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26.12.14

Remember Me - Capítulo 14

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Joseph engoliu seu último pedaço de torrada quando Demi entrou na cozinha.
— Está levando bastante agasalho? — perguntou. — Apesar de ter parado de nevar, está muito frio lá fora.
Ele riu, engoliu e respondeu:
-Sim, mamãe. Minhas luvas estão na caminhonete e estou usando ceroulas por baixo do jeans.
Um leve sorriso pairou nos lábios de Demi.
— Está bem, sou exagerada… — tirou a xícara de café da mão dele, colocou-a sobre a mesa e pediu: — Abrace-me.
A ternura na voz dela comoveu-o.
— Com o maior prazer — respondeu suavemente. — Venha aqui, meu anjo.
Demi aninhou-se ao peito dele, adorando a força com que o marido a abraçava e a textura da camisa de flanela contra seu rosto.
— Acha que vai ficar bem sozinha aqui, Demi? Posso deixá-la na casa de minha mãe ou ela pode vir ficar com você.
A urgência de se esconder era tão intensa que Demetria teve que fazer força para recusar; não podia permitir que o medo dominasse a vida deles para sempre. Além disso, não se sentia bem-disposta e não gostaria de ter que conversar com alguém.
— É melhor que não — recusou, com um sorriso de desculpa.
Adorava os sogros, mas não a agradava ser o centro da atenção deles.
— Afinal, tenho meu revólver — acrescentou -, e Harold, o xereta, deve andar aqui por perto. Vou ficar bem.
Joseph teve que resistir à vontade de dizer a ela que não aprovava isso. O fato de sua mulher sentir-se ameaçada a ponto de comprar um revólver incomodava-o muito. Eles eram pessoas comuns. Aqueles acontecimentos não deveriam estar fazendo parte das suas vidas. E quanto a sarcástica referencia ao investigador particular, não podia censurá-la depois de tudo que ela havia passado. Olhou o relógio. Como Demi dissera, Borden chegaria a qualquer momento.
— Está bem, então… se você tem certeza.
Ela passou o braço pelo pescoço dele e puxou-o para beijá-lo.
— Beije-me Joseph, um beijo bem gostoso!
Ele sorriu.
— Bem, já que você insiste…
E obedeceu, enquanto Demi derretia-se contra ele. Momentos depois separaram-se com relutância.
— É melhor eu ir, enquanto enxergo direito. — Ele a fitou com atenção. — Você está mesmo bem? Parece-me pálida.
Demetria acreditou que era verdade, pois estava começando a enjoar.
— Vou voltar para a cama assim que você sair, está bem?
Joseph encostou as costas das mãos na fronte e depois no rosto dela.
— Você não tem febre — concluiu.
— Joseph…
— Olhe, meu bem, vou telefonar para meu pai e…
— Não. Pode ir trabalhar — interrompeu-o Demi.
— Está bem, mas se precisar de mim, telefone. Promete?
Ela fez que sim, acompanhou-o até a porta e ficou olhando-o entrar na caminhonete.
Segundos depois seu estômago contraiu-se e ela correu para o banheiro.
Joseph ficou sentado na caminhonete, com o motor trabalhando, esperando que esquentasse um pouco. Ao mesmo tempo sua mente começou a trabalhar. A não ser por uma trilha de pegadas, a neve no jardim e nos galhos das árvores estava lisa e macia. Sorriu, pensando que se ainda fosse criança arranjaria uma boa desculpa para não ir à escola e fazer homens de neve o dia inteiro.
Duas vezes olhou ao redor para ver se o carro de Harold Borden aparecia, depois consultou o relógio. Ainda era cedo e havia a possibilidade de algumas ruas laterais ainda não terem sido limpas. Mas os limpa-neve deviam estar em ação, e ele precisava ir para o trabalho. Engatou a marcha e começou a dar a ré.
Momentos depois estava no meio da rua. Colocou o cambio na marcha de tração das quatro rodas e foi embora, olhando mais uma vez a sua casa pelo espelhinho retrovisor. Quando o fez, algo chamou-lhe a atenção, não na imagem refletida, mas na que surgiu na sua mente. Diminuiu a velocidade e parou no meio da rua, olhando atento pelo retrovisor e tentando detectar o que o perturbava tanto.
De repente descobriu o que era. Os cabelos em sua nuca arrepiaram-se, engatou a marcha-à-ré e saiu, com os pneus cantando. Parou na entrada de carros de sua casa e só quando desceu percebeu que suas pernas tremiam. Quanto mais olhava, mais assustado ficava.
Na neve, havia uma clara trilha de pegadas que circundava a casa. Pensar que alguém vigiara os movimentos deles e ouvira suas palavras chegava a ser obsceno.
Girou, olhando atenta mente ao redor, tentando ver se alguma coisa nas vizinhanças estava diferente. Não percebeu nada. Depois da nevasca, as casas da rua pareciam fazer parte de um cartão-postal perfeito. Olhou de novo as marcas de pés.
O calor o envolveu quando entrou em casa. Com as mãos trêmulas, fechou a porta atrás de si e percorreu os cômodos, verificando cada janela e acompanhando a trilha de pegadas. Foi quando chegou a cozinha que percebeu que não tinha visto Demetria. Não lembrava de que estivesse na cama e, mesmo assim, teria falado com ele, pois não poderia ter adormecido profundamente tão depressa.
— Demetria, onde você está?
Atravessou o hall, entrou no quarto e ouviu água correndo no banheiro.
— Demi, você está bem?
Ela apareceu de repente e ficou apoiada ao batente da porta, com uma toalha molhada encostada no rosto. Seus olhos pareciam enormes no rosto pálido.
— Você me assustou, Joseph.
— Desculpe, querida.
— Esqueceu alguma coisa?
— Não… — Ele hesitou apenas alguns segundos. — Olhe, Demi, temos que conversar, mas primeiro preciso fazer uns telefonemas e …
Antes que o marido terminasse, ela correu de volta para dentro do banheiro.
Joseph ficou surpreso com a saída repentina, mas pelos sons que ouviu compreendeu que ela estava vomitando. Entrou no banheiro também.
— Querida, você está mal!
Demetria foi para a pia e segurou-se nela, esperando que o banheiro parasse de girar.
— Só me ajude … — pediu. — Acho que preciso me deitar um pouco.
— Venha, meu anjo.
Ele a amparou até o quarto, ajudou-a a deitar-se e cobriu-a até o queixo.
— Já estou me sentindo melhor, Joseph.
— Ótimo. E vai ficar melhor ainda se ficar aí quietinha.
Ela deu-lhe um frágil sorriso, depois fechou os olhos, querendo que o mal-estar do estômago passasse. Ouvia Joseph movimentando-se no quarto. Quando abriu os olhos ele havia tirado o capote.
— A caminhonete não pegou? — perguntou.
Ele hesitou, mas por fim decidiu-se.
— Não foi a caminhonete.
Erguendo as sobrancelhas, ela fitou o marido com atenção. Joseph não costumava ser reticente.
— Então, o que foi?
Ele foi saindo do quarto.
— Deixe-me fazer uns telefonemas, depois conversamos.
Havia algo na voz dele que a fez sentir-se pior. E mais, Joseph não a olhara enquanto falava. Teve certeza de que se tratava de muito mais do que baterias descarregadas e ruas interrompidas pela neve. Sentou-se na cama.
— Por que não telefona daqui?
Ele parou à porta e voltou-se. Quando viu a expressão dos olhos dele, o coração de Demetria apertou-se.
— Conte-me, Joseph.
— Há uma trilha de pegadas circundando nossa casa.
Você pertence a mim… só a mim.
A lembrança explodiu na mente dela, deixando-a fraca e sem voz . Tudo que pode fazer foi gemer e cobrir o rosto com as mãos.
Joseph praguejou baixinho e foi sentar-se ao lado dela, que imediatamente agarrou-se às lapelas do seu paletó e, depois, passou-lhe o braço pelo pescoço.
— É ele, não é Joseph? Oh, Deus, ele voltou!
— Não sabemos se é isso — contrapôs Joseph, mas segurou-a forte contra si. — Fique quietinha, meu anjo. Vou telefonar para Borden e chamar a polícia.
Outra onda de enjôo a atacou, mas não era a mesma de antes. Essa passou, deixando atrás de si apenas desespero.
Joseph ajeitou-a melhor contra seu peito e discou, esperando que o investigador particular atendesse ao telefone. Quando em vez dele uma voz de mulher atendeu, hesitou, achando que talvez houvesse discado o número errado.
— Desculpe, acho que foi engano.
— Não, desculpe-me o senhor — respondeu a mulher. — Acho que eu é que não atendi direito. É que tudo hoje está tão horrível! Aqui é a Investigações Borden.
— Afinal, Harold cedeu e contratou uma secretária para ajudá-lo…
— Não é bem isso — discordou a mulher.
— Olhe, minha senhora, preciso falar com Harold. Ele está?
A mulher hesitou.
— O senhor é um cliente ou um amigo?
— Um cliente — respondeu Joseph com a testa franzida -, se bem que nos conhecemos a mais de dois anos.
Deu para ele ouvir o suspiro da mulher.
— Sinto muito ter que lhe dizer que o sr.Borden morreu. Ele foi morto num atropelamento-e-fuga nesta noite, quando saia de seu carro, em frente de casa.
Joseph sentiu como que um saco no peito.
— Alguém viu quando aconteceu?
— Creio que não. A esposa viu0o estendido na rua. Se o senhor é um cliente, a senhora dele pediu-me que indicasse que os casos em andamento sejam transferidos para Investigações Rocky Mountain. Trata-se de um grupo respeitável e Borden o considerava muito.
— Obrigado… — E Joseph acrescentou: — Transmita minhas condolências à sra.Borden.
Desligou e ficou imóvel, olhando para uma pequena mancha no papel de parede perto da cama.
Demi ouvira atenta as palavras do marido e quando ele disse as últimas teve um sobressalto. Só podiam significar uma coisa.
— Joseph…
— Harold Borden morreu, em frente da casa dele num atropelamento-e-fuga, nesta noite.
— Oh, não! Que horror! Eles tem alguma idéia de quem fez isso?
— Creio que não.
Demetria chegou-se ainda mais ao marido.
— Pobre sra.Borden! Imagino como ela está se sentindo.
— Sim…
Joseph digitou um outro número, dizendo a si mesmo que se tratava apenas de uma terrível coincidência, que a encrenca em que estavam nada tinha a ver com a morte do investigador. Momentos depois o segundo telefonema foi atendido.
— Aqui é Dawson.
— Joseph Jonas.
— Ora, ora! Levantou cedo hoje, hein? O que posso fazer pelo senhor?
— Alguém chegou muito perto da nossa casa esta noite.
O policial colocou metade do sanduíche que comia sobre uma pilha de pastas e ajeitou-se na cadeira.
— Algum xereta?
Pensando nas casas do quarteirão, Joseph chegou à conclusão que nenhuma tinha sido invadida, só a deles.
— Você é que deve me dizer, Dawson. Os jardins das demais casas estão intocados, sem rastros nem mesmo de cachorro.
— O senhor sabe como as crianças ficam quando neva. Querem recolhê-la toda.
— Ninguém recolheu neve nenhuma — garantiu Joseph. — Há apenas uma trilha de pegadas circundando a casa e saindo para a rua.
— Sim? O senhor não contratou um investigador particular? Talvez ele tenha ido até aí verificar de tudo estava bem.
— Não, a não ser que tenha sido o fantasma dele, pois foi morto num atropelamento-e-fuga, nesta noite.
Desta vez o investigador Dawson aprumou-se.
— Não me diga! — Remexeu uns papeis. — Está havendo uma série de estranhas coincidências.
— É exatamente o que penso.
— Muito bem. Vou chamar Ramsey e estaremos aí em quinze minutos. Espere-nos.
— Não vou sair daqui — afirmou Joseph e desligou.
Os olhos de Demetria estavam enormes, vazios, a expressão chocada.
— Demi…
Ela não respondeu.
Joseph sacudiu-a com suavidade.
— Demetria!
A cabeça dela descaiu sobre o ombro, como a de uma boneca quebrada; depois, Demi olhou para ele e estremeceu.
— Ele entrou pela porta da frente e eu pensei que fosse você. Estava sorrindo. Quando começou a rir alto, eu corri…
O ódio encheu o peito de Joseph.
— Desgraçado!
Ela piscou, tentando focalizar o rosto do marido.
— Eu o conhecia, Joseph. Era Pharaoh. Pharaoh Carn.

