14.12.14

Remember Me - Capítulo 8 - MARATONA 3/5

Espero que estejam gostando! Comentem... Boa leitura!

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— E aquele ali? — perguntou Demetria.
O balconista da loja arqueou as sobrancelhas. Aquela mulher podia não entender nada de revolveres, como dissera, porém tinha bom olho. Pegou o pequeno revolver do estojo e colocou-o no balcão, diante dela.
— Boa escolha — disse. — Como os demais que lhe mostrei, este também é um Glock 9mm. É um modelo G26, que é menor, mais leve, mais fácil de transportar e se adaptara direitinho em sua mão. Ele dispara onze tiros, o que é mais que suficiente para proteção normal. Tome, pegue-o — ofereceu. — Veja como o sente.
Demi pegou a arma, fazendo a coronha encaixar-se na palma da mão, e deslizou o dedo no gatilho.
— Este tem as mesmas características que os outros Glock que me mostrou, não?
— O que quer dizer? — indagou o balconista.
— Estou me referindo a tiros acidentais, caso ele caia no chão.
— Oh, sim, claro! — afirmou o vendedor. — De fato, essa é a maior qualidade do Glock. Ele apresenta três mecanismos internos de segurança , todos baseados no gatilho, como eu expliquei. Falando mais simplesmente: esta arma não dispara a menos que o gatilho seja acionado.
Ela assentiu, observou o cano, depois mirou num alvo de papel na parede oposta.
— A senhora já atirou alguma vez? — quis saber o homem.
— Não.
— Então, recomendo que tome umas aulas.
Ao falar o balconista sorriu, tirando a impressão de critica de sua frase.
— Estou pensando em me inscrever no Centro de Tiro de Foothills, em Lakewood. O senhor conhece?
— Excelente escola de tiro. Tenho certeza de que lá receberá toda a instrução que necessita.
Demetria assentiu de novo. Pouco mais havia a ser dito e, na verdade, sentia-se um tanto desconfortável com o fato de estar considerando seriamente comprar um revolver.
Olhou de novo a arma, o modo como seus dedos se curvavam ao redor da coronha, o jeito como ela se aquecia ao contato da mão. Quanto mais a segurava, mais lhe parecia uma extensão de si mesma. Deveria sentir-se estranha, até mesmo aflita, segurando um revólver, mas isso não acontecia. Ao contrário: o contato com ele acalmava seu medo e a fazia sentir-se no mesmo nível que seu captor sem rosto.
Então, ela estremeceu. Ter uma arma não significaria a garantia de que estava a salvo. Havia muitas perguntas não respondidas, e não poderia descansar enquanto não soubesse tudo a respeito dos dois anos que perdera. Simplesmente possuir um revólver não a salvaria de futuros perigos, mas dava-lhe amparo emocional de que tanto necessitava.
Sentiu em si o olhar do vendedor e, sem saber o motivo, teve relutância em encará-lo. De súbito, uma reação bastante estranha a dominou: tinha uma sensação de culpa associada à compra da arma. Era como se estivesse admitindo ao mundo que sua vida havia sido transformada e que estava disposta até mesmo a recorrer à violência para endireitá-la de novo.
Além disso, tratava-se de uma decisão que não submetera a Joseph. Então, argumentou consigo mesma, dizendo-se que não era seu marido que corria um perigo iminente. Pelo vidro da vitrina, viu o carro onde Betty a esperava com paciência.
Respirou fundo.
— Quanto custa?
— Duzentos e vinte e sete dólares, mais as taxas — respondeu o balconista. E acrescentou: — A senhora deverá vir retirá-lo dentro de três dias.
— Está bem — concordou ela.
— Então, tudo certo — alegrou-se o homem. — Preciso que a senhora preencha alguns formulários .
