17.12.14

Remember Me - Capítulo 11

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Quando chegaram a Kitteridge House, Demi recostou-se no assento, deixando-se levar pela onda de lembranças. A primeira vez que passara pelo aquele portão alto não era grande o bastante para enxergar pela janela do carro. Lembrava-se dos galhos nus das árvores, erguendo-se para o céu como braços de um esqueleto. Sentira medo. Tudo que confirmara sua identidade desaparecera: seus pais, sua casa, até mesmo seus brinquedos. As únicas coisas que tinham deixado levar eram suas roupas, um ursinho de pelúcia e seu cobertorzinho.
Suspirou. Pelo que lembrava, o cobertorzinho não durara muito tempo. Um dia ele fora para a lavanderia e nunca mais voltara. Quando crescera, muitas vezes se perguntara se não o tinham tirado dela para libertá-la do passado ou se ele havia mesmo sido perdido na lavanderia, como lhe tinham dito.
— Você está bem? — perguntou Joseph.
Demetria anuiu, mas a preocupação em seu rosto era tocante.
— Estou bem — disse baixinho -, só um pouco triste.
Ele assentiu, lembrando-se de si mesmo aos quatro anos de idade e tentando colocar-se no lugar dela. Era-lhe impossível imaginar a devastação que significava a perda da mãe e do pai; chorou intimamente pela pequena que ela havia sido.
A alameda iniciou um circulo e Joseph diminuiu a velocidade para percorrê-lo. Impressionou-o pensar que Demi estava voltando a Kitteridge House mais ou menos do mesmo modo como chegara ali da primeira vez. Naquele tempo ela perdera os pais, agora perdera os dois últimos anos de sua vida. Este trauma era quase tão forte quanto o outro.
— Como é grande! — admirou-se, vendo com olhos de construtor os edifícios que compunham o orfanato.
— E antigo — acrescentou Demi.
Os jardins cuidadosamente mantidos tinham mais ou menos o estilo do sudoeste do país, se bem que se espalhavam pelos gramados enormes árvores que davam sombra a bancos ornamentais de madeira. Nos canteiros de flores divisava-se um cacto de vez em quando. Joseph sabia que tudo se mantinha verde em Albuquerque era à custa de bons sistemas de irrigação.
Os edifícios, grandes, não tinham formas bonitas. Uma construção de dois pisos, sem o beneficio de marquises ou varandas, formava um cubo central com prolongamentos angulando para a entrada principal, como os raios de uma roda.
Kitteridge House havia sido fundada por Gladys Eugênia Kitteridge, em 1922, para abrigo e amparo de crianças órfãs. Com o passar dos anos, as regras haviam mudado um pouco, e passara a receber também crianças abandonadas. Embora estas não fossem órfãs, o que as impedia de ser adotadas, apresentavam uma coisa em comum com as demais: não tinham para onde ir.
Quando passaram pelo jardineiro, que cuidava de uma parte do jardim, Demetria voltou-se para continuar a olhá-lo. Não o reconheceu, mas provavelmente nem poderia. Fazia oito anos que saíra do orfanato e muita coisa devia ter mudado.
— Tudo parece menor do que me lembro — comentou.
Joseph sorriu.
— Não, meu anjo. É que seu mundo tornou-se mais amplo.
Ela colocou a mão na coxa do marido, procurando conforto em sua força.
— Você é o meu mundo.
O peito dele apertou-se. Por favor, meu Deus, permita-me conservá-la no meu mundo.
Parou o carro diante da entrada principal e desligou o motor. Demi ficou estática, esperando que ele fizesse o movimento seguinte.
Piscando para ela, Joseph falou com suavidade:
— Eu também a amo e quero deixar registrado que continuaremos esta conversa mais tarde… quando estivermos no hotel.
— Parece-me que vai ser bom! Agora, vamos acabar com isto.
— Ainda está com medo?
Ela imobilizou-se, olhando através do pára-brisa. Um pequeno grupo de crianças ia de um edifício para outro. Consultou o relógio e soube para onde elas iam. Como era sábado, havia uma boa chance de que estivessem indo para o salão de ginástica.