xx

A fumaça de incenso embaçou a visão de Pharaoh quando ele parou diante da estátua de Osíris. Perdera a noção de quanto tempo passara na sala subterrânea, mas devia admitir que seu coração estava mais leve, e seu propósito, mais claro. Lamentou sua anterior falta de discernimento e atribuiu-a ao fato de ainda não estar curado. Mas aqueles dias haviam terminado. Ficar entre aquelas relíquias lembrara-o de que quase havia ido para a eternidade. Os reis eram onipotentes. Eles ditavam as regras, não as seguiam. Como os antigos personagens que eram designados pelo seu nome, os faraós, ele ia destruir o inimigo e tomar de volta o que lhe pertencia. Já o fizera antes. Faria de novo. Voltou as costas para a câmara sem sol e penumbrosa onde estavam as esfinges dos antigos deuses. Havia muitas coisas que deviam ser feitas e pouco tempo para fazê-las.
Um pouco mais tarde, saiu da sala de sauna e encontrou Duke à espera. Despreocupado com a própria nudez, aproximou-se, virou de costas e enfiou os braços nas mangas do robe que seu assecla segurava, agasalhando com ele o suado corpo.
— Simon telefonou — informou Duke.
Pharaoh imobilizou-se.
— Aquele trabalhinho com o xereta já foi realizado.
— Qual? — indagou Pharaoh.
— O atropelamento-e-fuga.
Um sorriso de satisfação entreabriu os lábios de Carn.
— Sabe, é muito triste — disse com suavidade — mas as pessoas precisam aprender a olhar para os dois lados ao atravessar uma rua…
Duke sorriu.
— É, chefe, o senhor tem razão.
O estômago de Pharaoh manifestou-se.
— Estou com fome — declarou— diga ao cozinheiro que faça uma omelete de cogumelos. Tenho uns telefonemas a fazer, então quando ficar pronta leve-a para a biblioteca.
— Sim, senhor. Alguma coisa mais?
Pharaoh pensou na tarefa que tinha pela frente.
— Sim, traga-me o barbeiro… — Acrescentou em seguida: — E a manicure. Minhas unhas estão indecentes.
O capanga apressou-se a sair e Pharaoh foi para o chuveiro. Pela primeira vez depois do terremoto sentia-se bem. Realmente bem. Estava de volta a forma antiga, no controle total.

xx

O investigador Ramsey encontrava-se do lado de fora da casa dos Jonas, com um policial de técnicas tirando fotografias da trilha de pegadas na neve. Lá dentro, sentado numa poltrona com uma xícara de café nas mãos, Avery Dawson ouvia atentamente o que Demetria tinha a dizer. Várias vezes ele colocou a xícara de café sobre a mesinha e tomou notas. Num certo momento, interrompeu-a para perguntar:
— Então, o que a senhora quer dizer é que está começando a lembrar?
Demetria assentiu, olhou para Joseph que estava sentado ao seu lado e tornou a voltar-se para o investigador.
— As lembranças vêm mais vezes a cada dia que passa.
— E a senhora está acusando Pharaoh Carn como o homem que a seqüestrou a dois anos?
Ela fechou as mãos em punhos e escorregou um pouco mais para a beira do sofá. Sua voz tremia, e balançava o corpo enquanto falava.
— A porta estava fechada. Joseph sempre a tranca quando vai embora. Eles devem ter forçado a fechadura. Da cozinha, ouvi a porta abrir-se e achei que meu marido tinha voltado para pegar alguma coisa que esquecera.
— O que aconteceu então? — indagou Dawson.
— Eu sorria quando eles entraram…
— Eles?— interrompeu o policial.
A princípio, Demi pareceu surpresa com as próprias palavras, depois franziu a testa como se olhasse um quadro em sua mente.
— Sim, havia dois outros. Eram mais baixos do que ele, mas muito musculosos. Pareciam iguais…
— Estavam vestidos do mesmo modo? — quis saber Dawson.
— Não, mas pareciam irmãos.
O policial assentiu e escreveu algo.
— E aí, o que aconteceu?
— Ele riu… Pharaoh, quero dizer. Disse que estava procurando por mim fazia muito tempo. — Ela estremeceu. — Gritei e saí correndo…
Demi calou-se e fechou os olhos, lembrando-se da sensação de ser erguida e empurrada contra a parede.
— E?
Ela abriu os olhos, vazios de qualquer expressão.
— Ele me pegou.
— Como consegui levá-la para fora da casa sem ser observado?
Começando a tremer, Demetria procurou a mão do marido, que passou o braço pelos ombros trêmulos e apertou-a contra si. Ela tentou engolir para desfazer o nó na garganta, depois respirou fundo.
— Não sei. A última coisa que me lembro é de ser mantida contra o chão e de uma dor aguda no braço. Acho que me drogaram.
— Qual é a coisa seguinte de que se lembra? — quis saber Dawson.
De novo o olhar dela ficou sem foco.
— Não tenho certeza. Era um avião. Lembro-me de entrar num avião… — sacudiu a cabeça. — Sinto muito, mas minha mente está cheia de imagens que se atrapalham. — Endireitou os ombros. — Mas as poucas imagens de que consigo me lembrar sei que são verdadeiras. Pharaoh Carn levou-me embora da minha casa. Creio que fui levada para uma enorme propriedade. Os campos ao redor eram vastos e bem cuidados. Havia grades na janela do meu quarto e acho que se não fosse o terremoto eu ainda estaria lá.
— Está bem — disse o policial. — Se eu fizer uma acusação a senhora está disposta a testemunhar contra ele?
Só em pensar de ver de novo aquele homem revoltava o estômago de Demi. Ela cerrou os dentes e olhou para o marido, atenta à força que transparecia em seu rosto e ao amor que brilhava em seus olhos.
Ele assentiu.
Era a afirmativa silenciosa de que fosse o que fosse que ela decidisse, Joseph estaria ao seu lado. Quando tornou a olhar para Avery Dawson, o medo tornara-se decisão.
— Sim, estou disposta a testemunhar. Farei tudo que for preciso.
— Então, vou dar inicio aos trâmites legais — declarou o policial. Voltou-se para Joseph. — E vou passar sua teoria de atropelamento-e-fuga para homicídio. É um tiro no escuro, mas não faz mal cobrir todas as possibilidades.
— Obrigado, Dawson.
Soaram passos no hall e todos se voltaram para a porta quando Ramsey entrou.
— Tiraram as fotografias? — perguntou Dawson.
— Sim — respondeu Ramsey. — Além de congelarmos encontramos uma caneta-lanterna que alguém perdeu. — Ergueu o saco com uma lanterninha dentro. — É de algum de vocês?
— Não — respondeu o casal ao mesmo tempo.
— Foi o que pensei — Ramsey tornou a guardá-la no bolso.
Demi ergue-se num impulso.
— Você aceita um café?
O jovem policial abriu um enorme sorriso.
— Sim, senhora, se não for incomodar.
— Venha comigo — convidou Demi -, acho que ainda temos umas xícaras limpas.
— Traga-me uma também — pediu Dawson. — Temos de parar em mais alguns lugares.
Assim que os dois saíram, Joseph levantou-se.
— Qual é a nossa chance de ganhar o caso?
Avery Dawson sacudiu a cabeça.
— Não vou mentir para o senhor. É pequena, muito pequena. Um homem como Carn vai ter dúzias de álibis e de pessoas que jurarão por ele. A menos que tenhamos uma evidencia física, vai ser duro. Isso se conseguirmos que aceitem a acusação…
Joseph apertou os lábios e foi para a janela. Ficou lá, parado, olhando a luz do sol sobre a neve. Um casal ia passando pela calçada, conversando e rindo. A sra. Rafferty se achava no jardim de sua casa com uma vassoura, procurando o jornal por baixo da neve. O vizinho dela da direita estava no telhado, pendurando as lâmpadas de natal. Tudo parecia tão normal, no entanto tudo estava tão errado! Um homem louco escondia-se em algum lugar, observando todos os movimentos deles. Para onde esse homem havia ido? E quando voltaria?
— É uma vizinhança simpática — comentou Dawson. — Difícil imaginar um delinqüente andando por aqui.
Joseph enfiou as mãos nos bolsos e afastou-se da janela.
— É mesmo. Cresci nesta casa. Quando Demi e eu nos casamos meus pais compraram outra, foram morar lá e alugaram esta para nós. Esses vizinhos vêm fazendo parte da minha vida durante trinta e três anos. Nada mudou, a não ser por casamentos, mortes de um e nascimento de outros.
— Sei o que quer dizer — disse o policial. — É bom conhecer todo mundo ao redor. Mesmo que se torne um tanto monótono, é mais seguro.
— O que é mais seguro? — quis saber Demetria, entrando com o café para Dawson.
— Esta rua, a vizinhança… — respondeu Joseph. — Eu dizia que aqui nada muda.
— É verdade — concordou Demi -, a não ser pelos inquilinos da sra. Rafferty.
Joseph ficou imóvel por instantes, depois aproximou-se da janela de novo e observou a van cinzenta estacionada do outro lado da rua.
— O que foi? — interessou-se Dawson.
— Há um novo morador aqui faz dois dias.
— E daí?
— Daí que as únicas coisas que ele trouxe foram duas malas e uma caixa.
— Não trouxe móveis? — estranhou o investigador.
— O apartamento é mobiliado — informou Demi.
— Iremos verificar — garantiu Dawson — , mas não é proibido viajar com pouca bagagem.
— Tem razão — concordou Joseph. — Acho que estou tirando conclusões apressadas.
— Eu diria que o senhor esta sendo cuidadoso e não posso censurá-lo, diante das circunstâncias.
Pouco depois os policiais se despediram e saíram.
Joseph notou a expressão abatida da esposa e sugeriu:
— Vá deitar-se, meu amor.
Ela endireitou os ombros.
— Não quero discutir com você, mas não estou doente, apenas esquisita.
— Então, leve a sua esquisitice para a cama — brincou Joseph, fazendo-a ir para o quarto. — Talvez você consiga dormir um pouco. Vou telefonar para meu pai; há umas coisas que preciso fazer, mas não vou deixá-la sozinha.
Demetria não discutiu. Não podia. Atordoada, sentia que estava prestes a ver-se naquele lugar onde todo pensamento cessava e a pessoa sentia-se numa espécie de limbo.

