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Joe sentou-se à mesa de sempre no Birelli’s, lendo o relatório de produção do mês
anterior. Fazia dois dias que se encontrara com Demi no estacionamento. Não tornou
a ligar. Ela também não.
Naomi parou
a seu lado e verificou as horas no relógio de pulso.
— Ela nunca
se atrasou. O que será que está havendo?
— Não sei se
virá — Joe disse as palavras que estava evitando verbalizar.
Naomi
levantou o copo de Demi e limpou a poça de água sob ele. O gelo havia derretido
quase todo. Tornou a pousar o copo.
— Lá está!
Não deixaria de vir — afirmou Naomi.
Através da
vidraça do restaurante, Joe a localizou na calçada do lado de fora.
Respirou
aliviado. Agora podia admitir o medo terrível que sentira de Demi não aparecer.
Ela o fitou
com expressão indecifrável. Hesitou um pouco, em seguida virou-se e seguiu seu
caminho.
— Mas...
aquela não era Demi? Aonde vai? — Naomi ficou perplexa.
Joe deu de
ombros. A vontade que tinha era de sair correndo atrás dela, insistir até a
exaustão, para que Demi concordasse em se casar com ele. No entanto, já tentara
isso, e não dera certo.
— Cancele a
salada e me traga o stromboli. — Sua calma era espantosa, mesmo sentindo que
morria por dentro.
Naomi
afastou as lágrimas dos olhos.
— Essas são
as palavras mais tristes que já ouvi.
Joe concordou.
No
escritório, Demi girou na cadeira e olhou para o glorioso céu de Nashville através da
janela. Aquele panorama sempre a
emocionava durante o crepúsculo, quando, no escuro, as luzes da cidade piscavam
feito vaga-lumes.
Porém,
naquele momento nada a emocionaria. Girou para a frente sentindo-se vazia por
dentro. Fechou os olhos. O resto de sua via seria assim? Esse vazio? Talvez.
Sentiu-se do
mesmo modo em
outras ocasiões, cada
vez que seus
pais prometiam vir apanhá-la e não vinham. Não era uma sensação nova. Só
que antes havia Joe para lhe dar consolo. Agora, não.
Vestiu o
casaco, pegou a bolsa e fechou a porta atrás de si. Movendo-se como uma
sonâmbula, desceu de elevador até a garagem do edifício. Entrou no carro e juntou-se
à loucura da hora do rush.
Cinco
semanas sem Joe. Cinco semanas sentindo como se uma importante parte dela lhe
tivesse sido arrancada.
Ele teria
razão? Será que ela mantinha as pessoas a distância de propósito?
Achava que a
reserva fazia parte de sua personalidade, mas não existia um pingo de reserva
na paixão que descobriu em si mesma, na Jamaica.
Perdida em
devaneios, fez uma curva e se deu conta de que se encontrava a caminho da casa
de tia Caroline. Em meio à enorme confusão do tráfego, achou o caminho para o
lugar que sempre lhe ofereceu refúgio, desde a infância.
Ultimamente,
vivia encontrando desculpas para recusar os repetidos convites da tia para
jantar. Não queria falar com ninguém sobre sua viagem à Jamaica, não queria que
ninguém que lhe fosse próximo soubesse sobre ela e Joe. Talvez apenas uma
parte disso fosse verdade, não queria ninguém perto dela.
Estacionou e
aproximou-se da residência com uma sensação de retorno ao lar.
Passou
direto pela entrada e encaminhou-se à porta dos fundos.
Que som
familiar do choque de metal contra pedra, ecoando através da porta aberta da
garagem para dois carros que servia de estúdio para tio Frank!
Abriu a porta
e dirigiu-se à
cozinha. Avistou Caroline
em um canto
do aposento, ao computador, navegando na internet, uma taça de vinho ao
lado.
Dois pratos
de salada encontravam-se sobre a mesa.
— Olá...
Caroline
virou-se, e seu rosto de imediato se alegrou. Afastou a cadeira para trás e
ficou de pé.