— Não. Não estou com medo… Pelo menos não deste lugar, desta gente. É o que não sei sobre mim mesma que está me deixando louca.
Joseph saiu do carro, foi abrir a porta dela e pegou-a pela mão.
-Venha, meu anjo. Enfrentaremos juntos o dragão.
Enquanto Demi saía do automóvel uma rajada de vento soprou e foi como se dedos gelados passassem por usa nuca, fazendo-a estremecer.
— Frio? — perguntou o marido.
— Um pouco.
— Então, vamos correr — convidou ele.
Riam quando chegaram à entrada, e o mal estar quase passara. Joseph abriu a porta, ainda sorrindo, e quase atropelou uma senhora alta, de cabelos grisalhos, que estava por abri-la.
— Oh, desculpe!
A senhora sorriu, bem educada, mas seu sorriso ampliou-se quando viu Demi.
— Demetria Lovato, eu sabia que era você!
— Srta. Bell! — exclamou Demi, abraçando-a num impulso.
Joseph começou a se descontrair. Se aquela era um indicação, a visita não ia ser traumática.
Addie Bell olhou-o por cima do ombro de Demi.
— Esse deve ser seu marido, suponho.
— Sim, senhora — sorriu Demi. — Joseph, a srta. Bell é administradora de Kitteridge House. Srta. Bell, este é meu marido, Joseph Jonas.
Addie estendeu a mão, notando o aperto forte e olhar direto de Joseph. Um bom homem, pensou.
— Meu nome é Adeline — informou -, mas pode chamar-me de Addie. — Voltou-se para Demi. — Quando minha secretária me disse que uma Demetria Jonas havia telefonado, avisando que viria, algo me garantiu que era você. Onde está morando?
— Em Denver.
Addie assentiu.
— Nunca estive lá, mas ouvi dizer que é uma linda cidade. O que a traz a Albuquerque, querida? Negócios ou passeio?
Como sabia que Addie Bell jamais a deixaria desamparada, Demi sentiu-se segura e o restante do mal-estar desapareceu completamente. Tudo que queria nesse momento era contar sua história, partilhar o peso com alguém. Mordeu os lábios, porém isso não bastou para impedir que um brilho de lágrimas se espelhasse em seus olhos.
— Eu não sei classificar o que me aconteceu, mas estamos numa encrenca, srta. Bell.
O sorriso de Addie apagou-se.
— Vamos para o meu escritório, onde ficaremos mais confortáveis. Creio que poderemos dar um jeito, seja lá o que está acontecendo. Mas primeiro quero que me conte tudo, desde o momento em que você saiu daqui até este instante. — Então, quase piscou um olho para Joseph. — Bem, não precisa contar tudo, creio que me entende.
Depois de um rápido olhar para o marido, Demi deixou que a srta. Bell a pegasse pela mão e a levasse pelo hall, como fizera tantas vezes em sua vida. Ele as seguia, observando o modo como ela, bem alta, inclinava-se para
sua mulher, ouvindo-a com atenção. Por um instante ele não soube definir o que sentia. Afinal conseguiu.
Confiança.
Demetria confiava naquela mulher de um modo que confiara em pouquíssimas pessoas. Nesse momento desapareceram as últimas reservas que sentira antes de levá-la ao orfanato.
Dizer que Addie Bell estava espantada com a historia deles seria pouco. No entanto, tratava-se de Demetria, e a administradora do orfanato era capaz de julgar com segurança o caráter de uma pessoa. Além de tudo, conhecia aquela moça desde pequenina.
— Santo Deus! Está falando sério, Demetria?
O alívio de ter contado tudo era tal que Demetria sentia-se fraca.
— Sim, senhora.
— Dois anos… e você não tem a menor idéia de onde esteve?
Os ombros de Demi descaíram e a essa altura Joseph achou que devia participar da conversa.
— Não, ela não tem. A única coisa que tem certeza é que estava havendo um terremoto quando saiu do lugar onde se encontrava.
— Houve um terremoto no sul da Califórnia, há pouco tempo — comentou a srta. Bell.
— Nós sabemos — assentiu Joseph.
Addie inclinou-se para a frente, observando o rosto de Demi.