xx

Simon Law andava de um lado para o outro. Estava nervoso desde que acorda com o dia já claro, naquela manhã. Praguejou em voz alta e foi até a janela, espiando por uma pequena fresta da cortina. Os tiras ainda estavam lá.
— Mas que droga!
Pharaoh não ia gostar daquilo, pois recomendara-lhe que ficasse quieto, que não fizesse nada. Mas ele quisera ter uma idéia da distribuição da casa e parecera-lhe uma boa idéia aproveitar-se da escuridão da noite. Como podia adivinhar que a maldita neve ia deixar de cair?
Espiou de novo para fora e acalmou-se um pouco. As pegadas terminavam na calçada em frente da casa dos Jonas. Não havia como suspeitarem dele. Observou sua van. Estava limpa. Certificara-se disso. O carro que usara para o atropelamento-e-fuga na noite anterior fora roubado meia hora antes de fazer o serviço e depois o largara no centro da cidade, perto de um bar. As coisas haviam sido feitas de acordo com o planejado. Se a maldita neve não tivesse parado de cair, tudo estaria perfeito.
Não. Pharaoh não poderia censurá-lo por isso. Quem podia adivinhar o que fariam as forças da natureza
Tentou relaxar.
Calma, pensou, as pegadas não querem dizer nada. Mas quando viu os policiais vindo na direção da casa onde estava, entrou em pânico. Sem pensar, vestiu o capote, pegou o celular e saiu do apartamento pela porta que dava para a escada de incêndio, atrás da construção. Segundos depois, saltava a cerca baixa e corria pela lateral, enquanto Dawson e Ramsey batiam à sua porta.
Esperaram pela resposta, depois bateram de novo com mais força.
— Acho que ele não está em casa — sugeriu Ramsey.
Dawson olhou para a van estacionada na rua.
— O carro dele é essa aí, e está frio demais para um passeio a pé. Por que não conversa com a dona da casa, enquanto dou uma espiada por aqui?
Ramsey assentiu e desceu a escada. Dawson fez o mesmo, só que em vez de ir para a garagem, deu a volta nela. Quando viu as pegadas na neve que se afastavam da casa ficou pensativo por alguns momentos. Estava desconfiado por ver que as marcas indicavam que o homem saltara a cerca e correra pelo caminho lateral entre as duas casas, em vez de ir normalmente pela rua. Era policial havia tempo demais para não perceber quando uma coisa cheirava mal.
Voltou para a frente da casa, aproximou-se da van, anotou o número da placa e foi para o seu carro. Falava com a chefatura quando Ramsey juntou-se a ele.
— O que ela disse? — perguntou Dawson.
Seu parceiro sacudiu os ombros.
— Nada que possa ajudar. Pôs anúncio no jornal, o homem respondeu e alugou o apartamento pelo prazo de um mês a renovar, se for o caso. O nome dele é Peter Ross.
— O que ele faz para viver?
— O homem não falou e ela não perguntou. Disse que precisa do dinheiro do aluguel para seu orçamento dar até o fim do mês e que quando os inquilinos são sossegados e pagam em dia, não quer saber de mais nada.
— Hum… — resmungou Dawson. — Passei a placa e a descrição da van para verificação. Estará em minha mesa quando chegarmos à delegacia.
— O que você acha?
Dawson apoiou os cotovelos no volante e olhou da casa dos Jonas para o apartamento sobre a garagem. Depois olhou ao inverso.
— Acho que seria fácil demais assumir que esse homem novo nas vizinhanças tenha vindo para espiá-los.
— É o que eu estava pensando também — concordou Ramsey.
— Mas também cheguei à conclusão de que andei assumindo demais antes, e veja o que aconteceu… Eu seria capaz de apostar a minha aposentadoria que Joseph Jonas havia matado a esposa. — Deu uma olhada para o parceiro e ligou o motor do carro.
— Ainda bem que não apostei. Teria perdido meu dinheirinho da pensão para sempre.
Algumas quadras adiante, Simon Law deteve-se para respirar. Em seguida pegou o telefone, digitou o número e esperou pela voz do chefe.

xx

A manicure era pequena e jovem, suas feições orientais, delicadas e bonitas. Mas Pharaoh não estava interessado em que ela fizesse nada por ele além das unhas. Alejandro sempre dizia que a inteligência de um homem pode ser avaliada pela sujeira embaixo de suas unhas. E ele não queria dar ao chefão nenhum motivo de dúvida.
Inclinou-se para trás na poltrona e fechou os olhos, saboreando o prazer que a suave massagem nos dedos e o leve respirar da manicure lhe proporcionavam. Então, o telefone tocou e ele demonstrou irritação com uma praga.
— Duke, pegue o recado.
Os movimentos de Needham eram fluidos ao aproximar-se da escrivaninha do chefe.
— Aqui é Duke Needham.
Simon sentiu um arrepio na espinha.
— Sou eu, Duke, Simon. Tenho um probleminha aqui. Preciso falar com Pharaoh.
Duke hesitou:
— Chefe…
As sobrancelhas grossas de Pharaoh franziram-se perigosamente.
— Droga! Eu disse para pegar recado!
— É Law. Parece que ele tem um problema.
Pharaoh deu um salto, e a manicure, que no momento cortava uma cutícula, feriu-lhe o dedo.
— Droga, mulher, tome cuidado!
A moça empalideceu.
— Sinto muito sr. Carn. Desculpe-me, por favor… Vou ser mais cuidadosa.
— Saia daqui! — berrou ele, indicando a porta. — Duke, leve essa mulher para fora. Tenho negócios a tratar.
No instante seguinte, Pharaoh achava-se sozinho.
— É Carn — disse ao telefone.
Simon começou a suar frio, apesar de seus pés estarem gelados e o nariz escorrendo. Passou-lhe rapidamente pela cabeça como a fazenda do pai era boa e como era tranqüila a vida que levava lá.
— Tive um pequeno problema — disse, afinal — e preciso ir embora do apartemento.
— Que problema?
Law arrepiou-se de novo. Preferia que o chefe xingasse, gritasse, em vez de falar daquele modo calmo e macio, com uma polidez fora do comum.
— Jonas chamou a policia. Os tiras ficaram na casa dele por algum tempo e ao sair atravessaram a rua, vindo para o meu apartamento.
— Por quê? — indagou Pharaoh. — Eles não iriam ao seu apartamento sem algum motivo.
O bandido hesitou, depois despejou tudo de uma vez.
— Ontem à noite eu chequei a casa, entende? Eles tem um sistema de alarme. Vai ser duro conseguir entrar. Estava bem escuro e todos dormiam… Eu não fiz nada, a não ser examinar as janelas. Você disse para eu ficar de olho nelas, lembra?
Pharaoh aspirou ruidosamente o ar e fechou os olhos, obrigando-se a manter a calma.
— E também disse para você ficar quieto.
— É, mas eu pensei…
— Não pago você para pensar, pago para cumprir ordens.
— E eu cumpri, chefe. A paguei aquele investigador particular, do jeito que você me disse.
— E agora vão pegar você — ironizou Pharaoh.
— De jeito nenhum! — reagiu Simon. — Quero dizer, pelo menos, acho que não.
— Então, por que eles estão aí?
O arrepio desceu mais uma vez pela espinha de Simon.
— As pegadas. Dá para ver que andei ao redor da casa. — Praguejou várias vezes. — Como diabo eu ia adivinhar que a neve ia parar de cair? Estava nevando desde que cheguei aqui. — Fez uma pausa e acrescentou: — Mas eles não podem descobrir que as pegadas são minhas, porque param na calçada.
A raiva cresceu de tal maneira que Pharaoh tremia.
— E você, seu grande idiota, tinha que ser a primeira pessoa investigada, já que é novo nos arredores.
A voz de Law soou fraca.
— O que devo fazer?
Pharaoh consultou o relógio.
— Sabe onde é a estação rodoviária?
— Não, mas descubro.
— Esteja lá dentro de duas horas. Alguém estará à sua espera.
Foi impossível Simon conter o suspiro de alivio.
— Obrigado, chefe… e sinto muito. Não vai acontecer de novo.
Desligou e o som da linha soou no ouvido de Pharaoh.
— Pode ter certeza disso — afirmou ele com voz macia e colocou o fone no lugar.
Cumprindo a palavra, Simon Law entrou na estação rodoviária cinco minutos antes da hora marcada e olhou atento a multidão que se movimentava. Não reconheceu ninguém, porém não tinha importância. Chegara um pouco cedo e precisava ir ao sanitário.
Seus passos ecoaram no enorme e vazio recinto ladrilhado quando se aproximou da parede onde ficavam os mictórios. Começava a descer o zíper de sua calça e a porta atrás dele se abriu. Virou a cabeça e sorriu ao reconhecer o homem que entrava.
— Olá, Paulie! Um segundo e já vou estar junto com você.
— Não tenha pressa.
Enquanto respondia, Paulie aproximou-se por trás dele e cortou-lhe a garganta.

Simon desabou no chão, morto antes de poder gritar.