— Demi! Que
saudade! Começávamos a achar que você não nos amava mais. — De repente, ela
franziu as sobrancelhas. — O que houve, meu bem?
Demi não
planejara vir. Tampouco cair no choro e atirar-se nos braços abertos da tia. No
entanto, foi isso mesmo o que fez.
Caroline a
abraçou e consolou, mas não fez nenhuma tentativa de deter o fluxo de emoções
incontidas.
Por fim, Demi se acalmou. Embaraçada, desesperada por uma caixa de lenços de papel,
deixou os braços da tia e sorriu, tímida.
— Sinto
muito, titia...
Caroline
acariciou seus cabelos e a fez sentar-se.
— Não tem de
se desculpar, querida. Sente-se aqui e me conte o que tanto a aflige.
Demi suspirou.
— Eu não
queria ser como sou.
Caroline a
interrompeu:
— Não gosto
de vê-la assim tão deprimida, mas estou grata por ter vindo. Sabe desde quando
espero que venha a mim? A vida toda.
— Por que
está me dizendo isso, tia Caroline? — Demi perguntou, surpresa com a mágoa no
rosto sempre tão alegre da tia.
— Sabe, meu
bem... Pouco depois que nos casamos, eu e seu tio Frank descobrimos que não
podíamos ter filhos.
Demi ficou
ainda mais espantada. Sempre presumiu que eles não desejassem tê-los.
— Isso hoje
não seria um grande problema, mas há trinta anos, os médicos não sabiam quase
nada sobre infertilidade, e tampouco tínhamos dinheiro para fazer um tratamento
adequado.
Caroline
parou de falar por um instante, como se procurasse pelas palavras certas para
se expressar.
— Foi quando
Lynette engravidou. — O amor e suavizou sua expressão. — Você era tudo o que
nós teríamos querido numa filha se tivéssemos uma. Linda e inteligente. Tentei
com todo o empenho ficar feliz por Lynette e Vance, mas a situação me
preocupava. Eram dois irresponsáveis vivendo feito ciganos, um dia aqui, outro acolá....
Eu costumava me preocupar, pensando se você tinha o que comer e um lugar para
ficar. Fiquei exultante quando a deixaram comigo. E muito grata. Foi uma dádiva
para nós, querida, uma bênção que não esperávamos obter. — Caroline falava com
uma determinação que Demi poucas vezes ouvira nela. — Na época, eu me
envergonhava, como me envergonho agora, por ter ficado tão feliz com algo que
tanto sofrimento lhe causou.
— Oh,
titia...
— Bem
pequena você já era arredia. Eu achava que, se nós demonstrássemos o quanto a
amávamos, acabaria nos aceitando e nos amaria também. Perdoe-me, Demi, mas eu
tinha certeza de que ficaria muito melhor conosco. Jamais fiz nada para manter seus
pais afastados, mas também não fiz muita questão de que eles se aproximassem, porque
a queria para mim. Essa é a verdade.
As lágrimas
inundavam seus olhos. Demi se levantou e a apertou contra si.
Eles a
amavam. O tempo todo s tios a amavam e a queriam como filha. Não se tratava de
uma obrigação.
— Eu achava
que vocês só me aceitavam porque eram bondosos demais para me rejeitar.
— Meu bem,
temos adoração por você. Lembra-se de Bóris, aquele gato enorme e sem dono que
perambulava por essas redondezas?
— Sim,
lembro.
Bóris
aparecia em casa para comer, mas não confiava em ninguém e era bem pouco
tolerante.
— Você colocava
comida lá fora e ficava observando-o se alimentar. Ia aos poucos tentando se
aproximar dele, mas jamais conseguiu tocá-lo. Foi então que ele e Duquesa
ficaram amigos, e você desistiu de tentar domesticá-lo. Bóris não estava mais sozinho.
Demi assentiu.
Na época, ela desejara muito aproximar-se de Bóris.
— Você era
como aquele gato, esquiva e nada comunicativa. Mas por fim conheceu Joe. Eu e
Frank achamos que você, enfim, estava feliz, embora não tenhamos nunca
desistido de querer que se aproximasse de nós.
