14.12.14

Remember Me - Capítulo 9 - MARATONA 4/5

Boa leitura... Comentem! Estou de olho ;) :D ♥

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Ao sentir o toque em seu ombro, Demetria abaixou o revólver e voltou-se retirando os fones de ouvido para escutar a opinião do instrutor.
— Ainda está muito tensa ao apertar o gatilho, sra. Jonas. Relaxe e aperte, lembra-se?
Ela assentiu, recolocou os protetores e olhou mais uma vez para o alvo. Repetindo mentalmente as instruções que lhe haviam sido dadas, segurou a arma com as duas mãos e apontou para o alvo.
Mirar.
Aspirar.
Exalar.
Apertar.
O cheiro de pólvora ardeu dentro de suas narinas quando o revólver disparou, dando um tranco em sua mão, mas desta vez ela percebeu que tinha sido diferente. Quando leu nos lábios do instrutor as palavras ¨muito bem¨ e ele ergueu o polegar, soube que havia atingido o alvo.
Sorrindo, satisfeita, apontou de novo e repetiu o ritual.
E mais uma vez. Outra. Ainda outra…

xx

— Ei Dawson, o chefe quer falar com você.
Agradecido pela chance de abandonar o relatório sem fim, Avery Dawson largou a caneta sobre a mesa e levantou-se. Mesmo que momentaneamente, a folga era muito bem recebida. Alguns minutos depois entrava na sala do seu superior.
— Quer falar comigo? — perguntou.
O chefe de policia estendeu-lhe uma folha de papel.
— Acabam de me entregar isto e quero que você dê uma olhada.
Dawson franziu as sobrancelhas ao ver o que era.
— Uma solicitação de porte de arma?
— Não é apenas uma solicitação de porte de arma. Veja o nome do solicitante.
A boca de Dawson permaneceu aberta por uns momentos.
— Mas é incrível! Demetria Jonas!
— Pensei a mesma coisa — concordou o chefe.— Quero que descubra o que está passando pela cabeça dessa senhora. Não me inclino muito a atender a esse pedido feito por uma mulher com a história dela.
— Mas como quer que eu faça isso? Não há lei que a proíba de ter um revólver e nem mesmo de receber um porte de arma.
— Não é você o encarregado do caso de desaparecimento dela?
— Sou — respondeu o investigador — , e o caso continua um beco sem saída, apesar de ela ter voltado.
— Ela declarou que foi levada de casa contra a vontade — lembrou o chefe de policia.
— Pois é… Mas de qualquer maneira estamos no mesmo ponto em que estávamos dois anos atrás: sem nenhum indicio.
— E aquele telefonema que você recebeu outro dia, sobre o cadáver de uma mulher desconhecida:
A consciência de Dawson doeu.
— Eu já disse ao capitão que foi impossível descobrir a procedência do telefonema.
— O que o instinto lhe diz? — insistiu o chefe.
O policial hesitou, depois disse o que pensava.
— Que é mais do que uma simples coincidência.
— Falou com os Jonas sobre esse telefonema?
— Não… O capitão disse que não havia necessidade de afligi-los, a não ser que se tivesse algo concreto.
A testa do chefe de policia franziu-se.
— Um telefonema é algo concreto. Eles tem direito de saber. Conte-lhes.
— Sim, senhor.
O chefe ergueu-se, foi até a janela e olhou as ruas e os pequenos flocos de neve que caíam.
— Ela ainda não disse nada sobre seu desaparecimento? — indagou.
— Não, senhor…
Indicando o pedido de porte de arma, o chefe observou:
— Algo me diz que ela tem segredos, e não gosto disso. É evidente que essa mulher sente-se ameaçada, caso contrário não se armaria. Verifique como estão as coisas. Não quero que alguém morra só porque ela está paranóica. Entende?
— Sim, senhor.
— E conte-me o que ela disser, Dawson.
— Sim, senhor. É a primeira coisa que farei amanhã.

