26.12.14

Remember Me - Capítulo 14

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Joseph engoliu seu último pedaço de torrada quando Demi entrou na cozinha.
— Está levando bastante agasalho? — perguntou. — Apesar de ter parado de nevar, está muito frio lá fora.
Ele riu, engoliu e respondeu:
-Sim, mamãe. Minhas luvas estão na caminhonete e estou usando ceroulas por baixo do jeans.
Um leve sorriso pairou nos lábios de Demi.
— Está bem, sou exagerada… — tirou a xícara de café da mão dele, colocou-a sobre a mesa e pediu: — Abrace-me.
A ternura na voz dela comoveu-o.
— Com o maior prazer — respondeu suavemente. — Venha aqui, meu anjo.
Demi aninhou-se ao peito dele, adorando a força com que o marido a abraçava e a textura da camisa de flanela contra seu rosto.
— Acha que vai ficar bem sozinha aqui, Demi? Posso deixá-la na casa de minha mãe ou ela pode vir ficar com você.
A urgência de se esconder era tão intensa que Demetria teve que fazer força para recusar; não podia permitir que o medo dominasse a vida deles para sempre. Além disso, não se sentia bem-disposta e não gostaria de ter que conversar com alguém.
— É melhor que não — recusou, com um sorriso de desculpa.
Adorava os sogros, mas não a agradava ser o centro da atenção deles.
— Afinal, tenho meu revólver — acrescentou -, e Harold, o xereta, deve andar aqui por perto. Vou ficar bem.
Joseph teve que resistir à vontade de dizer a ela que não aprovava isso. O fato de sua mulher sentir-se ameaçada a ponto de comprar um revólver incomodava-o muito. Eles eram pessoas comuns. Aqueles acontecimentos não deveriam estar fazendo parte das suas vidas. E quanto a sarcástica referencia ao investigador particular, não podia censurá-la depois de tudo que ela havia passado. Olhou o relógio. Como Demi dissera, Borden chegaria a qualquer momento.
— Está bem, então… se você tem certeza.
Ela passou o braço pelo pescoço dele e puxou-o para beijá-lo.
— Beije-me Joseph, um beijo bem gostoso!
Ele sorriu.
— Bem, já que você insiste…
E obedeceu, enquanto Demi derretia-se contra ele. Momentos depois separaram-se com relutância.
— É melhor eu ir, enquanto enxergo direito. — Ele a fitou com atenção. — Você está mesmo bem? Parece-me pálida.
Demetria acreditou que era verdade, pois estava começando a enjoar.
— Vou voltar para a cama assim que você sair, está bem?
Joseph encostou as costas das mãos na fronte e depois no rosto dela.
— Você não tem febre — concluiu.
— Joseph…
— Olhe, meu bem, vou telefonar para meu pai e…
— Não. Pode ir trabalhar — interrompeu-o Demi.
— Está bem, mas se precisar de mim, telefone. Promete?
Ela fez que sim, acompanhou-o até a porta e ficou olhando-o entrar na caminhonete.
Segundos depois seu estômago contraiu-se e ela correu para o banheiro.
Joseph ficou sentado na caminhonete, com o motor trabalhando, esperando que esquentasse um pouco. Ao mesmo tempo sua mente começou a trabalhar. A não ser por uma trilha de pegadas, a neve no jardim e nos galhos das árvores estava lisa e macia. Sorriu, pensando que se ainda fosse criança arranjaria uma boa desculpa para não ir à escola e fazer homens de neve o dia inteiro.
Duas vezes olhou ao redor para ver se o carro de Harold Borden aparecia, depois consultou o relógio. Ainda era cedo e havia a possibilidade de algumas ruas laterais ainda não terem sido limpas. Mas os limpa-neve deviam estar em ação, e ele precisava ir para o trabalho. Engatou a marcha e começou a dar a ré.
Momentos depois estava no meio da rua. Colocou o cambio na marcha de tração das quatro rodas e foi embora, olhando mais uma vez a sua casa pelo espelhinho retrovisor. Quando o fez, algo chamou-lhe a atenção, não na imagem refletida, mas na que surgiu na sua mente. Diminuiu a velocidade e parou no meio da rua, olhando atento pelo retrovisor e tentando detectar o que o perturbava tanto.