— Demetria, você acredita, realmente, que foi levada contra a sua vontade?
Demi olhou para o marido, procurando conforto, pois seu coração sempre acalmava quando olhava para ele, depois voltou-se para Addie.
— Sim, senhora. Por nada deste mundo eu teria deixado Joseph voluntariamente. Ele é a minha vida. A senhora pode ver como estamos perdidos. Primeiro a policia, segundo eu soube, passou a maior parte desses dois anos tentando provar que Joseph me matara; depois, um investigador particular, contratado por Joseph para me procurar, pensou o mesmo. Contratado de novo, agora ele foi para a Califórnia, levado pelo pouco que me lembro.
— E descobriu alguma coisa?
Demi sacudiu a cabeça.
— Ainda não… Seja quem for que tenha me seqüestrado, não o fez por dinheiro. Não pediram resgate.
Ela hesitou, sabendo que o que ia dizer a seguir magoaria Joseph, mas tratava-se de algo que até agora ninguém, havia levado em consideração.
— Quando reapareci, todos pensaram que eu andara me drogando. Havia uma porção de marcas de agulhas nos meus braços, mas foi verificado que a única droga encontrada em meu sangue era sedativo.
Demetria respirou fundo, desejando ter um outro meio de dizer a feia verdade, mas não tinha.
— Não penso que eu tenha sido torturada de algum modo… Estava ilesa, a não ser pelos ferimentos causados no desastre com o ônibus, que causou a perda de memória. Mas não posso dizer o mesmo sobre abuso sexual porque, Deus me ajude… não me lembro.
Addie estava horrorizada.
— Então, você voltou para casa…
— Sim, mas acho que não me soltaram. Penso que fugi e por causa disso tenho quase certeza de que ainda estou em perigo.
A srta. Bell deu a volta em sua escrivaninha e abraçou Demi.
— Minha querida! Minha querida! Não sei o que dizer… — Olhou para Joseph. — Deve estar sendo muito difícil para o senhor, também.
Ele sacudiu os ombros.
— Tenho minha mulher de volta e nada mais me importa.
A administradora aprovou com a cabeça, afagou a mão de Demi e voltou para sua mesa.
— É evidente que vocês vieram aqui apenas para me contar isso… Como posso ajudá-los? O que querem saber?
Demi voltou-se para o marido, como se pedisse ajuda; ele se pôs de pé e começou a andar de um lado para o outro.
— Quando contratei o investigador particular pela primeira vez estávamos procurando fatos na vida de Demi que nos dessem algum indicio. A senhora sabe, tentamos nos lembrar de pessoas com as quais ela entrou em contato por trabalho, pensamos no fato de que alguém poderia ter raiva de mim. Levamos em consideração até mesmo gente que houvesse cruzado em seu caminho por puro acaso. Essas coisas. Mas o fato de ela ter sido levada de casa nos levou a crer que a casualidade estava fora de questão no seu desaparecimento. Tratava-se de alguém que conhecia nossos hábitos, para saber que eu saía cedo para o trabalho todos os dias e que só voltava à noite… alguém sabia que eu não ficaria assustado se ligasse para casa durante o dia e ninguém atendesse.
— E o investigador descobriu alguma coisa?
— Absolutamente nada.
Joseph passou um braço ao redor dos ombros de Demi, que se achegou a ele. Abraçou-a antes de continuar.
— Desta vez, quando contratei o investigador, ele sugeriu que começássemos do inicio, e o que significa verificar tudo que Demi possa
lembrar. É por isso que estamos aqui. Há alguma coisa, alguma circunstância, alguma pessoa, que a senhora possa imaginar que tenha a ver com o que aconteceu?
— Não… — murmurou Addie. — Nada que tenha acontecido em Kitteridge House me leva a pensar nessa possibilidade. Ao contrario de algumas das outras crianças, Demetria não tinha parentes. Era muito pequena quando chegou aqui e duvido que tenha alguma lembrança dos primeiros anos de vida.
— É verdade — concordou Demi, triste — Lembro-me vagamente de como meus pais eram, mas não sei sequer onde morávamos quando eles morreram.
— Por que Demi não foi adotada? — perguntou Joseph.
