14.12.14

Remember Me - Capítulo 7 - MARATONA 2/5

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Uma estranha angustia apertou o coração de Joseph. Alguns meses atrás levara varias noites imaginando aquele momento; noites em que não conseguia dormir, quando começava a aceitar o fato de que nada mais teria de sua esposa desaparecida a não ser lembranças. Agora, não. O retorno dela era uma realidade, e não havia médicos, enfermeiras e nem policiais do outro lado do quarto. Apenas ele e ela, mais o amor que antes os unia. Será que Demi o perdoava? Será que podia confiar nela? Chegou à conclusão que nada disso importava.
Rodeou o rosto delicado com ambas as mãos, tomando cuidado para não tocar o local do ferimento na cabeça e achando que talvez ainda fosse cedo para fazerem amor.
— Você tem certeza?
O queixo dela tremeu.
— Certeza de que o amo? De que quero fazer amor com você? Oh, Joseph, o que está pensando?
Ele soltou a respiração que retivera e abaixou a cabeça. E, por fim, nada mais se ouviu a não ser o roçar de um corpo contra o outro quando ela se ergueu na ponta dos pés para que ele a beijasse. Em segundos o abraço que os unia transformou-se de doce em enlouquecedor.
Ela gemeu com a investida violenta que a fez encostar-se na parede. Beijos famintos sucederam-se até que ambos ficaram ofegantes, respirando com dificuldade. Joseph enfiou os dedos nos cabelos dela, e só quando Demi encolheu-se é que lembrou-se do ferimento. Imobilizou-se, com remorso.
— Desculpe, desculpe… — murmurou.
Começou a recuar, porém ela segurou-o e puxou-o de novo para si.
— Cuidado, Demetria…
— Não quero ter cuidado. Quero ser amada — implorou ela.
Joseph conteve um gemido. Recusar a ela, ou a si mesmo, era impossível. Tomou-a nos braços de novo, beijou-lhe suavemente o rosto, as pálpebras e, por fim, os lábios macios, cálidos, que correspondiam às suas solicitações. Porém ele queria mais, muito mais.
A cabeça de Demi girava, enquanto a paixão a envolvia. Tremendo, ela interrompeu o beijo e inclinou a cabeça para trás a fim de olhá-lo.
— Joseph…
A voz dele não foi mais do que um murmúrio.
— Sim, meu anjo?
— Leve-me para a cama.
Um músculo começou a pulsar junto às têmporas dele, enquanto a erguia nos braços e a carregava através do quarto. Quando a deitou na cama Demi puxou-o para cima dela. Rolaram, emaranhando-se com os lençóis. Imediatamente, Joseph livrou-se dos lençóis e começou a tirar as roupas dela. Sua intenção era urgente e impossível de ser ignorada. Ele a queria nua e queria naquele instante.
Demetria correspondeu, tirando a camisa e o jeans que ele vestia, até que a única coisa que restou entre eles foi a paixão.
Joseph apoiou-se nos cotovelos, erguendo-se para fitar a esposa. O sorriso dele era de felicidade, sua respiração, curta e ofegante. Dois anos de abstinência sexual ameaçavam destruir seu controle.
— Demetria, minha querida, não sei se devo…
Ela tapou-lhe a boca com a mão.
— Deve, sim amor. Deve…
O gemido de Joseph soou no silêncio do quarto quando ela abriu-se como uma flor para que a penetrasse, e ele o fez com profundo ardor. Enquanto começava a possuí-la, pensamentos passavam-lhe pela mente como relâmpagos , dizendo-lhe daquele longínquo período de solidão, em que sua única companhia era ele mesmo.
Há tanto tempo… É tão bom…
Demetria passou as pernas pela cintura dele, fazendo-o penetrá-la mais. Joseph gemeu de novo. Tudo estava acontecendo muito depressa.
De repente, as batidas do coração ressoavam como tambores em seus ouvidos, e seu corpo movimentava-se por si mesmo, sem que qualquer pensamento mais lhe passasse pelo cérebro. Então a sensação deliciosamente arrasadora o envolveu, levando-o mais para dentro e para o fundo de um mar denso de prazer. Ouviu o grito que se prolongou num rouco gemido. Era a si mesmo que ouvia e, em seguida, foi como se estivesse se desmanchando.

