23.12.14

Remember Me - Capítulo 13

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Uma semana inteira passou-se desde que Demetria e Joseph haviam voltado de Albuquerque, e cada dia que passava parecia a calmaria antes da tormenta. Não importava quão normais fossem seus dias e tranqüilas suas noites, o estresse de não saber o que viria a seguir era desgastante.
Joseph estava sem paciência no trabalho e Demi lutava constantemente com a tendência a desmanchar-se em lágrimas. Apesar de já tê-lo localizado, a policia estava tentando verificar onde Pharaoh se encontrava durante o tempo em que ela permanecera seqüestrada. E, sem o conhecimento de Demetria, Harold Borden, o investigador particular que Joseph contratara, estava monitorando todas as pessoas com quem ela estivera em contato. Todos estavam agindo, mas em silêncio.
Dois dias depois do Dia de Ação de Graças, começou a nevar.
— Olhe, Joseph, há alguém entrando no apartamento da garagem da sra.Rafferty, do outro lado da rua.
Por cima de sua escrivaninha, Joseph olhou para a janela, onde Demi se achava, observando a neve cair. Contente por ter um pretexto para abandonar a planta que estudava, levantou-se.
— Que dia para sair de casa! — comentou.
Chegou por trás dela e olhou para fora, por cima de seu ombro. Demi assentiu com a cabeça e aninhou-se junto dele, que a abraçou.
— Seu esgoista, eu sei, mas gosto que esteja nevando.
— Eu nunca a ouvi dizer isto — admirou-se Joseph. — Você detesta o frio.
— Detesto, mesmo — concordou ela — , mas adoro que a neve obrigue você a ficar em casa.
Dependência não fazia parte da personalidade de Demetria. Joseph abominava a pressão à qual ela estava submetida e preocupava-se constantemente, perguntando-se por quanto tempo ela iria agüentar.
— Querida, tudo que você tem a fazer é dizer que quer, e contrato um guarda-costas para ficar aqui enquanto eu estiver trabalhando.
— Não seja bobo! — brincou ela. — Você já instalou um sistema de alarme. Além disso não podemos pagar por um guarda-costas e…
— Não, meu anjo. O que eu não posso é ficar sem você.
O queixo dela tremeu.
— Desculpe, Joseph… — Demi engoliu as lágrimas. — Parece que tudo que quero fazer nestes dias é chorar.
— Se a fizer sentir-se melhor, chore. Sei que não é fácil para você. — Ele olhou para a janela e franziu o a testa. — Veja como o novo inquilino da
sra.Rafferty é modesto. Duas malas e uma caixa de livros não é muito para um homem viver.
Demi riu, enquanto ele continuava a olhar entre os flocos de neve que caíam.
— Lembro-me do tempo em que não tínhamos muito mais do que isso…
Joseph ergueu-lhe o queixo.
— O que me diz de um bom chocolate quente?
Ela suspirou, depois forçou um sorriso.
— Com montanhas de pequenas bolas de marshmallow coloridas!
Ele rolou os olhos com pretenso desprezo.
— Não sei. Eu sou pelo marshmallow ao natural, mas se você insiste em que seja colorido…
Demi deu um soco de leve no braço dele.
— Pare com isso, meu senhor! Afinal não sou eu quem põe mostarda nos ovos mexidos.
— É uma delicia! — riu ele.
— Vou tentar não ficar enjoada…
— Só por isso, os marshmallow verdes vão ser meus.
— De jeito nenhum, você sabe que são os meus preferidos!
Os olhos de Joseph brilharam quando ele baixou a voz num arremedo de ameaça.
— Está bem, os verdes são seus, mas vai lhe custar caro.
Rindo, ela perguntou:
— Exatamente quanto?
Ele a abraçou e ergueu-a do chão.
— Não é quanto, é o quê.
Demetria arrepiou os cabelos dele, adorando sentir sua macia textura sob as palmas das mãos.
— Exatamente do que você está falando, Joseph?
A resposta dele foi uma risada, e começou a atravessar a sala com ela nos braços.
— Ei, a cozinha é para aquele lado!
Ela apontou por cima do ombro dele.
— Desculpe, minha senhora, mas conhece o velho ditado ¨ Você recebe aquilo pelo que paga¨? Você não poderá ter o chocolate se não pagar por ele.
Rindo, também, ela perguntou:
— Exatamente o que essa caneca de chocolate vai me custar?
O marido depositou-a no meio da cama e começou a tirar o suéter dela.
— Muitos, muitos beijos.
Então, passou para os sapatos.
— E se eu quiser os marshmallows verdes também? — quis saber Demi.
Ele continuou sorrindo.
— Bem, isso vai custar mais.
— O quê?
Joseph desabotoou a calça dela e começou a tirá-la.
— Você vai ver — respondeu, baixinho. — E quando eu achar que chega, avisarei.