Addie sacudiu os ombros.
— Não sei… Muitas vezes pensamos que iam adotá-la, mas na última hora os casais se decidiam por outra criança.
— Lembro-me de ter ido para a casa de um casal que tinha uma filha — comentou Demetria. — A menininha não gostou de mim e eles me trouxeram de volta.
— E nós ficamos muito contentes por recuperá-la — garantiu a srta. Bell. — Demetria era uma criança muito meiga e todos gostavam dela.
Pensativa de repente, Addie calou-se. Em seguida continuou, com ar de reprovação.
— Até mesmo aquele menino esquisito. Hum… Esqueci o nome dele. De qualquer modo, até que Demi entrasse para o orfanato ele era insuportável. Que criança mais perturbada e amarga! Ele e Demi se tornaram muito unidos, e era de admirar, porque ela estava com quatro anos, e ele era quase adolescente. A afeição dela o transformou, se bem que nunca tenha se tornado o homem que desejávamos.
Algo agitou-se no fundo da mente de Demi. Quase uma lembrança. Ela teve a esperança de conseguir agarrar aquela sombra, porém não foi assim.
Joseph reparou que a esposa estava quieta demais e tocou-lhe o ombro.
— Você está bem, querida?
Ela quase saltou.
— Desculpe! O que você disse?
— A srta. Bell estava falando de um amigo seu. Lembra-se de alguma coisa?
— Não. É engraçado, mas não me lembro de nenhum menino.
Adeline Bell fitou Demetria, surpreendida.
— Verdade, mesmo?
Demi fez que sim.
— Não me lembro de ter tido uma amizade especial com nenhum menino.
A srta. Bell ficou preocupada.
— Isso não faz sentido. Aliás, quando você ficou maiorzinha, começamos a nos preocupar com essa amizade. Ele ia se tornando persistente demais, quase obsessivo. Eu tinha medo pela sua segurança.
Demetria ficou tensa.
— A senhora quer dizer que ele poderia me machucar?
— Não da maneira que você está pensando — respondeu Addie. De súbito empalideceu.
— Oh, meu Deus!
— O que foi? — preocupou-se Joseph.
— Acabo de lembrar-me de uma coisa.
— O quê?— afligiu-se Demi.
As mãos de Addie tremiam quando ela ajeitou a gola da blusa.
— Pode não ser nada, devo estar dando importância demais a uma coisa banal. Foi há muito tempo…
— Por favor, srta. Bell — pediu Joseph -, deixe que julgaremos se é importante ou não.
Os lábios de Addie apertaram-se numa linha fina e amarga, depois ela forçou-se a falar.
— Você era uma menina muito bonitinha, mas quando ficou mocinha sua beleza ficou tão notável quanto é agora.
Demetria corou.
— Aquele menino… — continuou Addie. — Por que não consigo lembrar-me do nome dele? Bem, aquele menino tornou-se um homem. — Olhou para Joseph. — Todas as nossas crianças vão embora quando completam dezoito anos e ele saiu quando seu dia chegou, porém vivia arranjando pretextos para voltar. Inclusive trabalhou aqui como jardineiro por um curto período. Levamos algum tempo para perceber, mas afinal compreendemos que ele voltara para continuar perto de Demetria.
A pele da nuca de Joseph arrepiou-se. Uma obsessão desse tipo não era natural, principalmente de um homem por uma criança.
— E como eu reagi?
— No começo não houve reação. Afinal ele fizera parte de toda a sua infância — explicou a srta.Bell. — Mas com o passar do tempo acho que você começou a sentir-se desconfortável. Na verdade, creio que tinha até um pouco de medo dele. E então, um dia ele não veio mais trabalhar. Algum tempo depois soubemos que havia sido detido e condenado a um período de prisão.
Inclinando-se para a frente, Demetria indagou, ansiosa:
— Quer dizer que eu nunca mais o vi?
Addie fez um gesto de incerteza.
— Eu não tenho como saber isso, meu bem, mas quando saiu da cadeia ele veio aqui procurar você.
A senhora calou-se, nervosa, e Joseph compreendeu que havia mais.
— O que aconteceu?— perguntou.