(...)

Passavam três minutos das três horas da tarde quando a campainha soou. Joseph saiu rápido da cozinha, ansioso para evitar que o barulho acordasse Demi. A manhã havia sido exaustiva para ela, porém compensadora para ambos. Tivera a exata sensação de estar fazendo amor com Demetria pela primeira vez.
No caminho para a porta, olhou pela janela e viu o carro de seu pai lá fora. Franziu a testa, imaginado se teria acontecido alguma coisa no trabalho. Num gesto rápido, ajeitou os cabelos com as mãos e abriu a porta. O vento soprava forte e gelado.
— Entre, pai, aí fora está muito frio.
Fechou a porta assim que ele entrou.
— Que tempo mais miserável! — resmungou Winston, tirando o capote.
Joseph observou o pai pendurar o capote no porta-chapéus , à entrada do hall. Como sempre era impossível avaliar o que ele pensava ou sentia.
— Que tal um café bem quente, pai? Acabei de fazer.
— Não quero dar trabalho, mas aceito.
Esfregando as mãos, Winston Jonas acompanhou o filho até a cozinha. Curioso, olhou em volta, enquanto Joseph servia e lhe entregava o café.
— E Demi?
— Está dormindo.
Winston assentiu, pegou a caneca e envolveu-a com as duas mãos para esquentá-las.
— Ela está bem? — perguntou.
Joseph encostou-se no balcão da pia.
— Vai indo…
— Lembrou-se de alguma coisa? — quis saber seu pai.
— Nada que possa ajudar… ainda.
O senhor tornou a assentir e tomou um gole de café.
— Tudo bem no trabalho? — indagou Joseph.
— Sim, claro.
— Agradeço por ter ido me substituir, pai.
Mais uma vez Winston fez que sim com a cabeça e tomou outro gole de café.
Vários longos e desconfortáveis momentos se passaram entre os dois homens, com Winston ocupado em assoprar o café antes de beber e Joseph observando-o.
— O que você acha? — perguntou o sr. Jonas, finalmente.
Joseph suspirou. Sabia ao que o pai estava se referindo. Ele ficara tão zangado e abalado com os acontecimentos que era natural seus pais estarem curiosos a respeito de sua disposição.
— Acho que agi como um perfeito idiota, pai. Felizmente, Demetria parece gostar de homens com orelhas grandes, pontudas e rabo.
Winston forçou um sorriso.
— É um julgamento severo, filho.
— Talvez seja — concordou Joseph -, porém eu devia ter tentado ver o lado dela, primeiro.
— Bem, deve-se admitir que as marcas de agulhas nos braços eram muito perturbadoras. Acrescente-se a isso o fato de ela ter esquecido o que aconteceu nesses dois anos, e a verdade é que você se viu diante de sua esposa com muita coisa estranha e inexplicável.
— É verdade — anuiu Joseph. -Mas o que me fez sentir-me pior ainda foi saber que durante o tempo todo em que a pressionei para me dizer onde ficou nesses dois anos ela sofria efeitos de uma grave concussão. — Estremeceu. — É de admirar que eu não a tenha deixado largada aí, para morrer.
— O fato é que não o fez e pronto — argumentou Winston. — Por falar nisso, sua mãe mandou avisar que estará aqui amanhã cedo, ali pelas oito horas.
Joseph ficou perturbado. Pensar em sair e deixar Demetria em casa o fazia ficar doente.
— Não sei. Eu estava pensando em passar mais um dia…
Winston segurou o filho pelo braço.
— Joseph…
— O quê?
— A culpa não é sua.
— O que não é culpa minha, pai?
— O desaparecimento de Demi. E o fato de sua mulher ter voltado não significa que você tenha que ficar aqui dentro com ela pelo resto de sua vida. O casamento de vocês tem a chance de sobreviver ao que aconteceu, só se voltarem a sua existência normal o mais depressa possível.
Logicamente, Joseph sabia que o pai tinah razão, mas emocionalmente não estava pronto para aceitar.
— Vou pensar — resmungou.
Winston pôs a caneca de café no balcão e olhou o relógio de pulso.
— Bem, pense depressa, então, que tem apenas dezessete horas até sua mãe chegar. Depois disso, você estará indo para o trabalho.
Ele sabia que o pai tinha razão; quando Betty Jonas enfiava uma idéia na cabeça nada a segurava.
— Vou conversar com Demi quando ela acordar.
— Conversar comigo sobre o quê? — perguntou Demetria.
Ao som da sua voz os dois homens voltara e, mais uma vez, Joseph ficou preocupado com o aspecto frágil da esposa.
— Nós não queríamos acordá-la — disse.
-— Não acordaram — garantiu ela.
