14.12.14

Remember Me - Capítulo 5

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Fora do hospital, o sol era fraco, porém persistente. A enfermeira empurrava a cadeira de rodas, levando Demetria para junto da área de estacionamento. Quando o frio penetrou seu fino suéter de lã, Demi estremeceu. Ocorreu-lhe, então, o que teria sido feito de suas roupas. Será que Joseph as jogara fora, acreditando que ela estava morta? Seu lábio inferior temeu, enquanto resistia à vontade de chorar. O mundo em que vivera antes se tornara desconhecido e nem sequer lembrava-se de tê-lo deixado. Meu Deus, Meu Deus, como isto aconteceu?
Às vezes sentia alguma coisa pulsando no limite de sua consciência; noutras, os pensamentos eram como borrões escuros. Não podia deixar de comparar o vazio que sentia agora com as emoções que a haviam abalado quando seus pais haviam morrido.
Num dia tinha mãe, pai e uma casa maravilhosa. Em poucas semanas se tornara uma freqüentadora habitual de tribunais, depois passara a viver num orfanato, chorando no escuro e chamando baixinho pela mãe que nunca a atendera.
Agora, isto.
A última coisa que se lembrava era de ter caminhado sob uma forte chuva, de chegar em casa com dor de cabeça e ir se deitar. Então, acordara para encontrar-se num pesadelo. Só que aquele pesadelo não se desfazia e se tornava pior a cada dia. A distancia emocional entre ela e Joseph era tão real quanto o ar que respirava, e a assustava mortalmente. O marido era seu único apoio. Se ele a deixasse…
Estremeceu. Era-lhe impossível imaginar as conseqüências.
— Está com frio, meu bem? — perguntou a enfermeira.
Demi hesitou um momento. Parecia-lhe mais fácil admitir estar gelada do que reconhecer o pavor que a sufocava.
— Um pouco, eu acho.
A enfermeira recuou a cadeira de rodas para junto da porta, onde era mais abrigado do vento.
— Seu marido já vem vindo — disse, apontando para o automóvel cinza.
Demetria não reconheceu o carro, mas como poderia? Sentiu-se ainda mais desanimada. Em dois anos uma porção de coisas poderiam ter mudado.
Ficou olhando enquanto Joseph parava em frente delas e saía. Seus olhos arredondaram-se à medida que ele se aproximava. A primeira vez que o vira estava trabalhando num restaurante. Erguera a cabeça e dera com um rapaz olhando para ela, do outro lado da sala. Naquele momento soubera que eles se amariam.
Suspirou fundo. Alguma vez havia contado isso ao marido?
Forçou-se a erguer o queixo. Lidar com o presente já era bastante difícil, portanto era melhor não questionar o passado.
Em silêncio, continuou a olhar para Joseph, que se aproximava. Ele era um homem forte, saudável, e dois anos significavam tempo demais para ter ficado sem mulher. Será que a esquecera e encontrara outra? Gemeu baixinho. Só de pensar nisso sentia-se mal.
— Sra. Jonas, está com alguma dor? — preocupou-se a enfermeira.
— Estou bem. — respondeu Demetria.
E reteve as lágrimas. Tinha que estar bem, não havia outra escolha.
Então, Joseph chegou junto delas. Demetria fitou-lhe os olhos e tentou ler os pensamentos dele. Sua expressão suave, quase polida, provocou nela uma enorme vontade de gritar.
— Sua esposa está ficando gelada — disse a enfermeira, falando com Joseph como se Demi não estivesse presente.
Percorrendo-a com o olhar, ele notou seus ombros rígidos.
— Desculpe, querida, mas não pensei nisso.
De imediato, tirou a jaqueta, e quando Demetria ergueu-se para ir para o carro, agasalhou-a, fazendo-a enfiar as mãos nas mangas compridas demais e fechando o zíper.
As lágrimas ameaçaram transbordar. Joseph a chamara de querida. Isso queria dizer que começara a perdoar ou era apenas uma palavra que ele usava por hábito?
— Dirija com cuidado — advertiu a enfermeira.
— Sim, pode deixar — respondeu Joseph.