xx

Marvin Stykowski caminhou pela calçada e escondeu-se atrás de uma árvore quando Demetria Jonas saiu do Centro de Tiro. Fazia um dia que ele a estava seguindo e sabia que já devia ter falado a respeito com seu chefe.
Levara dois dias para localizar a casa, mais meio dia para ver se ela estava lá. Estava abusando de sua sorte em não telefonar logo para Pharaoh, mas havia umas coisas que precisara fazer antes de começar a procurar aquela mulher, tais como descobrir um fornecedor e se abastecer para dar uma cheirada de vez em quando. Depois que começasse a agir para seqüestra-la,, não teria tempo para ir atrás de cocaína. E entrar frio naquela missão não era a coisa mais inteligente a fazer.
Ninguém na organização de Pharaoh sabia que Marvin era um viciado e ficaria numa situação critica se descobrissem. Para ele, a regra de não se drogar que Pharaoh impunha era piada. Eles compravam e vendiam a droga. O fato de ele ser um dos melhores clientes de seu chefe devia ser demonstrado e não escondido.
Esperou que o carro de Demetria estivesse um pouco distante e só então foi para o seu. Não havia motivo para pressa. Sabia para onde ela ia. Tudo que tinha que fazer era encontrar um telefone e ligar para casa.
E era o que teria acontecido se não houvesse avançado um sinal vermelho. O guarda que estava na esquina saiu atrás, e quando Marvin ouviu a sirene e viu as luzes vermelha e azul teve um sobressalto. Com medo que a cocaína que tinha no porta-luvas fosse encontrada, fez uma coisa idiota. Apertou o acelerador até o fundo.
Vinte quarteirões e cinco minutos depois estava de bruços no chão, com as mãos para trás e pulsos presos com algemas.
— Ei, estão apertadas demais! — reclamou.
— Então, fique quieto — respondeu o policial.
Marvin gemeu. Pharaoh ia matá-lo.
xx

