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No domingo de manhã, estavam todos reunidos tomando o café
da manhã quando Kate perguntou:
—Mamãe, por que está dormindo no quarto de Michael?
A pergunta se deu porque Michael dormira até mais tarde e Demi perdera a hora. Depois de várias noites insones na pequena cama, estava
exausta. Na noite anterior, aconchegara-se ao urso de pelúcia e dormira
profundamente até ser acordada por Sam. Sentia-se cansada, pois as horas de
sono aliviaram o corpo, mas não o espírito. Apesar de ter dormido sem
pesadelos, acordara com a mesma angústia e depressão, incapaz de resolver a
situação. O pedido de Joe para que não tomasse nenhuma decisão até estar
mais estável emocionalmente servira como desculpa para sua falta de
ação; a vida passava por ela como se fosse um filme fora de foco. Joe, abatido, não parecia muito melhor. Desde o telefonema de
Amanda, voltara a chegar em casa às seis e meia da tarde. Demi suspeitava que
o motivo fosse sua crítica ao comportamento dele como pai, mais do que uma
tentativa de provar que o caso havia terminado. Sempre estava presente para
ajudar no banho das crianças, enquanto ela preparava o jantar. A vida da
família parecia normal, devido ao esforço do casal em esconder das crianças
seus enormes problemas. Jantavam em silêncio, e as poucas tentativas de Joe de manter algum tipo de conversa eram ignoradas por Demi. Logo ele desaparecia em seu
escritório e ela lavava a louça e ia para o quarto de Michael, sentindo
aumentar a solidão e a tristeza a cada dia. Surpreendida pela pergunta da filha, tentou encontrar uma resposta
aceitável. —Os dentinhos de Michael estão nascendo — respondeu, consciente de que Joe a observava por trás do jornal dominical, mas não lhe dirigiu o olhar. No
momento, não se importava com a reação dele.
A pequena Kate, satisfeita com a resposta, voltou a atenção para seu
adorado pai. Saindo da cadeira, aconchegou-se em seu colo.
—Papai, aposto que deve estar sentindo falta da mamãe na sua
cama. Se tivesse me falado antes, eu teria ido fazer companhia para você. — A
tensão estava no ar, apesar de não ser percebida pelas crianças.
Joe deixou o jornal de lado para dar total atenção à
filha.
—Você é muito gentil, minha princesa. Acho que posso aguentar
mais uns dias sem me sentir completamente rejeitado.
Se a resposta era uma indireta para Demi, ela ignorou e
sentou-se para tomar o café, concentrando no ato toda sua atenção.
Joe estava sentado em frente, vestindo apenas o roupão de
banho que cobria parcialmente seu peito forte. Abaixou-se para beijar a cabeça
da filha e seu sorriso amoroso provocou um ciúme doentio em Demi. Levantou-se,
chocada por sentir inveja da própria filha. O desespero fez com que começasse a tirar a mesa. Joe ergueu o
olhar para ela, que não conseguiu desviar o seu, mostrando uma expressão tão amarga, que o
deixou intrigado. De propósito, ela acabou com a atmosfera
calma que reinava, fazendo barulho ao começar a lavar a louça. A tentativa de fazê-los sair da cozinha foi ignorada.
Sam conversava animado com Kate e Joe e até Michael, tirado de seu
cadeirão para o outro joelho do pai, participava feliz da atividade dos irmãos.
Para Demi, a cena familiar era insuportável. Lydia aparecera em seu caminho, separando-a da família como uma parede alta, impedindo que partilhasse o amor e afeição que sempre imaginara garantidos. Desistiu de terminar a limpeza, pois ainda poderia quebrar alguma coisa.
Para Demi, a cena familiar era insuportável. Lydia aparecera em seu caminho, separando-a da família como uma parede alta, impedindo que partilhasse o amor e afeição que sempre imaginara garantidos. Desistiu de terminar a limpeza, pois ainda poderia quebrar alguma coisa.
—Vou arrumar as camas — murmurou, sabendo que ninguém a ouvira e
sentindo-se ainda mais rejeitada.
Parou no meio do quarto, com o olhar vazio, e logo Joe entrou.