— Ele ficou louco de raiva quando soube que você tinha ido embora. Quebrou uma porção de coisas aqui no meu escritório, nos xingou de tudo quanto é nome. Gritava que Demetria pertencia a ele.
Mais uma vez algo flutuou na mente na mente de Demi. Algo sombrio, feio.
Joseph estava tomando notas. Queria lembrar-se de todos os detalhes a fim de passá-los para Harold Borden. Parou e fitou a senhora com intensidade.
— O nome dele, srta. Bell. Precisa lembrar-se do nome!
— Sei que preciso — concordou Addie. — Deixe-me ver na ficha dele… Só me lembro que era um nome muito esquisito. — Abriu uma gaveta de um arquivo atrás de sua mesa. — Vejamos… Creio que o ano em que ele fez dezoito anos foi o mesmo em que o salão de ginástica pegou fogo. Nós achamos que ele provocou o incêndio.
Os olhos de Demetria tornaram-se maiores.
— A senhora quer dizer, então, que ele era muito mau?
— Oh, sim… Temo que sim, querida.
— Então, por que eu gostava dele? — murmurou Demi.
Addie sacudiu a cabeça e continuou examinando as fichas.
— Ele não era mau com você. Na verdade, era até o oposto. Quem pode saber o que se passa pela cabeça de uma criança? Você acabava de perder seus pais e encontrava-se num lugar desconhecido, assustador. De algum modo ele preencheu o vazio em sua vida.
Demetria aproximou-se mais de Joseph.
Minutos se passaram, enquanto Addie continuava procurando. Afinal, voltou para a mesa com uma ficha na mão.
— Aqui está!
— O nome dele… Como é o nome dele?
A senhora abanou a cabeça.
— Que nome mais esquisito para uma criança! Há uma fotografia dele na ficha. Moreno, cabelos negros e encaracolados… Não temos certeza de sua procedência, mas desconfiamos que pelo menos um de seus pais tenha sido do Oriente Médio. O nome dele, Pharaoh, é egípcio, claro. Mas quem sabe?
Quando Demetria viu a foto um pânico tão violento tomou conta dela que perdeu a respiração. Tentou inutilmente inalar o ar. A sala passou a girar. Procurou segurar-se em Joseph, porém não encontrou nada diante das mãos.
Ouviu o marido gritando seu nome, mas de um modo abafado, como se estivesse muito distante. Não conseguiu responder. Deslizou da cadeira para o soalho sem um gemido sequer.

(...)

Demetria estava sentada na cama do quarto de hotel, vestida com seu robe, olhando para o quadro com uma paisagem marinha, na parede em frente. Vapor saía do banheiro e enchia o quarto com uma leve nuvem, obscurecendo a cortina de banho com gaivotas e a luz do abajur de cabeceira.
Joseph ainda estava tomando banho. Já conversara com Borden pelo telefone e agora esperava que o policial Dawson desse retorno ao seu telefonema.
O absurdo da aparência do quarto impressionava Demetria. Incomodava-a notar que aquele tipo de decoração ficaria melhor numa cidade à beira-mar do que num hotel construído no deserto. De vez em quando seu coração palpitava e falhava uma batida. Era claro que essa arritmia devia-se ao estresse em que se encontrava, porém não tinha como aliviar o nervosismo. Impossível consegui-lo quando cada novo dia trazia mais problemas.
Deitou-se de costas na cama e fechou os olhos voltando a ver a foto da ficha que Adeline Bell lhe mostrara. Ele devia ser bem mais velho, agora. Não conseguia visualizar ninguém com aquele tom de pele, aqueles bastos e negros cabelos crespos. E os olhos! Estremeceu. A falta de expressão que havia neles a assustava.
Rolou de lado e colocou as mãos sob a face, repassando os acontecimentos do dia. Desmaiara. Era aflitivo saber que uma parte de si lembrava-se do menino, porém não se lembrava absolutamente do homem. Mas o pior era compreender que devia ser muito assustador a simples visão de seu rosto lhe causara aquela violenta reação. De acordo com a srta.Bell, ela não havia retribuído o afeto de Pharaoh Carn.