Demi tirava o assado do forno quando ouviu o carro de Joseph entrar na alameda ao lado da casa. Depressa, colocou a assadeira no balcão da pia e verificou o fogão, para ver se todos os bicos de gás estavam apagados. Com poucos minutos para agir atravessou correndo o hall e desapareceu dentro do quarto no momento em que Joseph se dirigia para a porta da frente.
— Meu anjo, cheguei!
— Estou aqui — gritou ela.
Jogou as roupas em cima da cama e correu para o chuveiro. A água quente jorrou, espalhando vapor no ar. Ela entrou na enorme banheira, fechou a cortina e colocou-se sob o jorro de água. Pegou o frasco de sabonete liquido da prateleira e esfregou-o no corpo inteiro, cobrindo queixo, seios, braços e ombros com espuma.
— Hum, que cheiro gostoso! — exclamou Joseph.
Enquanto se dirigia para o quarto, começou a tirar a camisa. Estava com frio, cansado e feliz por estar em casa.
— Demi você já terminou o banho?
Ela entreabriu a cortina.
— O que você disse?
Joseph tirou as botas e deixou-as junto do armário, depois foi para o banheiro.
— Eu disse, você já está terminando o banho?
Demetria abafou uma risada.
— Desculpe, mas não estou ouvindo direito!
Ele estava próximo da banheira quando a cortina se abriu de repente. A mão de Demi apareceu e agarrou-o pela camisa. Antes que ele pudesse pensar, estava embaixo do chuveiro, as roupas colando-se no corpo.
Ela riu e desabotoou a camisa dele, depois passou a ponta dos dedos pelo peito nu. Joseph gemeu e imediatamente desejou-a.
— Você vai se arrepender! — ameaçou.
Prendeu-a pelos braços, mas não conseguia segurá-la por causa do sabonete. Ela soltou-se, rindo, e tentou tirar a camisa dele, quando o marido a abraçou.
— Sua feiticeira!
— Você está com roupa demais — provocou ela, abraçando-o pela cintura.
Quando os seios firmes achataram-se contra o peito de Joseph, ele baixou a cabeça, gemendo.
— Meu Deus, Demetria, você me faz perder a respiração!
— Então, tire a minha, também — implorou ela, erguendo o rosto para um beijo.
Seus lábios se encontraram, os dele rijos e exigentes, os dela macios e submissos. A brincadeira tornou-se desejo e os dois tiraram a roupa de Joseph, ele arrancando a camisa e ela descendo a calça jeans, que ficou jogada aos pés deles.
Ereto a ponto de doer, ele fechou a torneira e foram envoltos em silencio e vapor. Gotas de água brilhavam na pele de Demi, como pequenos diamantes. Os olhos de Joseph, brilhantes, estreitaram-se quando cobriu os seios dela com as mãos. Em seguida, antes que ela percebesse o que estava acontecendo, uma das mãos dele aninhou-se entre suas pernas; Demetria inclinou a cabeça para trás, encostando-a na parede, e agarrou-se ao marido para não cair.
Em segundos achava-se deitada de costas na banheira, com Joseph por cima. A camisa dele estava embolada sob um de seus ombros, e o jeans, encostado em seus pés, mas ela não percebia. Todos os seus sentidos achavam-se presos aos movimentos perfeitamente sincronizados de seus corpos.
O tempo se deteve. Nada mais importava a não ser o latejar de carne contra carne e o gozo que se aproximava. Cada vez com mais ímpeto, Joseph movia-se dentro dela, em busca da explosão final.
E o orgasmo chegou, envolvendo-os, atingindo Demi com tal violência que destruiu qualquer inibição que poderia ter. As pernas esguias envolveram a cintura dele e ela deixou-se levar pelo êxtase com um grito que ecoou de maneira quase sobrenatural entre as paredes do banheiro. Momentos depois, sentiu que Joseph estremecia e ouviu-o gemer. Ele largou-se sobre ela, com todos os músculos tremendo e a respiração rouca e ofegante. Fez um movimento para se erguer, porém Demi segurou-o.
— Espere, Joseph — ofegou. — Não me deixe ainda.
Ele passou os braços ao redor dela e rolou o corpo de maneira a fazê-la ficar por cima dele, o rosto aninhado entre seu ombro e pescoço. Mais um estremecimento de prazer percorreu o corpo de Joseph e ele respirou fundo, procurando acalmar as batidas de seu coração.
— Meu Deus, Demetria…
Ela pegou a mão dele e beijou a palma.
— Eu sei… — murmurou. — Eu sei…
Um minuto passou, depois outro. O ar começou a esfriar à medida que o vapor se dispersava, Demi teve um arrepio e o marido envolveu-a com os braços.
— Está com frio, meu anjo?
— Um pouco.
Ele ajudou-a a levantar-se.
— Vou tomar um banho e você vai se enxugar e se vestir, antes que pegue um resfriado.
Demi aproximou-se mais dele, beijou-lhe um canto da boca, depois o outro. Num gesto rápido, pegou a camisa e o jeans, torceu-os o mais que pode e jogou-os no chão do banheiro. Em seguida, abriu a torneira do chuveiro.
— O que está fazendo? — perguntou Joseph.
— Vou ajudar no seu banho — ronronou ela. — E se você for bonzinho, até esfrego suas costas.
Ele riu.
— Por que esse tratamento especial?
O sorriso dela tornou-se tentador ao perceber que o marido excitava de novo. Pegou a esponja, colocou sabonete liquido nela e começou a esfregar o peito e o ventre dele.
— Não acha que merece? — indagou, maliciosa.
Quando os dedos de Demi envolveram sua masculinidade, ele fechou os olhos e gemeu.
— Não sei se mereço ou não — sussurrou — , mas sei que torcerei seu delicado pescoço se você parar agora.

(...)