Sorriu timidamente para o sogro. Ele era muito parecido com Joseph, não apenas na aparência, como também no gênio e na personalidade. Imaginou se ele seria muito severo ao julgá-la.
— Então? — Winston correspondeu ao sorriso. — Não vou ganhar um beijo de boa tarde?
Um luminoso sorriso espantou as sombras do rosto bonito e Demi correu para os braços do sogro. A camisa de Winston cheirava a charuto, óleo diesel e frio, mas o abraço caloroso superou isso tudo.
— Eu não sabia se você ia querer um beijo meu — disse ela, baixinho.
Winston ergueu as sobrancelhas para o filho, depois afastou-a e fitou-a. Os olhos dele brilhavam.
— E por que não iria querer um beijo da minha filha?
Demetria sentia vontade de chorar. Era rara uma atitude de carinho tão desprendido por parte do sogro, por isso dava-lhe mito valor.
— Por causa disso vai ganhar dois beijos!
E deu um beijo estalado em cada face de Winston, que corou,mas continuou a sorrir.
— Muito bem, então. Dei meu recado e a gorjeta foi muito maior do que eu merecia, porém a recebi com prazer.
Joseph riu. Gostava de ver o pai mais risonho do que de hábito.
— Ei, vocês dois aí — começou Demi. — Agradeço as honras feitas, mas ainda estou esperando a resposta. Estou aqui, perceberam? Sobre o que queriam falar comigo?
Antes que o filho respondesse, Winston deu o recado de novo.
— Betty mandou dizer que virá amanhã cedo e que passará o dia com você, assim Joseph pode voltar ao trabalho.
Demi ficou perplexa.
— Claro que vou adorar passar o dia com ela, mas não preciso de babá.
A tensão envolveu Joseph. Como um homem podia dizer a esposa que não queria deixá-la sozinha por ter medo de que ela desaparecesse?
— Olhem, rapazes, a não ser por uma pequena dor de cabeça de vez em quando, estou bem. O médico disse que eu estou bem. — Ela fitou Joseph preocupada. — Se você precisava tanto estar no trabalho, devia ter me dito antes. Eu teria ficado muito bem sozinha.
Winston interferiu seco.
— Eu não queria começar essa confusão ao dar o recado da sua mãe. Basta vocês dizerem a ela que não precisa vir. Vou para casa. Telefonem, se precisarem de mim.
— Sim, pai… E obrigado por ter me substituído hoje.
— Não há por quê.
Ele fez um gesto de despedida e saiu da cozinha. Segundos depois eles ouviram a porta bater e em seguida o barulho do motor de um carro se distanciando.
Demetria ainda esperava pela resposta do marido, mas ele parecia concentrado em lavar a caneca em que o pai tomara café.
Afinal, a paciência dela se esgotou.
— Joseph não me ignore.
Em silêncio, ele se voltou e sua expressão era impenetrável, a postura tensa.
Ela suspirou.
— O que significa isso tudo?
A água pingava das mãos dele enquanto Joseph olhava do outro lado da cozinha. Longos momentos se passaram até que ele resolvesse responder, dizendo a verdade.
— Tenho medo de deixar você sozinha.
O rosto dela empalideceu e Demi arfou como se houvesse sido esbofeteada.
— Por quê?
Ele engoliu em seco, detestando o medo que, sabia ia transparecer em sua voz.
— E se acontecer de novo? Eu acho que enlouqueceria… Você me disse que tem esse mesmo medo.
Os grandes olhos castanhos não se desviavam dos dele. Embora a acusação que se espelhava neles fosse silenciosa, o estômago de Joseph apertou-se dolorosamente. Ele sabia o que ia vir, mas que Deus o ajudasse, não sabia como impedi-la de fazer a pergunta.
Por fim, um arrepio percorreu o corpo de Demetria e ela piscou. Uma única lágrima desceu-lhe pelo rosto.
— Você não está falando de seqüestradores, Joseph. Você está falando de eu abandoná-lo outra vez.
— Eu não… Quero dizer, não penso que você…
Ela cobriu o rosto com as mãos, mas antes que ele se chegasse perto dela retirou-as e o fogo em seus olhos paralisou-o.
— Não vou repetir o que já disse. — A voz de Demi soava baixa, tensa. — Não vejo necessidade de me defender diante de um homem que não acredita em mim. Telefone para sua mãe e diga-lhe que venha. Chame também os vizinhos. Pelo amor de Deus, pode chamar também a policia. Não me importa. Eu não sei mais o que dizer.
Demetria saiu da cozinha e Joseph soube, tanto quanto sabia seu próprio nome, que iria ser preciso mais do que fazer amor para apagar aquela impressão.