Se aceitasse a teoria de que o seqüestrador havia sido essa pessoa do seu passado, como ele a encontrara depois de todos aqueles anos? Os dirigentes da Kitteridge House não sabiam seu endereço, portanto não fora lá que ele descobrira. Em geral, sua vida havia sido discreta, até o dia em que desaparecera. Não era o caso de ela e Joseph viverem aparecendo em colunas sociais. Além disso, Demi jamais infringira a lei, nem mesmo estacionando em lugar proibido, portanto jamais tivera que se apresentar num tribunal, o que poderia redundar em noticia.
De repente, lembrou-se.
— Joseph!
A água do chuveiro continuou correndo.
Ela rolou por cima da cama, ergueu-se e foi até o banheiro.
— Joseph!
Alarmado com o tom de voz dela, ele abriu a cortina da banheira. Abundante espuma de xampu escorria do seu cabelo, do pescoço, e a esponja caiu no chão.
— O que foi?
— Minha fotografia.
— Que fotografia, meu anjo?
— Você está molhando o chão — avisou ela, recolocando a cortina para dentro da banheira. — Vá se enxaguando, que eu falo alto.
— Que fotografia? — repetiu ele.
E foi para debaixo do chuveiro para enxaguar o cabelo.
— Aquela de mim na chuva, que saiu nos jornais. Lembra?
A espuma foi embora e a paciência de Joseph também. Fechou a torneira, saiu da banheira e enrolou uma toalha na cintura. O nervosismo dela era evidente, porém ele ainda não entendia por quê.
— Sim, lembro-me. Mas não sei o que você está querendo dizer.
— Suponha — começou ela, andando de um lado para o outro do quarto -, apenas suponha que esse Pharaoh ficou obcecado por mim desde criança e me seqüestrou.
Joseph encostou-se na cômoda.
— Estou ouvindo.
— Desde que saímos do orfanato estou tentando encontrar um sentido em tudo isso. Se ele se importava tanto comigo, não é de admirar que tenha esperado tanto para vir me buscar?
— Sim, talvez… — resmungou Joseph. — Mas a srta.Bell disse que ele voltou lá à sua procura, porém você já se formara e deixara Kitteridge House.
— Certo. E ela disse também que ele fez um verdadeiro escândalo por não me encontrar lá.
O marido assentiu e Demi continuou.
— Então, considere isso. Como ele agiria se um dia conseguisse encontrar-me?
— De que modo está sugerindo que ele a encontrou?
— Sei que é um tiro no escuro, mas até que faz bastante sentido. Lembra-se da foto de mim sob a chuva, publicada num jornal de Denver? Aquela que foi distribuída pela Associated Press?
— Lembro-me e daí?
— Ela foi publicada duas semanas antes de eu desaparecer.
A expressão de Joseph endureceu.
— Esse maldito!
— É apenas uma teoria, Joseph!
— Sim, mas uma teoria muito boa, Demetria.
Ela sorriu. Era bom fazer alguma coisa positiva para resolver o mistério que a envolvia.
— Então, o que acha?
— Acho que vou telefonar de novo para Borden e quando Dawson ligar vou acrescentar isso na lista de coisas que ele precisa saber. — Joseph fez uma pausa, depois acrescentou: -É preciso ter em mente que podemos estar completamente errados, que Pharaoh Carn esteja casado e levando uma vida feliz num subúrbio qualquer.
— Não, de acordo com a srta.Bell — contrapôs Demi. — Rapazinhos que provocam incêndios e andam com criminosos raramente levam uma vida pacata em subúrbios.

xx

— Tome cuidado, droga! — gemeu Pharaoh.
Fuzilou com o olhar o fisioterapeuta que cuidava de sua reabilitação.
— Desculpe, sr.Carn, mas o senhor não voltará ao normal se não usar estes músculos.
Pharaoh praguejou em voz baixa, o que não pareceu afetar o fisioterapeuta.
— Agora, sr.Carn, preciso que se deite de bruços.
Ele rolou o corpo e aceitou a massagem porque tinha que aceitar. Os dedos longos do homem enterravam-se nos músculos sem uso, fazendo-o gemer entre dentes cerrados. Ia virar-se para reclamar, mas antes que falasse Duke entrou na sala com o telefone sem fio na mão.