Já era de manhã e Joseph relutava em levantar-se. Olhou para o relógio, desejando que não chegasse a hora de ele despertar. Porém, quanto mais os ponteiros aproximavam-se das seis horas, mais ele se via obrigado a encarar o inevitável.
Desligou o alarme e saiu da cama, resolvido a levar as roupas para a sala a fim de vestir-se sem acordar Demi. Quando chegou à porta, voltou-se. Ela sempre dormira com o abandono de uma criança, um braço erguido, um pé para fora da cama, e ele sempre brincava a respeito. Porém, desde que voltara, Demi dormia encolhida e com cobertas envolvendo-a como uma concha. A testa de Joseph enrugou-se. Se, pelo menos, ela se lembrasse do que acontecera! Não era apenas sua esposa. Era a sua vida, a sua razão de viver. E estava dormindo na cama deles, do mesmo jeito que dormia naquele dia…
Sentiu o coração apertar-se, mas tratou de afastar o medo, zangado consigo mesmo por aquele pensamento. Havia uma semana que não sentia mais esse pânico. Provavelmente ele renascera agora por causa da noite
anterior. Fazer amor com Demi era maravilhoso, contudo também o levava a lembrar-se mais agudamente do desaparecimento dela.
Desgostoso por causa dessa sensação tão negativa, foi para a sala. Vestiu-se e um momento depois achava-se na cozinha, colocando água na cafeteira e planejando seu dia. Quando foi pegar o coador de papel, a caixa estava vazia. Escreveu o lembrete para comprá-lo na lista de compras e procurou a toalha de papel. Não era a primeira vez que a usaria para substituir o coador. Ajeitou-a dentro do suporte e abriu a gaveta do gabinete, à sua direita, a fim de pegar a tesoura para cortar o excesso da toalha, o que fez com duas tesouradas.
Cantarolando, colocou o pó no coador improvisado, ajeitou o suporte sobre a cafeteira, tampou e ligou o aparelho. Distraído, pos de volta a tesoura na gaveta, fechou-a e dirigiu-se para a geladeira. Foi então que parou, com os cabelos da nuca arrepiados. Voltou com o coração agitado, e abriu de novo a gaveta.
O envelope com dinheiro não estava mais lá.
Seu coração apertou-se e, em seguida, passou a bater mais apressado ainda. Ficou muito pálido e sentiu enjôo por alguns momentos. Não gostava do que estava pensando, porém era um fato indiscutível e não podia ser ignorado. Os mil quinhentos e cinqüenta dólares haviam desaparecido e ele imaginou há quanto tempo isso teria acontecido.
— Joseph, o que faz aí parado?
Ele voltou-se, observou o rosto sorridente de Demi e pensou em quanto ela havia mudado. Houvera um tempo em que sua mulher não conseguia ter segredos para com ele, quando saberia apenas com um olhar se estava mentindo ou não. E agora? Um arrepio gelado percorreu-lhe a espinha.
— Onde está? — perguntou.
— Onde está o quê? — rebateu ela.
— O dinheiro.
No mesmo instante o rosto de Demi tornou-se impenetrável. O coração dele parou por instantes e não pôde impedir-se de olhar para os braços delicados, onde antes havia marcas de injeções.
— Não acredito, Joseph! — protestou ela magoada. — Pensei que tivéssemos ultrapassado isto.
Os olhos dele tornaram-se frios e em sua voz transpareceu decepção e ira.
— Eu também pensei, Demetria.
A raiva fez o rosto dela avermelhar-se.
— Eu não cheiro e nem injeto drogas nos braços, se é o que você está pensando.
Joseph atravessou a cozinha e segurou-a pelos ombros, controlando-se para não sacudi-la.
