira e foi para junto do filho, à janela.
— Então? Vai me contar o que ele disse ou vou ter que arrancar-lhe, palavra por palavra?
— Ele disse que Demi perdeu a memória por causa de uma pancada na cabeça, num acidente, e que deverá recuperá-la. Que ela não é viciada em drogas, não tomou uma overdose. Não há substâncias ilegais em seu corpo. A única coisa que encontraram foram traços de sedativos.
Betty apertou os lábios, aproximou-se da cama e ficou pensativa, olhando para Demetria.
— Isso não me surpreende — disse por fim.
A culpa sufocou Joseph e sua voz soou amarga.
— Diga-me, mãe, sou o marido dela, por que não acreditei em Demi como você acreditou?
A sra. Jonas voltou as costas para o filho. Sofria por ele e pela nora.
— Sabe… minha mãe dizia que quanto mais profundo o amor, mais dói quando as coisas dão errado. Você deve ter sofrido as penas do inferno Joseph. Deve ter sido muito difícil para você ser objetivo enquanto se via acusado de um crime
Joseph foi para junto da mãe.
— Sabe o que é pior?
Ela passou o braço pela cintura do filho, querendo confortá-lo.
— Não, o quê?
Ele engoliu várias vezes antes de ser capaz de falar.
— Eu não sei mais o que sinto por ela.
Betty fechou os olhos por instantes, procurando a coisa mais certa a dizer. E afinal falou.
— É compreensível, meu filho. Mas se o médico está certo e ela perdeu a memória, imagine como Demi se sente. Para ela não existem os dois últimos anos. Teoricamente é a recém-casada que era, seu coração ainda pertence a você, quer você queira quer não.
Joseph ficou pálido.
— Eu não disse que não a amo. Apenas não sei se posso confiar nela de novo.
Betty sacudiu a cabeça.
— E não saberá enquanto não tentar.
— Está bem, mamãe. — Ele endireitou os ombros. — Vou tentar.
A sra. Jonas afligia-se com aquela situação. Era como um pesadelo, e provavelmente o que ia dizer ao filho aumentaria a confusão. Mordeu os lábios, avaliando-o antes de falar.
— Passei na sua casa antes de vir para cá — começou.
Para Joseph, nada havia de estranho nisso. Fazia meses que a mãe ia à sua casa quando bem quisesse, sem precisar pedir permissão.
— E? — perguntou.
— Achei que Demi iria precisar de algumas coisas, também. Esqueci que as roupas dela haviam sido guardadas em duas malas e levei algum tempo para encontrá-las.
— Obrigado, mãe…
— Não há de que. Mas não é isso que quero lhe dizer.
Algo na voz da mãe dizia-lhe que havia alguma coisa errada. Ele virou-se para olhar Betty de frente.
— O que quer me dizer?
A senhora enfiou a mão no bolso da calça que usava e retirou-a com um maço de dinheiro.
— Isto estava na secadora, com uma calça comprida e uma blusa que não deveriam ter sido postas lá para secar. Acho que ficaram estragadas…
Joseph ficou paralisado e só alguns momentos depois que a mãe colocou o maço de notas em sua mão é que reagiu.
— Meu Deus! — balbuciou, segurando as notas de cem dólares com as pontas dos dedos, como se estivessem sujas. — Quanto tem aqui?
— Mil quinhentos e cinqüenta dólares.
Assombrado ele olhou para o dinheiro.
— Na secadora?
Betty assentiu.
— Duas das notas ainda estavam no bolso da calça de Demi. As outras saíram dele quando a secadora girou.
Ele largou-se na poltrona, ainda olhando para o dinheiro. Quando falou era evidente o sarcasmo em sua voz.
— Quer dizer que um de meus pesadelos com Demi era inteiramente falso.
— Que pesadelo, meu filho?
— Um em que ela me aparecia sendo brutalizada e morrendo de fome.
— Eu sinto tanto, Joseph! Sei que este dinheiro vem criar mais confusão, mas acho que não devemos tirar conclusões apressadas. O melhor a fazer é esperar e ver o que Demi tem a dizer quando voltar a si.
— Não é o que minha mulher vai dizer que tem importância… É se eu vou ou não acreditar nela.