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Meninas! Como vão? Eu vou bem! Passaram bem o Natal? Ganharam muitos presentes? A propósito, feliz Natal! Sobre a maratona, eu estou disposta a fazer, mas tenho q dizer q n tenho ideia de qual será a próxima história asjfdshgsdaf
Mesmo assim, vcs topam? A maratona seria com os 3 capítulos restantes + o epílogo!
Comentem com a resposta!
Vou indo...
Beijos, amo vcs ♥

23.12.14

Remember Me - Capítulo 13

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Uma semana inteira passou-se desde que Demetria e Joseph haviam voltado de Albuquerque, e cada dia que passava parecia a calmaria antes da tormenta. Não importava quão normais fossem seus dias e tranqüilas suas noites, o estresse de não saber o que viria a seguir era desgastante.
Joseph estava sem paciência no trabalho e Demi lutava constantemente com a tendência a desmanchar-se em lágrimas. Apesar de já tê-lo localizado, a policia estava tentando verificar onde Pharaoh se encontrava durante o tempo em que ela permanecera seqüestrada. E, sem o conhecimento de Demetria, Harold Borden, o investigador particular que Joseph contratara, estava monitorando todas as pessoas com quem ela estivera em contato. Todos estavam agindo, mas em silêncio.
Dois dias depois do Dia de Ação de Graças, começou a nevar.
— Olhe, Joseph, há alguém entrando no apartamento da garagem da sra.Rafferty, do outro lado da rua.
Por cima de sua escrivaninha, Joseph olhou para a janela, onde Demi se achava, observando a neve cair. Contente por ter um pretexto para abandonar a planta que estudava, levantou-se.
— Que dia para sair de casa! — comentou.
Chegou por trás dela e olhou para fora, por cima de seu ombro. Demi assentiu com a cabeça e aninhou-se junto dele, que a abraçou.
— Seu esgoista, eu sei, mas gosto que esteja nevando.
— Eu nunca a ouvi dizer isto — admirou-se Joseph. — Você detesta o frio.
— Detesto, mesmo — concordou ela — , mas adoro que a neve obrigue você a ficar em casa.
Dependência não fazia parte da personalidade de Demetria. Joseph abominava a pressão à qual ela estava submetida e preocupava-se constantemente, perguntando-se por quanto tempo ela iria agüentar.
— Querida, tudo que você tem a fazer é dizer que quer, e contrato um guarda-costas para ficar aqui enquanto eu estiver trabalhando.
— Não seja bobo! — brincou ela. — Você já instalou um sistema de alarme. Além disso não podemos pagar por um guarda-costas e…
— Não, meu anjo. O que eu não posso é ficar sem você.
O queixo dela tremeu.
— Desculpe, Joseph… — Demi engoliu as lágrimas. — Parece que tudo que quero fazer nestes dias é chorar.
— Se a fizer sentir-se melhor, chore. Sei que não é fácil para você. — Ele olhou para a janela e franziu o a testa. — Veja como o novo inquilino da
sra.Rafferty é modesto. Duas malas e uma caixa de livros não é muito para um homem viver.
Demi riu, enquanto ele continuava a olhar entre os flocos de neve que caíam.
— Lembro-me do tempo em que não tínhamos muito mais do que isso…
Joseph ergueu-lhe o queixo.
— O que me diz de um bom chocolate quente?
Ela suspirou, depois forçou um sorriso.
— Com montanhas de pequenas bolas de marshmallow coloridas!
Ele rolou os olhos com pretenso desprezo.
— Não sei. Eu sou pelo marshmallow ao natural, mas se você insiste em que seja colorido…
Demi deu um soco de leve no braço dele.
— Pare com isso, meu senhor! Afinal não sou eu quem põe mostarda nos ovos mexidos.
— É uma delicia! — riu ele.
— Vou tentar não ficar enjoada…
— Só por isso, os marshmallow verdes vão ser meus.
— De jeito nenhum, você sabe que são os meus preferidos!
Os olhos de Joseph brilharam quando ele baixou a voz num arremedo de ameaça.
— Está bem, os verdes são seus, mas vai lhe custar caro.
Rindo, ela perguntou:
— Exatamente quanto?
Ele a abraçou e ergueu-a do chão.
— Não é quanto, é o quê.
Demetria arrepiou os cabelos dele, adorando sentir sua macia textura sob as palmas das mãos.
— Exatamente do que você está falando, Joseph?
A resposta dele foi uma risada, e começou a atravessar a sala com ela nos braços.
— Ei, a cozinha é para aquele lado!
Ela apontou por cima do ombro dele.
— Desculpe, minha senhora, mas conhece o velho ditado ¨ Você recebe aquilo pelo que paga¨? Você não poderá ter o chocolate se não pagar por ele.
Rindo, também, ela perguntou:
— Exatamente o que essa caneca de chocolate vai me custar?
O marido depositou-a no meio da cama e começou a tirar o suéter dela.
— Muitos, muitos beijos.
Então, passou para os sapatos.
— E se eu quiser os marshmallows verdes também? — quis saber Demi.
Ele continuou sorrindo.
— Bem, isso vai custar mais.
— O quê?
Joseph desabotoou a calça dela e começou a tirá-la.
— Você vai ver — respondeu, baixinho. — E quando eu achar que chega, avisarei.

xx

Simon Law jogou a última mala em cima da cama e guardou a chave no bolso, enquanto examinava o apartamento de dois cômodos. Em matéria de apartamento, ele já havia tido melhores. Mas este era limpo, quente e considerando a maldita nevasca lá fora, era até melhor do que o Ritz. Passou as mãos nos cabelos e no capote, para livrá-los da neve. Lembrou a si mesmo o que viera fazer ali.
— Onde está meu celular? — resmungou.
Verificou nos bolsos, estavam vazios.
Olhou pela janela e gemeu. A última vez que o usara fora na van, para acertar os últimos detalhes com o chefe, e o colocara no assento ao lado.
Olhou com desdém a neve que caia. Demorar não iria melhorar a situação. Com uma praga abafada, ergueu a gola do capote e saiu, correndo até a van.
O telefone celular estava sobre o assento, direitinho como o deixara. Em segundos ele subia de volta a escada que levava ao apartamento sobre a garagem, amaldiçoando a neve. Nascido numa fazenda no Estado de Illinois, fazia anos que Law deixara a casa da família e fora para a Califórnia, atrás do sol. Mas agora ali estava, de volta ao frio miserável, desejando que Pharaoh Carn houvesse chamado outro que não ele.
Foi só o tempo de trancar a porta e tirar o capote, e já digitava o número privativo de Pharaoh . Tirou um binóculo de uma das malas.
— Chefe, sou eu, Law… Sim, já estou aqui… — Aproximou-se da janela, ajustando o binóculo para enxergar bem. — Sim, eles estão lá. Eu os vi ontem, quando vim alugar o apartamento, e de novo hoje de manhã… Não, eles não saíram para lugar nenhum… Claro, o senhor já me disse: é só observá-los.
Pharaoh Carn revirava a patinha de coelho entre os dedos enquanto escutava o relatório de Law.
— Quero saber quando eles saírem, o que fizerem… tudo! Compreendeu?
— Sim, chefe. Vou ficar em comunicação.
Pharaoh desligou. Um sorriso pensativo alterou o desenho de seus lábios, mas não muito; apenas o suficiente para registrar satisfação completa. Ele hesitou por um instante, então guardou a patinha de coelho no bolso e acionou o intercomunicador.
— Duke, tire o carro. Vamos ao Luxor. Estou me sentindo feliz.
— Sim, sr.Carn. Imediatamente.
O sorriso de Pharaoh ampliou-se. Essa ia ser sua primeira saída desde que recebera alta do hospital. De todos os cassinos que havia por ali, o Luxor, com tema de antigo Egito, era seu favorito. Estava com disposição para arriscar um pouco de dinheiro nas mesas de jogo e talvez depois ir até o Isis para um almoço sofisticado. Os pratos finos do elegante restaurante Luxor jamais desapontavam.
Esfregou as mãos e foi olhar-se no espelho. Talvez assim que saísse devesse ir cortar o cabelo, depois comer um bom filé. Ouvira dizer que Jimmy Shoe estava na cidade. Seria bom voltar a ver alguns dos rapazes.
Pensou em Demetria outra vez, porém não mais com sensação de urgência. Sabia onde ela estava. Quando estivesse pronto, iria buscá-la. Cometera um erro da primeira vez, deixando o marido dela vivo. Não iria acontecer de novo. Desta vez quando fosse buscá-la, ela não deixaria ninguém em casa por quem voltar.
Poucos minutos depois, estava na rua. O dia estava frio, mas um longo capote de lã sobre o terno Armani, com colete, era proteção mais do que suficiente. Os dois homens no assento da frente, mais o motorista da limusine, era toda proteção que precisava nesse dia.
Os irmãos Demico eram da Filadélfia e estavam com ele fazia mais de dois anos. Ambos eram muito bem servidos de músculos e pouco servidos de cérebro, mas era assim que Pharaoh os preferia. Ele era um homem que poderia ser morto a qualquer momento, já os Franco não corriam esse perigo.
— Sr. Carn…
Pharoh olhou para Duke, que estava no assento à frente dele.
— O quê?
— É muito bom ver o senhor saindo de novo.
Dando um dos raros sorrisos para o homem que era o seu braço direito, Pharaoh agradeceu.
— Obrigado, Duke. Estou contente também.
O assecla assentiu e tornou a voltar a atenção para as ruas por onde passavam. Parte do seu trabalho era evitar que o chefe tivesse surpresas, e ele era muito bom nisso.
Quando desciam o bulevar Las Vegas, o coração de Pharaoh confrangeu-se. Dali podia ver o topo do Luxor, um prédio em forma de pirâmide, com trinta andares. Poucos minutos depois o motorista parou o carro diante da entrada principal do cassino, para o chefe e seus homens descerem.
Duke saiu primeiro, seguido pelos irmãos Franco. O trio ficou imóvel por momentos, examinando as pessoas que circulavam por ali. Então, Duke
inclinou-se diante da porta e fez um sinal para Pharaoh que sentiu violentas dores ao sair do carro, porém não se deixou vencer.
Nesse dia, não. Nesse dia sentia-se vingado de um modo que não conseguia explicar. Recebera como um bom sinal o fato de Demi não se lembrar dos fatos que podiam mandá-lo para a cadeia.
Ergueu o queixo enquanto a limusine se distanciava, recusando-se a permitir que seus olhos fizessem contato com os clientes do Luxor. Essa era a primeira lição que havia aprendido no presídio. Permanecer distante conferia importância e muitas vezes era a diferença entre morrer e manter-se vivo.
Respirou fundo e sua pulsação acelerou-se ao aproximar-se da entrada. Seus homens o rodeavam. Um dos irmãos Franco abria caminho, Duke andava ao lado dele, e o outro Franco, atrás. O modo como faziam as pessoas saírem de sua frente era notável. Quando se encontravam a poucos passos da imponente porta do cassino, um homenzinho baixote, moreno, foi ao encontro deles.
— Sr. Carn! É um prazer recebê-lo aqui!
Pharaoh sorriu. Jahar era o gerente do térreo, capaz de satisfazer as solicitações mais inusitadas a qualquer hora do dia ou da noite.
— E é muito bom estar aqui, Jahar.
— Em que posso atendê-lo, senhor? Diga e atenderei com prazer.
— Vim para jogar — respondeu Pharaoh e viu um grande sorriso iluminar o rosto moreno -, mas não pretendo perder.
Jahar conteve uma gargalhada.
— Bem, senhor, quem sabe? A sorte é uma cadela caprichosa…
— É meio-dia e meia — comentou Pharaoh, consultando o relógio. — Suponho que minha mesa estará vaga ali pelas três e meia…
O gerente anuiu com veemência.
— Claro, senhor. Vou tratar disso imediatamente.
E desapareceu entre a multidão, enquanto Pharaoh atravessava o saguão de entrada. Alguns minutos depois, ele estava acomodado em uma das mesas de bacará, imerso no jogo.