Apressada, entrou no banheiro da suíte, fingindo que era o que estava para
fazer quando ele abriu a porta. Ao sair, viu Joe na frente da janela, com as mãos nos bolsos do roupão.
Sua figura era tão atraente que sentiu vontade de jogar alguma coisa nele,
qualquer coisa que ajudasse a aliviar seu sofrimento.
Forçou-se a ignorá-lo e começou a guardar as roupas. Queria
arrumar a cama, mas não na presença dele. Desde o telefonema de Mandy era um
sacrifício ter de afofar os travesseiros e alisar a colcha. O cheiro familiar de Joe despertava sensações que desejava adormecidas, principalmente por querer acreditar que haviam sido destruídas por ele.
Infelizmente, seu desejo só aumentava.
Virando-se, ele observou-a movimentar-se pelo quarto. Depois de um tempo, quando o silêncio dominava o ambiente, Joe aproximou-se e ficou na frente dela.
—Demi — disse gentil, querendo que ela o encarasse em vez
de
ficar olhando o chão. — Está lembrada que vou passar a semana que vem em
Birmingham? Não, ela não se lembrava. Irritada com a ousadia dele em colocar os
negócios em primeiro plano quando a vida particular estava em crise, perguntou de
modo gélido.
—Que roupas quer que eu coloque na mala?
Será que Lydia iria junto? Será que passariam uma semana livres de
qualquer amolação?
Com o coração descompassado, manteve-se firme no lugar.
Desde a noite da revelação, era o mais próximo que estavam fisicamente, e a
consciência da masculinidade do marido perturbou-a.
—O que quiser — ele disse, impaciente. Sempre que
viajava, a mala dele era carinhosamente arrumada.
Mesmo agora, esperando ansiosa que
se afastasse para uma distância segura, e com vontade
de mandar que ele mesmo arrumasse a mala, Demi fazia
uma lista mental de tudo que deveria colocar na mala.
Riu de si mesma. Você já está condicionada!
Joe não se moveu, e a tensão entre eles ficou
insuportável.
—Será que você vai ficar bem? — perguntou, receoso que ela
pudesse se irritar. Fora cuidadoso a semana inteira para não lhe dar oportunidade de
desencadear um desentendimento. — Eu... eu posso chamar minha mãe para
ficar, se sentir necessidade de companhia ou...
—E por que eu necessitaria de uma companhia? Sempre me virei
bem na sua ausência e não falharei agora.
—Não estou questionando sua capacidade. Mas está cansada, e
acho que com tudo o que aconteceu, seria melhor ter alguém para ajudar, é só
isto.
Cansada? Não, estava exausta!
—Sua secretária vai junto? — Droga, não queria fazer a
pergunta, mas não se conteve.
—Sim, mas...
—Então não preciso me preocupar com seu conforto, não é?
—Demi, Lydia não...
—Eu não quero saber. — Magoada, ela empurrou-o e afastou-se.
—Então, por que perguntou? — ele falou, com a voz alterada.
Depois, fez um esforço para se controlar. — Demi, nós precisamos falar sobre este
assunto!
Ela começou a arrumar a cama e tentava manter-se ocupada.
—Meu Deus, isto não pode continuar assim. Precisa entender. Kate já
notou e em pouco tempo vai estar calculando há quanto tempo você está no
quarto de Michael.
—E não podemos magoar nossa querida Kate, não é? —ela perguntou,
deixando o ciúme transparecer.
A cama estava pronta, já podia sair do quarto...
—Deixe-me explicar sobre Lydia — Joe falou, cauteloso. —
Ela não...
—Está planejando passar o resto do dia em casa?
—Sim, por quê?
—Porque quero sair e, se vai
ficar aqui, me poupa o trabalho de pedir para minha mãe vir
e tomar conta das crianças.
Não fora uma decisão consciente, nem sabia por
que havia dito aquilo, mas a ideia de ter um tempo só para si era
vital para sua sanidade.
Procurou no guarda-roupa sem saber o que vestir, até
decidir-se por um conjunto confortável. Joe estava chocado e ficou imóvel
até ela terminar de se arrumar. Só então pareceu acordar.
—Se estava querendo
ir a algum lugar, era só falar. Em dez minutos me visto e podemos sair todos
juntos. — Apressada, ela calçou os tênis, deixando-o ainda mais confuso.
