30.11.14

Apenas Amigos? - Capítulo 11 (Último) - MARATONA 4/4

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Joe sentou-se à mesa de sempre no Birelli’s, lendo o relatório de produção do mês anterior. Fazia dois dias que se encontrara com Demi no estacionamento. Não tornou a ligar. Ela também não.
Naomi parou a seu lado e verificou as horas no relógio de pulso.

— Ela nunca se atrasou. O que será que está havendo?

— Não sei se virá — Joe disse as palavras que estava evitando verbalizar.

Naomi levantou o copo de Demi e limpou a poça de água sob ele. O gelo havia derretido quase todo. Tornou a pousar o copo.

— Lá está! Não deixaria de vir — afirmou Naomi.

Através da vidraça do restaurante, Joe a localizou na calçada do lado de fora.
Respirou aliviado. Agora podia admitir o medo terrível que sentira de Demi não aparecer.
Ela o fitou com expressão indecifrável. Hesitou um pouco, em seguida virou-se e seguiu seu caminho.

— Mas... aquela não era Demi? Aonde vai? — Naomi ficou perplexa.

Joe deu de ombros. A vontade que tinha era de sair correndo atrás dela, insistir até a exaustão, para que Demi concordasse em se casar com ele. No entanto, já tentara isso, e não dera certo.

— Cancele a salada e me traga o stromboli. — Sua calma era espantosa, mesmo sentindo que morria por dentro.

Naomi afastou as lágrimas dos olhos.

— Essas são as palavras mais tristes que já ouvi.

Joe concordou.

No escritório, Demi girou na cadeira e olhou para o glorioso céu de Nashville através  da  janela. Aquele  panorama sempre a emocionava durante o crepúsculo, quando, no escuro, as luzes da cidade piscavam feito vaga-lumes.
Porém, naquele momento nada a emocionaria. Girou para a frente sentindo-se vazia por dentro. Fechou os olhos. O resto de sua via seria assim? Esse vazio? Talvez.
Sentiu-se  do  mesmo  modo  em  outras  ocasiões,  cada  vez  que  seus  pais prometiam vir apanhá-la e não vinham. Não era uma sensação nova. Só que antes havia Joe para lhe dar consolo. Agora, não.
Vestiu o casaco, pegou a bolsa e fechou a porta atrás de si. Movendo-se como uma sonâmbula, desceu de elevador até a garagem do edifício. Entrou no carro e juntou-se à loucura da hora do rush.
Cinco semanas sem Joe. Cinco semanas sentindo como se uma importante parte dela lhe tivesse sido arrancada.
Ele teria razão? Será que ela mantinha as pessoas a distância de propósito?
Achava que a reserva fazia parte de sua personalidade, mas não existia um pingo de reserva na paixão que descobriu em si mesma, na Jamaica.
Perdida em devaneios, fez uma curva e se deu conta de que se encontrava a caminho da casa de tia Caroline. Em meio à enorme confusão do tráfego, achou o caminho para o lugar que sempre lhe ofereceu refúgio, desde a infância.
Ultimamente, vivia encontrando desculpas para recusar os repetidos convites da tia para jantar. Não queria falar com ninguém sobre sua viagem à Jamaica, não queria que ninguém que lhe fosse próximo soubesse sobre ela e Joe. Talvez apenas uma parte disso fosse verdade, não queria ninguém perto dela.
Estacionou e aproximou-se da residência com uma sensação de retorno ao lar.
Passou direto pela entrada e encaminhou-se à porta dos fundos.
Que som familiar do choque de metal contra pedra, ecoando através da porta aberta da garagem para dois carros que servia de estúdio para tio Frank!
Abriu a  porta  e  dirigiu-se  à  cozinha.  Avistou  Caroline  em  um  canto  do aposento, ao computador, navegando na internet, uma taça de vinho ao lado.
Dois pratos de salada encontravam-se sobre a mesa.

— Olá...

Caroline virou-se, e seu rosto de imediato se alegrou. Afastou a cadeira para trás e ficou de pé.

— Demi! Que saudade! Começávamos a achar que você não nos amava mais. — De repente, ela franziu as sobrancelhas. — O que houve, meu bem?