(...)

Passava um pouco das cinco e quinze quando Pharaoh terminou a sobremesa, e começava a tomar café quando viu Jimmy Shoe atravessando o salão do restaurante em sua direção. Duke viu-o também e relanceou os olhos pelo chefe.
— Deixe-o vir — ordenou Pharaoh.
Duke se ergueu e ficou de lado; Jimmy Shoe deu um sorriso torto para Pharaoh e sentou-se na cadeira que o capanga deixara vaga.
— Ouvi dizer que você estava na cidade — disse Jimmy. — È ótimo vê-lo por aqui de novo e bem. Houve momentos em que pensamos que você não iria sair dessa.
O sorriso de Pharaoh gelou, antes de chegar aos seus olhos.
— Esse é o problema dos mexericos, Jimmy. Pareço um cadáver?
— Não, não. Claro que não parece, Pharaoh. Nunca o vi melhor. — Shoe deu um sorrisinho nervoso. — Falando a serio, você chegou perto, não?
Depois de considerar o que iria responder, Carn sacudiu os ombros.
— Não importa quão perto um homem chegue da morte, nem quantas vezes isso aconteça. O que conta é que ele continue em pé, depois de tudo terminado.
Jimmy assentiu.
— E você esta fazendo isso muito bem.
— Então, Jimmy, isto é um encontro social? Posso oferecer-lhe uma bebida, algo para comer?
Shoe inclinou-se para a frente.
— Não, obrigado. Eu apenas queria avisá-lo que tiras estão fazendo perguntas sobre você em Los Angeles.
O bom humor de Pharaoh desapareceu.
— Que tipo de perguntas?
— Muito estranhas, para dizer a verdade. Não se ligam ao ¨ negócio¨. São a respeito de uma mulher que foi seqüestrada.
Carn tomou um lento, calculado gole de café sem demonstrar seu choque.
— Seqüestro é para bobos — disse, devagar. — Não tenho hábito de me entregar a divertimentos que não tragam algum proveito. Mas, só por curiosidade, quem anda perguntando? Sobre a mulher, é claro.
— Os tiras locais e um investigador particular de fora.
— Deve ser uma mulher muito importante para despertar tanto interesse — sorriu Pharaoh. — Quem é ela?
Jimmy sacudiu a cabeça;
— Não sei.Uma mulher qualquer.
— Então, como os tiras estão investigando?
— Andam com uma fotografia perguntando: ¨Conhece esta mulher?¨ ¨Viu alguém com esta mulher?¨. Coisas assim.
Pharaoh tomou outro gole de café.
— Bem, obrigado pelo aviso, Jimmy. Eu lhe devo uma.
Jimmy Shoe fez um trejeito de pouco caso.
— Eu só achei que você gostaria de saber. — Sorriu. — Eles não estão conseguindo as respostas que querem. Pelo que percebi, ninguém sabe que
você está nisso. Mas eu lembrei daquela sua casa nas colinas de Los Angeles e achei que havia uma chance… Entende?
— Agradeço o interesse, Jimmy. Você será recompensado.
Seguiu-se um prolongado silêncio. Quando, de repente, Duke ficou um pouco mais perto dele, Jimmy levantou-se.
— Foi mesmo muito bom ver você de novo, Pharaoh, mas tenho que ir andando… Cuide-se, hein?
Pharaoh ficou olhando o homenzinho distanciar-se. Aquilo poderia mudar tudo. Estivesse pronto ou não, adiar por mais tempo sua viagem a Denver poderia tornar-se perigoso. Precisava pensar seriamente nisso.
— Duke, chame o carro. Quero ir para casa.
Duke acionou o celular. Poucos minutos depois eles se dirigiam para saída do Luxor. Os irmãos Franco esperavam na porta, adaptaram seus passos aos do chefe e os quatro caminharam para a limusine que os esperava.

xx

Continuara nevando até depois da meia-noite. Ao amanhecer as ruas já haviam sido limpas da neve e o sol brilhava. Joseph saiu para o trabalho, avisando que só voltaria no fim da tarde. Demetria permaneceu um pouco mais debaixo das cobertas e entrou naquele estado imponderável entre o sono e a vigília.
A consciência ficou em algum lugar entre a realidade e sonho, deixando-a envolta no calor da cama e em lembranças. Suspirou quando rolou de lado e apoiou o rosto no travesseiro de Joseph. Sorriu consigo mesma, lembrando-se dos marshmallows verdes que ele colocara em sua boca. Não tinham ido fazer chocolate quente, mas tinham feito amor. E esse amor havia sido mais doce e quente do que qualquer chocolate.
Demetria permaneceu assim, entre dormindo e acordada, baixando a guarda o suficiente para que o medo voltasse…

— Não lute contra mim, Demetria. Você sempre foi minha.
Demi olhou para o homem em cima dela, na cama. Seus olhos selvagens espelhavam luxúria frustrada, suas narinas fremiam. A raiva coloria suas faces de vermelho, enquanto ele a imobilizava. Esmagada sob o pesado corpo, a única coisa que ela conseguia fazer era respirar.
— Não… Solte-me. Por favor, solte-me. — implorava ela.
A fúria era evidente no rosto do homem.
— Você pertence a mim, não a ele!
— Não! Eu não pertenço a ninguém, a não ser a mim mesma — gritou Demetria. — Eu sou de quem escolher e escolhi meu marido. Você não tem direito algum sobre mim!
O homem apertou mais os pulsos dela. Quando o rosto dele aproximou-se, Demi arquejou.
— O que quer dizer, não tenho direito? Tenho todos os direitos — sussurrou Pharaoh. — Olhe para o meu rosto. Olhe nos meus olhos. Lembra-se do passado? Lembra-se de tudo que compartilhamos? Não importa o quanto você tente esquecer, sempre se lembrará de mim. Inutilmente, Demi lutava reconhecendo a inevitabilidade daquele momento. Seu coração estava partido por Joseph e pelo que ia acontecer com ela. Mas morreria antes de dar a Pharaoh a satisfação de pensar que vencera. Seus olhos se tornaram sem expressão, como se de repente ela houvesse saído do próprio corpo.
— O fato de ser mais forte do que eu e poder me dominar não muda o fato de que eu o desprezo. Você me tirou da minha casa. Se me possuir, terá que ser à força. Você jamais irá controlar meu coração, que pertence a Joseph. É dele que vou me lembrar. É a ele que amo.
Uma raiva gelada pareceu explodir no intimo de Pharaoh e, estremecendo, Demetria preparou-se para o pior.

Ela acordou gritando o nome do marido e assustou-se com o som de sua voz ecoando na casa.
— Oh, Deus! Meu Deus! — murmurou.
Levantou-se, foi para o banheiro, tirou a camisola e enfiou-se sob o chuveiro. A água ficou quase fria por ter aberto demais a torneira, porém ela não se importava. Com as mãos ensaboadas, esfregava o corpo com força. Sentia-se desprezível e suja. Durante semanas insistira em negar, dizendo a si mesma que fora seqüestrada, sim, porém não violentada. Mas aquela lembrança mudava tudo. Lágrimas contidas ardiam-lhe na garganta, que doía. Como encarar Joseph, sabendo que o homem que a sequestrara também a havia estuprado?
Então, algo a atingiu tão depressa que ela quase perdeu o equilíbrio. Lembrou-se com clareza de ter implorado por piedade e do rosto daquele homem. Enxaguou o corpo, fechou o chuveiro, secou-se e vestiu-se, ansiosa por contar o sonho para o investigador Dawson. Mas quando falou com ele por telefone a reação do policial não foi o que ela esperava.
— Olhe, a senhora disse que foi um sonho.
— Sim, mas…
— Como pode ter certeza que não se trata apenas de uma manifestação dos seus medos? A senhora me disse, que lembrava-se de alguns flashes do seu seqüestro, mas não do rosto do seqüestrador.
Demetria sentiu-se enjoada. Não havia esperança, ninguém queria acreditar nela. Pensara que Dawson acreditaria, mas era evidente que se
enganara. Uma coisa estava mais do que clara: ele achava que era uma louca, como todos os demais.
-Sim, mas…
— E agora depois de ter visto a fotografia do rapazinho com quem foi criada, decidiu que ele é o homem que a seqüestrou.
— Dominando o ímpeto de gritar, Demi respondeu:
— Eu não decidi isso, apenas me lembrei.
— Não, minha senhora — contrapôs Dawson, com calma. — A senhora sonhou. É muito diferente.
Demi deixou-se cair numa poltrona, vazia de vida como só uma mulher desacreditada podia sentir.
— O que vai acontecer agora, Dawson? Será que não consegue ver ainda estou em perigo?
A hesitação silenciosa dele foi a resposta e ela não se conteve mais.
— Bem, pelo menos afinal temos a verdade! O senhor realmente pensa que eu fugi de casa e depois… por motivos particulares, voltei.
— Sra. Jonas, eu não disse isso.
— Nem precisava dizer! Antes de encerrarmos esta conversa inútil, quero fazer-lhe uma pergunta hipotética.
— Pois não, senhora.
— E se eu tivesse sido encontrada morta em outro Estado? O senhor teria prendido Joseph ou teria deduzido que eu morrera durante uma viagenzinha ao encontro de mim mesma?
Dawson sentiu um arrepio: era impossível não notar o sarcasmo na voz dela.
— Não poderei responder a isso sem examinar todos os aspectos da situação.
— Por quê? — indagou ela. — Você não deixou nenhum aspecto que tem surgido influir em seu ponto de vista. Aliás, seu primeiro movimento foi culpar Joseph, e estava errado. Por que não quer admitir que pode estar errado agora também?
O policial ainda pensava no que responder quando Demi acrescentou:
— Não importa… Creio que você assumiu sua posição por principio e eu deveria aceitá-la, sem dizer uma palavra. Quer saber de uma coisa, Dawson? Seu um dia decidir deixar os caminhos da lei, poderá pensar em entrar para a política. Tem jeito para isso.
O clique que soou no ouvido do investigador não deixou-lhe ilusões sobre ter falhado com Demetria Jonas. Mesmo quando chegou a hora de ir para casa ele não havia parado de pensar no que ela dissera. Será que estava errado? Isso já acontecera antes. Por que tudo o impelia a investigar
Pharaoh Carn? Aquela mulher declarara guerra ao criminoso e ninguém queria acreditar nela, até ele mesmo.
Ainda pensava nisso ao pegar a chave para entrar em casa. Pharaoh Carn era tão perigoso quanto era inatingível. Como poderia encontrar um homem que era impossível de encontrar?