Sul da Califórnia
Mais de vinte e quatro horas depois do terremoto, a terra ainda se achava instável, o que dificultava a ação dos grupos de busca e salvamento. O pessoal se movimentava entre escombros de prédios, ruas e estradas. Infelizmente, estava se tornando mais fácil encontrar mortos do que vivos. O mau cheiro ia se espalhando pelo ar.
As casas mais exclusivas eram, em geral, muito isoladas, e, apesar das várias equipes em ação, encontrá-las era mais difícil do que verificar a devastação em massa das áreas de maior população. Grupos de salvamento mantinham-se em contato com helicópteros da policia que sobrevoavam as zonas afetadas e quando o piloto de um helicóptero percebia vestígios de uma casa nos cânions abaixo, pedia ajuda e dava a localização.
Pete Daley fazia parte do grupo de busca e salvamento de San Francisco havia mais de dez anos. Passara por muitos desastres e achava que já havia visto tudo, no entanto quando o homem que dirigia a ambulância entrou à direita, numa área muito arborizada, ele estremeceu.
— Será que estamos no caminho certo? — perguntou.
Seu parceiro, Charlie Swan, sacudiu os ombros.
— Não sei, mas é o único caminho que temos.
Pete revirou os olhos para cima.
— Então, porque não…
Charlie apontou, através do pára-brisa, para um helicóptero apenas visível à distancia.
— Aquele helicóptero está voando em círculos ali por mais de cinco minutos. O piloto deve ter visto alguma coisa.
Um tanto sem jeito Pete comentou:
— O fato é que eu não estava prestando atenção.
— Você presta atenção quando é preciso — consolou-o Charlie. — Essa parte é obrigação minha. Pegue seu equipamento, estamos quase lá.
Poucos minutos depois chegaram ao que restava de uma grande mansão, e Charlie estacionou a ambulância num ponto em que não seria atingida por paredes caso elas ruíssem. Pegaram sua maletas e saíram, vendo que o pessoal da busca, já em ação, soltava os cães. Em seguida, uma parte do grupo entrou nas casas enquanto os demais desciam o barranco rumo ao local onde estava parte da casa que desabara.
Quase que imediatamente um dos cães começou a ganir, e os homens passaram a remover a pilha de entulho ao pé da escada.
— Achamos alguma coisa — gritou o chefe.
Os homens puseram-se a trabalhar com mais afinco, e momentos depois descobriram um pé.
— Droga! — exclamou Pete.
Ajoelhou-se e estendeu a mão, esperando tocar uma pele fria, sem vida, mas apesar de estar com luvas cirúrgicas, quando seus dedos circularam o tornozelo masculino ele sentiu-o morno, vivo.
— Encontramos um vivo! — anunciou.— Vamos desenterrá-lo, depressa!
Peça por peça, os escombros foram removidos, os homens tomando cuidado para que nada mais desabasse sobre a vítima, roubando-lhe a vida.
— Olhe isso! — Charlie apontou para duas vigas caídas e um pedaço de parede que haviam formado como que uma alcova sobre o homem. — Foi isso que o manteve vivo.
Pete começou a verificar o pulso do ferido, enquanto Charlie aplicava-lhe um imobilizador de pescoço e verificava se havia ossos quebrados. Tudo na vítima era frágil, principalmente o sopro de respiração que passava por entre os lábios ensangüentados.
— Veja se o helicóptero ainda está por aqui. Talvez este homem não resista até vir o resgate aéreo.
Em minutos o ferido estava imobilizadosobre uma maca e dois dos homens da busca e salvamento o carregavam para o helicóptero que esperava numa clareira , pouco adiante.
— Vou junto para tentar mantê-lo vivo e voltarei o mais depressa possível.— disse Pete.— Fique com o pessoal pode haver mais sobreviventes.
Charlie fez que sim e voltou para a casa semi-destruida.
Pete protegia os olhos do sol, enquanto corria ao lado da maca. De repente a vítima começou a gemer.
— Está tudo bem, amigo — disse-lhe Pete. — Vamos cuidar de você.
— Mulher… achem minha mulher.
Rápido, Pete pegou seu rádio comunicador e pressionou a tecla de transmitir mensagens.
