14.12.14

Remember Me - Capítulo 6 - MARATONA 1/5

Os capítulos serão postados de duas em duas horas :)

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Eram quase duas horas da manhã quando Joseph acordou de repente. A casa achava-se às escuras, o quarto silencioso, mas o instinto lhe dizia que alguma coisa estava errada.
Demetria!
Saltou em pé e foi vestindo a calça jeans enquanto percorria o corredor. A porta do quarto dela estava aberta e a cama vazia. O pânico inundou dolorosamente seu coração pela primeira vez desde que vivera aquele horror, dois anos atrás. Voltou-se, rápido, e correu para o hall. Quase imediatamente percebeu uma luminosidade na sala de estar e perguntou-se se por acaso deixara a televisão ligada.
Chegou à porta e viu-a no sofá, enrolada em sua manta preferida, chorando silenciosamente na penumbra. O controle remoto estava numa de suas mãos, enquanto imagens se sucediam no vídeo da televisão.
Ele obrigou-se a respirar mais devagar e procurou dominar o pânico. Graças a Deus! Graças a Deus! , era tudo que conseguira pensar. Silenciosamente aproximou-se, parou atrás de Demi e inclinou-se até o rosto encostar em seus cabelos.
— Demetria, o que está fazendo, acordada?
Sobressaltando-se, ela ergueu os olhos e só relaxou quando viu que era Joseph.
— Você me assustou — disse. Então, acrescentou: — Eu não conseguia dormir.
Ele aproximou-se do sofá, apoiou um joelho no chão, curvou-se, envolveu o rosto de Demi com as duas mãos e enxugou as lágrimas com os polegares. Beijou-a no rosto.
— Você está bem?
Como durante aqueles dias todos ele havia se mantido frio e distante, os inesperados gestos carinhosos a perturbaram. Suas palavras vieram molhadas de lágrimas e interrompidas por soluços.
— Filme… tão triste… a amava muito.
Ela indicou a televisão ao falar.
Joseph olhou para a caixa vazia de um videocassete, que estava sobre a mesinha, e ocultou um sorriso. Era um dos filmes de sua mãe e, até onde podia se lembrar, muito romântico e triste.
— Mas termina bem — consolou-a.
Meio tranqüilizada pelo comentário, ela fungou.
— Termina?
Fitando os olhos castanhos, profundos e luminosos de lágrimas, Joseph teve vontade de beijá-la. Contudo, por mais forte que fosse o impulso, ele se obrigou a erguer-se. Estava agindo como um louco desde que ela voltara para casa e precisava controlar seus impulsos e ajudá-la a sentir-se segura.
— Sim, termina bem — confirmou.
Demetria enxugou os olhos e o rosto com a barra da manta.
— Jura?
— Juro — respondeu ele, baixinho. Olhou para a parte vazia do sofá e perguntou: — Quer companhia?
O coração de Demi deu um salto.
— Quero sim…
Em vez de sentar-se ao lado dela, Joseph ergueu-a, com manta e tudo, sentou-se e depois acomodou-a em seu colo. Ela prendeu a respiração, esperando pelo que viria a seguir.
— Está confortável?
Ele falava com voz suave, fazendo-a descansar a cabeça na curva de seu pescoço e ajeitando a manta ao redor de suas pernas.
O coração de Demetria saltava no peito.
— Estou — murmurou.
— Está bem agasalhada?
Faltou-lhe a voz e ela fez que sim com a cabeça .
— Onde está o controle remoto?
Demi entregou-o a ele e viu-o apertar o botão do volume até tornar os diálogos audíveis.
-Está ouvindo melhor assim?
Acima do ruído forte das batidas do meu coração?, pensou ela.
— Estou.
— Ótimo, então.
Ela voltou a se integrar na vida da heroína e só quando os letreiros começaram a aparecer na tela soltou um suspiro de alivio. Ergueu o rosto para Joseph, com os olhos brilhantes e o coração mais leve.
— Eu adoro finais felizes, você não?
Ele sorriu e fez que sim, mas seu peito estava apertado. Mesmo depois do modo ofensivo com que a vinha tratando, ela continuava a ser a mulher meiga e compreensiva por quem ele se apaixonara e com quem se casara. Por que não havia percebido isso antes? Por que, depois que ela praticamente ressurgira dos mortos, não vira nada a não ser fatos negativos? Deveria ter se posto de joelhos e agradecido a Deus, em vez de ficar procurando verificar o que julgava mentiras.
— Demi, eu sinto tanto!
Demetria permaneceu em silêncio. O momento pelo qual tanto ansiara afinal ali estava, e tinha medo até de se mexer, temendo acordar e descobrir que estava sonhando. Mordeu os lábios e, hesitante, tocou o rosto dele com a mão tremula. Os olhos de Joseph se fecharam enquanto se virava o rosto para beijava a palma da mão dela.
— Eu nunca tomei drogas, Joseph, eu juro.
Ele inclinou-se até que suas testas se tocaram.
— Eu sei, meu anjo, eu sei.
— Não consigo explicar as marcas de agulhas nas veias dos meus braços, mas eu não…
— Psiuu… — fez Joseph e abraçou-a com força.
Demi compreendeu que de todas as emoções que tinha naquele momento, a mais poderosa era a de sentir-se segura.
— Não estou mentindo para você. Eu quero me lembrar.
— Eu sei — repetiu ele. — E vai lembrar-se… quando chegar o momento.