De repente descobriu o que era. Os cabelos em sua nuca arrepiaram-se, engatou a marcha-à-ré e saiu, com os pneus cantando. Parou na entrada de carros de sua casa e só quando desceu percebeu que suas pernas tremiam. Quanto mais olhava, mais assustado ficava.
Na neve, havia uma clara trilha de pegadas que circundava a casa. Pensar que alguém vigiara os movimentos deles e ouvira suas palavras chegava a ser obsceno.
Girou, olhando atenta mente ao redor, tentando ver se alguma coisa nas vizinhanças estava diferente. Não percebeu nada. Depois da nevasca, as casas da rua pareciam fazer parte de um cartão-postal perfeito. Olhou de novo as marcas de pés.
O calor o envolveu quando entrou em casa. Com as mãos trêmulas, fechou a porta atrás de si e percorreu os cômodos, verificando cada janela e acompanhando a trilha de pegadas. Foi quando chegou a cozinha que percebeu que não tinha visto Demetria. Não lembrava de que estivesse na cama e, mesmo assim, teria falado com ele, pois não poderia ter adormecido profundamente tão depressa.
— Demetria, onde você está?
Atravessou o hall, entrou no quarto e ouviu água correndo no banheiro.
— Demi, você está bem?
Ela apareceu de repente e ficou apoiada ao batente da porta, com uma toalha molhada encostada no rosto. Seus olhos pareciam enormes no rosto pálido.
— Você me assustou, Joseph.
— Desculpe, querida.
— Esqueceu alguma coisa?
— Não… — Ele hesitou apenas alguns segundos. — Olhe, Demi, temos que conversar, mas primeiro preciso fazer uns telefonemas e …
Antes que o marido terminasse, ela correu de volta para dentro do banheiro.
Joseph ficou surpreso com a saída repentina, mas pelos sons que ouviu compreendeu que ela estava vomitando. Entrou no banheiro também.
— Querida, você está mal!
Demetria foi para a pia e segurou-se nela, esperando que o banheiro parasse de girar.
— Só me ajude … — pediu. — Acho que preciso me deitar um pouco.
— Venha, meu anjo.
Ele a amparou até o quarto, ajudou-a a deitar-se e cobriu-a até o queixo.
— Já estou me sentindo melhor, Joseph.
— Ótimo. E vai ficar melhor ainda se ficar aí quietinha.
Ela deu-lhe um frágil sorriso, depois fechou os olhos, querendo que o mal-estar do estômago passasse. Ouvia Joseph movimentando-se no quarto. Quando abriu os olhos ele havia tirado o capote.
— A caminhonete não pegou? — perguntou.
Ele hesitou, mas por fim decidiu-se.
— Não foi a caminhonete.
Erguendo as sobrancelhas, ela fitou o marido com atenção. Joseph não costumava ser reticente.
— Então, o que foi?
Ele foi saindo do quarto.
— Deixe-me fazer uns telefonemas, depois conversamos.
Havia algo na voz dele que a fez sentir-se pior. E mais, Joseph não a olhara enquanto falava. Teve certeza de que se tratava de muito mais do que baterias descarregadas e ruas interrompidas pela neve. Sentou-se na cama.
— Por que não telefona daqui?
Ele parou à porta e voltou-se. Quando viu a expressão dos olhos dele, o coração de Demetria apertou-se.
— Conte-me, Joseph.
— Há uma trilha de pegadas circundando nossa casa.
Você pertence a mim… só a mim.
A lembrança explodiu na mente dela, deixando-a fraca e sem voz . Tudo que pode fazer foi gemer e cobrir o rosto com as mãos.
Joseph praguejou baixinho e foi sentar-se ao lado dela, que imediatamente agarrou-se às lapelas do seu paletó e, depois, passou-lhe o braço pelo pescoço.
— É ele, não é Joseph? Oh, Deus, ele voltou!
— Não sabemos se é isso — contrapôs Joseph, mas segurou-a forte contra si. — Fique quietinha, meu anjo. Vou telefonar para Borden e chamar a polícia.
Outra onda de enjôo a atacou, mas não era a mesma de antes. Essa passou, deixando atrás de si apenas desespero.