Demi não
imaginava que os fazia sofrer com seu distanciamento.
— Lamento
muito, tia Caroline.
— Não
lamente. Eu entendia muito bem sua atitude. É muito difícil aprender a confiar. Você não conseguia
acreditar que não
tornaria a ser
abandonada. Nós devíamos tê-la
levado a um terapeuta, para ajudá-la a lidar com mais facilidade com a rejeição.
Mas o dinheiro era curto, e nós acreditávamos que nosso amor bastaria.
Demi se
sentia como um dique com um pequeno buraco. Não conseguiria suportar por muito
mais tempo a pressão da água do outro lado. As palavras de Caroline derrubaram
a parede que
circundava seu coração
por mais tempo
que conseguia lembrar.
— Por quê?
Por que eles não me queriam, titia?
—
Imaturidade. Deve ter sido isso. Por ser a caçula, Lynette foi mimada demais
por nossos pais. Mas talvez fosse sua natureza, mesmo. — Caroline deu de ombros.
— Ao longo da vida, você descobrirá que muitas vezes nós ficamos sem determinadas
respostas. As coisas são como são, e temos de aprender a conviver com elas.
— Para mim
isso ainda não é suficiente.
— Esqueça o
que passou, meu bem, e prossiga adiante. Olhe para mim, Demi. — Segurou o
rosto da sobrinha. — Seus pais erraram, mas o que deve manter em mente é que os
errados foram eles, não você. Cheguei a pensar que tivesse se decidido a não se
importar mais, não permitindo que eles a magoassem.
— Eles já
não me magoam mais.
— Não.
Continuarão magoando enquanto não deixar o passado para trás e assumir o
controle de seu destino, querida.
— Meus pais
não têm poder sobre mim.
— Têm, sim,
porque você continua deixando que eles a controlem. Continua lhes conferindo
essa capacidade, porque ainda tem medo de abandono e de deixar que alguém se
aproxime. A vida poderá ser muito boa para você, meu bem. Não permita que eles,
ou quem quer que seja, arruíne isso. — Caroline fez uma pausa, como se considerasse
com cuidados o que diria a seguir: — E não admita que destruam tudo o que você
poderá viver ao lado de Joe.
Demi deixou-se cair na cadeira.
— O que sabe
a respeito de Joe?
— Ele
telefonou, faz alguns dias. Joe a ama, Demi, de todo o coração, assim como
você também. Para mim e para Frank, não foi nenhuma novidade. Há anos sabemos
desse amor.
— Mas com
todas aquelas namoradas... Todos aqueles relacionamentos...
— Nenhuma
delas importava. Aquele era o modo de Joe correr assustado. Se olhar com atenção,
querida, sob todo aquele charme, descobrirá que Joe também é como Bóris. Sua
mãe escolheu beber até se matar, e o pai nunca lhe deu importância, só querendo
saber de suas amantes. Joe foi rejeitado também. Mas quando vocês se conheceram,
você se tornou a Duquesa do Bóris que ele era. Nunca vi duas pessoas que foram
destinadas uma à outra custarem tanto a reconhecer isso!
Demi permaneceu alguns minutos sentada, absorvendo o que ouvia.
— Por que
não disse tudo isso antes, titia?
— Porque seu
coração ainda não estava pronto.
— Mas e
se...
Caroline
pousou a mão em seu ombro.
— A vida não
vem acompanhada de nenhuma garantia, meu bem, e você precisa viver e amar como
se o amanhã não existisse. E rezar pelo melhor.
Demi abraçou Caroline e, nesse gesto, encontrou a coragem para dar voz às palavras
que nunca fora capaz de pronunciar:
— Eu te amo
muito, titia...
(...)
Joe não
conseguia ficar sem ir ao Birelli’s nas quinta feiras, embora por cinco semanas Demi não aparecesse por lá. Cinco longas semanas...
Em vez de
aguardar que ela aparecesse, ele agora aproveitava o horário do almoço para ler
os relatórios da empresa.