Ela fez o que ele pedia e pouco depois saiu da loja de armas. Deu um sorriso nervoso para a sogra e acomodou-se no assento do passageiro.
— Comprou? — indagou Betty.
— Sim.
— Espero que saiba o que está fazendo…
O sorriso de Demi desapareceu.
— Vou fazer todo possível para não ser uma vítima de novo.
Os olhos claros da sra. Jonas expressaram simpatia e compreensão quando estendeu a mão para apertar a da nora.
— Sinto muito o que aconteceu com você — murmurou, afetuosa -, mas peço-lhe que tome cuidado. Muita gente morre, todos os dias, por ferimentos de tiros acidentais.
Os lábios de Demi apertaram-se, formando uma linha fina.
— Se um dia eu apertar o gatilho de meu revólver não será por acidente.
Betty empalideceu. Aquele era um lado de Demi que não conhecia.
— Você poderia, mesmo? Matar alguém, quero dizer.
— Se a minha vida ou a de Joseph forem ameaçadas, sim.
— Tem certeza Demi?
— Tenho, sim — respondeu ela e desviou o olhar.
Foram para casa em silêncio. Apenas quando o carro virou a esquina de sua rua, Demetria falou.
— Joseph já chegou… — Então lembrou-se e acrescentou: — Muito obrigada pelo almoço e por ter me levado a tantos lugares.
Depois de parar o carro, a sra. Jonas a abraçou.
— Oh, meu bem, foi um prazer. Quando você desapareceu eu sofri como se houvesse perdido uma filha. Pensei que nunca mais estaria com você como se estive hoje. Quando quiser minha companhia, é só dizer.
— Vou querer e logo — prometeu Demi.
Saiu do carro e foi envolvida pelo vento gelado. Parecia que ia nevar. Correu até a porta e seus dedos se contraíram ao pegar na maçaneta fria, mas antes que ela abrisse, Joseph o fez. Deu-lhe um amplo sorriso, ficou de lado para que entrasse na casa aquecida e fechou a porta atrás dela.
— Venha já para cá — ordenou ele e abriu os braços.
Demetria obedeceu imediatamente, encostou o rosto no blusão de moletom vermelho e saboreou o prazer da força do abraço do marido. Joseph esfregou o queixo no alto da cabeça dela, amando senti-la junto de si e agradecendo a Deus por poder abraçá-la mais uma vez.
— Você e mamãe ficaram o dia inteiro fora. Não está cansada?
— Um pouco, mas foi bom estar com ela. Eu a adoro, você sabe.
Ele sorriu.
— Sim, eu sei. E acho que ela a adora também.
Joseph recuou apenas o bastante para fitar o rosto dela.
— Que tal um banho quente antes do jantar?
Ela concordou, depois franziu a testa, lembrando-se de alguma coisa.
— Oh, Joseph, eu não preparei nada para o jantar e nem me lembrei de trazer alguma coisa. Temos em casa o que fazer?
— Não se preocupe, já está feito. — garantiu ele.
Os ombros dela descaíram.
— Não estou cumprindo o nosso acordo, não é?
— Que acordo? — ele estranhou.
— Aquele em que você trabalharia e eu cuidaria da casa.
— Quem é que está se importando com acordos, Demetria? O que acontece a você, acontece a mim e vice-versa. Quanto ao que me diz respeito, você já deveria estar na cama, e pode ter certeza de que não irá começar a cuidar da casa enquanto não estiver mais forte.
Um leve sorriso entreabriu os lábios dela.
— Está bem.
— Agora que tal o banho? — lembrou Joseph.
— Está bem, e me espere, que não vou demorar — prometeu ela.
— Demore o quanto quiser, meu anjo. De qualquer modo as batatas ainda estão no forno, assando.
Demi dirigiu-se apressada para seu quarto, sentindo-se culpada por Joseph tratá-la com tanto carinho e dedicação. Enquanto ela agia as escondidas dele. Mas tratou de lembrar-se que não o fazia apenas por si: estava agindo assim pelo bem de ambos.