Joseph ajeitou-a melhor contra seu peito e discou, esperando que o investigador particular atendesse ao telefone. Quando em vez dele uma voz de mulher atendeu, hesitou, achando que talvez houvesse discado o número errado.
— Desculpe, acho que foi engano.
— Não, desculpe-me o senhor — respondeu a mulher. — Acho que eu é que não atendi direito. É que tudo hoje está tão horrível! Aqui é a Investigações Borden.
— Afinal, Harold cedeu e contratou uma secretária para ajudá-lo…
— Não é bem isso — discordou a mulher.
— Olhe, minha senhora, preciso falar com Harold. Ele está?
A mulher hesitou.
— O senhor é um cliente ou um amigo?
— Um cliente — respondeu Joseph com a testa franzida -, se bem que nos conhecemos a mais de dois anos.
Deu para ele ouvir o suspiro da mulher.
— Sinto muito ter que lhe dizer que o sr.Borden morreu. Ele foi morto num atropelamento-e-fuga nesta noite, quando saia de seu carro, em frente de casa.
Joseph sentiu como que um saco no peito.
— Alguém viu quando aconteceu?
— Creio que não. A esposa viu0o estendido na rua. Se o senhor é um cliente, a senhora dele pediu-me que indicasse que os casos em andamento sejam transferidos para Investigações Rocky Mountain. Trata-se de um grupo respeitável e Borden o considerava muito.
— Obrigado… — E Joseph acrescentou: — Transmita minhas condolências à sra.Borden.
Desligou e ficou imóvel, olhando para uma pequena mancha no papel de parede perto da cama.
Demi ouvira atenta as palavras do marido e quando ele disse as últimas teve um sobressalto. Só podiam significar uma coisa.
— Joseph…
— Harold Borden morreu, em frente da casa dele num atropelamento-e-fuga, nesta noite.
— Oh, não! Que horror! Eles tem alguma idéia de quem fez isso?
— Creio que não.
Demetria chegou-se ainda mais ao marido.
— Pobre sra.Borden! Imagino como ela está se sentindo.
— Sim…
Joseph digitou um outro número, dizendo a si mesmo que se tratava apenas de uma terrível coincidência, que a encrenca em que estavam nada tinha a ver com a morte do investigador. Momentos depois o segundo telefonema foi atendido.
— Aqui é Dawson.
— Joseph Jonas.
— Ora, ora! Levantou cedo hoje, hein? O que posso fazer pelo senhor?
— Alguém chegou muito perto da nossa casa esta noite.
O policial colocou metade do sanduíche que comia sobre uma pilha de pastas e ajeitou-se na cadeira.
— Algum xereta?
Pensando nas casas do quarteirão, Joseph chegou à conclusão que nenhuma tinha sido invadida, só a deles.
— Você é que deve me dizer, Dawson. Os jardins das demais casas estão intocados, sem rastros nem mesmo de cachorro.
— O senhor sabe como as crianças ficam quando neva. Querem recolhê-la toda.
— Ninguém recolheu neve nenhuma — garantiu Joseph. — Há apenas uma trilha de pegadas circundando a casa e saindo para a rua.
— Sim? O senhor não contratou um investigador particular? Talvez ele tenha ido até aí verificar de tudo estava bem.
— Não, a não ser que tenha sido o fantasma dele, pois foi morto num atropelamento-e-fuga, nesta noite.
Desta vez o investigador Dawson aprumou-se.
— Não me diga! — Remexeu uns papeis. — Está havendo uma série de estranhas coincidências.
— É exatamente o que penso.
— Muito bem. Vou chamar Ramsey e estaremos aí em quinze minutos. Espere-nos.
— Não vou sair daqui — afirmou Joseph e desligou.
Os olhos de Demetria estavam enormes, vazios, a expressão chocada.
— Demi…
Ela não respondeu.
Joseph sacudiu-a com suavidade.
— Demetria!
A cabeça dela descaiu sobre o ombro, como a de uma boneca quebrada; depois, Demi olhou para ele e estremeceu.
— Ele entrou pela porta da frente e eu pensei que fosse você. Estava sorrindo. Quando começou a rir alto, eu corri…
O ódio encheu o peito de Joseph.
— Desgraçado!
Ela piscou, tentando focalizar o rosto do marido.
— Eu o conhecia, Joseph. Era Pharaoh. Pharaoh Carn.