Ela ficou olhando até Demi acomodar-se no assento do passageiro e só então voltou para o hospital.
Joseph sorriu de leve, deu umas palmadinhas leves na perna de Demi e ficou em silêncio. Era impossível para ela fingir que estava tudo bem entre eles. Devia estar contente por voltar para casa, mas tudo que conseguia sentir era um pânico crescente, com o qual reforçava-se a certeza de que nunca teria ido embora por vontade própria. Não lembrava dos dois últimos anos de sua vida, mas lembrava-se do profundo amor que sentia por aquele homem. Jamais teria abandonado Joseph. No entanto, ele acreditava que ela o fizera e isso a enchia de raiva. Uma raiva que doía .
Quando o carro parou num sinal vermelho, outra realidade chocou Demetria. Assumindo que seu desaparecimento não houvesse sido voluntário, que garantia tinha de que não aconteceria de novo? Meu Deus, que confusão! , era tudo que conseguia pensar.
— Joseph…
Ele respondeu com ar ausente, os olhos no sinal vermelho que a qualquer momento ficaria verde.
— Hum?
— Eu não tenho mais emprego, tenho?
— Claro que não, querida. — Ele fitou-a, perplexo então acrescentou, como se pedisse desculpas: — Passaram-se dois anos.
Ela pensou na biblioteca, depois olhou para fora.
— Eu gostava de trabalhar lá. — Suas mãos se fecharam com força quando o sinal abriu e Joseph passou pela esquina. — Quando estiver melhor, vou procurar outro emprego.
Joseph ergueu uma sobrancelha. Pensar em Demi longe dele por algumas horas o assustava.
— Não há pressa — respondeu, depressa.
— Mas vamos precisar de dinheiro. Meu salário paga…quero dizer, pagava, a faxineira e os mantimentos. Se eu não trabalhar, vamos ficar apertados.
Hesitante, ele tratou de escolher as palavras com cuidado para não insultá-la.
— Na verdade, não… Quero dizer, não há mais perigo de isso acontecer. Meu pai aposentou-se e estou no lugar dele há tempo. A empresa vai indo muito bem. Não há problemas.
Demetria não soube o que dizer. Um de seus sonhos se realizara e ela não estivera presente para ver. O medo redobrou. O que mais havia acontecido na sua ausências?
Por favor, meu Deus, faça com que ele ainda me ame!
Poucos minutos se passaram e o silêncio dentro do carro se tornava cada vez mais desconfortável . Afinal por falta do que falar, Demi disse:
— Eu estava pensando nas minhas roupas…
Um músculo saltou dos maxilares dele.
— Estavam no armário do quarto de despejo. Minha mãe tirou-as de lá, lavou e passou tudo.
— Tudo?
Ele fez que sim.
— Eu não trouxe nada comigo?
Joseph hesitou, depois sacudiu a cabeça, indicando que não. O tom de voz de Demi foi um tanto sarcástico .
— E você não achou isso estranho?
Antes de responder, ele respirou fundo, zangado pela acusação implícita na pergunta dela.
— Não comece com isso, Demetria. Você não sabe do que está falando. Dois anos atrás, neste mesmo mês, eu cheguei em casa esperando ver minha mulher, no entanto só encontrei sangue no banheiro e uma xícara de café, quebrada, no chão da cozinha. Em menos de uma hora fui apontado como suspeito de assassinato, portanto não me venha com essa conversa de ¨estranho¨. Tudo na nossa situação é estranho.
À medida que ele respondia, Demi começava a tremer.
Continuava a ouvir a voz do marido, mas as palavras eram ininteligíveis. Um flash explodiu na sua memória.
A mão tapando-lhe a boca.
Uma picada no braço.
Alguém murmurando seu nome.
Ela gemeu e segurou a cabeça como que tentando reter as imagens, mas elas desapareceram tão depressa quanto tinham surgido.
— O que foi? — perguntou Joseph.
— Não sei… Alguma coisa… — Ela sacudiu a cabeça.— Desapareceu. Não sei se foi uma lembrança ou a minha imaginação.
Joseph recusou-se a ser envolvido pela confusão que ela sentia e preferiu ignorar o que ouvira.
— Estamos quase chegando em casa, Demi. Você vai se sentir melhor depois que descansar um pouco.