xx

Gotas de suor surgiram sobre o lábio superior de Pharaoh quando ele se virou na cama. Pegou a patinha de coelho e esfregou-a com os dedos, tentando bloquear a dor que sentia. Frustrado com a recuperação lenta dos ferimentos e a sonolência que a medicação para a dor causava, parara de tomá-la fazia dois dias. Agora, com a mente clara outra vez, seu corpo se recusava a funcionar. Cerrou os dentes e obrigou os olhos a focalizar as pequenas estátuas de duas personagens egípcias sentadas lado a lado na alcova na parede oposta à que ficava sua cama.
Ísis, esposa de Osíris e reverensiada mãe de todas as coisas, senhora dos elementos, começo do tempo. Osíris, ao lado dela, era o senhor do mundo subterrâneo, o príncipe dos mortos.
Pharaoh apertou ainda mais os dentes quando um outro espasmo de dor cruciante percorreu-lhe o corpo. Fechou os olhos, ordenando à mente que ignorasse a dor e que o fizesse lembrar-se de qual era a sua origem. Viera do rico, indolente mundo dos antigos reis, os faraós, das rajadas de areias do deserto, do calor que nunca terminava, das águas frias do Nilo e da sombra das tamareiras. Era muito mais fácil assimilar essa fantasia do que
encarar o dato de que havia sido abandonado ao nascer e criado num orfanato, sem que tivesse a menor idéia de quem haviam sido seus pais.
Na loucura que dominava sua mente, Pharaoh Carn estabelecera que era a reencarnação de um faraó que falecera no Egito, num mundo de mistério e beleza que nunca havia visto. E havia sido seu nome, Pharaoh, que lhe dera a chave para descobrir o que acreditava ser a sua vida passada.
Tocou o ankh tatuado no peito , olhando atentamente para as estatuas, procurando por si mesmo nas feições dos frios rostos de mármore.
Sua mente saltou do passado para o presente quando a imagem de Demetria se impôs à frente do que via. Um músculo pulsou em suas têmporas e ele procurou afastar a visão do seu cadáver jazendo, desconhecido, em alguma morgue da califórnia. E enquanto seu coração lhe dizia que ela estava viva, a lógica dizia o contrario, pois se houvesse sobrevivido ao terremoto eles já a teriam encontrado. Mandara Stykowski a Denver, dias atrás, mas ele ainda não dera noticias. Seus dentes rilharam de frustração. O mínimo que o maldito poderia fazer era dar um telefonema.
Batidas suaves soaram à porta, interrompendo-lhe os pensamentos atribulados.
— Entre.
Duke Needham abriu a porta, mas ficou parado no umbral.
— Chefe, não quero incomodar, mas tivemos problemas nas docas, em Houston.
O cérebro de Pharaoh rapidamente abandonou o lado pessoal pra focar o lado dos negócios que regiam sua vida.
— O que foi? — indagou bruscamente.
— O DEA. Eles acabam de confiscar o Pequeno Egito e tudo que havia nele.
O rosto de Pharaoh contraiu-se de raiva. Seu iate pessoal sempre fora respeitado pelos agentes do departamento de combate ao narcotráfico. Alguém no DEA não merecia o dinheiro que ele pagava.
— Ajude-me a levantar — ordenou. — Preciso fazer uns telefonemas.
Duke correu para a cama e ajudou o chefe a se pôr em pé.
— O que você quer, agora? — perguntou solícito.
— Ir para o meu escritório . Ache a maldita enfermeira e descubra onde ela enfiou a droga da cadeira de rodas.
— Sim, senhor.
Duke saiu correndo.
Minutos mais tarde, depois de ordenar a remoção permanente do policial Dabney Carruthers da face da Terra, Pharaoh desligou o telefone.
— O desgraçado! — rosnou. — Vai aprender a querer me tapear. Eu gostava daquele iate…