xx

A fumaça de incenso embaçou a visão de Pharaoh quando ele parou diante da estátua de Osíris. Perdera a noção de quanto tempo passara na sala subterrânea, mas devia admitir que seu coração estava mais leve, e seu propósito, mais claro. Lamentou sua anterior falta de discernimento e atribuiu-a ao fato de ainda não estar curado. Mas aqueles dias haviam terminado. Ficar entre aquelas relíquias lembrara-o de que quase havia ido para a eternidade. Os reis eram onipotentes. Eles ditavam as regras, não as seguiam. Como os antigos personagens que eram designados pelo seu nome, os faraós, ele ia destruir o inimigo e tomar de volta o que lhe pertencia. Já o fizera antes. Faria de novo. Voltou as costas para a câmara sem sol e penumbrosa onde estavam as esfinges dos antigos deuses. Havia muitas coisas que deviam ser feitas e pouco tempo para fazê-las.
Um pouco mais tarde, saiu da sala de sauna e encontrou Duke à espera. Despreocupado com a própria nudez, aproximou-se, virou de costas e enfiou os braços nas mangas do robe que seu assecla segurava, agasalhando com ele o suado corpo.
— Simon telefonou — informou Duke.
Pharaoh imobilizou-se.
— Aquele trabalhinho com o xereta já foi realizado.
— Qual? — indagou Pharaoh.
— O atropelamento-e-fuga.
Um sorriso de satisfação entreabriu os lábios de Carn.
— Sabe, é muito triste — disse com suavidade — mas as pessoas precisam aprender a olhar para os dois lados ao atravessar uma rua…
Duke sorriu.
— É, chefe, o senhor tem razão.
O estômago de Pharaoh manifestou-se.
— Estou com fome — declarou— diga ao cozinheiro que faça uma omelete de cogumelos. Tenho uns telefonemas a fazer, então quando ficar pronta leve-a para a biblioteca.
— Sim, senhor. Alguma coisa mais?
Pharaoh pensou na tarefa que tinha pela frente.
— Sim, traga-me o barbeiro… — Acrescentou em seguida: — E a manicure. Minhas unhas estão indecentes.
O capanga apressou-se a sair e Pharaoh foi para o chuveiro. Pela primeira vez depois do terremoto sentia-se bem. Realmente bem. Estava de volta a forma antiga, no controle total.