Ela suspirou.
— Eu não sei onde estava, mas voltei para você, não?
A consciência de Joseph doeu. Por que isso não lhe bastara?
— Sim, Demetria, e vou ser-lhe eternamente agradecido por isso.
Fez-se um longo silêncio antes que Demi falasse de novo, desta vez mostrando-se preocupada com ele.
— Foi horrível para você, não?
Os braços dele apertaram-na mais quando lembrou-se dos dias intermináveis e das noites de tortura, imaginando as mais terríveis situações, às vezes até mesmo supondo-a morta. Assentiu.
— Sinto muito por tudo que aconteceu conosco… — A voz dela soava muito triste. — Éramos tão felizes!
Joseph fitou-a.
— E seremos de novo. Precisamos apenas de tempo para que o choque passe. — Ele forçou um sorriso. — Algumas vezes, depois de passado o primeiro ano, perdi a esperança. Meu coração me dizia que a única coisa que poderia manter você longe mim era estar morta.
Demetria teve ímpetos de chorar outra vez, só que por ela e por Joseph, não por um filme.
— Posso entender isso e tenho certeza de que não fui embora por minha própria vontade. Voltei para você, Joseph, e tudo que lhe peço é que tenha paciência comigo. Ajude-me a descobrir o que aconteceu… e faça tudo para que não aconteça de novo.
O sorriso de Joseph desapareceu.
— É um aviso ou uma profecia?
— Nem uma coisa, nem outra — assegurou ela.— Trata-se apenas de um fato. Eu sei que jamais o deixaria voluntariamente… portanto, tenho certeza de que só pode ter acontecido de um jeito.
— Qual?
— Alguém me levou à força. — Ela estremeceu. — O que me assusta é que se aconteceu uma vez poderá acontecer de novo.
De acordo com o pouco que sabiam, ela devia ter razão. O perigo poderia estar em qualquer canto, mas só teriam idéia de onde procurá-lo quando Demi se lembrasse o que tinha acontecido, pelo menos onde havia estado.
— Venha deitar-se — disse ele. — Mais tarde teremos muito tempo para nos preocuparmos com isso.
Demi hesitou em fazer a pergunta que lhe ocorreu enquanto Joseph levantava-se com ela do sofá.
— Com você?
Ele acariciou-lhe os cabelos e apertou-a mais contra o peito.
— Sim, meu anjo, comigo… se ainda quer dormir com um idiota.
Passando o braço pela cintura dele, ela pensou que pela primeira vez, desde que saíra do hospital, estava começando a acreditar que tudo poderia ficar certo outra vez.
— Creio que posso esquecer meus preconceitos por uma noite — brincou.
Rindo, Joseph começou a andar.
— Vamos. É tarde e você precisa descansar. Só porque não está no hospital não quer dizer que pode desobedecer às ordens do médico.
— Eu estava quietinha, sentada!
Enquanto ela protestava, entraram no quarto.
— E agora vai ficar deitada…
Ele ergueu as cobertas e Demetria acomodou-se na cama. Em seguida Joseph deitou-se ao seu lado, num silêncio desajeitado.
Reparou no respirar de Demi, que pareceu chegar-lhe ao coração. Jamais avaliara o quanto era precioso esse leve som, até que o perdera. Apesar da cama deles ser King size, dava a impressão de ter diminuído. Por algum motivo que ignorava, ele hesitava em passar para o espaço dela sem seu consentimento. Levou alguns minutos para que se desse conta de que o tempo que haviam passados separados era o dobro do que haviam estados juntos, casados. Parecia loucura, mas ele sentia-se quase como se estivesse na cama com uma estranha.
Quando a voz dela rompeu o silêncio, no momento em que a ouviu, tudo encaixou-se em seus lugares.
— Joseph…
— Sim, meu anjo?
— Quer me abraçar?
Mais uma vez ele foi atormentado pelo remorso de obrigar sua própria esposa a pedir-lhe que fizesse o que já deveria ter feito.
— Com o maior prazer — respondeu, com carinho, e abraçou-a.
Momentos depois, a cabeça de Demi repousava sobre o ombro dele e sua mão estava sobre o largo peito. Logo o ritmo suave da respiração dela disse-lhe que adormecera. Mas o sono não vinha para Joseph, que não parava de pensar que ela havia dito que tinha medo que tudo acontecesse de novo. E se assim fosse? E se sua mulher estivesse em perigo? Não podiam continuar ali, levando suas vidas como se nada tivesse acontecido. O que o investigador Avery Dawson havia dito sobre a mulher que pegara um táxi na estação rodoviária? Ah, sim. Que ela saíra correndo do terminal e o taxista quase a atropelara.
Quando ouvira isso, tudo lhe soara tão falso que se inclinara a ignora-lo, porém, agora esse detalhe lhe parecia muito importante. Que explicação poderia haver para ele? O desaparecimento de Demetria havia sido desconcertante e sua volta também. Tudo indicava que ela estava voltando
para casa quando o desastre, uma jogada infeliz do destino, a fizera perder a memória, impedindo-a de contar o que lhe acontecera.
Sentindo-se impotente diante dos fatos, Joseph ajeitou as cobertas sobre Demetria, fechou os olhos e abraçou-a com mais força. Lá fora o ar estava frio, o vento, cortante,
Um novo dia estava por nascer.

