23.11.14

Apenas Amigos? - Capítulo 3

 

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Joe tornou a verificar as horas. Demi não chegava, e aquela preocupação o atormentava. Enquanto Kiki vivia se atrasando, tanto que quase perdeu o vôo naquela manhã, a pontualidade era sagrada para Demi. E eles deviam ter se encontrado no píer trinta minutos atrás. Elliott não sabia de seu paradeiro. Confessou ter estado o tempo todo verificando provas e trabalhos feitos por seus alunos. Como Demi, que tinha tanto interesse por tudo e por todos, podia considerar casar-se com alguém igual a ele?
Nada houve entre Joe e Kiki. Em vez de aproveitar a siesta para dormir, ela preferiu se trancar no banheiro para tratar da pele e cuidar das unhas.
Joe, por outro lado, empenhava-se em procurar tirar Demi da cabeça. “Não consigo pensar em ninguém mais com quem eu prefira partilhar minha primeira vez”, ela dissera.
Quantas vezes e com quantas mulheres Joe acabara na cama por causa de semelhantes insinuações? Mas jamais com Demi. Ela nunca antes o fitou com um convite naqueles olhos amendoados. Sua voz jamais antes adquiriu aquele tom rouco ao dirigir-se a ele, nem o abraçou como se abraçasse um amante. E se Joe tivesse algum juízo, teria seduzido Kiki durante a siesta e procurado esquecer a amiga de infância.

— Está vendo o que estou vendo? — perguntou Elliott.

Um movimento a distância chamou a atenção de Joe, que olhou naquela direção. Uma loira sensual vinha caminhando devagar pela praia, os cabelos cheios de trancinhas, à moda jamaicana. Por um instante, Joe notou algo um tanto familiar naquele caminhar confiante. De repente, mal conseguia respirar. Aquelas trancinhas, aquelas pernas... No espaço de um segundo, sua imaginação a pôs nua em cima dele, com aquelas pernas deliciosas envolvendo-o pela cintura.

— Demi de fato possui pernas fantásticas. 

Demi? “Demi?! O que...” Joe tirou os óculos escuros. Não admirava ele ter reconhecido seu caminhar. Tornou a colocar e a tirar os óculos, mal notando Kiki vindo junto com Demi.
Quando ela passou ao lado de uma quadra de vôlei de praia, o rapaz junto à rede se virou, desajeitado, para observá-la, de queixo caído. A bola acertou suas costas, atirando-o ao chão.

— Desculpem-nos pelo atraso. — Kiki passou o braço pelo de Joe.

— Nós nos encontramos a caminho daqui. — Demi sorriu. — E então? O que acharam de meu novo visual?

Havia  continhas  coloridas  presas  na ponta  de cada  uma das  tranças, que alcançavam seus ombros, o estilo acentuando as maçãs de seu rosto e os lábios cheios. A camiseta branca que usava sobre o biquíni oferecia um relance tentador dos seios perfeitos. Desde que chegaram à Jamaica, Demi não parava de surpreender Joe, revelando todo tipo de coisas novas sobre si mesma.

— Gostei. É muito diferente... — Elliott a estudava com atenção. — Ficou muito bem.

— Mas o que deu em você para fazer isso?! — No minuto em que disse aquilo, Joe se arrependeu.

No entanto, não estava acostumado àquela versão sensual de Demi despertando ainda mais suas fantasias.

— Ora, Joe, não seja bobo e diga o que achou!

“Droga, feri os sentimentos dela!” A fantasia que teve com Demi voltou-lhe à memória. O que ele achava? Bem, àquela altura, se revelasse a verdade, a assustaria. E a si próprio também.

— Desculpe-me, Demi, Só não estou acostumado a vê-la desse jeito. Esqueça o que eu falei. Você ficou linda.

— Também acho. Eu faria o mesmo se tivesse essa sua adorável estrutura óssea — comentou Kiki.

Elliott sorriu, e fitando o top do biquíni da namorada de Joe.

— Não vejo nada de errado com sua estrutura.

Kiki se envaideceu. As sobrancelhas de Demi arquearam-se sob os óculos de sol.
Elliott era um idiota, Joe decidiu. Por que flertava com Kiki diante de sua namorada, uma mulher tão adorável?
Demi gostava de planejar o próximo passo que daria, mas Joe se agarrava a qualquer oportunidade que se apresentasse. Kiki e Elliott...
Joe ficaria mais do que feliz em dar a Elliott corda bastante para que se enforcasse. Se o professor continuasse se insinuando para Kiki, ele não teria de se preocupar em ver Demi sendo conduzida pela nave da igreja para se casar um tolo. Tudo o que Joe precisaria fazer seria oferecer um pouco de encorajamento, atirar um nos braços do outro e apenas observar.
Elliott não merecia Demi, e Joe estava prestes a provar isso.
Claro que não pretendia levar as coisas adiante com a cientista. Uma semana de praia, sol e mar sem sexo era um preço pequeno demais a pagar, para evitar que Demi cometesse o maior erro de sua vida.
Joe atirou a chave do jet ski para Kiki.

— Você e Elliott ficam com o número vinte e sete. Nós ficaremos com o vinte e oito.
Entusiasmadíssima, Kiki montou no jet ski e acenou para Elliott.
— Vamos lá, estou ansiosa! Há muito tempo não pego um virgem.
Elliott acomodou-se na garupa e enlaçou Kiki. Dada a diferença de altura, suas mãos pousaram bem debaixo dos seios redondos. Kiki ligou o motor.
A brisa soprando do mar espalhava uma mistura potente de filtro solar e do perfume de Demi. O que estava havendo com ela naquele dia? Seria a atração pelo desconhecido que fazia o coração de Joe bater forte como o de um adolescente se preparando para o primeiro encontro? Quando se acostumasse com aquele seu novo penteado, talvez tudo se normalizasse.

— Eu diria que Elliott está bastante entusiasmado com Kiki, e ele ainda não bebeu... Não concorda comigo? — Demi indagou, o que soou com um toque de asperidade aos ouvidos de Joe.

Com  o braço pressionado junto à cintura de Joe, ela  acabava com  sua serenidade.
Kiki acenou de longe.

— Ei! Venham juntar-se a nós!

Joe também fez um aceno.

— Tem razão quanto a Elliott, Demi. Neste exato momento, ele parece apreciar muito o fato de estar agarrado a Kiki. E sou capaz de jurar que ela não se importa.

— Você se importa?

— Nem um pouco. Entre nós dois nada existe além de uns poucos encontros.

Joe não iria ficar sentado observando Demi cometer o maior erro de sua existência casando-se com Elliott. Conhecia bem aquela tolinha e sabia do que ela era capaz quando decidia seguir um objetivo à risca.

— Por favor, me ensine como pilotar esta coisa. — Demi reuniu as trancinhas e as segurou na nuca. — Vamos lá?