Ela encolheu-se. A recusa dele em ajudá-la a desfazer a confusão a irritou.
— Não, Joseph, não vou — respondeu, agressiva. — Não vou me sentir melhor enquanto não descobrir o que aconteceu. Perdi dois anos da minha vida e, pelo que percebo, estou perdendo meu marido também. O sono não cura algo tão complicado.
A cor fugiu do rosto de Joseph.
— Você não está me perdendo, Demi.
— Parece-me que sim.
Ela fitou durante um longo, silencioso momento, esperando por uma resposta mais tranqüilizadora ou, pelo menos, um gesto de ternura. Não houve nem uma coisa, nem outra. Quando ele virou a esquina e entrou na rua em que moravam, Demetria manteve-se olhando pela janela do carro.
A tensão entre eles aprofundou-se. Momentos depois ele estacionou na entrada da garagem, ajudou-a a descer e a entrar em casa. Tudo no mais absoluto silêncio.
A casa tinha um leve cheiro de umidade, por ter permanecido fechada aquele tempo todo, durante as chuvas recentes. Depois de entrarem, Joseph soltou-a para ir ligar o sistema de aquecimento central, e quando o fez. Demetria cambaleou. Ele apressou-se a ampará-la e no movimento sua mão esbarrou num seio dela, antes de o braço envolver-lhe a cintura.
Ela observou que as narinas dele fremiam e sua boca se suavizava. Aproximou o rosto, oferecendo-se com amor e desespero ao mesmo tempo.
Ele não se mexeu.
Demetria ficou tensa, esperando que o marido a tomasse nos braços e dissesse o quanto ela representava para ele e que estava feliz por tê-la de volta em casa.
Mas esse momento não chegou. Ela ergueu o queixo e sua voz traiu o amargor de lágrimas.
— Sabe de uma coisa, Joseph? Nunca pensei que você fosse covarde.
Em seguida tirou a bolsa com suas coisas da mão dele e atravessou o hall sozinha. Foram os quatro metros mais longos de sua vida.
Joseph ficou olhando, sentindo vontade de ir atrás dela. Mas lembrou-se dos dois anos durante os quais a acreditara morta e fora atormentado sem misericórdia pela policia e a imprensa. De fato, uma parte dele tinha medo de sair do casulo de segurança que construira para se defender.
— Covarde — murmurou para si mesmo.
E foi para a cozinha fazer café.
Um envelope e duas peças de roupas achavam-se sobre a mesa da cozinha. Deviam ter sido deixados lá por sua mãe. Pegou a calça e a blusa, examinando o tecido e as etiquetas. Não sabia muito a respeito de roupas femininas, porém era obvio que aquelas não provinham de uma loja de artigos prontos. Largou-as sobre a mesa, pegou o envelope e olhou dentro dele,
ainda sem poder acreditar que Demetria levava uma quantia tão elevada consigo.
Voltou-se para a porta. Ela vinha vindo pelo hall e, de repente, ele quis ver a expressão de sua mulher quando lhe mostrasse o dinheiro. Perceberia se Demi tivesse alguma coisa a esconder.
Ela entrou na cozinha com um vidrinho de comprimidos na mão. Seu rosto estava fechado e a linguagem corporal dava sinais de que atingira o limite do suportável. Isso era tão evidente que até um idiota perceberia.
— Estou com dor de cabeça e os analgésicos acabaram — comentou.
Ele jogou o envelope sobre o aparador e foi olhar no armário acima da pia.
— Aqui está — disse, entregando-lhe um pequeno frasco com aspirina.
— Obrigada.
A consciência de Joseph doeu. Sua mulher parecia tão triste, tão confusa.
— Demi…
— O quê?
— Olhe, eu sinto muito se a magoei, mas você tem que entender minha…
— Por quê?
Ele hesitou, franziu a testa.
— Por que o quê?
— Por que tenho que entender a sua situação? Você não parece disposto a entender a minha.
Joseph ficou calado por alguns instantes. Não queria brigar, queria apenas respostas.
— Como posso entender qualquer coisa, Demetria, se tudo a seu respeito é um enorme mistério?
Mais uma vez brilharam lágrimas nos olhos dela.