— Aqui é Daley — começou. — A vítima está perguntando por uma mulher. Vejam se encontram mais alguém na casa.
— Entendido — respondeu uma voz.
A comunicação foi interrompida.
As pálpebras do homem ferido tremeram, ele suspirou e mergulhou na inconsciência .
O barulho do motor do helicóptero tornou impossível qualquer tentativa de conversa, no entanto, Pete sentiu-se obrigado a dar esperanças ao homem.
— Fique firme aí, amigo — gritou, enquanto entrava no helicóptero. — Assim que chegarmos ao hospital você, irá sentir-se melhor.
Ajudou a colocar a maca para dentro, antes de sentar-se no chão ao lado dela.
— Pode subir! — gritou.
Agarrou-se ao encosto do assento do piloto quando o aparelho balançou.
— Desculpe — gritou o piloto.— Rajadas de vento contrárias.
Pete rolou os olhos para cima e murmurou uma prece rápida. Momentos depois deslocavam-se no ar. Verificando constantemente o soro que estava aplicando na veia do ferido, o paramédico pouco mais podia fazer do que observar seu rosto. Ele parecia estrangeiro, mas em Los Angeles isso não queria dizer nada. Espessas, negras e arqueadas sobrancelhas sobre olhos fundos. O formato e tamanho do nariz e o contorno do rosto pareciam querer indicar pertencer a uma raça do Oriente Médio. Embora a pele estivesse coberta de pó de cimento, seu tom moreno parecia ser natural e não produzido pelo sol. Pete olhou para a casa e surpreendeu-se com a devastação que se percebia do alto. Sacudiu a cabeça, surpreso por aquele homem ainda estar vivo.
— Aposto que você é um malandro durão, hein, amigo?
Mas o homem não respondeu.
Algum tempo depois o helicóptero começou a descer. Quando pousou no teto do hospital. Pete fez uma última verificação do pulso e pressão do ferido, para ter certeza de que as enfermeiras tivessem todas as informações necessárias. Uma equipe de emergência correu para junto do aparelhoe e Pete saltou, ajudando a transferência da vítima para uma maca com rodas.
Pete informou sobre o estado geral do ferido, enquanto o ajeitavam na maca. Quando a movimentaram, uma das enfermeiras viu o rosto do homem.
— Oh, meu Deus, é Pharaoh Carn!
Houve um momento de aturdido silêncio enquanto todos olhavam para o rosto do paciente; então começaram a correr com a maca. Salvar a vida de um ferido era a principal preocupação de todos, não importava o que ou quem ele fosse. Mas em Los Angeles era bem conhecida a ligação de Pharaoh Carn com a Máfia.
Pete acompanhou-os até a porta, depois a equipe de emergência desapareceu com a maca dentro do hospital.
Durante o vôo de volta ao local da busca, pensou na mulher que Pharaoh Cairn perdera.
Ela devia ser importante para ele, já que se lembrara dela nos seus últimos momentos de consciência. Imaginou se o pessoal da busca a teria encontrado e se ela estava viva.

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Oi! Como prometido, aqui está o terceiro capítulo... Estou muito feliz com as reações de vcs com a história ♥ Vou tentar deixar td adaptado para postar nos dias q n mexo no pc, ok? E fazer uma maratona \o/
Comentem, meus bbês ♥
Amo vcs!
Bruna

9.12.14

Remember Me - Capítulo 2

Entrem no blog da Emma, ela vai voltar a postar e vai voltar lacrando ♥ Jemi Histórias
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Denver, Colorado: Dois Anos Depois

A chuva de outubro batia no capacete de Joseph Jonas enquanto ele colocava o cinto de ferramentas no assento da caminhonete.
— Chega por hoje, pessoal. Para casa. Não podemos fazer mais nada enquanto continuar essa chuva.
Os homens resmungaram, mas sabiam que o chefe tinha razão. Trabalhar com um tempo daqueles aumentava o risco de acidentes de trabalho, e nenhum deles queria ir parar numa cama de hospital.
Joseph olhou para trás, para o edifício que construíam, e entrou na caminhonete. Ser patrão era diferente de ser capataz. Produzia outros tipos de dor de cabeça, eram precisos outros tipos de regras. Mas substituir o pai havia sido o que garantira sua sanidade mental.