A última coisa que Joe queria era ver Demi competindo com Kiki por Elliott. Mas se ele, Joe, distraísse sua atenção, flertando com ela como fizera naquele dia no almoço... Bem, era o que sabia fazer de melhor, embora com Demi ele jamais tivesse tentado. Porém, conseguiria fazer aquilo. E se, no fim, ela desistisse de se casar com Elliott, essa seria a melhor das recompensas.
Demi tirou o frasco de protetor solar da sacola.

— Por favor, passe isto em minhas costas, Joe. Eu não alcanço, e Elliott não está aqui para me ajudar... — Tirou a camiseta e estendeu-lhe o vidro. — Não quero me queimar demais no primeiro dia. Na verdade, prefiro não me queimar. — Joe ficou paralisado. Que Deus o ajudasse... Em toda a praia, as mulheres usavam biquínis menores e bem mais reveladores, mas nenhuma ficara tão bem como Demi. Um lento calor começou a arder em seu abdome e se espalhou por todo o corpo. — Joe? — Ela balançou o frasco diante de seu rosto. — Vai me ajudar com isso ou terei de pedir ajuda aos jogadores de vôlei?

— De modo algum. Vire-se.

Joe derramou uma generosa quantidade de protetor solar na palma da mão e devolveu-lhe o vidro por sobre o ombro. Esfregou  as palmas e parou-as no ar.

“Controle-se, homem. Essa é Demi. E acabe logo com isso!”

No instante em que tocou a pele delicada ele se deu conta de que subestimara aquela  tarefa.  Suas  mãos  e  a  ponta  dos  dedos  pareciam  ter  vontade  própria, massageando, às vezes acariciando. Ainda bem, considerando que seu cérebro parara de funcionar.
Deslizou por sob a alça do biquíni. Demi estremeceu, e a resposta repercutiu dentro dele. Cuidando para não deixar um só centímetro de pele sem proteção, Joe correu as mãos por sua espinha, indo até abaixo da cintura.
Outro estremecimento dela. Demi era tão sensual, tão sensível a seu toque... E pensar que tocara apenas suas costas.
Joe conteve uma ânsia insana de escorregar as mãos por sob a calcinha do biquíni e massagear lhe as nádegas. Assim, sussurraria doces palavras em seu ouvido, até Demi ansiar por um lugar isolado naquela praia onde pudesse realizar sua fantasia com ele. Talvez se fosse outra mulher... Mas aquela era Demi.
E Demi queria apenas que Joe passasse creme protetor em suas costas, não que ficasse fantasiando a seu respeito.
Desse modo, Joe deixou cair as mãos e, mais uma vez, lembrou a si mesmo que aquela era sua melhor amiga. Amiga, e não mulher, advertiu à própria libido, à própria mente e a todas as partes de sua anatomia.
Demi o encarou.

— Já chega. Vamos? Não quero continuar virgem.

Joe teve de fazer força para não deixar escapar um gemido.
Demi verificou as horas. Onze. Após o vôo e toda a agitação da corrida de jet ski naquele mar azul-turquesa com Joe, devia estar exausta. Em vez disso, sentia-se mais cheia de energia do que nunca.
Apesar do horário, a noite continuava plena de promessas. No jardim, os pássaros  noturnos  cantavam  chamando,  um  ao  outro,  e  a  brisa  chegava  até  ali impregnada pelo perfume das flores e das ervas exóticas.
A ritmada música caribenha ecoava do clube dentro do hotel, o Jungle Room.
Demi passou o braço pela cintura de Elliott, seus quadris instintivamente respondendo ao ritmo. Animada, se ela dirigiu a Joe e Kiki.

— O que acham de dançarmos um pouco?

Kiki agarrou a mão de Joe e puxou-o em direção ao hotel.

— Excelente idéia! Vamos ao clube.

Elliott, após ter tomado três taças de vinho durante o jantar, demonstrou mais entusiasmo do que talento ao ensaiar alguns passos. Demi tentava acompanhá-lo e ria.

— Não sabia que você gostava de dançar, Demi — Joe comentou enquanto ele e Kiki os seguiam.

Demi notou, naquele dia que, por mais que ela e Joe se conhecessem, havia muito que desconheciam a respeito um do outro. Através dos anos, enquanto discutiam sobre  seus  respectivos  relacionamentos,  evitavam  qualquer  comentário  sobre  a sensualidade de cada um. Quando Joe passou protetor solar em suas costas, Demi descobriu um novo lado dele. E também de si mesma. Seu toque sensual quase a virou do avesso.

— Talvez existam duas ou três coisas sobre mim que você desconhece... — Demi lançou as palavras por sobre o ombro.

Por mais que tentasse manter uma entonação casual, não pôde evitar um toque sutil de provocação.

— Vocês são amigos há muito tempo, Demi? — Kiki quis saber.

— Vinte e quatro anos.

O volume da música aumentava à medida que se aproximavam do clube.

— E nunca se cansam um do outro?

“Nunca!” Joe era a pessoa mais interessante que Demi conhecia.

— Não.

— Não.

A resposta dos dois foi simultânea.
Elliott aumentou a pressão no ombro da namorada, puxando-a para mais perto.

— Demi pode não se cansar, mas eu, sim. Ele está sempre por perto. — Elliott se queixou para ninguém em particular. — Sem ofensa.

Joe achou graça do comentário.

— Fique tranqüilo, Elliott. Não me ofendo com facilidade.

— Vinte e quatro anos e vocês nunca...

— Nunca — Demi logo assegurou.

Não que Kiki se importasse, estava apenas curiosa. Era como se a amizade deles fosse uma esquisitice a ser dissecada. Talvez em outra noite e em outro lugar Demi tivesse ficado ofendida com a atitude da jovem. Mas não ali e naquele momento, quando o calor e o ritmo alucinante despertavam-lhe pensamentos lascivos.
Kiki parou a alguns passos da porta do clube.

— Vinte e quatro anos e nenhum dos dois jamais tentou? Desculpem-me, mas não dá para acreditar.

Em uma ou duas vezes, Demi também não acreditou. E, desde que chegaram à ilha,  sentia  a  tendência,  a  sutil  provocação  entre  ela  e  Joe.  No  entanto,  não confessaria aquilo só para alegrar Kiki. Balançou a cabeça, rindo da insistência dela.
Elliott interveio:

— Creia: eles são como dois irmãos.

Na claridade fornecida pela chama da tocha, Demi fitou Joe, o ar preso na garganta, o sangue correndo mais rápido nas veias. O olhar que ele lhe lançou deixou claro que a queria consigo.
Em um dia normal, aquela idéia a aterrorizaria. Mas não havia nada de normal, ou de racional, na noite jamaicana. Aquilo a excitou.

— Acho que minha irmã está querendo dançar.

Entraram no Jungle Room. O ar carregado de perfume e fumaça de cigarro os recebeu. Casais lotavam a pista. A melodia alta e de ritmo empolgante contagiou Demi, impedindo conversas e acabando com inibições.
Os  quatro juntaram-se à  multidão aglomerada, e  Demi  rendeu-se de vez, girando, ondulando, seu corpo respondendo ao ritmo com movimentos sedutores, a música dentro dela, impelindo-a em direção a um lugar além de suas usuais fronteiras.
Em minutos, a aglomeração pareceu ter engolido Kiki e Elliott. Joe, no entanto, continuava ali. Demi chegou mais perto dele, ainda dançando, a boca junto a seu ouvido para poder ser ouvida.