— E ninguém lamenta isso mais do que eu. Mas há uma coisa que não esqueci.
— O quê? — interessou-se Joseph.
— O quanto amo você.
A dor evidente na voz dela o fez empalidecer.
— E eu também a amo — murmurou, emocionado.
O queixo de Demetria tremeu.
— Então por quê, Joseph? Por que não quer se aproximar de mim?
As mãos dele tremiam quando entregou o envelope a ela.
— Isto estava no bolso de sua calça. De onde veio?
Ao ver as notas de cem dólares, Demi teve uma vertigem e sentiu-se transportada para outra cena do passado.
Ela fez o corpo dele rolar até ficar de costas e o sangue que saía de seus lábios a chocou. Então, apertou os dentes e revistou os bolsos dele. Precisava de dinheiro para ir embora.
— Demi?
Ela ergueu o rosto vazio de qualquer expressão.
— Eu lhe fiz uma pergunta.
— Desculpe, Joseph. O que perguntou?
— De onde veio esse dinheiro?
A resposta surgiu sozinha, surpreendendo-a tanto quanto a Joseph.
— Eu pensei que ele estivesse morto.
Joseph saltou como se houvesse sido esbofeteado, depois segurou-a pelos braços, obrigando-a a encará-lo.
— O que você disse?
Demetria cobriu o rosto com as mãos.
— Não sei… não sei — soluçou.
Mas Joseph não a soltou.
— Quem, Demi? Quem você pensou que estivesse morto?
Olhos negros, dentes muito brancos… Sorrindo, sempre sorrindo.
Então, a imagem desapareceu, depressa demais para ela ver as feições do rosto.
— Eu não sei! — gemeu.
Ele praguejou e soltou-a.
De súbito foi demais. Demetria caiu de joelhos desesperada por fazer Joseph acreditar.
— Por favor, dê-me uma chance!
Ao vê-la de joelhos, ele sentiu vergonha.
— Pelo amor de Deus, Demi, não faça isso!
Ergueu-a e levou-a para o quarto, através do hall. O choro silencioso dela maltratava-lhe o coração, enquanto a deitava na cama. Quando a soltou, ela rolou para longe dele, encolhendo-se, os joelhos encostados no peito, os ombros frágeis sacudidos por soluços.
— Demi, eu…
Viu-a tapar os ouvidos com as mãos e, com o peito apertado, cobriu-a com uma manta e dirigiu-se para a porta. Num movimento súbito, ela virou-se, deitando-se de costas, os olhos cheios de lágrimas e terror.
— Não feche a porta!
Joseph parou e voltou-se, chocado com o horror que se espelhava nos olhos e na voz dela.
— Está bem, Demi…
— Não quero ficar presa aqui.
Tensa, ficou olhando para ver se ele deixava a porta aberta.
O coração de Joseph batia forte demais quando voltou para a cozinha. Parou à porta e depois, enquanto pegava o dinheiro caído no chão, ainda pensava no medo na voz dela. Ficou parado, com as notas nas mãos e as palavras de Demetria ecoando em sua mente. Eu pensei que ele estivesse morto.
Olhou para o dinheiro que segurava e estremeceu.
— Meu Deus… — murmurou .
Recolocou as notas no envelope e guardou-o numa gaveta do guarda-louça. Mais tarde resolveria o que fazer com ele. Por enquanto não queria vê-lo.
No quarto, Demetria jazia largada na cama, engolindo os últimos soluços e pensando no vazio existente em sua volta para casa. Aquilo estava errado, muito errado, mas não sabia como corrigi-lo. Joseph não acreditava nela e, apesar da afirmativa dele, ela não acreditava que o marido ainda a amava. Pelo menos, não como amava antes. Sentia-se destruída. Deitou-se de lado, aconchegando-se na manta, e fechou os olhos.
Joseph estava na cozinha, como indicava o barulho de panelas. Em outra situação, teria sido engraçado ele tentando cozinhar. Ela respirou profundamente. Mas ele deveria ter cozinhado durante boa parte daqueles dois anos, não? E, na verdade, durante todo aquele tempo deveria ter pensado que estava viúvo.
Uma última lágrima amarga desceu-lhe pelo rosto e perdeu-se no travesseiro. Mas ela não havia morrido. Estava viva, voltara, e ele teria que aprender a conviver com o espaço em branco da vida dela até que Demetria conseguisse preenchê-lo.