xx


Joseph acordou bruscamente de um sono sem sonhos e rolou na cama, olhando o relógio com dificuldade. Quinze para as seis da manhã. Desligou o alarme antes que ele soasse e acordasse Demi, depois rolou de costas de novo, para aproveitar por mais alguns minutos o calor sob as cobertas.
Adormecida, Demetria estava virada de frente para ele, que pode ver as feições delicadas emolduradas pelos cabelos negros, lembrando as de uma boneca de porcelana. Aproximou-se muito devagar, querendo apenas sentir sua pele de leve na dela, mas assim que a tocou ela deslizou para junto dele e apoiou o rosto no seu peito, com o nariz enfiado sob as cobertas.
O coração de Joseph apertou-se. Para um homem grande, forte e auto-suficiente como ele, era assustador amar com tanta intensidade e saber que uma mulher tão pequena tinha imenso poder sobre sua vida e felicidade.
Passou o braço ao redor do corpo de Demi, adorando a sensação de seu corpo junto ao dele, sabendo que aquela mulher, aquela linda e frágil mulher, era sua esposa. Porém seu maior medo não vinha da fraqueza dela, mas sim de saber que não lhe dera segurança. Prometera honrá-la e protegê-la em todos os dias de sua vida de casados, que mal durara doze meses. Isso não era muito abonador para um homem que fazia questão de cumprir o que prometia.
Ficou olhando-a enquanto Demetria ajeitava-se junto ao corpo dele, sentindo o bater de seu coração e a leveza da respiração em sua pele. Em seu peito surgiu um fogo devorador. Ele iria honrar suas promessas. Iria proteger sua mulher.

(...)

Parada junto à janela, Demi acenou pra Joseph, que dava marcha-à-ré em direção à rua, saindo da garagem deles. O segundo carro de Winston e Betty Jonas achava-se estacionado na rua, em frente da casa, e no console do hall havia um telefone celular.
Ela deixou a cortina voltar à posição original e voltou-se para dentro da sala, absorvendo a quietude que a rodeava. Era a primeira vez que ficava sozinha desde que voltara e não sabia se devia sentir-se orgulhosa ou amedrontada. Num cantinho de sua mente, parecia latejar a constante ameaça do desconhecido. No entanto, Joseph fizera todo o possível para ter certeza de que ela nunca mais iria sumir.
Enquanto o carro parado diante da casa dava a Demi uma sensação de liberdade o celular dava segurança a ele. Poderia entrar em contato com Demi a qualquer momento, em qualquer lugar, e ter certeza de que sua mulher estava em segurança.
Demetria ficou olhando a sala silenciosa, discutindo consigo mesma sobre se deveria levar seu plano adiante. Já podia ir buscar o revólver que encomendara. Mas estaria pronta para dar esse passo? Não apenas mentia para Joseph, como também para si mesma. Sim, queria proteção, porém havia uma parte de si que queria vingança. Alguém roubara dois anos de sua vida!
Meu Deus, por que não consigo me lembrar?
Meneando a cabeça, foi para a cozinha, dizendo-se que devia ir cuidar da louça do café da manhã e, depois, colocar roupas na máquina de lavar. Havia tempo para pensar no revólver e poderia até mudar de idéia.
Colocou a louça na máquina, ligou-a e foi tirar a toalha da mesa. Nesse momento seu olhar deu com a gaveta onde Joseph guardara o dinheiro que havia encontrado na sua roupa. Apesar de sentir-se nervosa, abriu-a, pegou o maço de notas e ficou olhando para ele como se a qualquer momento pudesse explicar sua presença.
Mas nada aconteceu.
Nenhum lampejo de lembranças.
Nenhuma revelação.
Com a testa franzida, tornou a guardar o dinheiro na gaveta. Tinha que ir cuidar da roupa para lavar. Era o que devia fazer, em vez de ficar complicando sua vida com idéias que poderiam ser decepcionantes.
Estava separando as roupas quando reparou na camiseta Harley-Davidson de Joseph. Era velha, estava desbotada, mas assim mesmo era a que preferia usar para dormir. Sorriu e encostou-a no peito, pensando em como seu marido era grande.
Quando trabalhava na biblioteca quase sentira ciúme do jeito que suas colegas de trabalho agiam quando ele ia buscá-la. Em geral, ele aparecia vestido com as roupas de trabalho: a macia e desbotada calça jeans; a camisa xadrez, azul de algodão. Ambas
modelavam o corpo musculoso, cobrindo o que importava, mas deixando bem pouco à imaginação. As sobrancelhas dele eram grossas, negras e tendiam a arquear-se quando algo o intrigava. Seu queixo era quadrado, forte, indicando teimosia e auto-confiança, os olhos eram de um azul escuro. Mas era só aparência de um rapaz durão e rebelde. Joseph era tão atraente quanto era crédulo e honesto.
Demetria suspirou, deixou a camiseta cair na pilha de roupas de cor e terminou a separação. Alguns minutos depois a máquina de lavar movimentava-se, ronronando, e a de lavar louça iniciava o ciclo de enxágüe. Ela parou no meio da cozinha, procurando mais o que fazer. De novo seu olhar foi para a gaveta do armário. Mordeu os lábios, foi para a sala de estar e ligou a tevê.
Um programa de entrevistas e sete comerciais depois, continuava tão inquieta quanto no momento em que se sentara ali. Olhou para o relógio acima da lareira. Eram quase dez horas. Faltavam duas horas para o almoço e pelo menos seis horas antes que Joseph voltasse para o jantar.
Quando o programa terminou, começou um breve noticiário, mencionando a possibilidade de neve ainda naquela manhã. Em seguida entrou uma reportagem sobre a continuidade dos trabalhos de reestruturação do sul da Califórnia devido aos estragos causados pelo terremoto.
À medida que o repórter falava e cenas sucediam-se no vídeo, a pele de Demetria começou a arrepiar-se. O sangue fugiu de seu rosto ao ver os prédios desmoronados e o desespero das pessoas.
Corra, Demetria, corra!
Ela ofegou e voltou-se, certa de que alguém falara atrás de si, mas não havia ninguém. Ergueu-se do sofá e correu para a porta, a fim de ver se estava bem trancada, repetindo o procedimento com as outras portas e janelas. Ao mesmo tempo certificou-se de que estava só.
Ficou parada no hall, ouvindo o silêncio e esperando para ver se a voz soava de novo. Então, algo começou a emergir em sua memória.