— Onde estão Kiki e Elliott?

Joe deu de ombros e meneou a cabeça.

— Não sei. Está preocupada com eles?

A  boca  carnuda,  o  fogo  do  desejo  cintilando  em  seus  olhos,  seu  corpo musculoso contra o dela na confusão da pista, a batida implacável da música, tudo aquilo a empolgava. Demi enlaçou o pescoço de Joe, num convite irresistível. Então, recuou, sorrindo, maliciosa.
Com as pupilas brilhando com intensidade, ele aceitou o desafio e seguiu-a.
A  pista  oferecia  uma  oportunidade  única  de  seduzir  sem  conseqüências. Dançando, Demi cruzou a linha de que jamais considerou sequer se aproximar.
Em meio àquela atmosfera de sonhos, pareceu a coisa mais natural do mundo para Joe puxá-la contra si. Demi, audaciosa, exigiu um beijo. Joe gemeu contra seus lábios, as mãos moldando suas costas.
Demi rendeu-se à fervente fusão. Cerrou as pálpebras enquanto ele, com a língua, explorava sua boca. Abraçando-o com mais força, sentiu-o pulsar da excitação dele contra si. Uma paixão febril fluía através dela. Onde a febre de Demi terminava e a dele começava, não dava para saber.
Joe, de repente, interrompeu o beijo.

— Demi?

Com os olhos ainda fechados e devastada pela paixão, ela deslizou a ponta da língua pelos lábios intumescidos.
O que dera nela? O que estava fazendo? Aquele que a incendiava a ponto  enlouquecê-la era Joe, seu melhor amigo!

— Desculpe-me... Eu não devia...

E, tendo ultrapassado a fronteira para um lugar do qual não havia retorno, Demi fez o que qualquer covarde teria feito.
Deixou-o parado ali e saiu correndo.

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Uia q rolou bj! Tudo bem, mozonas? Novidades? To animada hj e n sei pq, já q tenho prova de biologia amanhã e lembrei agr :x Estão gostando? Ainda tem bastante coisa por vir, haha' Respostas aqui' Comentem para o próximo, queridas! Beijos, amo vcs ♥

22.11.14

Apenas Amigos? - Capítulo 2

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O maître os saudou à entrada do restaurante:

— Sejam bem-vindos. Mesa para dois?

Demi sorriu, e Joe respondeu:

— Para quatro. Estamos esperando dois amigos.

— Por gentileza, venham comigo.

Eles o seguiram ao longo do salão lotado, passando por várias mesas até pararem junto a uma delas, redonda e próxima do parapeito, dando vista para o deslumbrante mar do Caribe, de águas azuis e translúcidas.

— Sentem-se, por favor. — O maître afastou uma cadeira para que Demi se acomodasse. — O garçom já virá atendê-los.

— Não há pressa. — Joe tomou assento ao lado de Demi. Ela suspirou de puro prazer, olhando em volta, a tudo absorvendo. Bem a sua frente, à direita, a calma expansão do oceano, um caleidoscópio de azuis, se estendia até alcançar o céu. Nuvens brancas flutuavam no horizonte.
À esquerda, a praia de areia branca estendia-se ao longo da costa, margeada por viçosa  vegetação  tropical.  Por  sobre  o  ombro,  observou  a  arquitetura  colonial espanhola do estabelecimento, e além da janela a distante elevação das Blue Montains, onde se que produzia um dos melhores cafés do mundo.
A brisa quente da Jamaica soprava contra sua pele, trazendo consigo uma mistura de ar marinho, óleo de bronzear e o familiar perfume de Joe.
Num impulso, Demi tomou a mão dele.

— Não é uma beleza, Joe? Estou muito feliz que você esteja aqui comigo. — Não seria a mesma coisa estar naquele paraíso sem ele.

Nos olhos verdes de Joe cresceu uma expressão enlevada.

— Os catálogos que vimos sobre o lugar não lhe fazem justiça. Neles não se pode sentir essa deliciosa brisa vindo do mar. — Seus dedos apertaram os dela. — Tudo é tão vibrante, tão vivo!

—  É  assim  mesmo  que  me sinto,  mais  vibrante,  mais  viva...  —  Aquilo explicava o irracional acelerar em sua pulsação de pouco antes. — Por isso acho que é o lugar perfeito para uma lua-de-mel.

Uma imagem surgiu em sua mente: ela usando um vestido de noiva com o véu esvoaçando, a areia fina da praia se deslocando sob seus pés descalços, sentindo o a mão de seu marido na dela e notando a promessa em seus olhos verdes...
Mas o que fazia Joe em meio a sua fantasia? Era Elliott quem deveria estar ali!
Demi respirou fundo, tentando acalmar as batidas do coração. Tudo bem. Fora apenas um pequeno lapso causado pelo cenário fantástico e pela proximidade do querido amigo. Nada mais.
Soltou-o, usando o pretexto de consultar o menu. Aquele momento pareceu a ocasião perfeita de se focalizar na namorada de Joe.

— Será que Kiki vai demorar para descer?

Joe deu de ombros.

— Estava ao telefone checando um projeto, e não sabia quanto tempo levaria. O que achou dela?

Demi ajeitou o guardanapo e o fitou, pensativa.

— Parece que desta vez você acertou, Joe. Kiki poderá ser aquela.

Vivia preocupada com Joe, achando que ele devia parar de ser tão volúvel e de pular a toda hora de um relacionamento para outro. Assim, por que se sentia tão frustrada pela quase perfeição de Kiki? Devia estar exultante por Joe. Mas uma voz insidiosa dentro de sua cabeça teimava em sussurrar: “Porque é a primeira vez que você se sente ameaçada. Porque ela poderá substituí-la no coração de Joe”.

— “Aquela”? Como assim?

— Aquela a quem você não conseguirá resistir, que partirá seu coração. Kiki é linda, inteligente e possui uma bela carreira profissional, além de ser poliglota.

— Que bom que gostou dela...

Demi achou melhor não corrigi-lo. Ela deveria ter gostado de Kiki, porque não havia como não gostar. Sendo assim, por que não conseguia superar aquela antipatia gratuita pela moça?

— Perto dela eu me sinto uma desajeitada. E que belos dentes... — Demi correu a língua pelo pequeno espaço entre seus dois dentes da frente. Joe dava risada, ouvindo-a se queixar. Quando seu olhar correu pelo corpete de seu vestido em estilo sarongue, ele parou de rir e seus olhos escureceram.

— Não existe nada de errado com seus dentes. — Seu olhar desceu até seus seios. — Tampouco no restante de você.