xx

Simon Law jogou a última mala em cima da cama e guardou a chave no bolso, enquanto examinava o apartamento de dois cômodos. Em matéria de apartamento, ele já havia tido melhores. Mas este era limpo, quente e considerando a maldita nevasca lá fora, era até melhor do que o Ritz. Passou as mãos nos cabelos e no capote, para livrá-los da neve. Lembrou a si mesmo o que viera fazer ali.
— Onde está meu celular? — resmungou.
Verificou nos bolsos, estavam vazios.
Olhou pela janela e gemeu. A última vez que o usara fora na van, para acertar os últimos detalhes com o chefe, e o colocara no assento ao lado.
Olhou com desdém a neve que caia. Demorar não iria melhorar a situação. Com uma praga abafada, ergueu a gola do capote e saiu, correndo até a van.
O telefone celular estava sobre o assento, direitinho como o deixara. Em segundos ele subia de volta a escada que levava ao apartamento sobre a garagem, amaldiçoando a neve. Nascido numa fazenda no Estado de Illinois, fazia anos que Law deixara a casa da família e fora para a Califórnia, atrás do sol. Mas agora ali estava, de volta ao frio miserável, desejando que Pharaoh Carn houvesse chamado outro que não ele.
Foi só o tempo de trancar a porta e tirar o capote, e já digitava o número privativo de Pharaoh . Tirou um binóculo de uma das malas.
— Chefe, sou eu, Law… Sim, já estou aqui… — Aproximou-se da janela, ajustando o binóculo para enxergar bem. — Sim, eles estão lá. Eu os vi ontem, quando vim alugar o apartamento, e de novo hoje de manhã… Não, eles não saíram para lugar nenhum… Claro, o senhor já me disse: é só observá-los.
Pharaoh Carn revirava a patinha de coelho entre os dedos enquanto escutava o relatório de Law.
— Quero saber quando eles saírem, o que fizerem… tudo! Compreendeu?
— Sim, chefe. Vou ficar em comunicação.
Pharaoh desligou. Um sorriso pensativo alterou o desenho de seus lábios, mas não muito; apenas o suficiente para registrar satisfação completa. Ele hesitou por um instante, então guardou a patinha de coelho no bolso e acionou o intercomunicador.
— Duke, tire o carro. Vamos ao Luxor. Estou me sentindo feliz.
— Sim, sr.Carn. Imediatamente.
O sorriso de Pharaoh ampliou-se. Essa ia ser sua primeira saída desde que recebera alta do hospital. De todos os cassinos que havia por ali, o Luxor, com tema de antigo Egito, era seu favorito. Estava com disposição para arriscar um pouco de dinheiro nas mesas de jogo e talvez depois ir até o Isis para um almoço sofisticado. Os pratos finos do elegante restaurante Luxor jamais desapontavam.
Esfregou as mãos e foi olhar-se no espelho. Talvez assim que saísse devesse ir cortar o cabelo, depois comer um bom filé. Ouvira dizer que Jimmy Shoe estava na cidade. Seria bom voltar a ver alguns dos rapazes.
Pensou em Demetria outra vez, porém não mais com sensação de urgência. Sabia onde ela estava. Quando estivesse pronto, iria buscá-la. Cometera um erro da primeira vez, deixando o marido dela vivo. Não iria acontecer de novo. Desta vez quando fosse buscá-la, ela não deixaria ninguém em casa por quem voltar.