Naomi surgiu
do nada e depositou um copo de chá no lugar oposto ao dele.
— Volte à
terra, Naomi. Você já trouxe meu chá.
— Mas ainda
não para ela.
Quando Joe
ergueu a cabeça, seu coração quase parou. Demi encontrava-se à soleira, desta
vez do lado de dentro, parecendo forte, e ao mesmo tempo, vulnerável.
Ela parou
junto dele, segurando a alça da bolsa a tiracolo.
— Posso me
sentar?
— Claro.
Esse é seu lugar.
Demi se
acomodou, e Naomi sorriu para ela.
— Voltarei
em um instante com a salada.
— Espere.
Vou querer stromboli de franco com espinafre.
— Nada de
salada?
— Desta vez,
só o stromboli, se não se importa.
— Não, de
modo algum. — E Naomi se foi com um sorriso largo.
Um silêncio
tenso se instalou. Afinal, o que eles eram? Dois amigos? Amantes? Joe não
sabia. Tinha certeza tão-só de que amava aquela mulher e sentira uma tremenda
falta dela.
— Então?
Veio até aqui para dizer que se casará comigo?
— Bem, para
ser franca, sim. Foi para isso que vim.
Mas Joe
precisava saber o motivo de ela ter mudado de idéia.
— Por quê?
— Porque
quero me casar com você, ora! — Jogou os cabelos para trás, e sua mão não
tremeu.
— Por que
agora?
— Porque
esse é o único modo de eu convencê-lo a fazer amor comigo. — Ofereceu-lhe um
sorriso terno.
— Então é
isso?
Ela havia
recuperado o bom humor. Era um bom começo.
— Eu te amo, Joe — Demi apenas sussurrou a confissão.
— Você me
amava antes, e parece que isso não foi o bastante.
Demi tomou
a mão dele e a levou aos lábios, e foi como se ela o trouxesse de volta à vida
após semanas apenas existindo.
— Perdi o
temor, Joe. Não tenho mais medo de amar você, nem de permitir que me ame.
— Como vou
saber que não tornará a temer? Estar afastado de você nessas últimas semanas
foi intolerável... Não suportarei passar por tudo isso de novo.
— Precisa
confiar em mim, assim como eu precisei confiar em você. Quero ser sua mulher e
envelhecer a seu lado. Preciso disso. Você proporcionou a minha vida as mudanças
de que eu necessitava. E o fluxo e o refluxo de meu oceano, Joe.
— E você é a
areia em minha praia, meu porto seguro.
Joe procurou algo no bolso, e dele tirou a caixinha de veludo preto que trouxera da
Jamaica e que conservava consigo. Sentia-se com os nervos à flor da pele ao
entregar o presente a ela.
Demi a abriu
e, encontrou o anel.
— Oh, Joe... É muito lindo!
Ele levou a
mão à nuca de Demi, sob a cascata sedosa de sua cabeleira, e puxou-a para mais
perto, seu corpo se acendendo em resposta à proximidade, a seu calor.
— Podemos
comprar uma aliança de brilhantes ou um solitário, se preferir
.
— Não. Eu
quero esse. Quando o comprou?
— Na
Jamaica. Uma tarde antes de eu lhe propor casamento.
— Também
tenho algo para você... — Ela pegou seu queixo, e sua boca encontrou a dele,
num beijo apaixonado.
Então,
retirou um envelope da bolsa e colocou-o diante dele. Joe o abriu e encontrou
duas passagens de avião da Air Jamaica, junto com uma confirmação de reserva de
uma suíte no Hot Sands.
— Estava
assim tão segura de mim, é?
— Não,
querido. Estava segura de nós dois.
Naomi chegou
com os pedidos.
— Será que
nós podemos levar para casa? — Demi lhe perguntou.
Naomi
apanhou as travessas de volta com ar travesso.
— Sem
dúvida! Vão querer sobremesa?
~
Último capítulo da fic e da maratona! Espero que tenham gostado... Comentem para o epílogo! Beijos, amo vcs ♥
Capítulo programado.