Demi estremeceu. Algo perigosamente parecido com atração sexual surgiu dentro dela, a resposta de uma mulher ao olhar apreciativo de um homem. Só que essa mulher era ela, e o homem, seu melhor amigo. E entre os dois não havia lugar para tais olhares e respostas.
Demi ficou confusa.

— Joe...

— Olá, vocês dois! — Kiki acomodou-se na cadeira ao lado de Joe.

Demi piscou. A tensão desapareceu como fumaça levada pelo vento. Teria imaginado aquele último minuto? O culpado por criar tal clima devia ser aquele lugar romântico. Precisava ter cuidado com aquela sua inclinação por Joe.

— Desculpem-me pelo atraso — Kiki desculpou-se, estonteante dentro de um vestido curto e justo que revelava suas curvas irretocáveis e o par de pernas fantástico que possuía. Os cabelos escuros estavam presos em um sofisticado coque no alto da cabeça.
Ela  parecia  refrescada,  refinada  e  sensual,  enquanto  que  Demi  sentia-se acalorada e despenteada.

— Sem problemas. Estávamos sentados aqui apreciando a vista. É espetacular. — Joe fez um leve gesto em direção à vasta expansão de areia, oceano e céu. — Tudo certo com seu trabalho?

Kiki ignorou a visão esplêndida e suspirou.

— Por milagre, sim. É impressionante o nível de preparo das pessoas que trabalham nos programas espaciais. Tenho de checar tudo todas as noites antes que os escritórios da costa oeste encerrem o expediente. — Seu olhar pousou no lugar vazio à mesa. — E Elliott? Onde está?

Elliott  e  Kiki  se  deram  bem  desde  o  início.  Descobriram  que  haviam freqüentado a mesma universidade em Loyola.

— Preferiu desfazer as malas antes de descer. Mas não deve demorar — informou-a Demi, que mal conseguia disfarçar o desapontamento que sentia por Elliott ter preferido desfazer a bagagem em vez de descer para conhecer o hotel.

— Eu desfiz as minhas enquanto falava ao telefone. — Kiki assentiu, como se entendesse muito bem a compulsão de Elliott. — Ah, aqui está ele! — Sorriu. — Estávamos falando de você.

— Perdoem-me pela demora. — Elliott se acomodou na cadeira entre as duas mulheres, taciturno como de costume.

Com a exceção de um rápido almoço uma certa tarde da semana anterior, Demi e Elliott não se viam fazia dias.
E, agora que o homem certo apareceu, Demi estava pronta para se deixar levar pelo encanto da ilha.

— Você está aqui agora, e é tudo o que importa. — Ela se inclinou para a frente e beijou-o no rosto.

Nenhum  estremecimento,  nenhum  arrepio,  nenhuma  magia.  Demi  se endireitou, perplexa.

— Está com todas as roupas arrumadas? — perguntou Joe, com uma ponta de sarcasmo.

Elliott franziu as sobrancelhas.

— Quase tudo. Pedi toalhas e travesseiros extras à camareira. — Entrelaçou os dedos nos de Demi e olhou para todos em expectativa. — Que tal um drinque para comemorarmos a viagem?

Entendendo a deixa, um garçom se aproximou.

— Sou Martin — ele se apresentou. — Posso trazer-lhes um drinque? O preferido é a especialidade da casa, que é preparado com rum jamaicano. Querem experimentar?

— Além do rum, que outros ingredientes tem? — Elliott quis saber.

— Suco de abacaxi, leite de coco e um toque de suco de romã. E forte.

Elliott e Kiki aceitaram experimentar. Embora parecesse tolice, o rum deixava Demi com dor de cabeça, e ela estava determinada a saborear cada momento daquelas férias. Por isso, optou por cerveja. Joe preferiu uísque.

— Muito bem. Voltarei em um minuto. — E Martin se afastou. Demi apanhou o cardápio, lembrando-se de que seu desjejum constara de uma xícara de café preto e uma torrada com geléia, horas atrás.

— Estou faminta.

Uma conversa casual fluiu entre os dois casais, enquanto todos consultavam o menu.
Martin chegou em seguida, servindo os drinques com um floreio.

— Aceitariam uma sugestão para o almoço? Seria uma amostra da culinária local, uma excelente introdução à comida jamaicana.

—  Obrigada.  Vou  aceitar  —  disse  Demi,  ansiosa  para  conhecer  tudo relacionado à ilha.

Elliott torceu o nariz.

— Não me arrisco. Prefiro um sanduíche de peru e salada.

— Eu também. — Kiki dirigiu-se ao garçom, e em seguida aos demais. — A última coisa que eu iria querer é passar mal em um país desconhecido por causa da comida. 

Demi, em seu íntimo, censurou o rude comentário. Apesar do clima relaxado, do restaurante ao ar livre, estavam comendo em um hotel cinco estrelas, não um cachorro-quente servido no carrinho da esquina.
Joe notou sua indignação, e balançou a cabeça antes de dirigir-se ao garçom.

— Eu também seguirei sua sugestão. Quero experimentar comida local.

O garçom assentiu e afastou-se. Determinada a explorar a subjacente sensualidade da Jamaica com a pessoa apropriada, seu namorado, Demi afagou o braço de Elliott. A única coisa que sentiu sob os dedos foi o suave emaranhado de pêlos escuros.

— Que tal seu drinque, o especial da casa?

Elliott apertou os lábios esculpidos e cheios, e considerou sua bebida. Demi recordou que, na primeira vez em que o viu, o que mais a atraiu nele foi sua boca sexy.

— Um pouco mais de leite de coco e ficaria excelente.

Martin aproximou-se com a comida.

— Que tal as bebidas? Gostaram? — Colocou uma travessa fumegante com temperos exóticos entre Joe e Demi e serviu os sanduíches de peru a Elliott e a Kiki, preparados de acordo com as especificações.

— Sim, são muito bons.

— Desejam mais alguma coisa?

— Quero um pouco de pimenta vermelha em meu sanduíche. De preferência, que esteja dentro do prazo de validade, por favor — pediu Elliott.

Demi conteve um esgar irritado. Elliott gostava de se impor. Devia ver aquilo como um trunfo, uma exibição de sua estabilidade. Após atender ao pedido de Elliott, Martin sorriu.

— Bom apetite. Vocês devem querer fazer a siesta após a refeição. As pessoas costumam dizer que aqui na Jamaica os dias são longos, e as noites, mais longas ainda. — O garçom em seguida os deixou. A siesta. Algumas horas na intimidade refrescante do quarto. Talvez uma hora na piscina particular da suíte, ou na hidromassagem no suntuoso banheiro de mármore. A idéia não animou Demi. Ali estava ela em um dos lugares mais românticos e lindos do planeta, junto com o homem com quem pretendia se casar, e a emoção mais forte que experimentava em relação a ele era contrariedade. Joe se moveu no assento ao lado, seu joelho roçando de leve a perna dela. O breve contato a excitou. Afastou-se rápido.
Joe parecia alheio à reação dela. Algo ali estava muito errado. O toque de Elliott não a esquentava, enquanto o de Joe a incendiava. Quem sabe o culpado disso fosse a diferença das horas mexendo com seus sentidos, embora Nashville e Ochos Rios se situassem no mesmo fuso horário. Talvez ela de fato precisasse daquela siesta para retornar ao normal.
Determinada a acabar com as respostas inadequadas de seu corpo aos dois homens presente, Demi serviu-se, a boca enchendo de água diante do aroma exótico.