(...)

Tarde daquela noite, Demi lutava com a própria consciência. Não contara a Joseph o que se lembrara, já que não era uma chave para descobrir o lugar onde ficara presa. Contar aquela coisa terrível serviria apenas para causar-lhe mais dor. Além disso, ela achava que nunca mais poderia encará-lo se ele soubesse. Sentia-se culpada por ter sobrevivido. Algumas mulheres tirariam a própria vida para não se submeter aos desejos de um homem ao qual não queriam.
Reagiu a esse pensamento. Não. Esse tipo de idéia era simples e idiota. Devia a si mesma, e a Joseph, sobreviver de qualquer maneira. Mordeu os lábios para conter o choro e virou-se na cama. Instintivamente o marido aproximou-se dela, dormindo, abraçou-a e isso ajudou-a a relaxar. Era claro que sua decisão fora certa. Estava de volta aos braços de Joseph, ao lugar a que pertencia.

xx

Simon Law deu a volta na casa pela terceira vez, anotando mental e cuidadosamente o elaborado sistema de segurança que a protegia. Acompanhando uma série de fios, viu que eles iam dar numa caixa e franziu as sobrancelhas. O chefe não ia gostar daquilo. Seria preciso muita habilidade para um homem entrar na casa sem fazer disparar o alarme.
Um carro virou a esquina, com a luz dos faróis iluminando indiscriminadamente o local. Simon escondeu-se entre a vegetação e ali permaneceu minutos depois que o carro passou. Mentalmente xingando a neve que escorregava para dentro da roupa, pelo pescoço, ficou em pé e foi para a calçada. Dera alguns passos quando percebeu que perdera a caneta-lanterna. Praguejou e ia voltar-se quando uma luz acendeu-se dentro da casa. Sem pensar saiu correndo.
Em segundos estava dentro de sua van e afastou-se do local. Voltaria logo, normalmente. Demetria Jonas não ia escapar de sua vigilância naquela noite. Não, enquanto eles estivessem seguramente em sua cama. Havia uma outra coisa que exigia seus cuidados: a remoção de todos os obstáculos no caminho de Pharaoh Carn.

xx

Harold Borden parou na esquina e desligou o motor. Por momentos ficou imóvel, saboreando o silêncio e revisando mentalmente o trabalho do dia.
Olhou para a sua casa e para as luzes de Natal que a enfeitavam. Demiziu a testa, anotando mentalmente que deveria trocar duas lâmpadas do canto direito, depois pegou um saco que estava no assento ao seu lado. O cheiro gostoso de enroladinhos de ovo o torturara o caminho todo para casa, e estava mais do que disposto ao lanchinho da meia-noite.
Quando cuidava de um caso, muitas vezes não passava as noites em casa. Mas o trabalho com os Jonas era diferente. Quando Joseph chegava em casa, Harold ia para a dele. Sorriu consigo mesmo, pensando que bem que poderia ter mais casos como esse, depois afastou o pensamento. O desaparecimento de Demetria Jonas quase o deixara maluco, e ser incapaz de ajudar Joseph tinha sido pior. Agora, estava com o problema nas mãos de novo e sentia que se achava perto da solução. As peças haviam começado a entrar em seus lugares.
Abriu a porta do carro e foi envolvido pelo frio que reinava lá fora. Abrigou o saco junto ao peito, saiu decidido, e o cheiro dos enroladinhos dissipou-se no ar gelado da noite enquanto se voltava para fechar o carro. O rumor metálico da fechadura acionada cortou o silencio.
Borden respirou profundamente. Com certeza Alice estava dormindo no sofá, pois sempre o esperava na sala. Sorriu. Ela era uma mulher admirável e uma esposa maravilhosa. Considerava-se um homem de sorte.
De súbito, um par de faróis acenderam-se à sua direita. Um carro acabava de virar a esquina. Ele fez um gesto para guardar as chaves no bolso, ao mesmo tempo que começava a andar, mas elas caíram no chão. Inclinou-se para pegá-las.
O impacto do metal contra a carne foi abafado, houve um baque surdo, acompanhado pelo cantar de pneus e, em seguida, pelo som de um motor do carro acelerado.
O barulho acordou Alice Borden, que cochilava no sofá. Foi olhar pela janela e viu o carro do marido estacionado diante da casa. Então, observou melhor e deparou com o corpo dele inerte no asfalto.
Emitiu um lamento agudo e começou a gritar.

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Simon Law subiu a escada para seu apartamento, com a caixa de pizza numa das mãos e as chaves na outra. Experimentou até que uma delas abriu a porta. No instante seguinte estava lá dentro. Tirou o capote e comeu o primeiro pedaço de pizza com três mordidas. Trabalhar a noite sempre o deixava faminto.
Pegou outro pedaço e foi para a janela, com o binóculo. A casa dos Jonas estava como a deixara. Enquanto mastigava seu olhar caiu sobre o circulo de pegadas que deixara ao redor da casa. Seu coração bateu mais forte enquanto percorria as marcas através do binóculo.
— Droga do inferno! — resmungou.
A maldita neve parara de cair antes de cobrir suas pegadas.
Seus pensamentos se desencadearam. Devia enfiar suas coisas nas malas e fugir ou agüentar firme? E se fugisse, iria longe o bastante para escapar da ira de Pharaoh Carn? Todo mundo na organização ficara sabendo de Stykowski. Não era saudável levar más noticias para Pharaoh.
Abaixou o binóculo e ficou olhando para a escuridão, em estado de choque. E enquanto olhava, um fato tornou-se evidente. As marcas de seus pés estavam lá, mas se restringiam ao redor da casa . A rua estava limpa e não havia jeito de saber para onde ele fora.
Respirando aliviado, terminou a pizza, acomodou-se na poltrona diante da janela e colocou o binóculo no colo. Precisava descansar, nem que fosse por um minuto.
Quando acordou já era dia claro.

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MAIS UM AQUI P VCS ♥ td bem, amores? eu to bem, obg'
Amanhã eh véspera de Natal.. O que acham de uma maratona?
Comentem, ta?
Respostas aqui'
Beijos, amo vcs ♥