— Eu já não sei o que pensar — resmungou — A mulher com quem me casei não tinha segredos e não mentia para mim.
Demi encolheu-se. A dor dessa acusação era maior do que se o marido houvesse batido nela. Ergueu o queixo e em seus olhos brilharam lagrimas contidas.
— É isso mesmo, Joseph Jonas. Não sou a mesma mulher com quem você se casou. Minha inocência desapareceu para sempre. Alguma coisa que não entendo aconteceu comigo. Mas seja o que for, só posso ter certeza de uma coisa: nunca mais serei a mesma.
Em seguida, segurou Joseph por um braço e puxou-o para o hall.
— O que está fazendo?
— Você quer dinheiro.
De novo o coração dele falhou.
Oh, meu Deus! E se ela apenas guardou em outro lugar? E eu, como um idiota, tirei todas as conclusões, menos a mais lógica.
Sentindo-se mal, ele ficou por segundos parado à porta do quarto e, quando Demi dirigiu-se ao guarda-roupa, seguiu-a completamente despreparado para o que ela colocou em sua mão.
— Aqui está, Joseph! Foi isto que comprei, e pegue o que restou do dinheiro.
Com repulsa ao sentir o frio do revólver em sua mão, ele olhou para a arma, depois para ela. Fitava-a como se nunca a tivesse visto até então.
— Por quê?
Primeiro apenas o queixo dela tremeu, depois o tremor pareceu alastrar-se por todo seu corpo.
— Porque estou com medo, Joseph. Tenho medo a cada minuto que estou acordada e até mesmo dormindo. Quando penso que tudo está bem, pedaços de rostos e lugares desfilam pela minha mente como pequenos, horríveis fantasmas. E quando isso acontece sinto-me como se fosse entrar em estado de choque.
As mãos de Joseph também tremiam quando colocou o dinheiro sobre a penteadeira. Segurou carinhosamente o rosto dela e não escondeu que estava arrependido.
— Por que não me disse que começou a lembrar?
Uma expressão de sofrimento crispou o rosto bonito.
— Porque não sei o que vi. Às vezes são apenas vultos indefinidos, em outras paisagens através de uma janela. De vez em quando eu acordo imaginando que o chão está se movendo sob meus pés, salto ao ouvir um barulho, e até mesmo um cheiro pode me perturbar. — Afinal, as lágrimas
começaram a descer pelo rosto dela. — Muitas vezes penso que estou enlouquecendo.
Ele a abraçou-a e embalou-a, como a uma criança.
— Não está ficando louca, querida. — disse baixinho -, e eu prometo que nunca mais vou duvidar de você. Apenas confie em mim o bastante para me contar-me o que for acontecendo. Não precisa enfrentar essa pressão toda sozinha. De algum modo iremos descobrir o que aconteceu.
— Mas como?
O rosto de Joseph endureceu.
— O investigador particular. Eu já deveria ter falado com ele. Tenho seu telefone no escritório. Vou telefonar-lhe assim que chegar lá e falar com o policial Dawson, também. Quem sabe ele tem alguma novidade.
Demetria assentiu, mas quando Joseph começou a afastar-se, agarrou-se a ele com medo de deixá-lo ir.
— Venha — disse Joseph, carinhoso. — Vista alguma coisa quente e vamos tomar café.
— Eu me sinto como uma criança — soluçou ela, envergonhada.
Joseph pegou o blusão de um de seus abrigos e deu-o a Demi. Em seguida olhou para o revólver.
— Só que não está agindo como uma criança… — comentou. — Você sabe usar essa coisa?
Ela enxugou as lágrimas com as mãos.
— Estou aprendendo.
— Está brincando!
— Não. Estou tendo aulas no Centro de Tiro Foothills, em Lakewood.
O marido olhou-a com novo respeito.
— Não está falando a serio, está?
— Muito a serio — respondeu Demi, vestindo o blusão.