(...)

Pharaoh Carn sentou-se diante da vidraça que dava para os fundos de sua propriedade. Tomava café contemplando o nascer do dia. Brincava com um chaveiro de patinha de coelho enquanto seu olhar vagueava pela paisagem.
Sua noite havia sido cansativa, o sono interrompido várias vezes. Sempre que fechava os olhos, a mesma coisa voltava-lhe a mente. A expressão de medo de Demetria, o chão faltando-lhe sob os pés e a queda pela escadaria.
Depois disso, as lembranças esmaeciam-se e se tornavam retalhos: o rosto de um homem que se inclinava sobre ele; o transporte para um helicóptero e depois aqueles dias no hospital. As horas intermináveis povoadas por semblantes estranhos, a manipulação dolorosa, a tortura de agulhas… tudo em nome da medicina. E pairando sobre esse painel angustiante, a consciência de que perdera a sua sorte pela segunda vez na vida.
Apertou na mão a pata de coelho, sabendo que ela não possuía magia bastante para anular a perda de Demetria, mas no momento era tudo que tinha . Colocou a xiacara na mesa e ergueu-se, caminhando lenta e penosamente até a lareira, em seguida até a confortável poltrona de couro diante dela. Com um gemido, deixou-se cair no macio estofado e fechou os olhos.
Precisava descansar. Não conseguia concentrar-se por mais de alguns minutos por vez. A organização que criara exigia uma figura autoritária constantemente no comando. Sua fraqueza era perigosa. No seu mundo apenas os fortes sobreviviam, o dinheiro e o poder eram as únicas finalidades válidas. Força igualava-se ao poder. O poder igualava-se ao controle. E para continuar dominado o mundo que criara precisava manter-se no controle. No entanto, o silêncio da sala era sedutor e, antes que pudesse perceber, Pharaoh adormeceu, mais uma vez voltando ao passado através do sonho.