— Tenho passando muito tempo sentada a uma mesa de trabalho, e por nada neste mundo desperdiçaria este dia tão lindo. Vamos agitar!

Kiki se deixou contagiar com seu entusiasmo.

— Que tal alugarmos jet skis? Seria uma delícia! Olhem só. — Ela apontou para dois casais passando por ali em seus jet ski e desaparecendo a distância na água azul-turquesa do mar do Caribe.

Joe assentiu.

— Acho uma boa idéia. E vocês?

— Era uma das coisas que eu pretendia fazer enquanto estivesse aqui — disse Demi. 

— Está dizendo que nunca pilotou um jet ski?

Será que Demi imaginou aquela nota condescendente na indagação de Kiki?

— Confesso que eu nunca cheguei perto de uma dessas máquinas. — Elliott meneou a cabeça.

— Você pode ir comigo, Demi — Joe interveio.

— E quanto a mim, considerarei uma honra iniciar Elliott nesse prazer — Kiki se ofereceu.

— Só se você prometer ser paciente comigo. — Elliott a fitou com fingida inocência.

Será que Elliott possuía senso de humor? Demi desconhecia isso.

— Confie em mim. Você vai adorar, tanto que implorará por uma segunda vez — brincou Kiki, correndo uma de suas longas unhas vermelhas pelo braço dele.

— Como resistir a uma oferta dessas?

— O que acha, Demi? — Kiki a encarou.

Ela olhou para Joe.

— Não posso pensar em ninguém mais com quem eu gostaria de partilhar de minha primeira vez.

— Você vai gostar, Demi, eu prometo.

— Espero que minha inexperiência não seja um problema para você.

— Que nada! Só precisará relaxar. O resto, deixe comigo. Sou experiente no assunto. 

Demi jamais duvidou disso. Demi puxou as cortinas das janelas francesas, deixando o aposento às escuras. O piso de ladrilho estava quente sob seus pés descalços, onde batia o sol de meio de tarde. Sentiu o solo mais frio ao entrar no aposento e se aproximar da cama.
Sentou-se  nela.  Elliott,  ali  deitado,  era  um  espécime  espetacular  de masculinidade. Muito apropriado que lecionasse literatura clássica grega e romana. Possuía  uma beleza  clássica  impressionante.  Nariz  aquilino,  lábios  cheios,  olhos contornados por cílios muito longos e espessos. Mesmo Demi sendo alta, ainda assim ele a superava em estatura por uns bons dez centímetros. Suas pernas, embora não fossem muito musculosas, eram longas e fortes.

— Precisa mesmo fazer isso? Digo, examinar essas provas?

Elliott desviou o olhar da pilha de papéis diante de si.

— Sim. Mas devo terminar tudo em duas horas. Teremos tempo para andar de jet ski.

Em vez de desapontamento, Demi sentiu um enorme alívio. Estiveram bastante afastados um do outro nas últimas semanas, mais do que ela percebera, e agora precisavam de um pouco mais de tempo juntos antes que Demi estivesse pronta para entrar em uma banheira de hidromassagem com Elliott.
Naquela noite, durante um jantar romântico, eles tomariam algumas taças de vinho, relaxariam, e aí então as coisas seriam diferentes.
E  quanto  a  Joe  e  Kiki?  Demi  apostava  que  no  quarto  deles  ninguém examinava papéis. Quantas namoradas Joe tivera em todos aqueles anos? Perdera a conta. Então, que química desequilibrada em seu cérebro fazia com que a perspectiva de Kiki e Joe juntos tanto a incomodasse?
Afastou-se do leito. Tinha de encontrar outra coisa para fazer além de observar Elliott trabalhar, e de especular sobre a vida sexual de Joe e Kiki.
Combinaram de se encontrar na praia, no lugar onde se alugava jet ski, e ela estaria lá. Enquanto isso, havia muito o que fazer e lugares a explorar. Calçou seus tênis.

— Vejo-o às quatro.

— Hum — murmurou Elliott, distraído.

Demi saiu, duvidando que ele tivesse sequer notado. Uma energia inquietante a impelia a andar.
Assim, deixou o hotel e alcançou o passeio que circundava o exuberante jardim. De repente, parou, como que hipnotizada pela beleza dos papagaios e das araras coloridos empoleirados na densa folhagem.

— São maravilhosos, não acha?

Demi virou-se, surpresa, e avistou Martin, o garçom que os servira no almoço.

— Sim, muito. Tudo aqui é sensacional.

Martin não estava usando seu paletó branco.

— Já deixou o trabalho, Martin?

— Não ainda. Temos algumas horas de folga antes do jantar. Vou ver minha mulher e meus filhos. São apenas alguns quilômetros daqui até minha casa. Na verdade, oito, que percorrerei de bicicleta só para vê-los.

Oito quilômetros pedalando para ver a família, antes de voltar para outro turno. “Isso se chama amor, dedicação.”

— Quantos filhos você tem?

— Dois, um casal, de sete e cinco anos. São ótimas crianças, e bastante inteligentes.  Costumam ir cedo  para a cama por causa da escola, e eu costumo encontrá-los dormindo quando volto para casa. — Puxou uma fotografia da carteira que tirou do bolso.

Um menino e uma menina, ambos de uniforme escolar, com sorrisos iguais ao do pai, ladeavam uma mulher alta e magra, com os cabelos em tranças, que sorria também. Os três encontravam-se diante de uma casinha de madeira pintada de amarelo e com um belo jardim florido.

— São adoráveis. Parecem-se com você. Esta é sua mulher?

—  Sim,  Mathilde.  —  Apontou  para  os  garotos.  —  Terrence  e  Louise. Considero-me um homem afortunado.

A emoção nos olhos de Martin levou lágrimas aos dela. Ambos sabiam que ele não se referia à fortuna material. Seu óbvio amor à família intensificou a resolução de Demi de ter um marido e filhos para amar.

— Sim. Sem sombra de dúvida, Martin.

Ele guardou o retrato na carteira.

— Não quis fazer a siesta?

— Não. Estou muito agitada, para dormir.

Isso soou melhor do que “meu namorado está ocupado examinando provas escolares, e eu aqui me roendo porque meu melhor amigo está nos braços de outra mulher”.

— Talvez você tenha um pouco de nativa... — Ele inclinou a cabeça para o lado e a analisou. — Espero que não me julgue um intrometido, mas já pensou em fazer tranças?

— Como Mathilde? Confesso que não.

— Possui ossos faciais adoráveis, senhorita, e seria uma excelente escolha. Se decidir tentar, vá ao salão de beleza do hotel. Pergunte por Katrina, minha prima. Ela é a melhor cabeleireira de Ochos Rios. Diga-lhe que Martin a recomendou.