(...)

Saía vapor da água quente enquanto o jato de chuveiro batia na cabeça de Demi. Ela aplicou xampu duas vezes, tomando cuidado ao esfregar os cabelos, para não esbarrar no ferimento; enxaguou bem, deixou que a água escorresse pelo corpo, levando a espuma do xampu e do sabonete que passara; fechou as torneiras e saiu do box. Sem pensar, colocou uma toalha com turbante e começou a enxugar-se com outra.
O espelho estava embaçado, o banheiro quente e cheio de vapor. Sem Joseph sentia-se vazia e sem peso. Sim, ele estava em casa, mas não no coração dela. Tinham feito amor, mas algo ainda os separava. Ele podia amá-la, mas não confiava nela. Um lado de seu ser entendia isso, porém havia um outro lado que sabia que a situação fora revertida, que ela é que deveria ajoelhar-se e agradece a Deus pela volta dele.. quando ela acontecesse.
Enxugou-se depressa e pegou o robe de lã. O grosso e macio robe rosa-escuro pareceu acariciar-lhe o corpo enquanto amarrava o cinto com um nó.
Voltou-se para o espelho e limpou-o com a toalha para se pentear. Quando o fez, a gola do robe esbarrou em algo no seu pescoço, incomodando. Passou a mão na gola, procurando o motivo da irritação na pele, mas não havia nada. Colocou-se de lado e olhou-a no espelho, afastando a gola e tentando descobrir a causa do desconforto.
De repente, seu olhar foi da gola do robe para o pescoço. Ali, logo abaixo da linha do cabelo, à altura do lobo da orelha, cintilou algo dourado. Franzindo as sobrancelhas, Demetria esfregou o local com os dedos, supondo que havia deixado um pouco de xampu, mas aquilo continuou lá. Podia perceber apenas que era algo dourado.
Curiosa, pegou um espelho de mão na gaveta do gabinete da pia e virou-se de costas para o espelho grande. Seu olhar focou a mancha dourada e seu coração deu um salto.
Meu Deus! É a tatuagem. Joseph disse alguma coisa a respeito, mas eu me esqueci completamente!
Sua vista escureceu e na mente de Demi apareceu a mesma marca dourada no peito nu de um homem. O medo a fez dobrar-se e o espelho de mão caiu. Enquanto ele se despedaçava, ela gritou.

(...)