Demi não planejara vir. Tampouco cair no choro e atirar-se nos braços abertos da tia. No entanto, foi isso mesmo o que fez.
Caroline a abraçou e consolou, mas não fez nenhuma tentativa de deter o fluxo de emoções incontidas.
Por fim, Demi se acalmou. Embaraçada, desesperada por uma caixa de lenços de papel, deixou os braços da tia e sorriu, tímida.

— Sinto muito, titia...

Caroline acariciou seus cabelos e a fez sentar-se.

— Não tem de se desculpar, querida. Sente-se aqui e me conte o que tanto a aflige.

Demi suspirou.

— Eu não queria ser como sou.

Caroline a interrompeu:

— Não gosto de vê-la assim tão deprimida, mas estou grata por ter vindo. Sabe desde quando espero que venha a mim? A vida toda.

— Por que está me dizendo isso, tia Caroline? — Demi perguntou, surpresa com a mágoa no rosto sempre tão alegre da tia.

— Sabe, meu bem... Pouco depois que nos casamos, eu e seu tio Frank descobrimos que não podíamos ter filhos.

Demi ficou ainda mais espantada. Sempre presumiu que eles não desejassem tê-los.

— Isso hoje não seria um grande problema, mas há trinta anos, os médicos não sabiam quase nada sobre infertilidade, e tampouco tínhamos dinheiro para fazer um tratamento adequado.

Caroline parou de falar por um instante, como se procurasse pelas palavras certas para se expressar.

— Foi quando Lynette engravidou. — O amor e suavizou sua expressão. — Você era tudo o que nós teríamos querido numa filha se tivéssemos uma. Linda e inteligente. Tentei com todo o empenho ficar feliz por Lynette e Vance, mas a situação me preocupava. Eram dois irresponsáveis vivendo feito ciganos, um dia aqui, outro acolá.... Eu costumava me preocupar, pensando se você tinha o que comer e um lugar para ficar. Fiquei exultante quando a deixaram comigo. E muito grata. Foi uma dádiva para nós, querida, uma bênção que não esperávamos obter. — Caroline falava com uma determinação que Demi poucas vezes ouvira nela. — Na época, eu me envergonhava, como me envergonho agora, por ter ficado tão feliz com algo que tanto sofrimento lhe causou.

— Oh, titia...

— Bem pequena você já era arredia. Eu achava que, se nós demonstrássemos o quanto a amávamos, acabaria nos aceitando e nos amaria também. Perdoe-me, Demi, mas eu tinha certeza de que ficaria muito melhor conosco. Jamais fiz nada para manter seus pais afastados, mas também não fiz muita questão de que eles se aproximassem, porque a queria para mim. Essa é a verdade.

As lágrimas inundavam seus olhos. Demi se levantou e a apertou contra si.
Eles a amavam. O tempo todo s tios a amavam e a queriam como filha. Não se tratava de uma obrigação.

— Eu achava que vocês só me aceitavam porque eram bondosos demais para me rejeitar.

— Meu bem, temos adoração por você. Lembra-se de Bóris, aquele gato enorme e sem dono que perambulava por essas redondezas?

— Sim, lembro.

Bóris aparecia em casa para comer, mas não confiava em ninguém e era bem pouco tolerante.

— Você colocava comida lá fora e ficava observando-o se alimentar. Ia aos poucos tentando se aproximar dele, mas jamais conseguiu tocá-lo. Foi então que ele e Duquesa ficaram amigos, e você desistiu de tentar domesticá-lo. Bóris não estava mais sozinho.

Demi assentiu. Na época, ela desejara muito aproximar-se de Bóris.

— Você era como aquele gato, esquiva e nada comunicativa. Mas por fim conheceu Joe. Eu e Frank achamos que você, enfim, estava feliz, embora não tenhamos nunca desistido de querer que se aproximasse de nós.

Demi não imaginava que os fazia sofrer com seu distanciamento.

— Lamento muito, tia Caroline.