Poucos minutos depois, estava na rua. O dia estava frio, mas um longo capote de lã sobre o terno Armani, com colete, era proteção mais do que suficiente. Os dois homens no assento da frente, mais o motorista da limusine, era toda proteção que precisava nesse dia.
Os irmãos Demico eram da Filadélfia e estavam com ele fazia mais de dois anos. Ambos eram muito bem servidos de músculos e pouco servidos de cérebro, mas era assim que Pharaoh os preferia. Ele era um homem que poderia ser morto a qualquer momento, já os Franco não corriam esse perigo.
— Sr. Carn…
Pharoh olhou para Duke, que estava no assento à frente dele.
— O quê?
— É muito bom ver o senhor saindo de novo.
Dando um dos raros sorrisos para o homem que era o seu braço direito, Pharaoh agradeceu.
— Obrigado, Duke. Estou contente também.
O assecla assentiu e tornou a voltar a atenção para as ruas por onde passavam. Parte do seu trabalho era evitar que o chefe tivesse surpresas, e ele era muito bom nisso.
Quando desciam o bulevar Las Vegas, o coração de Pharaoh confrangeu-se. Dali podia ver o topo do Luxor, um prédio em forma de pirâmide, com trinta andares. Poucos minutos depois o motorista parou o carro diante da entrada principal do cassino, para o chefe e seus homens descerem.
Duke saiu primeiro, seguido pelos irmãos Franco. O trio ficou imóvel por momentos, examinando as pessoas que circulavam por ali. Então, Duke
inclinou-se diante da porta e fez um sinal para Pharaoh que sentiu violentas dores ao sair do carro, porém não se deixou vencer.
Nesse dia, não. Nesse dia sentia-se vingado de um modo que não conseguia explicar. Recebera como um bom sinal o fato de Demi não se lembrar dos fatos que podiam mandá-lo para a cadeia.
Ergueu o queixo enquanto a limusine se distanciava, recusando-se a permitir que seus olhos fizessem contato com os clientes do Luxor. Essa era a primeira lição que havia aprendido no presídio. Permanecer distante conferia importância e muitas vezes era a diferença entre morrer e manter-se vivo.
Respirou fundo e sua pulsação acelerou-se ao aproximar-se da entrada. Seus homens o rodeavam. Um dos irmãos Franco abria caminho, Duke andava ao lado dele, e o outro Franco, atrás. O modo como faziam as pessoas saírem de sua frente era notável. Quando se encontravam a poucos passos da imponente porta do cassino, um homenzinho baixote, moreno, foi ao encontro deles.
— Sr. Carn! É um prazer recebê-lo aqui!
Pharaoh sorriu. Jahar era o gerente do térreo, capaz de satisfazer as solicitações mais inusitadas a qualquer hora do dia ou da noite.
— E é muito bom estar aqui, Jahar.
— Em que posso atendê-lo, senhor? Diga e atenderei com prazer.
— Vim para jogar — respondeu Pharaoh e viu um grande sorriso iluminar o rosto moreno -, mas não pretendo perder.
Jahar conteve uma gargalhada.
— Bem, senhor, quem sabe? A sorte é uma cadela caprichosa…
— É meio-dia e meia — comentou Pharaoh, consultando o relógio. — Suponho que minha mesa estará vaga ali pelas três e meia…
O gerente anuiu com veemência.
— Claro, senhor. Vou tratar disso imediatamente.
E desapareceu entre a multidão, enquanto Pharaoh atravessava o saguão de entrada. Alguns minutos depois, ele estava acomodado em uma das mesas de bacará, imerso no jogo.

(...)