Ligou o motor e começou a dar a ré, parando para olhar mais uma vez a construção que estava em sua fase final. Tudo parecia estar certo. Com um suspiro, engatou a primeira e saiu devagar até o leito da rua.
Os últimos vinte e quatro meses haviam sido de reabilitação, tanto para ele quanto para a empresa.
Mas, durante esse tempo, havia sido perseguido pela polícia, caluniado pela imprensa local e tratado como um assassino pela sociedade em geral, se bem que não houvessem descoberto nada que provasse isso.
Uma mulher desaparecera e alguém tinha que ser responsabilizado. O marido, neste caso, Joseph, era a escolha óbvia. O fato de que a luz desaparecera de seu mundo não importava a ninguém a não ser a ele e a seus pais. A opinião pública o rotulara como o homem que cometera um crime perfeito. Ele se tornara amargo e, em boa parte, endurecido. De vez em quando sofria ao lembrar e se surpreendia pelo sofrimento reaparecer como se tudo houvesse acontecido naquele dia. Por mais que houvesse tentado continuar sua vida até que tudo se encerrasse de algum modo, isso nunca acontecera.
Naquele momento, por exemplo, em que era forçado a pensar em algo mais além do trabalho, tinha medo de voltar para casa. Na verdade não se tratava mais de um lar; era apenas o lugar onde ele dormia. Fazia apenas alguns meses que seus pais haviam desistido de convencê-lo a mudar-se. Aquela pequena casa era o último lugar em que ele havia sido feliz. Era o último lugar onde vira Demetria e ainda não se sentia capaz de romper aquela conexão.
Nos últimos dois anos perdera a conta das horas que passara indo ver cadáveres não identificados nos institutos médico-legais do Estado. Depois
da terceira vez que fora chamado para fazer uma identificação, algo morrera dentro dele. Continuava a ir quando era chamado, porém cada vez com menor vigor. Era quase como se Demetria Jonas jamais houvesse existido. E se não fossem o pequeno álbum com fotografias do casamento e o vazio deixado pela ausência dela em seu coração, até mesmo ele teria duvidado.
Mais adiante, um caminhão de bombeiros passou pelo cruzamento a toda velocidade, com as sirenes ao máximo. Joseph ficou olhando até que nada mais havia a não ser um fugidio reflexo vermelho no aguaceiro. Estremeceu. Era esquisito pensar em algo queimando sob aquele verdadeiro dilúvio, mas ninguém mais do que ele sabia que coisas estranhas aconteciam. Como pessoas desaparecendo sem deixar traço.
Alguns minutos depois entrou na rua onde morava. Quando viu a pequena casa seu peito se apertou. Era sempre assim e piorava tudo o fato de na semana anterior ter transcorrido o terceiro aniversário do casamento deles, data que fora relembrada por uma tevê local como o segundo ano do desaparecimento de Demetria Jonas. Era impossível para ele esquecer a impressão que a reportagem dera de que Joseph Jonas era um homem feliz e com uma próspera empresa de construções, enquanto o responsável pelo desaparecimento de sua esposa continuava impune. Ainda o culpavam. Aliás, não era novidade.
Entrou com o carro na rampa para a garagem e parou. Ficou sentado por alguns instantes, ouvindo a chuva bater no teto. Talvez tivessem razão: não fora capaz de proteger Demetria. Se alguém devia ser culpado, era ele.
— Que inferno! — resmungou e saiu do carro.
Quando chegou à porta estava ensopado. Abriu-a, com a mesma sensação de medo ao entrar.
A casa.
Estava sempre tão terrivelmente silenciosa!
No momento seguinte achava-se lá dentro, acendendo as luzes e ligando a televisão, na tentativa de acrescentar uma pretensa normalidade à sua existência. Jogou as chaves sobre o console do hall, depois olhou para o chão em busca da correspondência que em geral ali estava, enfiada por baixo da porta pelo carteiro.
Não havia nada.
Com a testa franzida, voltou-se e viu a pequena pilha de envelopes sobre a mesa. Mesmo sabendo que ele tinha uma faxineira, sua mãe de vez em quando ia até lá dar uma arrumação geral.