— Não lamente. Eu entendia muito bem sua atitude. É muito difícil aprender a confiar.  Você  não  conseguia  acreditar  que  não  tornaria  a  ser  abandonada.  Nós devíamos tê-la levado a um terapeuta, para ajudá-la a lidar com mais facilidade com a rejeição. Mas o dinheiro era curto, e nós acreditávamos que nosso amor bastaria.

Demi se sentia como um dique com um pequeno buraco. Não conseguiria suportar por muito mais tempo a pressão da água do outro lado. As palavras de Caroline  derrubaram  a  parede  que  circundava  seu  coração  por  mais  tempo  que conseguia lembrar.

— Por quê? Por que eles não me queriam, titia?

— Imaturidade. Deve ter sido isso. Por ser a caçula, Lynette foi mimada demais por nossos pais. Mas talvez fosse sua natureza, mesmo. — Caroline deu de ombros. — Ao longo da vida, você descobrirá que muitas vezes nós ficamos sem determinadas respostas. As coisas são como são, e temos de aprender a conviver com elas.

— Para mim isso ainda não é suficiente.

— Esqueça o que passou, meu bem, e prossiga adiante. Olhe para mim, Demi. — Segurou o rosto da sobrinha. — Seus pais erraram, mas o que deve manter em mente é que os errados foram eles, não você. Cheguei a pensar que tivesse se decidido a não se importar mais, não permitindo que eles a magoassem.

— Eles já não me magoam mais.

— Não. Continuarão magoando enquanto não deixar o passado para trás e assumir o controle de seu destino, querida.

— Meus pais não têm poder sobre mim.

— Têm, sim, porque você continua deixando que eles a controlem. Continua lhes conferindo essa capacidade, porque ainda tem medo de abandono e de deixar que alguém se aproxime. A vida poderá ser muito boa para você, meu bem. Não permita que eles, ou quem quer que seja, arruíne isso. — Caroline fez uma pausa, como se considerasse com cuidados o que diria a seguir: — E não admita que destruam tudo o que você poderá viver ao lado de Joe.

Demi deixou-se cair na cadeira.

— O que sabe a respeito de Joe?

— Ele telefonou, faz alguns dias. Joe a ama, Demi, de todo o coração, assim como você também. Para mim e para Frank, não foi nenhuma novidade. Há anos sabemos desse amor.

— Mas com todas aquelas namoradas... Todos aqueles relacionamentos...

— Nenhuma delas importava. Aquele era o modo de Joe correr assustado. Se olhar com atenção, querida, sob todo aquele charme, descobrirá que Joe também é como Bóris. Sua mãe escolheu beber até se matar, e o pai nunca lhe deu importância, só querendo saber de suas amantes. Joe foi rejeitado também. Mas quando vocês se conheceram, você se tornou a Duquesa do Bóris que ele era. Nunca vi duas pessoas que foram destinadas uma à outra custarem tanto a reconhecer isso!

Demi permaneceu alguns minutos sentada, absorvendo o que ouvia.

— Por que não disse tudo isso antes, titia?

— Porque seu coração ainda não estava pronto.

— Mas e se...

Caroline pousou a mão em seu ombro.

— A vida não vem acompanhada de nenhuma garantia, meu bem, e você precisa viver e amar como se o amanhã não existisse. E rezar pelo melhor.

Demi abraçou Caroline e, nesse gesto, encontrou a coragem para dar voz às palavras que nunca fora capaz de pronunciar:

— Eu te amo muito, titia...

(...)

Joe não conseguia ficar sem ir ao Birelli’s nas quinta feiras, embora por cinco semanas Demi não aparecesse por lá. Cinco longas semanas...
Em vez de aguardar que ela aparecesse, ele agora aproveitava o horário do almoço para ler os relatórios da empresa.
Naomi surgiu do nada e depositou um copo de chá no lugar oposto ao dele.

— Volte à terra, Naomi. Você já trouxe meu chá.

— Mas ainda não para ela.

Quando Joe ergueu a cabeça, seu coração quase parou. Demi encontrava-se à soleira, desta vez do lado de dentro, parecendo forte, e ao mesmo tempo, vulnerável.

Ela parou junto dele, segurando a alça da bolsa a tiracolo.

— Posso me sentar?

— Claro. Esse é seu lugar.