Passava um pouco das cinco e quinze quando Pharaoh terminou a sobremesa, e começava a tomar café quando viu Jimmy Shoe atravessando o salão do restaurante em sua direção. Duke viu-o também e relanceou os olhos pelo chefe.
— Deixe-o vir — ordenou Pharaoh.
Duke se ergueu e ficou de lado; Jimmy Shoe deu um sorriso torto para Pharaoh e sentou-se na cadeira que o capanga deixara vaga.
— Ouvi dizer que você estava na cidade — disse Jimmy. — È ótimo vê-lo por aqui de novo e bem. Houve momentos em que pensamos que você não iria sair dessa.
O sorriso de Pharaoh gelou, antes de chegar aos seus olhos.
— Esse é o problema dos mexericos, Jimmy. Pareço um cadáver?
— Não, não. Claro que não parece, Pharaoh. Nunca o vi melhor. — Shoe deu um sorrisinho nervoso. — Falando a serio, você chegou perto, não?
Depois de considerar o que iria responder, Carn sacudiu os ombros.
— Não importa quão perto um homem chegue da morte, nem quantas vezes isso aconteça. O que conta é que ele continue em pé, depois de tudo terminado.
Jimmy assentiu.
— E você esta fazendo isso muito bem.
— Então, Jimmy, isto é um encontro social? Posso oferecer-lhe uma bebida, algo para comer?
Shoe inclinou-se para a frente.
— Não, obrigado. Eu apenas queria avisá-lo que tiras estão fazendo perguntas sobre você em Los Angeles.
O bom humor de Pharaoh desapareceu.
— Que tipo de perguntas?
— Muito estranhas, para dizer a verdade. Não se ligam ao ¨ negócio¨. São a respeito de uma mulher que foi seqüestrada.
Carn tomou um lento, calculado gole de café sem demonstrar seu choque.
— Seqüestro é para bobos — disse, devagar. — Não tenho hábito de me entregar a divertimentos que não tragam algum proveito. Mas, só por curiosidade, quem anda perguntando? Sobre a mulher, é claro.
— Os tiras locais e um investigador particular de fora.
— Deve ser uma mulher muito importante para despertar tanto interesse — sorriu Pharaoh. — Quem é ela?
Jimmy sacudiu a cabeça;
— Não sei.Uma mulher qualquer.
— Então, como os tiras estão investigando?
— Andam com uma fotografia perguntando: ¨Conhece esta mulher?¨ ¨Viu alguém com esta mulher?¨. Coisas assim.
Pharaoh tomou outro gole de café.
— Bem, obrigado pelo aviso, Jimmy. Eu lhe devo uma.
Jimmy Shoe fez um trejeito de pouco caso.
— Eu só achei que você gostaria de saber. — Sorriu. — Eles não estão conseguindo as respostas que querem. Pelo que percebi, ninguém sabe que
você está nisso. Mas eu lembrei daquela sua casa nas colinas de Los Angeles e achei que havia uma chance… Entende?
— Agradeço o interesse, Jimmy. Você será recompensado.
Seguiu-se um prolongado silêncio. Quando, de repente, Duke ficou um pouco mais perto dele, Jimmy levantou-se.
— Foi mesmo muito bom ver você de novo, Pharaoh, mas tenho que ir andando… Cuide-se, hein?
Pharaoh ficou olhando o homenzinho distanciar-se. Aquilo poderia mudar tudo. Estivesse pronto ou não, adiar por mais tempo sua viagem a Denver poderia tornar-se perigoso. Precisava pensar seriamente nisso.
— Duke, chame o carro. Quero ir para casa.
Duke acionou o celular. Poucos minutos depois eles se dirigiam para saída do Luxor. Os irmãos Franco esperavam na porta, adaptaram seus passos aos do chefe e os quatro caminharam para a limusine que os esperava.

xx

Continuara nevando até depois da meia-noite. Ao amanhecer as ruas já haviam sido limpas da neve e o sol brilhava. Joseph saiu para o trabalho, avisando que só voltaria no fim da tarde. Demetria permaneceu um pouco mais debaixo das cobertas e entrou naquele estado imponderável entre o sono e a vigília.
A consciência ficou em algum lugar entre a realidade e sonho, deixando-a envolta no calor da cama e em lembranças. Suspirou quando rolou de lado e apoiou o rosto no travesseiro de Joseph. Sorriu consigo mesma, lembrando-se dos marshmallows verdes que ele colocara em sua boca. Não tinham ido fazer chocolate quente, mas tinham feito amor. E esse amor havia sido mais doce e quente do que qualquer chocolate.
Demetria permaneceu assim, entre dormindo e acordada, baixando a guarda o suficiente para que o medo voltasse…