Ela estava correndo… correndo. Havia uma longa escadaria. Janelas explodiam como tiros. De repente viu-se diante de uma imensa porta e tentou ver além dela. Havia verde, muito verde. Muitas, muitas árvores. E boa parte delas estava caindo. Tudo estava caindo. Estremeceu e fechou os olhos enquanto a imagem solidificava-se em sua mente.
Nesse instante alguém a agarrou. Uma dor terrível explodiu na sua nuca quando o chão movimentou-se e foi atirada violentamente contra a parede.
Ouviu a si mesma gritando:
— Quero ir para casa!
Via os olhos negros dele brilhando de ódio quando a segurou com força.
— Mas você esta em casa, Demetria. Agora você me pertence.
Ela se debatia, lutava, sentindo as mãos do homem apertando-lhe a garganta.
— Largue-me, deixe-me ir! — implorou desesperada, com dificuldade para respirar. — Eu não quero morrer!
Com dificuldade para respirar.— Eu não quero morrer!
Então, empurrou-o e ele caiu. Rolou pela escada que oscilava e acabou estendido lá embaixo, deitado de lado. O sangue que saía da parte de trás da sua cabeça manchava o mármore branco veiado de negro, misturando-se ao reboque e vidro quebrado espalhados pelo chão. O piso movimentou-se sob os pés dela, que foi lançada para a frente e, apoiada nos joelhos e mãos,
escorregou dois ou três degraus abaixo, até que conseguiu parar. O ar estava denso de poeira. Algo explodiu lá fora e as luzes se apagaram. Ignorando a dor, ela desceu correndo a escadaria, também de mármore, segundos antes que ela desabasse, destruída. Foi cair ao lado do corpo imóvel. Quando ergueu o rosto, quase esbarrou no nariz do homem inconsciente.