Joseph estava na sala de estar quando ouviu o grito. Saltou da poltrona, correu para o quarto deles, atravessou-o e abriu a porta do banheiro, cerrando os punhos em seguida, pronto para lutar. Porém a única coisa que saiu do banheiro foi vapor. Ele a viu primeiro, depois o espelho quebrado, em seguida ergueu-a nos braços antes que ela fizesse um movimento. Carregou-a para o quarto e sentou-se na cama com Demi no colo. As mãos dele tremiam ao tentar verificar se ela se cortara. Não, nada tinha acontecido.
— Querida, o que aconteceu?
Ela o fitou, sem qualquer expressão.
— Joseph?
A angustia quase o sufocou. Oh, Deus, onde a mente dela está?
Aos poucos os doces olhos castanhos foram entrando em foco e ele viu que os sentidos dela voltavam. O delicado queixo estremeceu e uma de suas mãos começou a esfregar o pescoço como se algo estivesse grudado nele.
— Essa coisa no meu pescoço! — gritou.— Tire-a! Tire-a daí!
Aflito com o pânico de Demi, ele segurou-lhe as mãos antes que ela se machucasse.
— Cuidado, meu anjo… É apenas uma tatuagem.
Trêmula, ela falou com esforço.
— Quem fez isso em mim?
O pavor que a alterava fez com que Joseph sentisse vergonha de sua atitude anterior. Abraçou-a, chegando-a bem para si.
— Não sei, Demetria. Deus sabe o quanto eu gostaria de poder responder, mas não posso.
Ela começou a chorar, soluçando muito. O marido apertou-a mais nos braços, segurou-lhe a cabeça junto ao peito e embalou-a.
— Tudo vai dar certo…— disse, gentilmente.— Um dia desses conseguiremos todas as respostas, mas até então conseguiremos um ao outro, está bem?
— Eu não tenho você — soluçou Demi. — Não tenho mais… Ele destruiu tudo.
Joseph congelou. Será que sua mulher sabia o que tinha dito? Não queria perturbá-la ainda mais, porém não podia deixar aquele comentário passar.
— Quem, meu anjo? — perguntou, com suavidade.— Quem destruiu tudo?
Demetria aquietou-se de repente e deu um último soluço. Pôs –se em pé devagar, sem tirar os olhos dele.
— O homem — murmurou.
— Que homem? — insistiu Joseph.
Ela fechou os olhos, tentando ver o rosto do homem, contudo, por mais que tentasse, conseguia reproduzir na mente apenas a tatuagem que havia no peito do homem misterioso.
— Demi…
Sacudindo a cabeça, ela abriu os olhos.
— Não consigo ver o rosto dele.
— Como sabe que foi ele quem destruiu tudo, querida?
— Vi o peito dele, nu… — Demetria estremeceu.— Há nele uma tatuagem, igual à do meu pescoço. Não quero que ela fique aí, tire-a!
— Vamos tirar, meu anjo, quando você estiver mais forte, está bem?
— Promete? — a voz dela também tremia.
Ele abraçou-a de novo.
— Prometo.
Por fim ela começou a se descontrair. Minutos depois seus olhos se fechavam e Joseph percebeu que adormecera. Retirou a toalha molhada de sua cabeça, deitou-a na cama e cobriu-a.
Por instantes pensou que os cabelos iam molhar o travesseiro, mas desistiu de secá-los, para não acordá-la. Demi precisava de muito repouso e temia que ela houvesse passado por coisas muito piores do que dormir com a cabeça molhada.

(...)

Era quase manhã quando o sonho começou, porém o tempo nada significava para Demetria. Nada mais havia do que um pesado medo e a certeza de que ia morrer…

Sob seus pés, o chão movia-se assustadoramente. Pela janela, via, lá fora, as árvores oscilando de maneira brutal e algumas tombarem no chão. Enquanto olhava, o solo diante da janela rompeu-se, formando fendas precisas como as de um bolo de chocolate. A Terra estava se desmanchando. Ela agarrou-se às barras da janela, gritando por socorro, mas não havia ninguém que a ouvisse. Ninguém que se importasse com ela.
Todos ali trabalhavam para ele.
Atrás dela, de repente, uma estátua de ônix caiu de seu pedestal; ao bater no chão, fez o barulho de um tiro e quebrou-se em duas partes.
Demi voltou-se, sobressaltada, e ficou olhando para a cabeça de falcão que se separara do corpo de forma humana. Estremeceu. Horus, o antigo deus egípcio da luz e do paraíso, estava em pedaços.Outra violenta sacudidela da terra jogou-a no chão. Aquele local havia sido seu cárcere , mas não iria ser seu tumulo.
Freneticamente, começou a bater com as mãos fechadas no chão, gritando desesperadamente;
— Socorro! Alguém me ajude! Deixem-me sair! Deixem-me sair!
Nesse momento a porta se abriu. Por segundos ela pensou que era Horus em pessoa, com seus olhos penetrantes de falcão. Então, Pharaoh passou um braço em sua cintura, levando-a para fora da cela, enquanto a magnífica mansão estremecia e oscilava.
— Corra Demetria! — gritou ele. — Corra para salvar a sua vida!
Enquanto gritava, ele saiu correndo, puxando-a consigo.
Ela correu, mas já não com ele. Em sua mente corria para Joseph.