— Não lute contra mim, Demetria. Você sempre foi minha.
Demi olhou para o homem em cima dela, na cama. Seus olhos selvagens espelhavam luxúria frustrada, suas narinas fremiam. A raiva coloria suas faces de vermelho, enquanto ele a imobilizava. Esmagada sob o pesado corpo, a única coisa que ela conseguia fazer era respirar.
— Não… Solte-me. Por favor, solte-me. — implorava ela.
A fúria era evidente no rosto do homem.
— Você pertence a mim, não a ele!
— Não! Eu não pertenço a ninguém, a não ser a mim mesma — gritou Demetria. — Eu sou de quem escolher e escolhi meu marido. Você não tem direito algum sobre mim!
O homem apertou mais os pulsos dela. Quando o rosto dele aproximou-se, Demi arquejou.
— O que quer dizer, não tenho direito? Tenho todos os direitos — sussurrou Pharaoh. — Olhe para o meu rosto. Olhe nos meus olhos. Lembra-se do passado? Lembra-se de tudo que compartilhamos? Não importa o quanto você tente esquecer, sempre se lembrará de mim. Inutilmente, Demi lutava reconhecendo a inevitabilidade daquele momento. Seu coração estava partido por Joseph e pelo que ia acontecer com ela. Mas morreria antes de dar a Pharaoh a satisfação de pensar que vencera. Seus olhos se tornaram sem expressão, como se de repente ela houvesse saído do próprio corpo.
— O fato de ser mais forte do que eu e poder me dominar não muda o fato de que eu o desprezo. Você me tirou da minha casa. Se me possuir, terá que ser à força. Você jamais irá controlar meu coração, que pertence a Joseph. É dele que vou me lembrar. É a ele que amo.
Uma raiva gelada pareceu explodir no intimo de Pharaoh e, estremecendo, Demetria preparou-se para o pior.

Ela acordou gritando o nome do marido e assustou-se com o som de sua voz ecoando na casa.
— Oh, Deus! Meu Deus! — murmurou.
Levantou-se, foi para o banheiro, tirou a camisola e enfiou-se sob o chuveiro. A água ficou quase fria por ter aberto demais a torneira, porém ela não se importava. Com as mãos ensaboadas, esfregava o corpo com força. Sentia-se desprezível e suja. Durante semanas insistira em negar, dizendo a si mesma que fora seqüestrada, sim, porém não violentada. Mas aquela lembrança mudava tudo. Lágrimas contidas ardiam-lhe na garganta, que doía. Como encarar Joseph, sabendo que o homem que a sequestrara também a havia estuprado?
Então, algo a atingiu tão depressa que ela quase perdeu o equilíbrio. Lembrou-se com clareza de ter implorado por piedade e do rosto daquele homem. Enxaguou o corpo, fechou o chuveiro, secou-se e vestiu-se, ansiosa por contar o sonho para o investigador Dawson. Mas quando falou com ele por telefone a reação do policial não foi o que ela esperava.
— Olhe, a senhora disse que foi um sonho.
— Sim, mas…
— Como pode ter certeza que não se trata apenas de uma manifestação dos seus medos? A senhora me disse, que lembrava-se de alguns flashes do seu seqüestro, mas não do rosto do seqüestrador.
Demetria sentiu-se enjoada. Não havia esperança, ninguém queria acreditar nela. Pensara que Dawson acreditaria, mas era evidente que se
enganara. Uma coisa estava mais do que clara: ele achava que era uma louca, como todos os demais.
-Sim, mas…
— E agora depois de ter visto a fotografia do rapazinho com quem foi criada, decidiu que ele é o homem que a seqüestrou.
— Dominando o ímpeto de gritar, Demi respondeu:
— Eu não decidi isso, apenas me lembrei.
— Não, minha senhora — contrapôs Dawson, com calma. — A senhora sonhou. É muito diferente.
Demi deixou-se cair numa poltrona, vazia de vida como só uma mulher desacreditada podia sentir.
— O que vai acontecer agora, Dawson? Será que não consegue ver ainda estou em perigo?
A hesitação silenciosa dele foi a resposta e ela não se conteve mais.
— Bem, pelo menos afinal temos a verdade! O senhor realmente pensa que eu fugi de casa e depois… por motivos particulares, voltei.
— Sra. Jonas, eu não disse isso.
— Nem precisava dizer! Antes de encerrarmos esta conversa inútil, quero fazer-lhe uma pergunta hipotética.
— Pois não, senhora.
— E se eu tivesse sido encontrada morta em outro Estado? O senhor teria prendido Joseph ou teria deduzido que eu morrera durante uma viagenzinha ao encontro de mim mesma?
Dawson sentiu um arrepio: era impossível não notar o sarcasmo na voz dela.
— Não poderei responder a isso sem examinar todos os aspectos da situação.
— Por quê? — indagou ela. — Você não deixou nenhum aspecto que tem surgido influir em seu ponto de vista. Aliás, seu primeiro movimento foi culpar Joseph, e estava errado. Por que não quer admitir que pode estar errado agora também?
O policial ainda pensava no que responder quando Demi acrescentou:
— Não importa… Creio que você assumiu sua posição por principio e eu deveria aceitá-la, sem dizer uma palavra. Quer saber de uma coisa, Dawson? Seu um dia decidir deixar os caminhos da lei, poderá pensar em entrar para a política. Tem jeito para isso.
O clique que soou no ouvido do investigador não deixou-lhe ilusões sobre ter falhado com Demetria Jonas. Mesmo quando chegou a hora de ir para casa ele não havia parado de pensar no que ela dissera. Será que estava errado? Isso já acontecera antes. Por que tudo o impelia a investigar
Pharaoh Carn? Aquela mulher declarara guerra ao criminoso e ninguém queria acreditar nela, até ele mesmo.
Ainda pensava nisso ao pegar a chave para entrar em casa. Pharaoh Carn era tão perigoso quanto era inatingível. Como poderia encontrar um homem que era impossível de encontrar?