Sem pegar a correspondência, foi para a cozinha. Uma xícara de café bem quente seria eficaz para livrá-lo do frio que sentia nos ossos.
Enquanto colocava a cafeteira para funcionar, viu um prato e um garfo sujos dentro da pia e sorriu. Betty Jonas comera o último pedaço de torta de cereja. Que pena! Havia pensado nele várias vezes naquela tarde.
Sacudiu os ombros; um pedaço de torta era o que menos o preocupava. Enquanto esperava a água ferver, foi para o quarto. Talvez um chuveiro quente e roupas secas melhorassem seu ânimo. A televisão estava com o som muito alto quando passou pela sala de estar; foi pegar o controle remoto e nesse momento começou o noticiário local.

Repercussões do terremoto que sacudiu o sul da Califórnia ontem a tarde ainda se fazem sentir. O transporte está difícil, dentro e fora do Estado. Algumas companhias aéreas reiniciaram as operações, porém está sendo desencorajado que por enquanto se viaje pela região. O número de vítimas subiu e ainda se supõe que haja mais.

Joseph meneou a cabeça, acionou o controle remoto e quando um antigo capítulo da série Eu amo Lucy apareceu na telinha, aumentou o volume, largou o controle numa poltrona e dirigiu-se para o quarto.
Enquanto desabotoava a camisa reparou que suas botas estavam enlameadas e esperou não ter deixado uma trilha pela casa. Tudo estava limpo. Para garantir que assim continuasse, encostou-se na parede, tirou as botas e entrou no quarto, carregando-as na mãos.
Olhou automaticamente para a cama e surpreendeu-se ao vê-la desarrumada. Poderia jurar que a arrumara antes de sair. Enquanto continuava olhando, as cobertas moveram-se, revelando uma cabeça de cabelos negros e um braço. Joseph deu um passo para trás. Seu estômago contraiu-se e ele fechou os olhos.
— Santo Deus… Não mereço isto…
Respirou fundo. Olhou de novo, certo de que o fantasma teria desaparecido. Estava errado. Ele…ela… continuava lá.
Completamente transtornado pela visão de Demetria dormindo na cama, ele abriu os dedos e as botas caíram no chão com um baque surdo.
Com o ruído, o fantasma rolou o corpo, ficando de costas, abriu os olhos escuros e deu-lhe aquele sorriso atraente que ele conhecia tão bem.
— Olá, querido! — Em seguida Demi olhou para a janela. — Ainda está chovendo?
Recuando, ele encostou-se na parede para não cair. Fazia meses que se sentia esquisito, mas nunca pensara que havia perdido o juízo. Não completamente.
— Demetria?
O nome murmurado deu a impressão de pairar no ar. Ele temia repetir o nome por medo que ela se desvanecesse. Então, algo pareceu ligar-se dentro dele e seu coração começou a bater mais acelerado. E se ela fosse real? No mesmo instante em que pensou isso, descartou a possibilidade. Era impossível.
Olhou-a sentar-se na cama. Ao fazê-lo, ela ficou pálida e levou uma das mãos à cabeça.
— Aiii, como dói… — disse.
— Demi?
Ela sacudiu a cabeça, como se tentasse clarear as idéias.
— Joseph, meu bem, você está ensopado. Por que não toma um banho de chuveiro enquanto preparo o jantar?
Joseph atravessou o quarto como se estivesse em transe. Quando ela se pôs em pé ele sentiu um impulso violento de voltar-se e fugir. Então, Demi cambaleou e deixou-se cair sentada na cama de novo.
— Não me sinto bem — queixou-se. — Minha cabeça está girando.
Porém Joseph não a ouvia. Estava em estado de choque. Inclinou-se para a frente e estendeu as mãos, esperando nada mais sentir além de ar. Em vez disso, seus dedos fecharam-se ao redor dos pulsos dela, recebendo o calor de sua pele.
— Santo Deus… — repetiu ele e segurou-a pelos ombros. — Demi… Demi… Meu Deus, você é real!
Ela ergueu as sobrancelhas.
— Você andou bebendo?
Ele não conseguiu responder. Sentou-se ao lado dela e abraçou-a, embalando-a.