xx

O investigador Ramsey encontrava-se do lado de fora da casa dos Jonas, com um policial de técnicas tirando fotografias da trilha de pegadas na neve. Lá dentro, sentado numa poltrona com uma xícara de café nas mãos, Avery Dawson ouvia atentamente o que Demetria tinha a dizer. Várias vezes ele colocou a xícara de café sobre a mesinha e tomou notas. Num certo momento, interrompeu-a para perguntar:
— Então, o que a senhora quer dizer é que está começando a lembrar?
Demetria assentiu, olhou para Joseph que estava sentado ao seu lado e tornou a voltar-se para o investigador.
— As lembranças vêm mais vezes a cada dia que passa.
— E a senhora está acusando Pharaoh Carn como o homem que a seqüestrou a dois anos?
Ela fechou as mãos em punhos e escorregou um pouco mais para a beira do sofá. Sua voz tremia, e balançava o corpo enquanto falava.
— A porta estava fechada. Joseph sempre a tranca quando vai embora. Eles devem ter forçado a fechadura. Da cozinha, ouvi a porta abrir-se e achei que meu marido tinha voltado para pegar alguma coisa que esquecera.
— O que aconteceu então? — indagou Dawson.
— Eu sorria quando eles entraram…
— Eles?— interrompeu o policial.
A princípio, Demi pareceu surpresa com as próprias palavras, depois franziu a testa como se olhasse um quadro em sua mente.
— Sim, havia dois outros. Eram mais baixos do que ele, mas muito musculosos. Pareciam iguais…
— Estavam vestidos do mesmo modo? — quis saber Dawson.
— Não, mas pareciam irmãos.
O policial assentiu e escreveu algo.
— E aí, o que aconteceu?
— Ele riu… Pharaoh, quero dizer. Disse que estava procurando por mim fazia muito tempo. — Ela estremeceu. — Gritei e saí correndo…
Demi calou-se e fechou os olhos, lembrando-se da sensação de ser erguida e empurrada contra a parede.
— E?
Ela abriu os olhos, vazios de qualquer expressão.
— Ele me pegou.
— Como consegui levá-la para fora da casa sem ser observado?
Começando a tremer, Demetria procurou a mão do marido, que passou o braço pelos ombros trêmulos e apertou-a contra si. Ela tentou engolir para desfazer o nó na garganta, depois respirou fundo.
— Não sei. A última coisa que me lembro é de ser mantida contra o chão e de uma dor aguda no braço. Acho que me drogaram.
— Qual é a coisa seguinte de que se lembra? — quis saber Dawson.
De novo o olhar dela ficou sem foco.
— Não tenho certeza. Era um avião. Lembro-me de entrar num avião… — sacudiu a cabeça. — Sinto muito, mas minha mente está cheia de imagens que se atrapalham. — Endireitou os ombros. — Mas as poucas imagens de que consigo me lembrar sei que são verdadeiras. Pharaoh Carn levou-me embora da minha casa. Creio que fui levada para uma enorme propriedade. Os campos ao redor eram vastos e bem cuidados. Havia grades na janela do meu quarto e acho que se não fosse o terremoto eu ainda estaria lá.
— Está bem — disse o policial. — Se eu fizer uma acusação a senhora está disposta a testemunhar contra ele?
Só em pensar de ver de novo aquele homem revoltava o estômago de Demi. Ela cerrou os dentes e olhou para o marido, atenta à força que transparecia em seu rosto e ao amor que brilhava em seus olhos.
Ele assentiu.
Era a afirmativa silenciosa de que fosse o que fosse que ela decidisse, Joseph estaria ao seu lado. Quando tornou a olhar para Avery Dawson, o medo tornara-se decisão.
— Sim, estou disposta a testemunhar. Farei tudo que for preciso.
— Então, vou dar inicio aos trâmites legais — declarou o policial. Voltou-se para Joseph. — E vou passar sua teoria de atropelamento-e-fuga para homicídio. É um tiro no escuro, mas não faz mal cobrir todas as possibilidades.
— Obrigado, Dawson.