(...)

Era quase meio-dia quando a campainha da porta soou. Demi pôs de lado a faca de cozinha, lavou as mãos que estavam sujas de tomate e foi enxugando-as a caminho da porta. Pela janela, viu o carro azul-escuro parado junto à guia da calçada. Puxou a cortina e reconheceu o investigador encarregado do seu caso. Teve um sobressalto. Joseph dissera que ia falar com ele, e uma resposta tão imediata a fez supor que havia novidades. Abriu a porta.
— Investigador Dawson, que surpresa! — disse. — Entre, por favor.
Avery Dawson entrou e fechou a porta atrás de si. Aquela mulher não se parecia nada com a aquela que havia interrogado no hospital. A pele dela era clara e perfeita, seu sorriso, resplandecente. Vestia-se de modo casual e havia cheiro de comida sendo feita. Ela não parecia estar apavorada, no entanto comprara um revólver, e o chefe de policia queria algumas respostas antes de assinar o porte de arma.
— Obrigado, sra. Jonas. Peço desculpas pela hora inconveniente, mas gostaria de poder fazer-lhe algumas perguntas.
— Claro — concordou Demetria. — Quer me dar o seu capote?
O policial negou com a cabeça.
— Não vou demorar muito, prometo.
— Pelo menos, venha para a sala. Aqui no hall está muito frio.
Avery Dawson acompanhou-a e sentou-se no sofá oposto à poltrona em que ela se acomodou.
— Quando Joseph me disse, hoje de manhã, que ia telefonar para o senhor, não pensei que fosse nos atender tão depressa. Há alguma novidade?
Dawson franziu as sobrancelhas.
— Não falei com seu marido, sra. Jonas.
O sorriso dela apagou-se.
— Oh…
— Vim aqui a mando do meu chefe. A senhora pediu um porte de arma?
— Sim, pedi — respondeu ela intrigada.
— Isso significa que comprou um revólver recentemente?
Havia algo no tom de voz do policial que a ofendeu. Imediatamente sentiu-se como se estivesse sendo interrogada, quando havia sido a vítima e não a agressora. Inclinou-se para a frente, amarrotando nas mãos o pano de prato e apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Sim, comprei um revólver recentemente. Eu não sabia que as compras de uma arma são rotineiramente investigadas.
O investigador procurou esconder seu mal-estar.
— Normalmente, não são — respondeu.
— Sei… — murmurou Demi. — Continue.
— Olhe, sra. Jonas, estou apenas cumprindo ordens.
Ela permaneceu em silêncio, mas seus olhos eram acusadores, e Dawson procurou uma pergunta que fizesse algum sentido.
— O que a senhora estava pensando quando… Entende? Qual era seu estado de espírito ao decidir comprar a arma?
Demetria sacudiu a cabeça, desanimada. Era tudo que conseguia fazer para impedir-se de gritar. E quando falou, sua voz havia subido uma oitava.
— Diga-me uma coisa, este é o tipo de investigação que o senhor faz normalmente? Porque se for, não é de estranhar que não tenha conseguido encontrar-me.
Dawson corou.
— Olhe sra. Jonas, eu…
Num ímpeto, ela levantou-se.
— Não, olhe o senhor. Alguém roubou dois anos da minha vida. Não sei onde estive, como voltei para casa, mas compreendo que o perigo pode voltar. Sim. Comprei um revólver porque não me sinto segura, e depois desta nossa conversa minha confiança no Departamento de Policia de Denver tornou-se nula. Estou tendo aulas no Centro de Tiro de Foothills. Eu não estou louca, apenas com medo.
— Sim, senhora. Posso entender isso. Mas com certeza a senhora pode compreender a posição do chefe de policia. Nas mãos erradas, um revólver só poderá causar danos.
Ela riu, sarcástica.
— Bem, o que acaba de dizer não é novo, é um slogan de publicidade contra armas. Por que não somos honestos um com o outro? Seu chefe o convenceu que sou uma maluca que abandonou o marido e depois, por motivos de seu próprio interesse, voltou para casa. Não é verdade?
O policial corou de novo. O que ela acabava de dizer estava tão próximo da sua primeira opinião que tinha dificuldade em fitá-la nos olhos.