Então, a realidade o atingiu, e tão rapidamente quanto a abraçara, Joseph a soltou. A voz dele soou baixa e alterada, enquanto a fitava.
— Onde você esteve?
Os olhos de Demetria tornaram-se maiores.
— Você andou mesmo bebendo!
Joseph se ergueu, bruscamente.
— Quero respostas, Demetria.
— Que respostas?
— Para começar — ele a fitava como se ela houvesse enlouquecido —, quero saber onde você esteve nos últimos dois anos.
Alguma coisa agitou-se na mente de Demetria. Algo escuro, assustador. Mas desapareceu antes de se tornar um pensamento sólido. Sem dar-lhe tempo para responder, Joseph agarrou-a pelos braços, virou-os com as palmas das mãos voltadas para cima, causando-lhe dor, e olhou-os de perto.
Assustada com o modo estranho de Joseph agir, ela não reparou no transtorno espelhado no rosto dele.
Ele ficou perplexo. Havia marcas de agulhas nos braços dela.
— Drogas? Você andou se drogando?
Demetria olhou para ele como se tivesse ficado maluco.
— Do que está falando?
— Disto! — gritou e indicou as marcas.
Ela olhou para os braços e franziu as sobrancelhas. De novo algo roçou sua memória e mais uma vez desapareceu sem entrar em foco. Passou os dedos nas marcas, surpreendida com sua presença. Quando ergueu a cabeça, havia lágrimas em seus olhos.
— Eu não uso drogas e você sabe disso — murmurou.
Nesse momento o quarto começou a girar e Demi fechou os olhos.
— Então, explique-me isto — insistiu ele.
Demetria gemeu. A dor de cabeça aumentava e ela começava a sentir náuseas. Soltou-se e segurou a cabeça com as duas mãos.
— Não me sinto bem, Joseph.
Ele tremia tanto que não conseguia pensar.
— Eu também não Demetria. Você desapareceu da minha vida durante dois anos e agora reaparece de repente, falando em minhas roupas molhadas e em fazer o jantar, como se nunca houvesse saído daqui. Por acaso, enlouqueceu?
Ela nada podia fazer a não ser olhá-lo. O que Joseph dizia não fazia sentido. Dois anos? Ele havia saído de casa fazia apenas algumas horas. Mas antes que pudesse dizer alguma coisa o quarto recomeçou a girar.
Joseph viu que ela cambaleava e a segurou antes que caísse. Em segundos, colocou-a na cama e discou o 911.
— Qual é sua emergência? — perguntou a atendente.
Por uma fração de segundo ele não soube o que responder. Sua esposa havia voltado para casa. Uma mulher desaparecida havia reaparecido. Então, a realidade se impôs e ele reagiu.
— Minha mulher perdeu os sentidos. Não sei o que há de errado, mas penso que seja overdose de drogas. Por favor… preciso de ajuda.
— Ela está respirando senhor?
Joseph inclinou-se e sentiu a fraca respiração de Demetria em seu rosto. Lágrimas subiram-lhe aos olhos.
— Sim, sim! O que eu faço?
Suas mãos tremiam enquanto seguia as instruções da policial.
Meu Deus, não a deixe morrer! Não aqui. Não agora. Não a leve embora no momento em que a recuperei!
A atendente da policia desligou e ele entrou em pânico até que o som de uma sirene on fez erguer-se e ir abrir a porta da frente, acenando freneticamente para os paramédicos que corriam para a casa, debaixo da chuva.
O pânico aumentou enquanto os via medir pulsação e a pressão dela, ouvindo o jargão médico que mal entendia. Quando a colocaram em uma maca e se encaminharam para a porta, tudo que Joseph sabia era que não poderia deixá-la desaparecer . De novo, não.
— Por favor, deixem-me ir com ela — implorou.
— Não há lugar na ambulância, senhor.
— Para onde vão levá-la?
— Para o hospital Mercy. Pode ir atrás de nós.
Joseph entrou correndo em casa, pegou o paletó e as chaves. Estava de novo à porta quando reparou que se achava descalço.
— Não! — gemeu e correu de volta ao quarto.
Suas mãos tremiam quando sentou-se para calçar as botas. Só então ocorreu-lhe que ia precisar de apoio.