Soaram passos no hall e todos se voltaram para a porta quando Ramsey entrou.
— Tiraram as fotografias? — perguntou Dawson.
— Sim — respondeu Ramsey. — Além de congelarmos encontramos uma caneta-lanterna que alguém perdeu. — Ergueu o saco com uma lanterninha dentro. — É de algum de vocês?
— Não — respondeu o casal ao mesmo tempo.
— Foi o que pensei — Ramsey tornou a guardá-la no bolso.
Demi ergue-se num impulso.
— Você aceita um café?
O jovem policial abriu um enorme sorriso.
— Sim, senhora, se não for incomodar.
— Venha comigo — convidou Demi -, acho que ainda temos umas xícaras limpas.
— Traga-me uma também — pediu Dawson. — Temos de parar em mais alguns lugares.
Assim que os dois saíram, Joseph levantou-se.
— Qual é a nossa chance de ganhar o caso?
Avery Dawson sacudiu a cabeça.
— Não vou mentir para o senhor. É pequena, muito pequena. Um homem como Carn vai ter dúzias de álibis e de pessoas que jurarão por ele. A menos que tenhamos uma evidencia física, vai ser duro. Isso se conseguirmos que aceitem a acusação…
Joseph apertou os lábios e foi para a janela. Ficou lá, parado, olhando a luz do sol sobre a neve. Um casal ia passando pela calçada, conversando e rindo. A sra. Rafferty se achava no jardim de sua casa com uma vassoura, procurando o jornal por baixo da neve. O vizinho dela da direita estava no telhado, pendurando as lâmpadas de natal. Tudo parecia tão normal, no entanto tudo estava tão errado! Um homem louco escondia-se em algum lugar, observando todos os movimentos deles. Para onde esse homem havia ido? E quando voltaria?
— É uma vizinhança simpática — comentou Dawson. — Difícil imaginar um delinqüente andando por aqui.
Joseph enfiou as mãos nos bolsos e afastou-se da janela.
— É mesmo. Cresci nesta casa. Quando Demi e eu nos casamos meus pais compraram outra, foram morar lá e alugaram esta para nós. Esses vizinhos vêm fazendo parte da minha vida durante trinta e três anos. Nada mudou, a não ser por casamentos, mortes de um e nascimento de outros.
— Sei o que quer dizer — disse o policial. — É bom conhecer todo mundo ao redor. Mesmo que se torne um tanto monótono, é mais seguro.
— O que é mais seguro? — quis saber Demetria, entrando com o café para Dawson.
— Esta rua, a vizinhança… — respondeu Joseph. — Eu dizia que aqui nada muda.
— É verdade — concordou Demi -, a não ser pelos inquilinos da sra. Rafferty.
Joseph ficou imóvel por instantes, depois aproximou-se da janela de novo e observou a van cinzenta estacionada do outro lado da rua.
— O que foi? — interessou-se Dawson.
— Há um novo morador aqui faz dois dias.
— E daí?
— Daí que as únicas coisas que ele trouxe foram duas malas e uma caixa.
— Não trouxe móveis? — estranhou o investigador.
— O apartamento é mobiliado — informou Demi.
— Iremos verificar — garantiu Dawson — , mas não é proibido viajar com pouca bagagem.
— Tem razão — concordou Joseph. — Acho que estou tirando conclusões apressadas.
— Eu diria que o senhor esta sendo cuidadoso e não posso censurá-lo, diante das circunstâncias.
Pouco depois os policiais se despediram e saíram.
Joseph notou a expressão abatida da esposa e sugeriu:
— Vá deitar-se, meu amor.
Ela endireitou os ombros.
— Não quero discutir com você, mas não estou doente, apenas esquisita.
— Então, leve a sua esquisitice para a cama — brincou Joseph, fazendo-a ir para o quarto. — Talvez você consiga dormir um pouco. Vou telefonar para meu pai; há umas coisas que preciso fazer, mas não vou deixá-la sozinha.
Demetria não discutiu. Não podia. Atordoada, sentia que estava prestes a ver-se naquele lugar onde todo pensamento cessava e a pessoa sentia-se numa espécie de limbo.