(...)

Las Vegas, Nevada

O luxuoso jato particular taxiou na pista te parar a pouca distancia de uma limusine branca. Momentos depois a porta do avião abriu-se, Duke Needham apareceu no alto da escada, acenou para o motorista da limusine e desapareceu de novo lá dentro. Depois de breves instantes, o motorista saiu da limusine com uma cadeira de rodas e correu escada acima.
O cheiro do combustível do avião pairava no ar, sob o céu pesado, coberto de nuvens cinzentas e movimentadas pelo vento gelado. Decorridos vários minutos, Duke reapareceu à porta do jato como motorista logo atrás dele. Entre os dois estava Pharaoh Carn, sentado na cadeira de rodas e bem agasalhado contra o frio. Os dois homens carregaram a cadeira escada abaixo e depositaram-na no solo, com uma leve sacudida.
Sem que ninguém soubesse, Pharaoh dirigia-se a sua casa em Las Vegas, para recuperar-se. Intencionalmente escondia-se sob um pesado sobretudo, chapéu e mantas de lã. Os óculos escuros ocultavam sua expressão e a pele morena exibia a palidez de quem estivera muito doente.
Assim mesmoa presença dele se impunha, mesmo na cadeira de rodas. O porte da cabeça, os gestos das mãos, o tom cortante de voz faziam os dois homens que o acompanhavam saltar às suas ordens.
Duke inclinou-se, numa atitude atenta e submissa. Trocaram palavras. Pouco depois a limusine foi embora e não restou nenhum sinal da passagem dos três homens por ali, a não ser por um pedaço de papel que voou para longe quando o avião levantou vôo.

O luar refletia-se nos degraus molhados pela chuva enquanto Pharaoh dormia em sua luxuosa casa, em Las Vegas . No entanto seu sono era perturbado por sonhos estranhos. Duas vezes acordou sobressaltado, com impressão que o chão balançava. Cadavez que tornava a fechar os olhos sentia as mãos de Demetria em seu peito, lutando com ele, empurrando-o. E tinha a sensação de cair, rolando por uma alta escadaria. Gemeu. A traição era o que doía mais…
Assim que emitiu o gemido, soou uma voz de mulher e ele sentiu um leve toque em sua testa.
— Está com dores, Sr. Carn?
Pharaoh irritou-se. A maldita enfermeira. Se ele estava bastante bem para receber alta do hospital, podia muito bem dormir sozinho. Jamais em sua vida partilhara o quarto com uma mulher, nem mesmo com Demetria e não ia começar agora.
— Claro que sinto dores.
— Um momento, vou pegar o seu remédio.
— Não quero remédio. Quero paz e sossego. Saia daqui. Se eu precisar de comprimidos, sei pegá-los.
— Mas o sr. Needham disse que…
Pharaoh soergueu-se na cama e, mesmo deitado, sua atitude exigia submissão;
— Eu lhe dei um aordem — Saia do meu quarto já.
A enfermeira praticamente voou para fora.
No momento em que ouviu a porta fechar-se atrás da mulher, ele começou a relaxar. O ar no quarto pareceu-lhe mais leve, as paredes menos sufocantes. Com dificuldade, virou-se de lado, abafando um gemido, quando sem querer apoiou-se sobre as costelas quebradas.
— Maldição, maldição, maldição! — sussurrou , quando um músculo entrou em cãibra.
Mas a enfermeira tinha saído e não havia ninguém para ajudá-lo. Cerrou os dentes, forçando o corpo machucado a relaxar, até que a cãibra cedesse e a dor passou. Só então respirou fundo e expirou devagar. O pior passara.
Imediatamente corrigiu-se. O pior ainda não passara. Estava apenas começando. Ele não teria sossego enquanto não descobrisse o que acontecera com Demetria. Só de pensar nela sentia-se enlouquecer. Não era justo. Aquela mulher lhe pertencia e ele soubera disso desde o primeiro dia em que a vira.
Moveu-se, procurando uma posição mais confortável.
Seus olhos se fecharam e ele começou a sonhar… com o começo, quando Demetria Lovato aparecera em sua vida.