Ninguém antes mencionou que ela possuía ossos adoráveis no rosto. Martin devia receber uma comissão para cada cliente que enviava à prima Katrina, mas Demi não reprovaria nada que um homem tão enamorado da família fizesse.
A idéia de ter a cabeça repleta de trancinhas começou a agradá-la. Na certa lhe conferiria um visual ousado e sensual. Talvez seus problemas não fossem só Elliott, e tivessem muito a ver com sua própria atitude. Além disso, tranças ofereciam uma mais
sofisticada alternativa, além do costumeiro rabo-de-cavalo.

— Obrigada, Martin. Vou agora mesmo procurar Katrina. Aproveite bem sua família.


— Farei isso! Eu a verei na hora do jantar.

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Olá! Tudo bem? Dois capítulos em um msm dia... td para compensar minha demora!
Hoje estou nostálgica, uma certa Julia me pediu p escolher headers de Zanessa e agr... ai meu core ♥ Comentem para o próximo, ok? A história tem 11 capítulos + Epílogo! Respostas aqui' Beijos, amo vcs ♥
PS: Maratona lá no Emoção... Corre lá ;)

Apenas Amigos? - Capítulo 1

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Doze anos depois

— Então? O que acha? — Demi largou os panfletos turísticos sobre a mesa do restaurante.

Sabia de antemão o que Joe acharia da propaganda prometendo praias de areias alvíssimas, águas azuis e mais esportes náuticos do que se podia imaginar. E românticas noites tropicais, claro.
Joe olhou através da janela do restaurante para o céu cinzento e para a neve derretida nas calçadas.

— Ouvi dizer que a temperatura em Nashville continuará abaixo de zero pelo resto da semana.

Então, um sorriso lento revelou as covinhas nos cantos da boca que tanto encantavam  Demi,  as  mesmas  que  vinham  destroçando  corações  desde  o  curso primário.

— Sol, areia  e sexo.  Existe coisa melhor?  — Joe se pôs  a folhear os panfletos. — Alguma ocasião especial?

—  Podemos  dizer  que  sim.  Você  está  olhando  para  a  nova  diretora  de marketing da Capshaw & Griffen. E o melhor: a promoção vem junto com uma sala maior, toda envidraçada, e um excelente aumento de salário.

— Mas que bela notícia! — Ele pegou-lhe as mãos por sobre a mesa.

A genuína satisfação de Joe aprofundou suas covinhas adoráveis. Mesmo após todos aqueles anos de amizade, o coração de Demi batia mais forte toda vez que ele sorria.

— Eu mal podia esperar para lhe contar. — De fato, ela precisou fazer força para não chamá-lo pelo celular, preferindo que partilhassem a boa nova em companhia um do outro.

— Bem merecido. Você é brilhante e tem se esforçado muito nesses últimos oito anos. Como Charles recebeu a notícia?

Pobre Joe... Quantos almoços de fim de semana precisou agüentar durante as tribulações de Demi com seu arqui-inimigo, Charles Langley? Talvez o mesmo número de vezes que ela o apoiou e confortou.

— Não muito bem. — Demi mordeu um pedaço de pão de queijo. — Demitiu-se esta manhã quando soube de minha promoção. Bons ventos o levem!

— Mais uma vez, muito bem merecido. Aquele homem infernizou sua vida durante dois anos inteiros. Confesso que mais de uma vez me vi desejando encontrá-lo sozinho em um beco escuro, para esmurrá-lo. — Joe estava sempre pronto a lutar por ela.

— A vingança foi mais doce desse modo. Isso é para Charles aprender a jamais subestimar uma mulher com planos. — Demi colocou algumas azeitonas no pratinho do pão e passou-as a Joe.

— Planos e uma veia competitiva como a sua. Você agora deve ser a mais nova diretora de marketing da história da empresa.

Ela sorriu.

— Mas veja quem está falando... o maior sucesso em vendas da Rooker Sports Equipamentos em pessoa!

Joe devorou as azeitonas, aceitando o elogio. Sabia que, para Demi, suas realizações significavam tanto quanto as delas.

— Esse excelente aumento... de quanto foi exatamente?

— Quer saber se vou ganhar mais do que você? — Ela meneou a cabeça. — Jamais lhe direi de quanto foi, mas vamos dizer que... estou alcançando rápido o seu patamar. Mas e então? Não acha que será divertido ir à Jamaica comigo e com Elliott? Com sua namorada, claro. — Pegou uma fatia de tomate com o garfo. — Diga que sim. Gostaria muito de tê-lo conosco. Por falar nisso, quem é sua namorada atual?

— O nome dela é Kiki. É muito simpática.

— Sim. Todas elas o são.

E na verdade eram, tanto que após partirem para a próxima, elas e Joe continuavam sendo amigos, formando, assim, um grande e feliz harém que nunca parava de espantá-la.

— Você muda de namorada como muitos homens mudam os canais de esportes na televisão.

Joe arqueou as sobrancelhas, com malícia em seus olhos verdes.

— Saiba que existem  excelentes  canais de esportes, Demi, e se ficarmos parados muito tempo em um só, acabaremos perdendo muita coisa boa passando nos demais.

Ela suspirou. Preocupava-se muito com Joe e seus relacionamentos.

— Pode ser... Mas sejamos sinceros, você tem uma forte tendência a sentir-se atraído por mulheres não muito brilhantes.

— Está querendo dizer que as inteligentes não querem nada comigo?

Como não? Um homem bonito, sensual e cativante como ele? Joe era um amigo maravilhoso, engraçado, atencioso, prestativo e carinhoso... mas em  todos aqueles  anos  não  foi  capaz  de  estender  a  mesma  atenção  a  nenhuma  de  suas namoradas.

— Estou dizendo que mulher alguma em seu juízo perfeito se envolveria com um rapaz que troca de canal a todo instante. — Demi classificou o sorriso dele como maldoso.

— Talvez eu ainda não tenha encontrado um canal que me impressionasse e me prendesse.

Demi estremeceu, diante da sugestão sensual na resposta muito masculina, o que  a  colocou  em  estado  de  alerta.  Não  havia  por  que  confessar-lhe  que,  na privacidade de seu quarto, ela pensava muito nele, mas não apenas como amigo. No entanto, canais especiais, impressionantes ou não, não cabiam dentro de uma amizade.

— Sobre o que vocês conversam quando saem juntos? — Demi estava curiosa.
O que o seduzia nesse tipo de mulher, além da óbvia atração física? Sexo apenas não bastava para tornar um relacionamento duradouro.

Joe deu de ombros.

— Não penso em conversas profundas quando estou com elas. É por você que procuro quando quero discutir a paz mundial.

Algumas vezes eles falavam durante horas sobre tudo e sobre nada. Em outras ocasiões, passavam longas horas juntos em confortável silêncio.

— Estive pensando sobre isso e decidi que você é emocionalmente imaturo.