Albuquerque, Novo México
Demetria Lovato, com dez anos, riu para o rapazinho que estava do outro lado da janela da sala de aula. Durante os seis anos anteriores. Pharaoh Carn havia sido a única pessoa importante em sua vida. Para uma criança golpeada pela morte dos pais e ávida de afeição como ela era, as atenções dele haviam sido a salvação. Embora Pharaoh não mais morasse no orfanato, trabalhava lá. Um ano atrás o tribunal o havia considerado adulto e ele fora morar num apartamento nas redondezas. Aparentemente, não era diferente dos adolescentes do seu tempo, mas a aparência enganava. Ele gostava de luxo, porém, como não tinha educação nem a paciência necessárias para alcançá-lo, entrara para o crime. Era um modo fácil, rápido, de conseguir dinheiro e apresentava um desafio ao qual não conseguia resistir. Queria tudo, mas queira ¨agora.¨Aos dezesseis anos, já estava envolvido com uma gang local. Não havia sido fácil ingressar nela. Seu tempo era mais restrito que os dos demais adolescentes, mas ele logo descobriu como fraudar o sistema ao qual se achava preso. Os últimos três anos passados com essa gang haviam sido apenas um período de treino. Roubar carros acabara se tornando facílimo, e ele logo se formou em arrombamentos e roubos à mão armada. Se bem que ainda não houvesse matado, já usara um revolver mais de uma vez para assaltar. Quando alcançara a independência, obtidos dinheiro e experiência, comprara um bonito carro, roupas elegantes e colocara um diamante de dois carates na orelha. Sua bonita aparência, olhos negros, cabelos também negros e encaracolados, enlouquecia as mulheres. Ele tirava tudo que queria delas e as jogava fora, como latas vazias de cerveja, quando mais nada tinha a tirar.
Sua saída do orfanato havia sido como um impulso para os planos que tinha para o futuro. Era jovem, forte e ambicioso. Queria tudo, imediatamente. Porém, a falha nos planos era ter que deixar Demetria para trás.
Supersticioso, ele acreditava firmemente que Demetria Lovato era a sua sorte, que tendo-a ao seu lado conseguiria o poder máximo. Contudo, ela estava apenas com dez anos. Seria preciso esperar anos para que pudesse ir juntar-se a ele. Mas quando esse dia chegasse, e Pharaoh acreditava que chegaria, com Demi ao seu lado ele se tornaria o mais poderoso.
Assim aceitara o emprego de hortelão e jardineiro da Kitterige House. Se não podia levar Demetria consigo, pelo menos ficaria por perto dela, de sua magia que protegeria o futuro dele.
Com o passar dos anos, tornara-se confidente da garota, seu protetor e, às vezes, um substituto da figura paterna. A menininha era a única pessoa no orfanato a acreditar que Pharaoh Carn era bom. Desde que ela chegara lá, professores, dirigentes e mesmo companheiros haviam começado a vê-lo sob outra luz. Era como se o vissem através dos olhos da pequena órfã. Todos sabiam que uma criança não podia ser enganada, e era evidente que Demetria Lovato via algo naquele menino que ninguém havia visto. A dependência dela a ele e a adoração que lhe dedicava tornavam-no importante, até mesmo especial. Com ela em sua vida nada poderia dar errado.
Assim, quando a viu na sala de aula, com o queixo apoiado nas mãos, olhando através das janelas os balanços lá fora. Pharaoh sentiu que não podia passar despercebido aos olhos de Demetria.
Caminhou para a janela até entrar no campo de visão da menina; assim que o viu sua expressão mudou, ela riu e ele sentiu-se tão leve quanto o ar.
A professora bateu com o lápis na própria mesa e depois apontou-o para Demetria.
— Demi, preste atenção!
Ela saltou ao tom de voz zangado da professora e olhou-a, embaraçada por ter sido apanhada distraída.
— Sim, senhora — respondeu baixinho.
Quando a atenção da professora voltou-se de novo para o quadro negro, ela se atreveu a dar uma olhada para a janela, porém sabiamente Pharaoh havia ido embora.
Demetria não ficou triste por isso, não fazia mal; ela o veria de novo. Ele nunca ficava longe por muito tempo.

(...)