21.12.14

Remember Me - Capítulo 12

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O som da televisão do hotel soava baixinho, como pano de fundo. Demetria ria da mussarela de pedaço de pizza de Joseph que se esticava, quando ele a levava à boca. O telefone tocou. Sobressaltada e ansiosa, ficou olhando para ele, que colocou a fatia de volta na caixa da entrega e foi atender ao telefone. Ela acionou o comando mute da tevê, quando o marido começou a falar.
— Jonas…
Avery Dawson passou o receptor para a outra orelha.
— Recebi seu recado. O que há?
— É Dawson — disse Joseph para Demi apenas movimentando os lábios, sem emitir voz, em seguida pegou suas anotações. Não queria esquecer-se de nada.
— Muita coisa — respondeu.
— Onde o senhor está? — quis saber Dawson.
— Ainda em Albuquerque. Descobrimos uma porção de coisas que você vai achar interessante.
— Estou ouvindo…
— Conversamos com Adeline Bell, a administradora de Kitteridge House, o orfanato onde Demetria cresceu. Parece que havia lá um menino que era obcecado por ela, desde sua chegada, aos quatro anos, até quando foi preso.
— Obcecado, é? — observou o investigador.
— O termo não é meu — esclareceu Joseph, com as sobrancelhas erguidas -, é de Adeline Bell. Vou lhe dar o telefone e poderá conversar com ela pessoalmente. Mas adianto que a administradora não pintou um quadro muito saudável das amizades deles, se é que me entende.
— Entendo, sim — garantiu o policial. — Então, ele foi preso. Por quê?
— Não sei… Mas a srta.Bell disse que quando foi solto Demi fizera dezoito anos e havia saído do orfanato. Ele fez o maior estrago na sala dela quando soube que ninguém sabia para onde Demi tinha ido.
— E quando foi isso?
— Demi deixou Kitteridge há pouco mais de oito anos, mas não sei quando ele saiu da prisão. Tudo que sei com certeza foi que apareceu lá à procura dela.
— Sim, porém…
— Há mais — interrompeu Joseph. — Demetria disse que não se lembrava desse rapaz, o que surpreendeu a srta.Bell. No entanto quando viu uma fotografia dele quando garoto minha mulher desmaiou.
A essa altura Avery Dawson passou a prestar mais atenção.
— Hum… Ela identificou nele o homem que a seqüestrou?
Joseph hesitou.
— Não, porque não lembra nada desse fato. Tudo que se recorda do seqüestrador é que tem uma tatuagem no peito.
— Sim, aquela cruz egípcia… — Dawson fez uma pausa. — Olhe, sr.Jonas, sei que esses fatoo parecem promissores e vou investigá-lo. Mas o senhor sabe que não podemos levar o caso adiante sem uma evidencia física.
Joseph evitou olhar para a esposa. Sabia que se ela percebesse que o policial não estava entusiasmado com as informações iria ficar decepcionada, e não queria isso, depois do dia difícil que ela tivera.
— Sim. Sabemos — respondeu. — No entanto, agradeceríamos se você verificasse esse homem. Ele tem ficha na policia e não deve ser difícil localizá-lo.
— Claro. Como é o nome dele?
— Pharaoh. Pharaoh Carn.
Dawson aprumou-se na cadeira.
— Não o Pharaoh Carn! — exclamou.
— Você o conhece? — animou-se Joseph.
Demi inclinou-se para a frente, atenta, o pedaço de pizza esquecido na mão.
— O que foi?
Joseph aproximou-se da esposa e segurou o receptor do telefone de modo que ambos pudessem ouvir o que Dawson dizia.
— Não posso dizer que o conheço pessoalmente, mas sei a respeito dele. No entanto é preciso saber se o Carn de que o senhor fala é o mesmo que estou pensando.
— O que há de tão especial com esse Pharaoh Carn?
— Eu não diria que ele é especial — contrapôs o investigador — , mas sim notório.
A pulsação de Demetria acelerou-se e seus olhos se tornaram maiores.
— O que ele fez? — indagou Joseph
— Nada que a lei possa aprovar. Em determinados círculos, é conhecido como o homem numero um de Pepe Alejandro.
O estômago de Joseph contraiu-se.
— Alejandro… o chefão da família do crime na Califórnia?
— Esse mesmo. Meu Deus, sr.Jonas! Caso se trate mesmo dessa gente vocês dois estão em sério perigo.
— Há mais uma coisa, Dawson. Duas semanas antes de Demetria despaarecer a Associated Press divulgou uma fotografia dela. Nada demais, apenas a foto de uma moça bonita sob a chuva, que foi publicada em todos os jornais do pais. Ela acha que foi assim que ele a encontrou.
— Por que não me disseram isso antes? — aborreceu-se o investigador.
— Porque nem nos lembramos do fato e mesmo que nos lembrássemos não iríamos achar que tinha ligação… Quando acha que pode ter alguma noticia?
De repente, Demi soltou da cama e foi para o banheiro. Joseph ficou indeciso entre acompanhá-la e terminar a conversa com o policial .
— Tenho que fazer umas verificações — respondeu Dawson. — Precisamos descobrir onde Pharaoh Carn cresceu, onde esteve durante os dois últimos anos e, o que é primordial, onde está agora.
— Está bem… Voltaremos para Denver amanhã.
— Telefone-me assim que chegar — pediu Dawson. — Se eu descobrir alguma coisa, precisaremos discutir as opções. O revólver que sua esposa comprou não irá resolver nada, caso o cartel de Alejandro esteja envolvido. Seria como tentar deter elefantes com amendoins.
— Entendo…
A esperança de Joseph continuava a diminuir. Saindo da cama acrescentou:
— Ei, Dawson.
— Sim?
— Ande logo, está bem?
— Pode deixar…
O policial desligou. Joseph recolocou o telefone na mesinha de cabeceira e foi para o banheiro.
Demetria estava sentada na beira da banheira, com os cotovelos apoiados nas coxas e o rosto nas mãos. Havia uma toalha molhada no chão, juntos aos pés dela.
— Meu anjo… você está bem?
Ela ergueu a cabeça.
— Tive impressão que ia morrer.
— Está melhor, agora?
Demi fez que sim.
— Venha deitar-se.
Ele ajudou-a a ir para a cama, depois deitou-se ao seu lado. Ela tremia incontrolavelmente, e toda vez que o marido tentava tocá-la, se retraía.
— Demetria, não lute contra mim — pediu Joseph. — Estou do seu lado, lembra-se?
O rosto dela contraiu-se.
— Oh, Joseph… Meu Deus!
— Não chore, meu bem. Tudo vai dar certo.
— De que jeito? — soluçou ela. — Eu ouvi Dawson… ¨Ele¨ é um homem perigoso.
— Mas não sabemos se o rapazinho que gostava de você é o mesmo homem envolvido com Alejandro. E mesmo que seja, não quer dizer que ele a tenha seqüestrado.
Demi riu amargamente.
— Por favor, Joseph! Quantos Pharaoh Carn você acha que há nos Estados Unidos?
Ele teve que ficar quieto. Não podia negar que a raridade daquele nome restringia muito a possibilidade de haver mais de um. E o fato de ela não ter sido fisicamente maltratada durante aqueles dois anos de ausência levava à teoria de que, por mais discutível que fosse a atitude, quem a sequestrara preocupava-se com seu bem-estar. Isto encaixava com o perfil que Adeline Bell fizera do jovem.
— Eu quero saber a verdade, você não? — perguntou Joseph.
Demetria imobilizou-se, o rosto molhado de lágrimas, os olhos brilhantes de raiva.
— Você acha que é capaz de encarar a verdade, Joseph?
— O que você quer dizer?
Ela rolou para longe dele e saiu da cama, incapaz de olhá-lo de frente.
— E se eu fui… E se ele…
A voz de Joseph soou repassada e ódio.
— Você quer dizer se vocês tiveram sexo? Pelo amor de Deus, Demetria! Acha que não pensei nisso um milhão de vezes desde a sua volta?
— É que não falamos sobre isto e…
— Acha que eu iria julgá-la por circunstancias fora do seu controle, querida?
Ela não respondeu.
— Olhe para mim, droga!
Demi olhou e a voz dele suavizou-se.
— Se você tivesse sido atacada na rua e estuprada, acha que eu deixaria de amá-la?
— Não, mas…
— Não há ¨mas¨— sussurrou ele. — É a mesma coisa. O que quer que tenha acontecido com você não foi sua culpa. Só temos que fazer tudo para que não aconteça de novo.
— Estou com medo, Joseph.
— Eu também, meu anjo. Mas enquanto tivermos um ao outro seguiremos adiante.
A voz dela ainda tremia.
— Se esse criminoso é o mesmo homem que conheci quando criança e se foi ele que me seqüestrou, estaremos numa encrenca, não?
— Não vou mentir para você, Demi… Se for esse o caso, não será fácil nos protegermos. Mas vamos conseguir. Se for ele, mesmo, temos uma vantagem que não tínhamos.
— E qual é essa vantagem?
— Sabemos quem e como ele é.
— Mas, Joseph, pessoas assim encarregam malfeitores de fazer os trabalhos sujos. Ele não vai agir pessoalmente e não temos como nos prevenir contra estranhos. Poderá ser qualquer um.
— Então, vamos nos esconder, Demetria. Pelo menos, até a sua memória voltar ou até que a policia consiga uma evidência e o prenda.
Demi hesitou, a idéia de esconder-se não a agradava.
— Não sei… — murmurou. — E se nada acontecer?
— Vai acontecer e, enquanto isso, confie em mim para protegê-la.
Por fim, ela voltou para a cama e atirou-se nos braços dele, escondendo o rosto em seu peito.
— Faça amor comigo, Joseph. Faça todo esse horror ir embora.
— Abracadabra — disse ele, com suavidade e beijou-a.
E foi mesmo uma mágica.
O beijo aprofundou-se e durou até que a cabeça de Demi começou a girar e seu coração ficou em fogo. Respirava com dificuldade e implorava que Joseph a possuísse, porém ele não o fez. Suas caricias eram ternas e enlouqueciam.
— Joseph…
— Ainda não, Demetria.
Ela suspirou.
Então, ele distanciou-se e por uma fração de segundo o movimento inesperado a surpreendeu. Mas antes que reclamasse ele a virou gentilmente, deitando-a de bruços.
— O que você…
Claou-se porque Joseph começou beijando-lhe a sola dos pés, depois a parte de trás das pernas. Quando chegou atrás dos joelhos ela gemeu.
— Joseph…
— Psiuuu.
Demi fechou os olhos e entregou-se ao prazer de senti-lo. Às vezes era um toque com os lábios, com a língua; outras vezes a mordia de leve. Quando as caricias chegaram ao alto das coxas, ele a fez abrir as pernas e deitou-se em cima dela. Demi poderia sentir-lhe o peso, mas a única coisa que sentia era o amor. As mãos dele deslizaram sobre suas costelas, para a frente, e envolveram os seios. Tocou-lhe os mamilos até que eles ficaram duros e doloridos. A respiração dela tornou-se pesada, aos arrancos, e sentia-se desmanchar.
Então, ele acariciou-lhe os cabelos e, em seguida, ela sentiu o toque quente e úmido de usa língua na nuca, depois na face e, em seguida, na tatuagem.
Demetria gemeu e ouviu o marido rir.
Com uma das mãos sobre os seios dela e outra no ventre, ele rolou, ficando de lado e trazendo-a consigo. Antes que o mundo de Demi parasse de girar, a mão que estava sobre o ventre desceu até chegar entre as coxas.
A respiração dela estancou, então a voz cálida de Joseph vibrou junto ao seu ouvido.
— Calma, meu anjo… apenas procure sentir. Vou levá-la aonde você quer ir.
E começou a mover de leve a mão, no começo, depois mais depressa e apertando-a mais contra o sexo dela, até que Demi sentiu-se arrebatar por um prazer jamais sentido, Tudo desapareceu, inclusive a mente dela.

xx

Duke Needham soltou um suspiro de alivio ao desligar o telefone. Não tinha sido fácil encontrar homens que não apenas quisessem seguir suas ordens, mas que fossem também capazes de realizá-las. Mas ele não desistira. Não tinha intenções de ser o portador de más noticias e acabar, como Stykowski, com um tiro no meio da testa. Foi para a sala de ginástica esperando que a notícia melhorasse o humor do chefe.

(...)