Pegou o telefone e discou. Estava tão transtornado que quando seu pai atendeu não sabia se conseguiria falar de modo coerente
— Residência Jonas.
— Pai, sou eu, Joseph.
— Olá, meu filho. Parou o trabalho cedo, hoje, não? Por que não vem jantar aqui? Sua mãe está fazendo carne assada, a sua preferida.
— Papai, preciso que você e mamãe vão para o Hospital Mercy o mais rápido possível.
O coração de Winston falhou.
— O que foi?
— Demetria… Ela voltou. Estava em nossa cama, dormindo, quando cheguei em casa. Há algo errado com ela. A ambulância já a levou e vou sair para o hospital agora.
Houve um momento de aturdido silêncio.
— Santa Mãe de… — começou Winston — Vamos já para lá.
Joseph desligava o telefone quando lhe ocorreu mais um pensamento. Digitou outro número, só que desta vez sua atitude era de autodefesa, em vez de procura de ajuda. Olhou nervosamente para o relógio de pulso enquanto esperava que atendessem. Haviam se passado quatro minutos desde que a ambulância fora embora. Ia desligar quando soou a voz de um homem.
— Terceira delegacia, Dawson falando.
Joseph segurou o telefone com mais força.
— Investigador Dawson, aqui é Joseph Jonas. Se está interessado em encerrar o caso do desaparecimento da minha esposa, sugiro que vá para o Hospital Mercy, agora.
Avery Dawson hesitou por um instante.
— O que está querendo dizer? — perguntou.
De repente, lágrimas de raiva desceram dos olhos de Joseph.
— E antes de ir — disse ele —, por que não chama os canais de TV, os jornalistas e todos mais que quiseram me ver condenado nos últimos dois anos?
— Isso é uma confissão? — reagiu Avery.
— Se quiser ver assim…
— Estarei lá em dez minutos — garantiu o policial. E desligou. Joseph recolocou o telefone no gancho e saiu.
— Ele disse, mesmo, que estava confessando? — perguntou Ramsey.
Dawson fitou o parceiro e logo voltou a olhar para a rua. Dirigir naquela velocidade com chuva era arriscado, mas tinha medo que se demorasse Joseph Jonas poderia mudar de idéia sobre o telefonema que acabara de dar.
— Ele disse que se eu quisesse ver como uma confissão…
Dawson teve que manobrar o volante agilmente quando o carro deslizou sobre uma poça de água e quase bateu em um ônibus que vinha.
— Opa, essa foi por pouco — comentou Ramsey, ajeitando o cinto de segurança.
A very olhou pelo espelhinho retrovisor.
— Esse trecho da rua está precisando de reparos…
Ramsey assentiu. A luz azulada no painel do carro faziam sobressair as linhas de preocupação no rosto do investigador. O desaparecimento de Demetria Jonas fora o caso que mais o intrigara entre muitos que tivera e resolvera. Para começar, sentia-se frustrado diante da completa ausência de pistas e, apesar dos meses de investigação, não fora capaz de conseguir argumentos suficientes para convencer o promotor público a levar Joseph Jonas a julgamento. Agitava-se só de pensar no telefonema dele. O crime fora perfeito, por que então confessaria agora?
— Lá esta o hospital.
Ramsey apontou para a entrada iluminada de um edifício mais adiante.
— É, estou vendo — resmungou Dawson, parando num sinal vermelho.
Nesse momento, a caminhonete da empresa Jonas parou ao lado dele.
— Ei, olhe ele aí!— apontou Ramsey.
— Estou vendo — irritou-se Dawson.
Entraram no estacionamento perto do pronto-socorro e Joseph já corria para a entrada do hospital antes que Dawson soltasse o cinto de segurança.
— Ele está com pressa por causa de alguma coisa — deduziu Ramsey.
Os dois policiais saíram correndo sob a chuva, espirrando água a cada passo. Quando entraram, estavam molhados.
Para surpresa deles, o pai de Joseph Jonas os esperava junto à porta.
— Os senhores podem me acompanhar, por favor?
Os dois olharam-se desconfiados. O que Jonas estava maquinando?