Demi se acomodou, e Naomi sorriu para ela.

— Voltarei em um instante com a salada.

— Espere. Vou querer stromboli de franco com espinafre.

— Nada de salada?

— Desta vez, só o stromboli, se não se importa.

— Não, de modo algum. — E Naomi se foi com um sorriso largo.

Um silêncio tenso se instalou. Afinal, o que eles eram? Dois amigos? Amantes? Joe não sabia. Tinha certeza tão-só de que amava aquela mulher e sentira uma tremenda falta dela.

— Então? Veio até aqui para dizer que se casará comigo?

— Bem, para ser franca, sim. Foi para isso que vim.

Mas Joe precisava saber o motivo de ela ter mudado de idéia.

— Por quê?

— Porque quero me casar com você, ora! — Jogou os cabelos para trás, e sua mão não tremeu.

— Por que agora?

— Porque esse é o único modo de eu convencê-lo a fazer amor comigo. — Ofereceu-lhe um sorriso terno.

— Então é isso?

Ela havia recuperado o bom humor. Era um bom começo.

— Eu te amo, Joe — Demi apenas sussurrou a confissão.

— Você me amava antes, e parece que isso não foi o bastante.

Demi tomou a mão dele e a levou aos lábios, e foi como se ela o trouxesse de volta à vida após semanas apenas existindo.

— Perdi o temor, Joe. Não tenho mais medo de amar você, nem de permitir que me ame.

— Como vou saber que não tornará a temer? Estar afastado de você nessas últimas semanas foi intolerável... Não suportarei passar por tudo isso de novo.

— Precisa confiar em mim, assim como eu precisei confiar em você. Quero ser sua mulher e envelhecer a seu lado. Preciso disso. Você proporcionou a minha vida as mudanças de que eu necessitava. E o fluxo e o refluxo de meu oceano, Joe.

— E você é a areia em minha praia, meu porto seguro.

Joe procurou algo no bolso, e dele tirou a caixinha de veludo preto que trouxera da Jamaica e que conservava consigo. Sentia-se com os nervos à flor da pele ao entregar o presente a ela.
Demi a abriu e, encontrou o anel.

— Oh, Joe... É muito lindo!

Ele levou a mão à nuca de Demi, sob a cascata sedosa de sua cabeleira, e puxou-a para mais perto, seu corpo se acendendo em resposta à proximidade, a seu calor.

— Podemos comprar uma aliança de brilhantes ou um solitário, se preferir
.
— Não. Eu quero esse. Quando o comprou?

— Na Jamaica. Uma tarde antes de eu lhe propor casamento.

— Também tenho algo para você... — Ela pegou seu queixo, e sua boca encontrou a dele, num beijo apaixonado.

Então, retirou um envelope da bolsa e colocou-o diante dele. Joe o abriu e encontrou duas passagens de avião da Air Jamaica, junto com uma confirmação de reserva de uma suíte no Hot Sands.

— Estava assim tão segura de mim, é?

— Não, querido. Estava segura de nós dois.

Naomi chegou com os pedidos.

— Será que nós podemos levar para casa? — Demi lhe perguntou.

Naomi apanhou as travessas de volta com ar travesso.

— Sem dúvida! Vão querer sobremesa?

— Não, pode deixar. Compraremos algo no caminho. Bombas. Com muito recheio de chocolate.

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Último capítulo da fic e da maratona! Espero que tenham gostado... Comentem para o epílogo! Beijos, amo vcs ♥

Capítulo programado.

6 comentários:

  1. Ufa!!! Até que enfim ela acordou pra vida.... continuaaaa....

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  2. NÃO CREIO, MY GOD!
    ME CUSTO A ACREDITAR QUE ACABOU...
    SEM PALAVRAS PARA DESCREVER O QUANTO FOI LINDO! ❤
    CARA, EU ME EMOCIONEI AQUI... SCRR'
    FOI PERFEITA, ESPERO QUE POSTE MAIS FICS...
    BJOS, TE AMO ❤

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    Respostas
    1. POIS AINDA TEM O EPÍLOGO
      AWN
      VOU POSTAR
      BJS, TB TE AMO

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