Os cabelos de Pharaoh estavam molhados de suor, assim como a camiseta e a calça de abrigo que vestia. Os músculos de suas pernas ardiam, enfraquecidos pela forçada inatividade. Seu coração saltava como se houvesse corrido quilômetros, quando na verdade andara apenas dois. Observou com mais atenção o mostrador digital da esteira, certo de que não estava funcionando bem, e andou por mais alguns minutos. Não tolerava fraqueza, muito menos em si mesmo.
Saíra do hospital fazia uma semana. De acordo com os médicos sua recuperação ia bem, até mesmo além das expectativas, mas não suficientemente depressa para ele. No seu mundo era perigoso estar fraco.
Procurou pensar em algo diferente, recusando-se a prestar atenção aos músculos trêmulos e doloridos.
Saber o que acontecera com Demetria era todo o incentivo que precisava para sentir-se melhor.
Era irônico que os policiai de Los Angeles que tinha em sua folha de pagamento não pudessem ajudá-lo naquela situação. Iniciar uma busca ou fazê-lo ficar sabendo qualquer coisa sobre a presença daquela mulher na vida de Pharaoh seria envolvê-los diretamente no seqüestro. Em circunstancias normais, um ou dois deles poderiam investigar sobre Demetria sem levantar suspeitas. Mas aqueles não eram tempos normais. A Terra tinha virado de cabeça para baixo e rachado, havia destruído e
matado. E Pharaoh não podia dar parte de como desaparecida uma mulher que ele sequestrara.
Apertou os dentes e diminuiu a velocidade dos passos ao pensar nos dois últimos anos. Visualizara o reencontro deles como uma cena de cinema, ao vê-lo ela cairia em seus braços, jurando eterna devoção. Em vez disso, Demetria gritara de medo e tentara fugir. Pharaoh a agarrara, então, e a fizera lembrar-se de que jurara tomar conta dela e que pertencia a ele. Mas ela discutira, respondendo que não pertencia a ninguém a não ser a Joseph.
Fora aí que ele cometera o erro. Batera nela. Não importava quantas vezes pedira desculpas depois, ela estremecia até ao vê-lo e evitava contato com ele. E quando a tristeza dela o emocionava, Pharaoh resistia tornando uma questão de orgulho não enfraquecer. O fato de Demetria não o querer era quase secundário diante do fato de ele não poder deixá-la ir embora. Tudo que era bom retornara no momento em que ela reaparecera em sua vida. Demetria se tornara não apenas importante para o seu coração. Como também para sua sorte. E como o pássaro na proverbial gaiola de ouro, ela poderia ter tudo que o poder e o dinheiro podiam comprar, menos o que mais queria: a liberdade.
— Sua maldita! — praguejou Pharaoh quando suas pernas falharam de repente.
Procurou segurar-se no apoio mas caiu. O solo aproximou-se de seu rosto quando parou abruptamente. Aturdido e desorientado, amparou-se na parede quando Duke, que o segurara, colocou-o em pé.
— Leve-me para o sofá — resmungou.
— Sim, senhor.
Duke passou um braço pela cintura dele e quase o carregou ao sofá mais próximo.
— Quer que chame a enfermeira? — perguntou.
— Não, a não ser que você esteja cansado de respirar — zangou-se Pharaoh.
O capanga empalideceu. Mesmo fraco como estava, o chefe ainda lhe inspirava medo.
— Vou trazer-lhe um copo com água…
Pharaoh respirou fundo enquanto Needham aproximava-se do bar. Inclinou-se para trás e fechou os olhos, ouvindo o tilintar de cubos de gelo, depois o som de água caindo num copo.
— Aqui está, chefe.
Pegando o copo, ele observou friamente o rosto sem expressão de Duke. Se visse piedade… Grunhiu um ¨obrigado¨ e levou o copo aos lábios. Duke esperou para dar a noticia.
Ocorreu a Pharaoh, enquanto bebia a água, que a chegada do assecla havia sido mais do que fortuita. Seus homens sabiam que não deviam perturbá-lo quando se exercitava. Colocou o copo na mesinha ao lado e olhou para Duke.
— Para que veio aqui?
— Boas notícias, chefe. Nós a encontramos.
O rosto de Pharaoh brilhou.
— Onde?
O capanga hesitou por instantes, porém não podia fugir da verdade.
— Onde o senhor desconfiou que estivesse… em Denver.
Pharaoh não disse nada, mas gritava por dentro. Ela estava viva… e ia voltar para ele.
Foi então que pensou melhor. Ela tinha ido para casa, mas não dissera nada. Se tivesse falado, a policia já o teria procurado.
— O que mais? — perguntou.
— Não sei detalhes, mas disseram que ela está sofrendo de amnésia.
Recostando-se no sofá, Pharaoh compreendeu que era por isso que ele ainda estava ali e não num tribunal respondendo a um processo.
— Quer que a peguemos de novo, chefe?
— Não! — irritou-se Pharaoh. Não queria que ela a visse daquele jeito, fraco e indefeso. — Ainda não… — acrescentou.
Duke sacudiu os ombros. Para um homem que ficara fora de si imaginando o que teria acontecido com aquela mulher ou se ainda estava viva, Pharaoh demonstrava pouco interesse. Mas não cabia a ele julgar. No que lhe dizia respeito, as coisas ficavam bem melhores sem a presença dela.
— Sim, senhor — disse.
Ia retirando-se quando o chefe o chamou.
— Senhor?
— Quero que Law vigie a casa dela durante vinte e quatro horas por dia. Entendeu?
— Sim, senhor. Vigilância contínua.
Pharaoh esperou Duke sair para erguer-se do sofá e ir para seus aposentos, na ala oeste da casa. Quando chegou ao quarto suava profusamente, mais por causa da dor. Com uma praga silenciosa, tirou a roupa e foi para o chuveiro.
O banheiro também era um exemplo de desenho arquitetônico. Vidros de garrafa como tijolos, em vez de janelas e ladrilhos espelhados, do piso ao teto. Plantas verdes pendiam do teto, outras espalhavam-se em vasos pelo chão. As toalhas eram brancas, com barrados de arabescos dourados, e nas saboneteiras havia sabonetes amarelo-ouro em forma de pirâmides.
Assim que entrou o reflexo de sua nudez atingiu-o de todos os ângulos. Se bem que sua constituição de um metro e oitenta e três fosse esguia e firme, as cicatrizes recentes dos ferimentos apresentavam um tom de vermelho-escuro feio e ainda havia hematomas violáceos na região das costelas. Apesar do trauma evidente que sofrera, a primeira coisa que ele reparou foi a pequena tatuagem no centro do peito. Aproximou-se do espelho, mais perto ainda, até que pôde ver o palpitar da pulsação na base da sua garganta.
Aquela tatuagem era uma piada.
Eternidade.
Demetria não conhecia o sentido dessa palavra. Espalmou a mão por cima da tatuagem, sentindo as batidas do coração na palma.
Queria que ela o amasse como a amava. Queria que tivesse devoção por ele. Mas não ia consegui-lo, a não ser que agisse do seu jeito. Teria Demetria de volta, nem que para isso precisasse matar o marido dela. Mas, primeiro, tentaria pelo bem.

xx

— Como assim, não sabe onde ele está?
O investigador Dawson assentiu.
— Pois é… O senhor precisa compreender, há coisas mais importantes a serem feitas em Los Angeles do que descobrir onde está um homem. É um verdadeiro caos. Os serviços de emergência não estão dando conta do recado, por mais que se esforcem. Há áreas da cidade para onde o povo não pode voltar, por enquanto. Ainda estão encontrando uma ou outra vítima. O terremoto foi o pior dos últimos anos. Foi de 7.6 na escala Richter, não é?
— Alguma coisa assim — respondeu Joseph.
Preocupado, olhou para Demi. Estranhamente, ela parecia mais calma do que ele.
— Então, o que você sabe? — perguntou.
Dawson verificou a pasta aberta em sua mesa e inclinou-se para a frente, tomando nota mental de que precisava ir a um oculista. Nos últimos meses a escrita vinha se tornando embaçada.
— Bem… Pharaoh Carn, do cartel de Alejandro, foi criado em Albuquerque, Novo México, no orfanato Gladys Kitteridge House. Estava trabalhando lá quando foi detido por roubo e condenado a cinco anos de prisão.
— Depois disso… — perguntou Demi — para onde ele foi depois disso?
O investigador remexeu nas folhas de papel.
— Hum… A noticia seguinte que temos dele é que foi detido por assalto em Orange County. — Dawson ergueu os olhos. — Na Califórnia. — Voltou a ler. — Porém, desta vez não puderam comprovar sua culpabilidade. Em
seguida começou carreira no cartel, fazendo entregas e cobranças aqui e ali. Em poucos anos tornou-se um dos homens que dão ordens, em vez dos que a recebem.
Demetria estremeceu.
— Esquisito pensar que conheço uma pessoa assim.
Dawson assentiu.
— É… entendo o que quer dizer. Um dia, dez anos atrás, eu e meu parceiro estávamos trabalhando em narcóticos e estouramos um ponto de drogas. Quando entramos na casa foi muito esquisito para mim prender o homem que havia sido meu professor.
Joseph não estava interessado no passado do policial. Era o de Demetria que o estava fazendo perder o sono.
— Então, o rapazinho obcecado por Demi é hoje um dos chefes do sindicato do crime.
— Isso mesmo. — O investigador avaliou Demi com o olhar. — Não lembrou de mais nada pertinente ao caso?
O desanimo espelhou-se nos olhos de Demi.
— Não.
Joseph passou-lhe um braço pelos ombros e achegou-a a si.
— Não faz mal, meu anjo. Vai lembrar. — Voltou-se para Dawson.— Não é o caso de verificarmos os passos de Carn durante o tempo que Demetria ficou desaparecida?
O policial fez uma careta.
— Sr.Jonas, se fosse fácil investigar a vida de um lixo como Carn, ele estaria atrás das grades há muito tempo. Estamos de mãos amarradas por enquanto, a menos que sua esposa se lembre de alguma coisa especifica que o ligue ao seqüestrador.
— E o terremoto? — perguntou Demi. — E a tatuagem?
O tom de Dawson foi o de um pedido de desculpas.
— Olhe sra.Jonas, a senhora apenas pensa que houve um terremoto. Não se lembra com exatidão. E apenas pensa que o homem que a seqüestrou tem no peito uma tatuagem igual à que a senhora tem no pescoço. Talvez esteja apenas se lembrando do homem que conheceu quando criança. Talvez ele esteja mesmo envolvido com o verdadeiro homem que a seqüestrou. Entende o que quero dizer?
Demetria sentiu ímpetos de gritar, porém murmurou apenas:
— Não é justo…
— Não, não é — concordou o investigador. — Mas é só a senhora me dar algo sólido e caio sobre aquele criminoso como a mosca sobre o mel.
Ela ergueu-se num repente.
— Joseph, não acha que está na hora deixarmos o investigador Dawson sossegado para que possa fazer seu trabalho?
Joseph suspirou. Demi estava zangada, e não podia censurá-la por isso. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Avery Dawson levantou-se também.
— Sra.Jonas, sei que o que eu disse não foi o que a senhora queria ouvir. Honestamente, creio que há qualquer coisa nisso tudo, mas até que Carn seja localizado e interrogado…
Ele calou-se e sacudiu os ombros.
A irritação tornava a voz dela um tanto aguda.
— Eu sei. Tudo o que tenho a fazer é ficar quieta, esperando que outro raio caia na minha cabeça.
— Se a senhora fosse minha esposa, eu a convidaria para fazer uma viagem… uma viagem muito longa.
O rosto de Demetria ficou vermelho.
— Eu não vou fugir — disse devagar. — Quero ir parar no inferno se deixar que um maníaco altere a minha vida. Quando ele voltar… e acredito que voltará… eu estarei esperando.
— A escolha é sua — anuiu Dawson.
— E ela é minha esposa! — Joseph olhou para Demi, o medo alterando seu bom julgamento.— Talvez devêssemos…
— Não. Não vou me mexer daqui. Se ele quiser me alcançar de verdade, com certeza me descobrirá onde eu estiver.
Joseph ficou pálido.
— Meu Deus, Demetria! Não está usando a si própria como isca, está?
— A vida é minha, Joseph, e eu a quero de volta.
Havia um nó no estômago de Joseph, mas sabia que não adiantava discutir quando ela estava daquele jeito. Murmurou apenas:
— Depois vamos conversar a respeito.
O olhar de Demi lhe dizia que ele poderia conversar o quanto quisesse, mas ela não ia mudar de idéia.
— Vou solicitar que um carro-patrulha fique de vigia diante de sua casa durante o dia inteiro.
O olhar que ela deu a Dawson não foi muito melhor.
— Obrigada por sua paciência, mas duvido que viremos incomodá-lo outra vez
Algum tempo depois que o casal havia saído da delegacia, as palavras de Demetria ainda ecoavam nos ouvidos do policial. Ele tentou voltar ao relatório que fazia, mas apanhava-se a todo momento pensando no revólver que ela comprara.
Sacudiu a cabeça, frustrado. Às vezes aquele trabalho era mais do que ele podia suportar.


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Heeeeey! Sei q n apareço aq tem tempos, mas eh pq eu estava com mt preguiça asghdsf Agradeçam a minha volta a Mari q me ensinou um jeito de adaptar nada trabalhoso e super fácil *risos*
Comentem... Eu nem deveria cobrar...
Aliás, foi meu aniversário dia 20, algm quer bolo?
Beijos, amo vcs ♥