Demetria sentou-se num repente, com o nome de Joseph nos lábios. O suor descia-lhe pelo rosto e seu coração batia forte, como se houvesse corrido. O marido estava adormecido ao seu lado, um braço passado por cima dela. Ainda perturbada pelo sonho, afastou o cabelo do rosto e deslizou para fora da cama. Quase que instantaneamente, Joseph percebeu o movimento e acordou.
— Demi!
— Vou ao banheiro… — respondeu ela, em voz baixa.
E saiu do quarto na ponta dos pés.
No banheiro, fechou a porta e acendeu a luz. Olhou-se no espelho acima da pia. A mulher que a olhava era uma estranha. Não sabia como, nem por quê, mas agora tinha a certeza de que durante aqueles dois últimos anos havia vivido com alguém. Não por vontade própria, mas de qualquer jeito tinha vivido com ele.
— Como você pôde fazer isso? — murmurou para si mesma.
Assim que deu voz à pergunta, a resposta surgiu em sua mente. Não tinha vivido, havia suportado. E o fizera por Joseph, à espera de uma chance, certa de que algum dia e de algum jeito iria encontrar a maneira de voltar para ele.
Pois bem, assim o fizera. Encontrava-se na sua casa. Mas permanecia a pergunta: estava a salvo ou o tempo iria provar que seu medo tinha razão de ser? O impulso de fugir era forte. Eles podiam atacar. Eles podiam estar escondidos ali perto. Eles podiam…
Ela deteve os pensamentos apavorados, desgostosa consigo mesma por se deixar envolver pelo pânico. Não era assim que pretendia levar sua vida. Até encontrar Joseph, convivera apenas com a incerteza. Agora, queria de volta seu mundo era antes de desaparecer. Recusava-se a viver escondendo-se.
Enquanto olhava-se ao espelho, no caos em sua mente começou a emergir um idéia . Se aquele homem voltasse, ela não seria a vítima. O caçador se transformaria em caça.
Estaria esperando.

(...)