xx

Simon Law andava de um lado para o outro. Estava nervoso desde que acorda com o dia já claro, naquela manhã. Praguejou em voz alta e foi até a janela, espiando por uma pequena fresta da cortina. Os tiras ainda estavam lá.
— Mas que droga!
Pharaoh não ia gostar daquilo, pois recomendara-lhe que ficasse quieto, que não fizesse nada. Mas ele quisera ter uma idéia da distribuição da casa e parecera-lhe uma boa idéia aproveitar-se da escuridão da noite. Como podia adivinhar que a maldita neve ia deixar de cair?
Espiou de novo para fora e acalmou-se um pouco. As pegadas terminavam na calçada em frente da casa dos Jonas. Não havia como suspeitarem dele. Observou sua van. Estava limpa. Certificara-se disso. O carro que usara para o atropelamento-e-fuga na noite anterior fora roubado meia hora antes de fazer o serviço e depois o largara no centro da cidade, perto de um bar. As coisas haviam sido feitas de acordo com o planejado. Se a maldita neve não tivesse parado de cair, tudo estaria perfeito.
Não. Pharaoh não poderia censurá-lo por isso. Quem podia adivinhar o que fariam as forças da natureza
Tentou relaxar.
Calma, pensou, as pegadas não querem dizer nada. Mas quando viu os policiais vindo na direção da casa onde estava, entrou em pânico. Sem pensar, vestiu o capote, pegou o celular e saiu do apartamento pela porta que dava para a escada de incêndio, atrás da construção. Segundos depois, saltava a cerca baixa e corria pela lateral, enquanto Dawson e Ramsey batiam à sua porta.
Esperaram pela resposta, depois bateram de novo com mais força.
— Acho que ele não está em casa — sugeriu Ramsey.
Dawson olhou para a van estacionada na rua.
— O carro dele é essa aí, e está frio demais para um passeio a pé. Por que não conversa com a dona da casa, enquanto dou uma espiada por aqui?
Ramsey assentiu e desceu a escada. Dawson fez o mesmo, só que em vez de ir para a garagem, deu a volta nela. Quando viu as pegadas na neve que se afastavam da casa ficou pensativo por alguns momentos. Estava desconfiado por ver que as marcas indicavam que o homem saltara a cerca e correra pelo caminho lateral entre as duas casas, em vez de ir normalmente pela rua. Era policial havia tempo demais para não perceber quando uma coisa cheirava mal.
Voltou para a frente da casa, aproximou-se da van, anotou o número da placa e foi para o seu carro. Falava com a chefatura quando Ramsey juntou-se a ele.
— O que ela disse? — perguntou Dawson.
Seu parceiro sacudiu os ombros.
— Nada que possa ajudar. Pôs anúncio no jornal, o homem respondeu e alugou o apartamento pelo prazo de um mês a renovar, se for o caso. O nome dele é Peter Ross.
— O que ele faz para viver?
— O homem não falou e ela não perguntou. Disse que precisa do dinheiro do aluguel para seu orçamento dar até o fim do mês e que quando os inquilinos são sossegados e pagam em dia, não quer saber de mais nada.
— Hum… — resmungou Dawson. — Passei a placa e a descrição da van para verificação. Estará em minha mesa quando chegarmos à delegacia.
— O que você acha?
Dawson apoiou os cotovelos no volante e olhou da casa dos Jonas para o apartamento sobre a garagem. Depois olhou ao inverso.
— Acho que seria fácil demais assumir que esse homem novo nas vizinhanças tenha vindo para espiá-los.
— É o que eu estava pensando também — concordou Ramsey.
— Mas também cheguei à conclusão de que andei assumindo demais antes, e veja o que aconteceu… Eu seria capaz de apostar a minha aposentadoria que Joseph Jonas havia matado a esposa. — Deu uma olhada para o parceiro e ligou o motor do carro.
— Ainda bem que não apostei. Teria perdido meu dinheirinho da pensão para sempre.
Algumas quadras adiante, Simon Law deteve-se para respirar. Em seguida pegou o telefone, digitou o número e esperou pela voz do chefe.