— Não, senhora. Não foi isso que eu disse.
— Oh, não mesmo. Eu ouvi o que o senhor disse — afirmou Demi — Foi o modo como o senhor falou que me ofendeu. Eu não fiz nada errado, senhor Dawson, no entanto sou a única investigada. Sabe como me sinto diante disso?
Tornara-se ainda mais difícil para Avery encará-la.
— Como já expliquei, estou apenas cumprindo ordens.
— Muito compreensível… — observou ela. — E já que está aqui, importa-se que eu lhe faça algumas perguntas?
Dawson se pôs de pé, extremamente desconfortável com o olhar frio e zangado de Demetria.
— Pode perguntar, senhora.
-O senhor tem alguma novidade a respeito do meu caso?
Ele lembrou-se do telefonema, depois do revólver e negou com a cabeça.
— Não, senhora. Não, desde a informação dada pelo taxista que a apanhou no aeroporto.
— Então, pegue seu caderninho de anotações. Lembrei-me de algumas coisas, nos últimos dias. Não que façam muito sentido, mas, afinal, são lembranças.
O policial passou a escrever no momento em que Demi ergueu-se, começando a andar de um lado para o outro e a falar.
— Onde eu estava aconteceu um terremoto. Não sei por que, mas acho que foi isso que proporcionou minha fuga. Tudo era muito verde. Gramados e árvores… palmeiras, como na Califórnia.
Avery Dawson não pode deixar de lembra-se do telefonema de Los Angeles.
Demetria parou de andar e os grandes olhos castanhos expressaram dolorosa aflição.
— Às vezes quase posso ver o rosto dele… — Então, seus ombros descaíram, ela suspirou e deu um rápido olhar para Dawson. — Mas não posso. No entanto, vi uma tatuagem no peito dele.
O investigador alertou-se.
— Que tipo de tatuagem?
Demi ergueu o cabelo e voltou-lhe as costas.
— Igual a esta.
O policial aproximou-se e olhou atentamente a tatuagem ankh no pescoço esguio.
— Há quanto tempo a senhora tem esta tatuagem?
— Não sei dizer.— Demi soltou o cabelo e virou-se.— Tudo que sei é que não a tinha antes de desaparecer.
Ele tomava notas furiosamente.
— Uma vez tive a impressão de que havia barras de ferro nas janelas do meu quarto. O senhor acha que posso ter estado numa cadeia?
— Com o cenário que descreveu, não. Se a senhora houvesse estado num presídio, a paisagem que veria lá fora seria composta por cimento e arame farpado.
Ela relaxou um pouco.
— Melhor assim… Não posso imaginar onde estive, porém o que acaba de me dizer faz com que me sinta melhor.
— Algo mais? Isso é tudo? Até mesmo as coisas que parecem insignificantes podem ser a chave para nos levar a deduções que nos ajudem.
A testa dela franziu-se, enquanto Demetria pensava com intensidade. Por fim, sacudiu os ombros.
— Não lembro de mais nada.
O policial guardou o caderninho no bolso e nesse momento decidiu nada dizer a Demetria sobre o telefonema de Los Angeles. Preferia contar a Joseph.
— Vou indo. Se por acaso lembrar-se de mais alguma coisa, qualquer coisa, não hesite em me telefonar.
Demi assentiu e acompanhou-o até a porta. Começou a abri-la quando ele a deteve.
— Sra. Jonas, há uma coisa que quero lhe dizer.
Ela esperou.
— Mas deve ficar apenas entre nós.
— Não sei se vai achar importante, porém eu acredito na senhora.
— Não sei se vai achar importante — sorriu ela — , mas eu lhe agradeço por isso.
Momentos depois ele havia ido embora, deixando Demetria com a impressão de que seu mundo ficara mais complicado do que antes. Ocorreu-lhe, então, que não perguntara ao investigador sobre o porte de arma. Paciência. Não importava se o teria ou não: já tinha o revólver e sabia como usá-lo.

Um comentário:

  1. Aiii Bru absbabajsba essa fic é perfeita *--* parei para ler ela agora e já amei!! Esse policial todo idiota ao invés de contar logo sobre o telefonema à demi prefere esperar para contar à joe. To muito ansiosa ahhsbsisb ♡

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