Betty Jonas sorriu para a nora por cima do prato de salada. Estavam almoçando num de seus restaurantes preferidos da cidade.
— O frango está bom?
A sra. Jonas indicou com o garfo o frango grelhado e a salada de macarrão no prato de Demetria.
— Hum! — fez Demi, sorrindo fazendo que sim, enquanto mastigava.
Pegando outra garfada de salada, a senhora passou a mastigar, sempre olhando para Demetria. Ela estava mais magra, porém isso era de se esperar. Betty rezava para a memória dela voltar. Os males que a gente não conhece são os que mais fazem sofrer.
Demi comia lentamente, pensando na manhã que tivera. Mantendo a palavra, sua sogra chegara às oito horas. Joseph saíra meia hora depois e desde então não ficara mais sozinha, a não ser a eventuais idas ao banheiro. Mas isso não importava, depois da revelação da noite anterior. Tinha um problema muito maior em que pensar.
— Betty, quero agradecer pelos recortes de jornais e as revistas que me trouxe.
Betty largou o garfo no prato.
— Pensei muito antes de trazê-los, mas depois coloquei-me em seu lugar, e soube que se fosse eu gostaria de saber.
— Tem razão — assentiu Demi. — Ler as reportagens sobre meu desaparecimento e conhecer o inferno pelo qual Joseph passou fez-me olhar por outro prisma o comportamento dele.
O olhar da sra. Jonas tornou-se solene.
— Eu não tentei ficar do lado do meu filho, querida, apenas quis que você soubesse de tudo pelo que nós passamos.
— Se eu soubesse o que eu passei — suspirou Demi -, tudo seria bem melhor.
Antes que Betty pudesse falar o celular em sua bolsa tocou.
— Deve ser Winston ou Joseph — comentou ela.
Os olhos de Demetria se iluminaram.
— Aposto um sorvete com molho de chocolate quente que é Joseph.
A sra. Jonas sorriu, achando que ia perder a aposta, mas não fazia mal. Ela é que estava oferecendo o almoço, mesmo.
— Apostado — respondeu e atendeu ao telefone. — Alô… Espere um minutinho, sim? — E, voltando-se para o garçom: — Dois sorvetes de creme com molho chocolate quente, por favor, depois traga-me a conta.
— Sim, senhora.
O garçom afastou-se, entre as mesas, para ir pegar o pedido.
Betty piscou para Demi e voltou ao telefone.
— Desculpe, filho, mas eu estava pagando uma aposta. O que você ia dizer? Sim, ela está ótima… Pergunte a ela mesma, que eu vou até ao toalete.
Passou o celular para Demetria e retirou-se da mesa.
— Joseph?
Uma sensação boa o envolveu. Só o fato de ouvir a voz dela diluía a tensão.
— Oi, meu anjo. Está se divertindo?
— Muito — afirmou ela. — Estamos acabando de almoçar e vamos fazer mais algumas compras antes de irmos para casa.
— Não exagerem nos gastos, hein!
— Pode deixar.
Houve um instante de silêncio durante o qual ela ouviu o marido suspirar.
— Eu a amo, Demetria.
— Eu também o amo — respondeu baixinho.
— Nos vemos mais tarde…
O coração dela doeu por causa da dúvida que percebia na voz dele. Só que agora sabia que não era dela que Joseph duvidava , mas sim do destino.
— Estarei à sua espera, meu amor.
Ela desligou e colocou o celular na mesa. Havia lágrimas em seus olhos quando ergueu a cabeça, porém piscou livrando-se delas. Não havia tempo para autopiedade.
Momentos depois Betty voltou. Assim que sentou-se, o garçom trouxe os sorvetes.
— Quando terminarmos, Betty, eu queria que você me levasse a um lugar.
— Claro que levo! — Betty tomou a primeira colherada de sorvete. — Hum, que delicia!
— Está bom, mesmo — concordou Demi. — Obrigada…
Betty partiu com a colher a calda de chocolate congelada.
— Pelo sorvete? O prazer é todo meu, acredite.
Demetria riu.
— Onde é que você quer ir? — perguntou a sogra.
— A qualquer loja que vendam revólveres.
A colher de Betty imobilizou-se no ar e ela fitou Demi, deixando o sorvete cair na mesa.
— Como é? Não entendi direito. Tive a impressão que você disse ¨revólveres¨…
O rosto de Demi endureceu.
— Ouviu certo. Vou comprar um e, depois, aprender a atirar.
A sra. Jonas teve um arrepio. A mulher que via agora era muito diferente da moça meiga com quem seu filho se casara.
— Mas, Demetria… um revolver?
O olhar de sua nora continuava firme e frio.
— Eu fui vítima uma vez. Não vai acontecer de novo.
— Vai contar ao Joseph, minha filha?
— O que você acha?
— Acho que não. — suspirou Betty.
— Você vai contar a ele? — indagou Demi.
A senhora hesitou, pensando, e tomou mais uma colherada de sorvete. Quando ergueu o rosto sua nora não havia se mexido, ainda a fitava.
— O quê? — perguntou Betty?
— Vai contar a Joseph? — repetiu Demi.
Betty nem sequer piscou.
— Contar a ele, o quê?
Demetria descontraiu-se, só então percebendo o quanto ficara tensa.
— Obrigada — disse suavemente.
Os lábios de Betty se apertaram, depois ela pediu:
— Não faça eu me arrepender, por favor.

(...)