—Demi, não faça isto! —A voz dele estava embargada. Finalmente
entendera que ela queria sair sozinha.
—Você nunca saiu sem a gente antes. Espere um pouco e todos
nós... — Era verdade. Nunca havia saído sozinha antes. Ou estava com Joe ou
com as crianças ou com a mãe dele. Pelo amor de Deus, logo faria vinte cinco
anos e era uma dona de casa com três filhos e um marido que...
—Vou sair sozinha. Não vai morrer se ficar com as crianças
pelo menos uma vez na vida!
—Sei disso, é que você nunca...
—Exatamente. Enquanto esteve ocupado, aumentando sua fortuna e
tendo seus casos, fiquei quieta, estagnada nesta droga de casa!
—Não seja tola — ele segurou-a pelo pulso. — Isto é
ridículo, está agindo como criança!
—Mas é justamente isto Joe, será que não percebe? É
exatamente o que eu sou. Uma criança super protegida. Não amadureci porque não tive
chance. Lembre-se de que casamos quando eu tinha dezessete anos! Eu ainda estava no colégio! E,
antes de você, meus país me
mantiveram numa redoma! — Meu Deus, que choque deve ter sido para
eles descobrir que sua pequena e inocente filha dormia com o
grande lobo mau, sem que eles soubessem. A descrição era para rir ou chorar, e
ele riu.—Então fiquei grávida e arranjei outros pais: você e sua mãe!
—Isto não é verdade, Demi! Nunca encarei você como uma
criança. Eu...
—Isto é loucura!
— Loucura? Como pensa que me sinto por ter permitido que me
magoasse? Na verdade, eu parei no tempo e permiti que me tratasse assim.
Veja o que aconteceu, está cansado de mim! Por favor, deixe-me sair. — Com um
soluço, livrou-se da mão que a segurava e saiu do quarto. Desceu a escada e
lembrou-se de pegar a bolsa na mesa do hall antes de sair para a rua. Como o
carro de Joe impedia a saída do seu, simplesmente saiu andando para longe da
casa moderna que compraram havia cinco anos. A casa era nova e fora construída
num bairro distante do centro. Assim que entrara no imóvel, apaixonara-se pelo tamanho
e pelo espaço que oferecia, muito maior que o
apartamento no centro de Londres, que alugavam desde o casamento. No momento,
queria estar longe o mais rápido possível. Atravessou a rua arborizada na direção da avenida principal. Sumiria antes
que Joe fosse procurá-la. Levaria algum tempo até que ele conseguisse vestir as três
crianças, se arrumar e sair de carro atrás dela. Demi entrou no primeiro
ônibus que passou. A condução ia até o centro de Londres. Encostou-se na janela
e olhou para fora com tristeza. Chegando ao centro, desceu e andou pelas ruas
silenciosas no domingo, cortadas pelo ar frio de setembro. Gostaria de
descobrir quem ela era de verdade. Jamais questionara o
amor de Joe. Mas questionava agora e admirou o modo tranquilo com que ele aceitara
a responsabilidade, quando ela engravidara. Joe pagou o preço por ter se
envolvido com uma jovem inocente. E se tinha uma vida paralela à que levava com
ela, era porque considerava um direito seu. Demi percebeu que ele nunca compartilhara a vida excitante que levava, além dos limites do casamento
bem-comportado. Um casamento que ele criara para ela brincar de esposa e mãe,
porque era exatamente o que desejava ser. Andou durante
horas sem perceber. Só quando estava exausta decidiu
voltar para casa. Tomou um táxi porque sentia frio, fome e porque, de repente, sua
casa era o único lugar onde queria estar.
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Oi, meus amores! Tudo bom? Eu estou bem! Estou feliz, muito feliz msm q vcs estão gostando! Confesso q na primeira vez que li essa história eu chorei oceanos... Bem, como já disse (já disse, não?) ela é bem curtinha, tem apenas 11 capítulos, então já estou indo atrás da próxima! Comentem para o capítulo quatro, meus bbês ♥ Respostas aqui - Beijos, amo vcs <3
PS: Não se esqueçam de visitar meu outro blog e da Mari tb, Emoção, começamos uma nova história essa semana, vcs vão gostar <3