— Sou homem, meu bem, e por isso tenho pleno direito de ser emocionalmente imaturo.

Demi detestava quando Joe se recusava a levá-la a sério.

— E tem se saído muito bem nisso. Vá em frente e divirta-se. Algum dia aparecerá alguém que partirá seu coração. Então, saberá o que é sofrer por amor.

— Isso jamais acontecerá.

— Como pode estar tão certo?

— Sempre se poderá mudar de canal, antes de começar a se interessar pelo jogo. — Joe pegou o prato de salada e serviu-se. — De qualquer modo, poderei contar com você para me ajudar a recolher os cacos, srta. Certinha. Diga, tem certeza de que Kiki e eu não vamos aborrecer seu namorado?

— Absoluta. Garanto que Elliott não se importará quando eu disser que vocês irão conosco.

A viagem seria bem mais divertida com Joe. E com... Kiki.

— Então não o informou de que pretendia nos convidar? — Joe sorriu. — Quer dizer que você coordena toda a viagem e o avisa apenas do dia e da hora em que deverá comparecer ao aeroporto?

— Mais ou menos isso. Elliott prefere assim. Ele anda muito atarefado.

— Vocês dois discutem alguma coisa além da paz mundial? — Joe reverteu a situação.

Sendo professor de literatura grega e romana na Universidade de Vanderbilt, Elliott era sempre tão sério e compenetrado que um leve toque de frivolidade não lhe faria mal.

— De vez em quando. Nós dois estamos precisando de alguns dias longe do trabalho.

Demi esperava que a viagem de férias agilizasse o relacionamento estagnado dos dois. Aquela temporada de férias na Jamaica faria bem a ambos.
Naomi, a garçonete que costumava servi-los, se aproximou, como sempre, encantada com Joe.

— O mesmo de sempre? — ela se dirigiu e Joe, que fez um sinal positivo com o polegar. — Ótimo. Vão dividir uma baklava ?

— Não, obrigada.

— Sim. Uma baklava e dois garfos, — Joe discordou de Demi.

Naomi tornou a sorrir, sonhadora, ao se afastar.
Joe causava aquele efeito em mulheres de todas as idades, nas muito jovens e até nas mais velhas, encantando todas, sem exceção. Demi agradeceu a Deus, e não pela primeira vez, pelo fato de ser imune a ele.

— Só vou querer um pouquinho. — Ela se permitiria pelo menos uma porção daquela delícia de bolo de nozes e mel. — Mas não me deixe abusar.

— Fique tranqüila. Bem, quando é que vai começar a me contar o que anda tramando?

— Como assim?

Ele se recostou no espaldar, cruzando os braços.

— É óbvio que anda maquinando algo.

Demi sabia de antemão como Joe receberia a notícia. Às vezes achava que o conhecia melhor do que a si mesma.

— Na realidade, estou, mas acho que isso não é nenhum crime.

Ela não fazia nada sem antes planejar. Já tivera surpresas suficientes para a vida inteira, aos seis anos, quando seus pais viraram seu mundo de ponta-cabeça. Desde então, passou a delinear cada passo que dava. Depois dos vinte anos, passou a se devotar  por inteiro  à  construção da  carreira, e alcançara aquela  meta  dentro  do cronograma. Agora era vez de investir na vida pessoal.

— O que pretende agora, Demi? A vice-presidência dentro de dois anos?

— Confesso que é algo a considerar, mas a coisa agora é diferente.

— Pretende começar a praticar ioga?

— Talvez no futuro. Por ora, estou pensando na Jamaica como um lugar ideal para passar minha lua-de-mel. Eu e Elliott saímos juntos há mais de um ano, e estamos pensando em um compromisso mais sério.

— Está querendo dizer que... vão se casar? Quer mesmo se casar com ele?!

Demi esperava que ele ficasse surpreso, mas Joe parecia atônito. Por que sentia-se tão culpada, como se de algum modo o estivesse traindo?

— Por que o espanto? Você tem algo contra Elliott?

Mas que pergunta idiota! Por um ou por outro motivo, Joe jamais aprovara seus namorados, desde que Demi saíra com um garoto pela primeira vez, aos dezoito anos... não! Desde que se apaixonara por Gary Pelhan, no colégio. Claro que ela também não gostava das várias namoradas que entravam e saíam do caminho dele sem cessar.

— Não. Não tenho nada contra ele. Elliott é um bom sujeito, mas não para casar. Não com você. Afinal, por que precisa de um marido, Demi?

— Não preciso, Joe, eu quero um marido. Assim como você, estou prestes a completar trinta anos, e gostaria de ter alguém a meu lado quando envelhecer.

— Lembra-se  de  quando  furamos  nossos  polegares  com  uma  agulha  e misturamos nosso sangue? Tínhamos nove anos, e prometemos que seríamos amigos para sempre, e que cresceríamos e envelheceríamos juntos.

Demi observou sua expressão séria. Como fazê-lo entender aquele vazio em seu coração, que ansiava por ser preenchido?

— Quero ter uma família, Joe.

— Mas você já tem seus tios.

— Sim, e eles são maravilhosos, mas sempre serão a família que o sofrimento me deu. — Ergueu a mão, interrompendo o protesto dele. — Meus tios me assumiram quando meus pais me abandonaram, mas nós não somos família por escolha, mas sim por obrigação. Meus pais... bem, sobre eles não há mais o que dizer. Minha próxima meta é construir minha própria família.

— Somos como uma família, Demi.

A de Joe também fora truncada. Ele agora dirigia luxuosos carros esportivos, que trocava por um novo modelo a cada ano, e seu trabalho ia de vento em popa. Suas namoradas... bem, quanto a isso Demi não tinha mais o que comentar. O único relacionamento duradouro de Joe era o que mantinha com ela, e ele a conhecia como ninguém. Todavia, parecia não entender sua ânsia por estabilidade e por uma família para chamar de sua.

—  É  verdade,  querido,  mas  quero  uma  aliança  no  dedo  que  simbolize compromisso. Quero um marido que volte para casa todas as noites, que me dê segurança e, em poucos anos, um bebê. Quero ter o lar que nunca tive.

Naomi colocou a baklava entre eles e examinou o catálogo do Hot Sands, um luxuoso hotel na Jamaica.

— Isso deve ser um paraíso. Pretendem viajar para lá?

Joe exalou um suspiro.

— Demi acha que o lugar é perfeito para passar a lua-de-mel.

— Maravilha! Fico feliz por vocês.

Demi  conteve  a estranha  agitação  causada  pelo  comentário  da  garçonete. Naomi não era a primeira pessoa a achar que havia algo mais entre os dois.

— Calma, Naomi, não é nada disso.

Joe engoliu em seco e forçou um sorriso.

— Na verdade, estou ajudando Demi a escolher um lugar para passar a lua-de-mel, mas com outro homem. Afinal, não é para isso que servem os amigos?

(...)