Aos treze anos Pharaoh Carn tivera que aceitar o fato de que as pessoas não gostavam dele. Isso acontecia por ele viver constantemente aterrorizando os demais órfãos de Kitteridge House. Era o incontestado senhor, tanto na sala de aulas quanto nas demais dependências do orfanato. Mas não eram apenas sua atitude e sua aparência que o colocavam à parte dos demais. No Novo México, onde o semblante dos nativos americanos tinham aspecto familiar, sua pele morena e cabelos negros não eram notados. O ódio é que o tornava tão diferente. Um ódio que era uma força. Perverso e cruel, Pharaoh orgulhava-se de fazer com que todos, inclusive os professores tivessem medo dele. E assim havia sido até ela aparecer.
Ele estava sentado na sala do diretor, esperando por mais um castigo, quando a assistente social chegou com a menininha. A primeira coisa que ele notou na criança foram os cabelos. Eram quase tão negros quanto os seus. E os olhos dela, castanhos e redondos pelo medo, brilhavam com lágrimas contidas. Ela segurava um pequeno urso de pelúcia numa das mãos e um cobertorzinho na outra. Seus sapatos estavam gastos e o laço que alguém amarrara nos cabelos crespos havia escorregado e pendia atrás da cabeça.
A pequena o fitou e enfiou o polegar na boca.
Os olhos dele se fixaram nela, só que dessa vez seu olhar ameaçador não fez efeito. A garotinha permaneceu olhando para seu rosto com interesse. A expressão dele se tornou mais ameaçadora. Menina idiota! Nunca ninguém o encarara daquele modo, e só porque ela era muito pequena, não significava que ia levar vantagem sobre ele.
Mas sua cara enfurecida não pareceu impressioná-la. Ao contrario. Quando assistente social sentou-se, ela tirou o polegar da boca e se aproximou dele, arrastando o cobertor no chão. Para seu desconforto, a pequenina atravessou a sala inteira e parou à sua frente. Os grandes olhos castanhos permaneceram fixos nos dele, e pela primeira vez na vida Pharaoh Carn não soube como agir.
— Dê o fora, garota.
Ela mal piscou.
Não havia como Pharaoh saber que o pai da menina tinha os cabelos negros como os seus, e a mãe a mesma pele morena. Tudo que ele via era uma menina que deveria estar assustada, mas não estava.
— Demetria, venha pra cá, por favor — chamou assistente.
Mas a garota não obedeceu.
Pharaoh viu a mulher levantar-se e algo lhe disse que a menina ia passar por maus momentos. Naquele instante acontecera uma coisa esquisita no intimo dele, que não sabia o que era.
— Está tudo bem — resmungou. — Ela não está me amolando.
A assistente social hesitou, depois sacudiu os ombros e tornou a sentar-se, olhando de vez em quando para as duas crianças.
— Quantos anos você tem, menininha? — perguntou ele.
A pequena mostrou quatro dedos.
Ele assentiu, depois recostou-se na cadeira, pensando que para a idade a garota era muito esperta. E os olhos inocentes ultrapassaram a armadura que o protegia, atingindo o menino que havia dentro dele.
Ficaram olhando um para o outro. Por fim, Pharaoh procurou uma pergunta que a obrigasse a falar.
— Quer dizer que seu nome é Demetria?
Apertando mais o ursinho ao peito, ela pensou um pouco e assentiu.
— Mas meu pai me chama de Demi — explicou.
Então, os lábios róseos tremeram e as lágrimas contidas desceram pelo rostinho.
— Minha mãe e meu pai foram embora para o céu e não me levaram.
Pharaoh ficou vermelho. Droga, aquilo era tão comovente!
O que deveria fazer agora? Olhou para o teto, certo de que alguém iria culpá-lo por a menininha estar chorando, mas ninguém estava prestando atenção neles. Para sua aflição o choro redobrou. Ele inclinou-se para a frente, com o cotovelo nos joelhos, e falou em voz baixa.
— Olhe, garota, não chore. Veja, eu também não tenho pai nem mãe, por isso estou aqui. — A menina pareceu absorver essas palavras.
— E você também está triste?— perguntou, afinal.
Pharaoh endireitou-se bruscamente.
— Diabo do inferno, não! — respondeu.
Em seguida ficou vermelho de novo por ter praguejado diante de uma criancinha.
— Mas é porque já sou grande — acrescentou. — Quando a gente cresce não chora mais, também.
Então, como não queria ser acusado de fazer a pequenina chorar, segurou a ponta do cobertor e enxugou-lhe as faces.
— Pronto — disse e brincou, tocando com o cobertor o narizinho dela . — Acabou.