(...)

Tarde daquela noite, Demi lutava com a própria consciência. Não contara a Joseph o que se lembrara, já que não era uma chave para descobrir o lugar onde ficara presa. Contar aquela coisa terrível serviria apenas para causar-lhe mais dor. Além disso, ela achava que nunca mais poderia encará-lo se ele soubesse. Sentia-se culpada por ter sobrevivido. Algumas mulheres tirariam a própria vida para não se submeter aos desejos de um homem ao qual não queriam.
Reagiu a esse pensamento. Não. Esse tipo de idéia era simples e idiota. Devia a si mesma, e a Joseph, sobreviver de qualquer maneira. Mordeu os lábios para conter o choro e virou-se na cama. Instintivamente o marido aproximou-se dela, dormindo, abraçou-a e isso ajudou-a a relaxar. Era claro que sua decisão fora certa. Estava de volta aos braços de Joseph, ao lugar a que pertencia.

xx

Simon Law deu a volta na casa pela terceira vez, anotando mental e cuidadosamente o elaborado sistema de segurança que a protegia. Acompanhando uma série de fios, viu que eles iam dar numa caixa e franziu as sobrancelhas. O chefe não ia gostar daquilo. Seria preciso muita habilidade para um homem entrar na casa sem fazer disparar o alarme.
Um carro virou a esquina, com a luz dos faróis iluminando indiscriminadamente o local. Simon escondeu-se entre a vegetação e ali permaneceu minutos depois que o carro passou. Mentalmente xingando a neve que escorregava para dentro da roupa, pelo pescoço, ficou em pé e foi para a calçada. Dera alguns passos quando percebeu que perdera a caneta-lanterna. Praguejou e ia voltar-se quando uma luz acendeu-se dentro da casa. Sem pensar saiu correndo.
Em segundos estava dentro de sua van e afastou-se do local. Voltaria logo, normalmente. Demetria Jonas não ia escapar de sua vigilância naquela noite. Não, enquanto eles estivessem seguramente em sua cama. Havia uma outra coisa que exigia seus cuidados: a remoção de todos os obstáculos no caminho de Pharaoh Carn.