— Olhe, sr. Jonas, viemos falar com seu filho e preferimos fazê-lo aqui no saguão.
Winston assentiu.
— Se preferirem assim… Mas se querem saber a verdade, venham comigo.
Voltou-se e saiu pelo corredor até uma saleta cheia de cadeiras, onde a esposa o esperava.
— Ei, ali está Joseph Jonas — apontou Ramsey para um homem encostado na parede.
Momentos depois os dois adversários estavam frente a frente mais uma vez.
— Então, Jonas, o que tem a me dizer?
A expressão de Joseph era indecifrável quando ele apontou para uma porta.
— Senhores, quero apresentar-lhes minha esposa, Demetria Jonas. Ela reapareceu lá em casa hoje e enquanto conversávamos passou mal. Os médicos a estão examinando, mas as marcas de agulhas nos braços dela são sinal de que há algo muito errado.
Ramsey passou pelo parceiro, que olhava fixo para a mulher estendida na mesa de exames.
— Isto é uma brincadeira? — zangou-se Dawson.
Joseph encarou o policial como se ele tivesse ficado louco.
— Por acaso estou rindo?
Os dois policiais entraram um pouco na sala para ver a mulher que era examinada.
Demi sentia-se envolta num negro túnel de dor. Tinha a impressão de ouvir a voz de Joseph à distância, mas não conseguia compreender o que ele dizia. Voltou a cabeça na direção da voz dele, dando a Dawson e Ramsey uma clara visão de seu rosto.
— Santa Mãe de Deus! — murmurou Ramsey, fazendo o sinal da cruz.
Dawson apenas olhava.
Betty Jonas levantou-se de onde estava sentada.
— Sim… É um milagre, não?
— Parece — respondeu Dawson e saiu da sala.
A sra. Jonas abraçou o filho. Ele parecia sem saber o que fazer. Ela pegou-o pela mão.
— Joseph, meu bem, venha sentar-se aqui comigo — exortou, docemente.
— Obrigado, mamãe, mas acho que não consigo ficar sentado.
Ela deu-lhe amorosas pancadinhas no braço, depois foi sentar-se junto do marido, buscando conforto na presença dele, como fizera tantas vezes no decorrer de anos. Apesar da confusão do que estava acontecendo, havia algo a respeito das condições de Demetria que a afligia. Betty jamais tinha visto alguém sob o efeito de uma overdose até então, mas lera sobre o assunto, e alguns sintomas não estavam de acordo.
Enquanto isso Dawson aproximou-se de Joseph, desconfiado daquele miraculoso reaparecimento.
— Onde ela estava?— perguntou.
Os olhos de Joseph escureceram e ele apontou para a sala de exames.
— Eu gostaria de saber… Ela não tinha essas marcas nos braços quando sumiu.
O policial foi olhar de novo, dessa vez reparando nas marcas de agulhas nos braços de Demi.
— Mas que coisa! — resmungou.
Ramsey olhou para o parceiro, depois enfiou as mãos nos bolsos.
— Olhe sr. Jonas, sinto muito pelo modo como o pressionamos, mas o senhor sabe o que parecia.
Joseph assentiu.
— Sim e sei como as coisas eram do meu lado, também.
Dawson teve a decência de corar. Estendeu a mão.
— Se isto ajuda, peço desculpas.
Na sala do pronto-socorro, de repente, Demetria gemeu e em seguida gritou, como se estivesse sentindo uma dor terrível.
O coração de Joseph confrangeu-se, e antes que pudessem detê-lo, entrou.
— O que está acontecendo?
— Por favor, vá esperar lá fora, senhor — disse uma enfermeira.
Empurrava-o para a saleta quando Demetria arquejou:
— Cuidado com o ônibus!
Um alarme começou a soar, Joseph olhou ansiosamente para a esposa e as máquinas que a rodeavam. Antes que pudesse ver qual delas dera o alarme, puseram-no para fora da sala.

guess who's back?
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Olá, morecos ♥ Td bem? Postando esse aqui rapidinho p recompensar minha demora de postar o primeiro. E tb pq estou mt feliz, comprei meu Electra Heart de presente de aniversário p mim msm asdfdsh ngm segura essa bruninha B| Comentem, amores! Beijos, amo vcs <3