— É para o senhor, chefe.
— Estou ocupado — retrucou Pharaoh.
— Creio que vai querer atender. É um chamado interurbano, de Denver.
— Já era tempo! — Pharaoh pegou o telefone.— Alô?
— Chefe, sou eu.
A testa de Pharaoh franziu-se profundamente. Afinal Stykowskin entrava em contato.
— Onde você andou? — zangou-se. — E por que não telefonou antes?
— Ande logo, Stykowski — apressou o guarda. — Você não tem o dia inteiro.
Marvin olhou para o carcereiro por cima do ombro e anuiu.
— Quem foi que falou aí? — perguntou Pharaoh. — Quem está com você? Eu mandei que passasse despercebido.
— Hum… É que estou numa pequena encrenca, chefe.
Pharaoh retesou-se e deu um olhar a Duke que se apressou a fazer o fisioterapeuta sair da sala.
— Que tipo de encrenca?
— Fui apanhado, chefe. Estou na cadeia.
Ignorando a dor causada pelo movimento, Pharaoh girou o corpo até estar sentado na beira da mesa de massagem. Ninguém imaginaria a fúria dele pelo tom de voz e as palavras escolhidas, porém Duke, que acabava de voltar para a sala, percebeu e ficou tenso, imaginando o que Stykowski teria feito de errado.
— Por que o prenderam? — perguntou Pharaoh. — E onde você está?
A primeira pergunta do chefe era a que Marvin mais temia.
— Por posse de cocaína, chefe. Passei um sinal vermelho eles a encontraram no meu carro. Estou na detenção da Quarta Delegacia de Denver, tentando conseguir fiança.
O sangue rugiu nos ouvidos de Pharaoh.
— Quando vai ser a acusação?
— Daqui a algumas horas.
— Um advogado estará presente à acusação. A fiança será paga e assim que estiver livre venha para Las Vegas. Entendeu?
— Sim, chefe — respondeu Marvin.
— Não repita a façanha — avisou Pharaoh -, não gosto de erros.
Marvin empalideceu. Só nesse momento percebera a intensa raiva na voz de Carn.
— Irei imediatamente, chefe. Pode contar comigo.
-Vamos ver.
— Chefe, quanto à ¨outra coisa¨…
— Cale a boca — interferiu Pharaoh.— Você não está sozinho!
Stykowski olhou de relance para o guarda.
— Sim, senhor. Explico quando chegar aí.
Assim que o sinal de linha soou em seu ouvido, Pharaoh atirou o telefone contra a parede.
— Quer que o fisioterapeuta volte? — perguntou Duke.
— Claro que quero! Vamos acabar logo com isto, já que depende de mim e de mais ninguém. Quero ficar bom!

(...)

Pharaoh achava-se a uma das janelas da biblioteca fazia horas, às vezes sentado, outras em pé, contemplando a cidade, as luzes e, agora, observava os faróis de um carro que se aproximava pela estradinha que levava à sua propriedade. A fúria agitou-se dentro dele, investindo de um lado para outro, sem ter por onde sair.
Por fim, o automóvel parou diante do enorme portão principal. Sob a luz intensa dos fortes holofotes de segurança, foi possível perceber o
cavanhaque e os cabelos ruivos do motorista, que revelaram sua identidade. Stykowski.
Pharaoh acionou o intercomunicador.
— Faça-o entrar — trovejou.
O portão abriu-se para dentro, dando passagem ao automóvel. Pharaoh ficou olhando Marvin Stykowski estacionar, percebeu a fanfarronice no seu modo de andar e só saiu da janela quando ele entrou na casa.
Rolou várias vezes a patinha de coelho entre os dedos ao dirigir-se para sua escrivaninha. Eles logo estariam ali. Duke já recebera suas ordens. No minuto que Stykowski entrara deveria levá-lo para o escritório. Jogou a patinha de coelho sobre a mesa e abriu uma gaveta no instante em que soou uma batida à porta.
— Entre.
Marvin Stykowski entrou.