As imagens começaram a apagar-se.
— Não — murmurou Demetria.
Tentou desesperadamente lembrar-se do que acontecera a seguir. Fechou os olhos e procurou concentrar-se nas feições do homem. Precisava de uma identidade antes de ir à polícia. Mas a imagem não quis voltar. Tudo que conseguiu ver com os olhos da mente foi a lapela do paletó dele quando o rolou, fazendo-o ficar de costas, para pegar a carteira no bolso de dentro.
Levou a mão aos lábios, contendo um grito, e abriu os olhos. O dinheiro! Fora assim que conseguira aquele dinheiro todo.
Correu para a cozinha, achando que se tocasse naquelas notas talvez tivesse as respostas. Mas quando pegou-as da gaveta, tudo que sentiu foi um aperto ruim na boca do estômago. Talvez não fosse mais precisar do revólver. Na visão que tivera o homem parecia morto, no entanto algo a impedia de ficar tranqüila. No último momento, no alto da escada, o homem tentara salvá-la ou matá-la?
Cerrou outra vez os olhos.
— Por favor, meu Deus, ajude-me a me lembrar — pediu.
Mas nada aconteceu.
Segurando o dinheiro com ambas as mãos, apertou-o contra o peito como se fosse uma espécie de escudo. Seu pensamento voava de uma cena a outra, sem que conseguisse apreendê-las. O que acabava de se lembrar a fez sentir mais medo ainda. Ficou imóvel, até que o medo começou a se transformar num frio e raivoso propósito.
Foi para o quarto trocar de roupa.
Alguns momentos depois, saiu. Deu um olhar curioso de alto a baixo da rua e foi para o carro.
A sra. Rafferty, que morava do outro lado, em frente, abaixou-se, pegou seu jornal e ao erguer-se viu-a. Acenou, toda alegre. Demetria acenou em resposta e sorriu. Nada havia mudado. A sra. Rafferty continuava gostando de acordar tarde, pois era evidente que estava começando seu dia.
Quando abriu a porta do carro para entrar, o sr.Davidson, que morava um quarteirão abaixo, ia passando com seu cachorro. Ele não acenou, mas não por não ser amigável. A bengala branca que movimentava adiante dos pés
dizia tudo: ele era cego. Demi deslizou para trás do volante e foi só então que percebeu que o cão guia que acompanhava o cego não era o mesmo de antes. Ficou olhando pelo espelhinho até que o sr. Davidson e seu cão viraram a esquina.
Aquele era mais um sinal de que a vida ali continuara sem ela.
Antes de dar partida no motor, verificou o endereço da loja de armas. Movimentou o carro, pensando que uma parte de sua memória havia desaparecido, porém a parte que mais importava, a da vontade e determinação de viver, continuava forte. Onde quer que tivesse estado, dera um jeito de voltar para Joseph.

(...)