Depois de dormir o resto da noite nos braços de Joseph. Demi acordou sozinha na grande cama. O coração dela sofreu um aperto doloroso quando, rolando o corpo, tocou o travesseiro vazio dele, mas que ainda guardava seu calor. Não fazia muito tempo que o marido levantara.
Sua mão apertou a fronha, amarrotando-a, e ela fechou os olhos, lembrando-se que costumavam fazer amor ao acordar. Mas não. Não ia sentir pena de si mesma nesse dia.
A noite anterior havia sido uma revelação. Quem diria que depois de ir deitar-se, tão angustiada que custara a dormir, iria amanhecer com tanta alegria. Cantando baixinho, levantou-se.
Vestiu depressa a calça de um abrigo de ginástica de Joseph, dobrando-lhe as pernas até que ficassem pouco acima de seus pés, e uma camiseta dele de mangas compridas. Foi para o banheiro, onde escovou os dentes. Voltou para o quarto e sentou-se à penteadeira para escovar os cabelos. O local machucado ainda estava sensível e ela encolheu-se quando os pelos da escova o tocaram. Depois de pronta, parou um instante olhando-se ao espelho. Aparentemente, continuava a mesma, mas havia tanta coisa que não conseguia lembrar-se que não acreditava nem mesmo na própria aparência. Nunca mais as coisas seriam as mesmas entre ela e Joseph, por mais que ambos perdoassem e procurassem entender um ao outro. Para ela, então, era impossível que o mundo e a existência continuassem os mesmos: alguém roubara dois anos de sua vida.
Nesse momento, ouviu passos aproximando-se pelo hall e seu coração agitou-se, mais de medo do que de ansiedade. Alguém ia entrar no quarto e o instinto lhe dizia para fugir.
— Demi?
Ao som da voz de Joseph, ela chegou a sentir-se fraca de tanto alivio e respirou com mais facilidade.
— Estou aqui.
Ele empurrou a porta do banheiro e riu, alegre, ao ver como ela estava vestida.
— Lembre-se trazer suas roupas para o nosso armário — disse, indo colocar a bandeja com café sobre a cama.
Demetria colocou a escova sobre a penteadeira, ergueu-se e foi ao encontro do marido, abraçando-o com força.
— O que foi? — perguntou Joseph. — Espero que não seja nada triste.
— Não…— murmurou ela . — Só estou contente por ser você.
Ele franziu a testa.
— Quem mais poderia ser:
Perturbada pelo pensamento que lhe passara pela cabeça, Demi escondeu o rosto no peito dele.
— Não sei… Às vezes, quando me viro, tenho a impressão de que vou ver o rosto de outra pessoa.
Joseph procurou falar sem que a voz traísse sua preocupação.
— Talvez isso seja um bom sinal. Pode ser que você esteja começando a lembrar-se.
Ela suspirou.
— Espero que sim. A sensação é de que há um buraco na minha mente e que de vez em quando cenas do passado passam por esse ponto escuro, rápidas. Tento focar as imagens, porém quanto mais me esforço mais tênues elas se tornam.
— Só quero que não se esqueça de uma coisa: não está sozinha nisso, querida. No entanto…
O marido deu-lhe um longo e intenso olhar.
— O quê? — indagou Demi.
— Pergunto-me até onde podemos ir agora.
O coração dela falhou uma batida e sua voz fraquejou.
— Você quer dizer, nós dois?
Ele acariciou-lhe o rosto.
— Não, meu anjo… Nós propriamente, não.
— Então, o que quer dizer, Joseph?
— Enquanto você não conseguir lembrar-se de alguma coisa a policia não poderá levar o seu caso para a frente. Para eles, você apenas me abandonou e decidiu voltar. A menos que apresentemos um motivo, não vão considerar que houve crime e continuarão a pensar que apenas uma mulher entediada foi embora de casa.
Demetria empalideceu.
— Eu não…
— Eu sei, querida — interrompeu o marido. — Mas legalmente é assim que a situação se apresenta.
Os ombros dela descaíram.
— Explique-me o que quer dizer.
Vendo a esposa passar da alegria à desesperança, Joseph detestou-se por ser o causador disso. Mas depois do que ela dissera, na noite anterior, ter medo de que aquilo tudo acontecesse de novo, não ia ficar sentado esperando para ver se acontecia ou não.