Trazendo as embalagens com comida, arroz, filé com brócolis, frango xadrez, e uma embalagem com seis  cervejas, Joe bateu  na porta de Demi pensando em conseguir matar dois coelhos com uma só cajadada. Pretendia sugerir que assistissem ao jogo de futebol na televisão e, durante o intervalo, tentaria convencê-la a desistir daquela idéia maluca de casamento.
Aguardando Demi vir atendê-lo, Joe sentia o vento gelado infiltrar-se para dentro da sua jaqueta de couro.
Aquela viagem à ensolarada Jamaica talvez não acontecesse tão logo. Esperava que, antes disso, Demi pesasse melhor o assunto e que eles dois pudessem aproveitar juntos aquela semana de sol, areia e sexo... e não necessariamente nessa ordem.
Dessa vez, tocou a campainha, e Demi veio abrir a porta. Usava seu traje costumeiro de domingo à tarde: camiseta sobre calça de moletom folgada e tênis.

— Olá. Ainda bem que chegou. Estou morrendo de fome, O que comprou para nosso almoço?

— Comida chinesa. — Ele mostrou as embalagens.

— Ótimo. — Demi se afastou para o lado e pegou as cervejas da mão dele. — Entre. Coloque sobre a mesinha. Vou guardar isto na geladeira.

Joe balançou a cabeça diante da desordem que encontrou sobre a mesa e sorriu. Embora Demi fosse a rainha da eficiência em se tratando de sua profissão, no que se referia às prendas domésticas era uma verdadeira tragédia. Ele colocou a jaqueta sobre a dela no encosto da poltrona.
Ligou a tevê e abriu as embalagens de comida fumegante. Um fogo abençoado ardia na lareira. A casa de Demi, embora meio bagunçada, era sempre aconchegante.

— Vai querer uma cerveja? — ela ofereceu da cozinha,

— Sem dúvida.

Bridgette, a cadela collie de Demi, aproximou-se dele e pousou a cabeça em sua perna.

— Ei, garota, não pense que me engana com todo esse carinho. Sei que está interessada no cheirinho gostoso que está sentindo. — A cachorra o fitou com seus solenes olhos castanho. — É uma pena, mas essa comida é um veneno para os cães.

Com um olhar resignado, Bridgette acomodou-se aos pés da poltrona. Demi por fim apareceu, trazendo pratos, talheres, guardanapos e duas cervejas. Seu riso fácil sempre o fazia pensar nas águas cristalinas de um riacho.

— Ela ainda não descobriu que é uma cachorra.

Joe esparramou-se em uma das pontas do sofá, e Demi acomodou-se na outra, começando a servir-se. Joe fez o mesmo.

— O que pretende fazer com Bridgette enquanto estiver na Jamaica?

— Ela ficará com meus tios. Tia Caroline e tio Frank não sabem dizer não aos animais solitários. — Uma certa  melancolia tocou  seu  sorriso diante do próprio comentário.

— Não é nenhum sacrifício para eles cuidar daqueles que amam. E Bridgette ficará mais feliz com os dois do que no canil.

“A doce e gentil Demi... Algum dia ela se dará conta do quanto os tios a amam?”, ele pensou.

— Tem razão. — Demi olhou para a televisão. — Não íamos assistir ao jogo?

— Claro que sim.

— Aposto cinco dólares como os Rangers vão ganhar dos Flyers!

Joe estava prestes a tocar no assunto Elliott quando Demi se adiantou:

— Kelly está animada com a viagem à Jamaica?

— Kiki. O nome dela é Kiki. E sim, está animadíssima.

— O que ela faz para viver? — Demi indagou, sem afastar os olhos da tela da televisão.

— É cientista.

— Certo, mas como ganha seu sustento? — Demi partiu um pedaço de brócolis e o colocou na boca.

— É cientista especializada na energia dos raios.

— Está falando sério?!

—  Formada  pelo  Instituto  de  Tecnologia  de  Massachusetts.  E  fala  cinco idiomas.

Joe não dava a menor importância àquilo. Não estava atrás de nenhum namoro sério, e Kiki era divertida, com ou sem tanto preparo. No entanto, isso pareceu ter impressionado Demi profundamente.

— Oh...

Joe deu de ombros.

— Como vê, há pelo menos uma garota inteligente interessada em mim.

Demi estreitou os olhos.

— E como é ela? Bonita?

— Muito. Foi miss Texas.

Demi sentou-se um pouco mais ereta no sofá.

— Quando vai nos apresentar? Estou ansiosa por conhecê-la.

— Kiki também quer conhecer você.

Demi olhou para seus trajes deselegantes.

— Ainda bem que ela não pode me ver agora. Não estou nos meus melhores dias.

— Que nada! Está muito bem assim.

Com sua gloriosa cabeleira loira revolta, e dentro de uma de suas camisetas largas,  Demi  tinha  uma aparência  que,  de  repente,  Joe  descobriu  como  sendo bastante tentadora. E isso não era nada bom.
Joe estendeu a mão para o rosto dela e, com o polegar, retirou um pedacinho de salsa de seu lábio, demorando-se ali por mais tempo do que o necessário.

— ... além de muito sexy.

Demi o fitou como se ele tivesse enlouquecido.

— Não precisa mentir desse jeito só para me agradar. Ainda há bastante carne com brócolis. Não quer mais um pouco?

— Sim, obrigado. — Joe colocou mais comida no prato, para disfarçar o constrangimento que ele próprio causara. Pretendia fazer-lhe apenas um elogio, e por pouco não lhe fez uma proposta amorosa. — Tem certeza de que Elliott não achará ruim viajar comigo e com Kiki?

— Ele concordou quando conversamos pelo telefone.

— Já pensou bem sobre querer entrar nessa de... casamento com Elliott?

— Lógico. Já tenho tudo planejado. Nós nos damos muito bem, e gosto o suficiente dele. Elliott é estável e digno de confiança, e sei que me fará feliz.

“Conversa! E se eu não tomar alguma atitude e rápido, Demi acabará se casando com Elliott só para ver sua droga de plano dar certo!”
Elliott não era para ela, porque... bem, Joe não sabia direito o motivo; sabia apenas que não era.
Se Demi fazia tanta questão de se casar, Joe a ajudaria a encontrar um marido. Mais tarde, talvez, quando eles retornassem da viagem à Jamaica. Precisaria ser alguém que apreciasse sua beleza e inteligência, sua presença de espírito e suas inúmeras qualidades, e não um machão incapaz de tolerar sua forte personalidade e veia competitiva. E essa pessoa de modo algum era Elliott.
Joe suspirou antes de tomar um gole de cerveja. Precisava encontrar um modo de convencê-la a desistir daquela idéia maluca. Sendo seu melhor amigo, não podia permitir que Demi se casasse com a pessoa errada.

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Aqui está mais um... Hey hey! Tudo bem? Desculpem a demora, estava adiantando e finalizando algumas encomendas... Ta td uma correria, porém o ano está acabando \o/ Nada mais para falar, estou morrendo de sono! Respostas aqui' Beijos, amo vcs ♥