Pharaoh acordou sobressaltado e olhou para o relógio. Passava pouco das quatro horas da manhã e ele precisava ir ao banheiro. Pensou em chamar a enfermeira, porém, descartou a idéia. Estava em sua casa e certamente poderia arranjar-se sozinho.
Com um gemido, levantou-se e andou lentamente junto à cama. Seu corpo todo doía, porém a dor maior era no coração. Havia dentro dele um vazio que o tempo não conseguiria preencher. Faltava-lhe Demetria. Não haviam encontrado o corpo dela entre os escombros de sua casa, no sul da Califórnia, por isso não queria acreditar que ela morrera. Os hospitais estavam repletos de gente ferida, uma boa parte sem identificação.
Apertando os dentes com força para suportar as dores, camihou devagar até o banheiro. Alguns minutos depois voltou, olhou para a cama desfeita e foi para a janela em vez de deitar-se.
As luzes de segurança brilhavam na escuridão. No circulo de iluminação percebeu um movimento na vegetação rasteira. Provavelmente uma toupeira. Tomou nota mental para avisar o jardineiro no dia seguinte. Corrigiu o pensamento: já era o dia seguinte.
Encostou as mãos espalmadas no vidro da janela.
— Esteja viva, Demetria… e apronte-se, porque vou buscá-la.

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Desculpem a demora, eu fiquei com uma preguicinha hj... Vou adaptar tds os caítulos agr para postar pelo tablet, o que vcs acham de uma maratona amanhã?
Vou deixar o capítulos programados!
Beijos, amo vcs!
Comentem, hein!

2 comentários:

  1. to amando a história Bru, ela me prendeu de um jeito que eu provavelmente não vou conseguir parar de ler até chegar no final... essa fic é pequena ou é grande? pq eu realmente to amando ela

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  2. eita porra! agora a coisa ficou séria
    o joe bem que podia ter dado uns beijinhos na demi, poxa vida ein skjdfhxcvsfd
    me emocionei com a demi pequenininha, que fofo cara
    enfim, posta logo! quero ver o que esse pharaoh vai fazer. bjssss te amo

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