— Pronto, sra. Jonas. Assine aqui e poderá ir embora sossegada.
Demetria assinou o recibo e contou cuidadosamente sete notas de cem dólares, enquanto o balconista acomodava o revólver numa caixa e a enfiava numa sacola.
— Quantas balas a senhora quer comprar, fora as que já estão na arma?
— Não sei — respondeu ela, erguendo os olhos. — O bastante para aprender a atirar, creio.
O vendedor pegou várias caixas de balas e colocou-as na sacola, junto com o revólver.
— Isto dá para o começo, só que vai custar um pouco mais.
Ela pegou outra nota do maço e acrescentou às que pegara. O dinheiro nada significava e pouco lhe importava de onde viera: ia usá-lo bem.
Se pretende andar com o revólver — avisou o homem -, deverá tirar um porte de arma.
Demetria ficou perplexa. Aquilo ia complicar seus planos.
— E como faço isso? — perguntou.
— Precisa solicitar ao chefe de polícia, por meio de um formulário.
— E onde arranjo esse formulário?
O balconista pegou o dinheiro que ela lhe estendia.
— Devo ter algum, vou lá dentro ver.
Desapareceu na sala no fundo da loja, deixando-a sozinha. O sininho da porta bateu. Ela voltou-se, rápida, olhando desconfiada para o homem com roupa de camuflagem que entrava, mas ele não lhe prestou a mínima atenção e foi examinar uns pentes de munição que estavam numa prateleira.
Demetria deu-lhe as costas e observou, nervosa, a porta por onde o vendedor desaparecera. De repente, quis apenas fugir daquela loja e de tudo que ela representava.
Olhou para a sacola que segurava e seus ombros descaíram. Assumindo a responsabilidade pela própria proteção, nunca mais iria sentir-se livre. Viu o balconista voltando. Ainda estava em tempo.
— Aqui está seu troco — disse ele -, e o formulário. É só preenchê-lo e enviá-lo ao endereço que está aí. A polícia manda o porte de arma para a senhora. Está bem?
As mãos dela tremiam quando guardou o troco e o formulário na bolsa. Quando chegou ao carro sentia-se enjoada. Sentou-se ao volante e fechou a porta. O ruído pareceu-lhe ensurdecedor no silencio da rua.
O ar que respirava espessou-se quando olhou para a sacola no banco a seu lado. Tudo o que conseguia pensar era: O que eu fiz?
Uma necessidade insuportável de ouvir a voz de Joseph apoderou-se dela. Pegou o celular na bolsa e discou.
— Construções Jonas, Mike às suas ordens.
— Mike, é Demetria, a esposa de Joseph. Pode chamá-lo, se ele não estiver muito ocupado?
— Claro, sra. Jonas. Espere um momento.
Demi fechou os olhos, concentrando-se nos rumores que ouvia através do telefone. Os estampidos dos revólveres de cravar pregos eram fortes e contínuos. O ronco das maquinarias pesadas, em movimento constante, lembravam-na de como era o mundo de Joseph. Antigamente era um mundo familiar também para ela, mas agora sentia-se uma estranha. Antes que pudesse aceitar esse fato soou a voz do marido trazendo-lhe um grande alivio.
— Demi… meu anjo… alguma coisa errada?
Ela não merecia tanta ansiedade e carinho. Mordeu o lábio inferior e seus olhos brilharam, com lágrimas.
— Não, nada. Está tudo certo.
— Mike disse que você parecia nervosa.
Demetria olhou a sacola de novo. A urgência de contar tudo a ele era forte, porém Joseph já sofrera muito e longamente com o desaparecimento. Não podia sobrecarregá-lo com seus medos. Por isso, em vez de dizer-lhe a verdade, mentiu.
— Não estou nervosa. Apenas queria ouvir sua voz. Só isso.
— Tem certeza de que está bem? Parece que você está chorando…
Tentando transformar um soluço em riso, ela respondeu:
— Você tem muita imaginação! Vai chegar em casa tarde?
— Acho que não — respondeu ele.
— Ótimo. Mas me dê tempo para fazer um jantar especial.
— Não se canse, querida — pediu Joseph. — Qualquer coisa estará bem. — Abaixou a voz: — Na verdade, a única coisa que quero é você.
Desta vez Demi riu de verdade.
— Como eu disse, vou fazer algo especial… — Antes de desligar, acrescentou: — Eu te amo.
— Eu também te amo, Demetria, mais do que nunca. Até logo, meu anjo.
— Até logo — respondeu ela e desligou.
Colocou o celular ao lado da sacola, fitando-a de novo, só que desta vez o brilho em seus olhos não era de lágrimas. Tirou o carro do estacionamento para dirigir-se a Lakewood, onde ficava o Centro de Tiros de Foothills.
Talvez estivesse errada não dizendo nada a Joseph, mas agora já começara, e a única coisa que tinha a fazer era continuar.
Se tivesse olhado para trás nesse momento, teria visto o homem com roupa de camuflagem sair rapidamente da loja de armas. Porém estava prestando tanta atenção no tráfego à sua frente que não se preocupava com o que se passava atrás.

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