xx

A manicure era pequena e jovem, suas feições orientais, delicadas e bonitas. Mas Pharaoh não estava interessado em que ela fizesse nada por ele além das unhas. Alejandro sempre dizia que a inteligência de um homem pode ser avaliada pela sujeira embaixo de suas unhas. E ele não queria dar ao chefão nenhum motivo de dúvida.
Inclinou-se para trás na poltrona e fechou os olhos, saboreando o prazer que a suave massagem nos dedos e o leve respirar da manicure lhe proporcionavam. Então, o telefone tocou e ele demonstrou irritação com uma praga.
— Duke, pegue o recado.
Os movimentos de Needham eram fluidos ao aproximar-se da escrivaninha do chefe.
— Aqui é Duke Needham.
Simon sentiu um arrepio na espinha.
— Sou eu, Duke, Simon. Tenho um probleminha aqui. Preciso falar com Pharaoh.
Duke hesitou:
— Chefe…
As sobrancelhas grossas de Pharaoh franziram-se perigosamente.
— Droga! Eu disse para pegar recado!
— É Law. Parece que ele tem um problema.
Pharaoh deu um salto, e a manicure, que no momento cortava uma cutícula, feriu-lhe o dedo.
— Droga, mulher, tome cuidado!
A moça empalideceu.
— Sinto muito sr. Carn. Desculpe-me, por favor… Vou ser mais cuidadosa.
— Saia daqui! — berrou ele, indicando a porta. — Duke, leve essa mulher para fora. Tenho negócios a tratar.
No instante seguinte, Pharaoh achava-se sozinho.
— É Carn — disse ao telefone.
Simon começou a suar frio, apesar de seus pés estarem gelados e o nariz escorrendo. Passou-lhe rapidamente pela cabeça como a fazenda do pai era boa e como era tranqüila a vida que levava lá.
— Tive um pequeno problema — disse, afinal — e preciso ir embora do apartemento.
— Que problema?
Law arrepiou-se de novo. Preferia que o chefe xingasse, gritasse, em vez de falar daquele modo calmo e macio, com uma polidez fora do comum.
— Jonas chamou a policia. Os tiras ficaram na casa dele por algum tempo e ao sair atravessaram a rua, vindo para o meu apartamento.
— Por quê? — indagou Pharaoh. — Eles não iriam ao seu apartamento sem algum motivo.
O bandido hesitou, depois despejou tudo de uma vez.
— Ontem à noite eu chequei a casa, entende? Eles tem um sistema de alarme. Vai ser duro conseguir entrar. Estava bem escuro e todos dormiam… Eu não fiz nada, a não ser examinar as janelas. Você disse para eu ficar de olho nelas, lembra?
Pharaoh aspirou ruidosamente o ar e fechou os olhos, obrigando-se a manter a calma.
— E também disse para você ficar quieto.
— É, mas eu pensei…
— Não pago você para pensar, pago para cumprir ordens.
— E eu cumpri, chefe. A paguei aquele investigador particular, do jeito que você me disse.
— E agora vão pegar você — ironizou Pharaoh.
— De jeito nenhum! — reagiu Simon. — Quero dizer, pelo menos, acho que não.
— Então, por que eles estão aí?
O arrepio desceu mais uma vez pela espinha de Simon.
— As pegadas. Dá para ver que andei ao redor da casa. — Praguejou várias vezes. — Como diabo eu ia adivinhar que a neve ia parar de cair? Estava nevando desde que cheguei aqui. — Fez uma pausa e acrescentou: — Mas eles não podem descobrir que as pegadas são minhas, porque param na calçada.
A raiva cresceu de tal maneira que Pharaoh tremia.
— E você, seu grande idiota, tinha que ser a primeira pessoa investigada, já que é novo nos arredores.
A voz de Law soou fraca.
— O que devo fazer?
Pharaoh consultou o relógio.
— Sabe onde é a estação rodoviária?
— Não, mas descubro.
— Esteja lá dentro de duas horas. Alguém estará à sua espera.
Foi impossível Simon conter o suspiro de alivio.
— Obrigado, chefe… e sinto muito. Não vai acontecer de novo.
Desligou e o som da linha soou no ouvido de Pharaoh.
— Pode ter certeza disso — afirmou ele com voz macia e colocou o fone no lugar.
Cumprindo a palavra, Simon Law entrou na estação rodoviária cinco minutos antes da hora marcada e olhou atento a multidão que se movimentava. Não reconheceu ninguém, porém não tinha importância. Chegara um pouco cedo e precisava ir ao sanitário.
Seus passos ecoaram no enorme e vazio recinto ladrilhado quando se aproximou da parede onde ficavam os mictórios. Começava a descer o zíper de sua calça e a porta atrás dele se abriu. Virou a cabeça e sorriu ao reconhecer o homem que entrava.
— Olá, Paulie! Um segundo e já vou estar junto com você.
— Não tenha pressa.
Enquanto respondia, Paulie aproximou-se por trás dele e cortou-lhe a garganta.

Simon desabou no chão, morto antes de poder gritar.

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Meninas! Como vão? Eu vou bem! Passaram bem o Natal? Ganharam muitos presentes? A propósito, feliz Natal! Sobre a maratona, eu estou disposta a fazer, mas tenho q dizer q n tenho ideia de qual será a próxima história asjfdshgsdaf
Mesmo assim, vcs topam? A maratona seria com os 3 capítulos restantes + o epílogo!
Comentem com a resposta!
Vou indo...
Beijos, amo vcs ♥

3 comentários:

  1. Sim sim maratona... Aiiinnn a Demi esta gravida nao é??? Esses enjoo dela ai estão suspeitos... Ainda mais depois de um dia muito doce e quente quem nao engravidar??... Esse investigador nao presta para nada viu? Pq não tirou ft da merda da pegada do cara?? Affs... E já esta na hr de Pharaoh meter as caras. Cara mais froxo invés dele mandar a pessoa com uma passagem so de ida pro inferno pq ele não faz a própria merda? Se quer perfeito que ele vá la e faça aff revoltei aqui

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  2. Hummm... isso a Demi deve estar grávida! Ai a cada capitulo eu tenho mais odio desse Pharaoh. Ele é muito frio e ao mesmo tempo muito covarde pq ele só vive mandando outras pessoas fazerem o trabalho sujo para ele pq com certeza ele deve ter medo de ser pego e bom... se ele não fizer certo como o Simon não fez ele não tem a quem colocar a culpa. Tem que descobrir logo sobre esse homem!!!
    Beijooos Bru ♡

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