xx

Harold Borden parou na esquina e desligou o motor. Por momentos ficou imóvel, saboreando o silêncio e revisando mentalmente o trabalho do dia.
Olhou para a sua casa e para as luzes de Natal que a enfeitavam. Demiziu a testa, anotando mentalmente que deveria trocar duas lâmpadas do canto direito, depois pegou um saco que estava no assento ao seu lado. O cheiro gostoso de enroladinhos de ovo o torturara o caminho todo para casa, e estava mais do que disposto ao lanchinho da meia-noite.
Quando cuidava de um caso, muitas vezes não passava as noites em casa. Mas o trabalho com os Jonas era diferente. Quando Joseph chegava em casa, Harold ia para a dele. Sorriu consigo mesmo, pensando que bem que poderia ter mais casos como esse, depois afastou o pensamento. O desaparecimento de Demetria Jonas quase o deixara maluco, e ser incapaz de ajudar Joseph tinha sido pior. Agora, estava com o problema nas mãos de novo e sentia que se achava perto da solução. As peças haviam começado a entrar em seus lugares.
Abriu a porta do carro e foi envolvido pelo frio que reinava lá fora. Abrigou o saco junto ao peito, saiu decidido, e o cheiro dos enroladinhos dissipou-se no ar gelado da noite enquanto se voltava para fechar o carro. O rumor metálico da fechadura acionada cortou o silencio.
Borden respirou profundamente. Com certeza Alice estava dormindo no sofá, pois sempre o esperava na sala. Sorriu. Ela era uma mulher admirável e uma esposa maravilhosa. Considerava-se um homem de sorte.
De súbito, um par de faróis acenderam-se à sua direita. Um carro acabava de virar a esquina. Ele fez um gesto para guardar as chaves no bolso, ao mesmo tempo que começava a andar, mas elas caíram no chão. Inclinou-se para pegá-las.
O impacto do metal contra a carne foi abafado, houve um baque surdo, acompanhado pelo cantar de pneus e, em seguida, pelo som de um motor do carro acelerado.
O barulho acordou Alice Borden, que cochilava no sofá. Foi olhar pela janela e viu o carro do marido estacionado diante da casa. Então, observou melhor e deparou com o corpo dele inerte no asfalto.
Emitiu um lamento agudo e começou a gritar.

xx

Simon Law subiu a escada para seu apartamento, com a caixa de pizza numa das mãos e as chaves na outra. Experimentou até que uma delas abriu a porta. No instante seguinte estava lá dentro. Tirou o capote e comeu o primeiro pedaço de pizza com três mordidas. Trabalhar a noite sempre o deixava faminto.
Pegou outro pedaço e foi para a janela, com o binóculo. A casa dos Jonas estava como a deixara. Enquanto mastigava seu olhar caiu sobre o circulo de pegadas que deixara ao redor da casa. Seu coração bateu mais forte enquanto percorria as marcas através do binóculo.
— Droga do inferno! — resmungou.
A maldita neve parara de cair antes de cobrir suas pegadas.
Seus pensamentos se desencadearam. Devia enfiar suas coisas nas malas e fugir ou agüentar firme? E se fugisse, iria longe o bastante para escapar da ira de Pharaoh Carn? Todo mundo na organização ficara sabendo de Stykowski. Não era saudável levar más noticias para Pharaoh.
Abaixou o binóculo e ficou olhando para a escuridão, em estado de choque. E enquanto olhava, um fato tornou-se evidente. As marcas de seus pés estavam lá, mas se restringiam ao redor da casa . A rua estava limpa e não havia jeito de saber para onde ele fora.
Respirando aliviado, terminou a pizza, acomodou-se na poltrona diante da janela e colocou o binóculo no colo. Precisava descansar, nem que fosse por um minuto.
Quando acordou já era dia claro.

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MAIS UM AQUI P VCS ♥ td bem, amores? eu to bem, obg'
Amanhã eh véspera de Natal.. O que acham de uma maratona?
Comentem, ta?
Respostas aqui'
Beijos, amo vcs ♥

2 comentários:

  1. Estou tão ansiosa para saber o decorrer da história que amaria uma maratona
    Sam, xx

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