— Ei Dawson!
O investigador Avery Dawson ergueu a cabeça. Paul, o seu parceiro, vinha se aproximando, todo agitado.
— Telefonema interurbano para você, na linha três.
O policial pegou o telefone.
— Departamento de Policia de Denver, Dawson falando.
— Investigador Dawson, aqui é o capitão Paul Fornier, do Departamento de Policia de Los Angeles.
Dawson endireitou-se na cadeira.
— Em que posso ajudar, capitão?
Houve uma curta pausa durante a qual ele ouviu o rumor de papeis remexidos.
— Alô! Ainda está aí? — insistiu.
Fornier pigarreou.
— Desculpe … Eu estava procurando minhas anotações. Aqui estão… Como sabe, instalou-se um verdadeiro caos por aqui, com aquele terremoto.
— Sim, acompanhamos as noticias pelos jornais e televisão — respondeu Dawson. — As coisas foram ruins para vocês?
— O departamento não sofreu tantos danos quanto a minha casa, mas vamos indo. Porém, não foi por isso que telefonei. Um boletim sobre uma pessoa desaparecida chegou à minha mesa ontem e os dados combinam com a descrição de uma desconhecida que temos no morgue.
— E o que isso tem a ver conosco?
— Seu nome e departamento estão no boletim como ponto de contato — explicou Fornier. — Estou querendo verificar o caso para proceder à eliminação de possibilidade.
— Ah, sim… — Dawson pegou uma caneta e um papel. — Qual é o nome que está no boletim de desaparecimento?
— Demetria Jonas.
Avery Dawson soltou a caneta e inclinou-se para trás na cadeira.
— Bem, posso esclarecer um fato desde já : Demetria Jonas reapareceu, pode jogar o boletim fora.
— Sim? O que houve? Encontraram o cadáver dela? — indagou Fornier.
— Não. Como proverbial filho pródigo, ela voltou pelos próprios meios.
— Viva?
— E respirando — acrescentou Dawson.
— Bem, no nosso meio isso não acontece todos os dias, não é? Muito bem, então. É uma preocupação a menos para mim e para mais de cem policiais.
— Isso mesmo. Posso fazer mais alguma coisa por você?
— Não, não — respondeu Fornier. — A desconhecida morta que tenho aqui vai ter que esperar mais um pouco…
— Está bem. Boa sorte para vocês.
Fornier riu.
— Bem que estamos precisando.
Dawson ia desligar quando percebeu que Fornier continuava falando.
— Desculpe — pediu. — O que disse?
— Apenas por curiosidade, quando Demetria Jonas reapareceu?
— Há alguns dias.
— Ah… Obrigado de novo e até logo — despediu-se Fornier.
Depois de desligar, Avery Dawson ficou olhando as fichas espalhadas em sua mesa. A conversa não havia sido diferente de outras que havia tido, no entanto alguma coisa o incomodava. Repassou tudo que haviam dito e não estranhou nada até que chegou à última parte do diálogo. O que importava a Fornier quando Demetria Jonas havia reaparecido? Se ela estava em Denver, não poderia estar em Los Angeles, e muito menos na morgue.
Preocupado, tornou a pegar o telefone.
— Telefonista, preciso do numero do Departamento de Policia de Los Angeles… Sim o numero principal está ótimo.
Poucos minutos depois ele contava os toques.
— Departamento de Policia de Los Angeles, para onde devo encaminhar sua chamada?
— Quero falar com o capitão Paul Fornier, por favor — pediu Dawson.
— Sinto muito, senhor, mas não há ninguém com esse nome no departamento.
Dawson teve uma leve sensação de vertigem, como se houvesse se levantado muito rapidamente.
— Tem certeza? — insistiu.
— Sim, senhor — garantiu a telefonista. — verifiquei a lista enquanto falávamos e, de fato, não temos ninguém com esse nome.
O policial estava meio tremulo ao desligar o telefone. Mesmo achando que o caso Jonas estava tecnicamente encerrado, Ramsey e ele tinham chegado à conclusão particular de que a historia de Demetria sobre ter sido seqüestrada era mentira, principalmente porque ela voltara por vontade própria. Porém, aquele telefonema dava um outro aspecto ao caso. Se ela havia dito a verdade, ele acabava de dar uma informação importante a um homem que mentira sobre sua identidade. Ficou nervoso ao pensar nisso. Ergueu-se e dirigiu-se à sala do capitão. Se as coisas piorassem, não queria ser a única pessoa a saber do telefonema.

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