Pharaoh continuou em pé atrás da escrivaninha e atirou sem mirar. Felizmente para Duke, que estava atrás e meio ao lado de Marvin, o chefe tinha uma ótima pontaria. A bala penetrou no cérebro de Stykowski antes mesmo que ele sentisse medo. O sangue bateu no rosto de Duke, como chuva na vidraça de uma janela.
Duke soltou uma exclamação de pasmo, depois ficou petrificado, com medo de se mexer e até mesmo de respirar. A expressão de Pharaoh era terrificante. Jamais, durante todos os anos que vinha trabalhando para aquele homem, vira nele tanto ódio. Por fim, pegou um lenço e limpou o sangue do rosto.
— Mande limpar esse lixo — resmungou Pharaoh.
Jogou o revólver na gaveta e fechou-a.
Depois de recolocar o lenço no bolso, Duke falou ao telefone.
Em minutos o cadáver havia desaparecido.
Pharaoh estava junto da janela, com as mãos unidas atrás das costas, contemplando o horizonte de Las Vegas como se nunca o houvesse visto.
— Esta é uma cidade poderosa — declarou.
— É, sim, senhor — concordou Duke.
— Eu devia ter esperado que ele me dissesse o que descobriu em Denver.
— Se o senhor assim o diz, chefe…
Voltando-se, Pharaoh franziu a testa, como se só então tomasse conhecimento da presença do assecla.
— Seu terno está estragado. Amanhã vá ao meu alfaiate e mande fazer outro. Gosto de meus homens bem vestidos.
Quanto a si, Duke já se sentia bastante feliz por estar respirando, mas faria o que o chefe mandara.
— Está bem. Quer mais alguma coisa esta noite?
Após pensar um instante, Pharaoh respondeu:
— No momento, não, porém preciso de alguém que vá a Denver. Quem você sugere?
— Não sei, sr.Carn. Tudo ficou tão confuso desde o terremoto que não sei onde o pessoal está, se estão vivos.
— E isso é um problema, não, Duke? — suspirou Pharaoh. — Por culpa do maldito terremoto. Verifique se Simon Law está disponível. Ele fez um trabalho para mim, uma vez.
— Sim, senhor. Vou ver agora mesmo.
Com um gesto displicente e um sorriso, Pharaoh deteve Duke.
— Posso esperar até amanhã. Tenha uma boa noite de sono. Deus sabe o quanto estamos precisando de repouso.
— Sim, senhor.
Duke voltou-se para sair e, mesmo sabendo que o revólver estava guardado na gaveta, teve uma sensação horrível nas costas. Mais tarde, quando tirou as roupas ensangüentadas e entrou debaixo do chuveiro, perguntou-se o que seria pior, a pessoa saber que ia morrer ou ser atingido nas costas, sem esperar.

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Especialmente p Gi ♥ Comentem! Beijos, amo vcs <3


3 comentários:

  1. AHHHH ELA ESTA DESCOBRINDO SEM LEMBRAR... Esse cara tem que ser preso quem ele pensa que é?... Demi vai ficar furiosa com ele. Ela tinha sido a única pessoa que se arriscou uma amizade com ele e ele faz isso com ela? Pq ele não faz como todo mundo e não foi tomar um cafezinho da tarde e conversa quando a encontrou? Precisava mesmo do sequestro?? Aff

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  2. Não acredito que depois de ela ter sido a única a dar-lhe sua amizade, a única que realmente gostava dele, ele foi lá e a sequestrou. Esse cara é doente, merece ser preso ou morrer.. Qualquer coisa ruim! Finalmente a Demi está tendo mais flashes de memória e conseguindo supor coisas.. Precisam achar ele logo! Eu não to me aguentando aqui acaxzs posta logo..
    E OBRIGAAAADA POR DEDICAR O CAPÍTULO, AWWWWN <3

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  3. que vontade de matar esse cara!
    espero que o joe faça isso, ou slá kkkk
    quero a continuação da conversa no carro, o.k?
    só eu que torci por um hot ali? " le pervertida "
    essas suposições da demi estão foda, hein...
    estou feliz pq ela esta se lembrando! :)
    ESTOU AQUI MORRENDO DE CURIOSIDADE, VIU?
    posta logo, bru' TE AMO.

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