— Quando você desapareceu e a policia me apontou como suspeito, contratei um investigador particular para tentar encontrá-la.
Os grandes olhos de Demetria tornaram-se maiores ao fitá-lo.
— Oh, Joseph, eu não sabia!
— Há uma porção de coisas que você não sabe, querida… O que quero lhe perguntar é o seguinte: o que acha de contratarmos o investigador de novo?
Ela hesitou e, quanto mais pensava na pergunta, mais intrigada ficava.
— Você acha que temos dinheiro para uma despesa como essa?
Joseph ergueu as sobrancelhas.
— O problema não é esse. Devemos contratá-lo ou não?
Demi suspirou, abraçou a si mesma e voltou-lhe as costas. Joseph puxou-a para si, passando os braços sobre os dela.
— Diga, Demi… Diga-me o que está pensando.
Antes que ela respondesse, o telefone tocou. Ele estendeu-se sobre a cama para atender.
— Alô?
— Joseph, sou eu. A Demi está bem?
— Olá, mamãe. Sim, ela está bem…
Enquanto falava, ele observava a esposa mover-se agilmente dentro das roupas grandes demais para ela, procurando um par de meias na última gaveta da cômoda. Riu; as meias eram dele também.
— Você vai trabalhar hoje? — perguntou Betty.
— Hoje, não. Papai foi para lá, não?
— Foi, saiu de casa às sete horas.
— Ótimo — disse Joseph. — Vou telefonar para ele mais tarde, porém pretendo passar o dia com Demetria. Não tenho vontade de deixá-la sozinha já…
— Foi por causa disso que telefonei. Para oferecer meus préstimos de enfermeira, de babá, de sogra ou o que for preciso, filho.
Demi pegou de uma das gavetas da penteadeira um elástico para prender os cabelos. Joseph lembrou-se das manhãs depois do desaparecimento, quando ele ficava no quarto, imóvel, imaginando como iria fazer para viver sem ela. Mas agora estava ali outra vez e desejou que ela voltasse a ser sua esposa do modo mais intimo.
— Joseph, você não respondeu — reclamou Betty.
Ele piscou.
— Desculpe, mãe. Por hoje não, mas acho que vou aceitar seu oferecimento para amanhã. Está bem?
— Claro, meu querido. É só me telefonar e estarei aí em quinze minutos.
— Está certo.
— Até logo. Dê um beijo em Demi.
— Pode deixar…
Joseph desligou o telefone e Demetria voltou-se com a escova de cabelo numa das mãos, o elástico na outra.
— Era minha mãe — sorriu ele -, e se ofereceu para vir ajudá-la até você se sentir mais forte.
— Adoro sua mãe — observou Demetria, com as sobrancelhas erguidas-, ficarei feliz com uma visita dela, mas não preciso de babá.
— Isso é discutível.
Antes que Demi pudesse responder, ele tirou a escova das mãos dela, e fez levantar-se e puxou-a para si.
— Venha cá… Tenho que lhe dar uma coisa.
Demetria sorriu, hesitante.
— O que é?
— Minha mãe mandou-lhe um beijo e este é o melhor modo para passar o recado.
Tocou com os lábios os cantos da boca de Demi, depois beijou-a com intensidade. Ela conteve um gemido e passou os braços pelo pescoço dele.
Quando Joseph interrompeu o beijo para respirar, ela suspirou.
— Isto é o melhor que você pode fazer? — murmurou.
Os olhos dele escureceram.
— Não, mas é só o que você vai ter até que possa suportar mais.
O rosto dela ficou corado.
— Suportar? Não acha que está nos menosprezando?
Ele recuou um pouco.
— Acho que não. Nós estamos sem fazer amor há muito tempo…
Demi deu um passo à frente, encostando-se de novo nele, e apertou mais os braços ao redor do seu pescoço.
— Então, não acha que já está em tempo de corrigir isso?

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Comentem... Estou de olho! ;) Beijos, amo vcs!

2 comentários:

  1. Bru estou tão atarefada que as vezes nem consigo comentar direito. Enfim, eu sinto que algo vai levar Demi para longe do Joe novamente e isso me entristesse �� Estou ansiosa para o próximo.
    Sam, xx

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  2. Ainda bem que ele resolveu acreditar nela.... continuaaaaa....

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